fonte: http://www.ecodesenvolvimento.org.br/posts/2011/marco/qual-a-sua-pegada-...
Faça uma conta rápida e diga quantos litros de água você utiliza por dia? Não vale contar apenas os litros usados durante o banho, para lavar a louça ou regar o jardim. A água embutida na carne do almoço, no chocolate da sobremesa e no algodão da camisa, além da gasolina, o papel da impressora e o cafezinho no final da tarde também devem ser contabilizados. E agora, já sabe a quantidade de água que usa diariamente?
Para responder a essa pergunta foi criada a Pegada Hídrica, ou Water Footprint, como é chamada em inglês. Trata-se de um cálculo feito para levantar todo o consumo de água ao longo do ciclo de vida dos produtos e serviços de uma empresa, comunidade ou pessoa comum. A pegada contabiliza os usos diretos e indiretos e indica o real volume do recurso natural que foi gasto em cada etapa de sua cadeia produtiva.
Para chegar a um número exato, o uso de água é medido em termos de volume consumido (evaporado) e/ou poluído por unidade de tempo. O cálculo pode ser feito para um único produto em particular ou para um grupo bem definido de consumidores (como uma família, uma empresa, uma comunidade, ou uma nação) ou de produtores (como uma entidade pública, empresa privada ou setor econômico).
A Pegada Hídrica pode ser:
Verde: quando a água da chuva evapora ou é incorporada em um produto durante a sua produção;
Azul: que calcula as águas superficiais ou subterrâneas que evaporam ou são incorporadas em produtos, ou então devolvidas ao mar ou lançadas em outra bacia:
Cinza: que mede o volume de água necessário para diluir a poluição gerada durante o processo produtivo.
Após contabilizar esses números é possível saber, por exemplo, que são necessários 120 litros de água para produzir uma taça de vinho, 1.500 litros para fazer 1 kg de açúcar refinado, 2.400 litros para cada 100 gramas de chocolate, 2.700 litros para uma simples camisa de algodão e 15.500 litros para que apenas 1 kg de carne bovina chegue à sua mesa.
A conta também permite chegar a médias de consumo de diversas nações. Enquanto moradores de países como o Iêmen tem uma Pegada Hídrica média de 619 m3 de água per capita por ano, os norte-americanos consomem 2.482 m3 no mesmo período. Os brasileiros consomem, em média, 1.381 m3 per capita por ano. A média global é de 1.243 m3.
Importância da informação
Para o professor Arjen Hoekstra, criador do conceito de Pegada Hídrica, disponibilizar essas informações é fundamental para a conservação dos recursos hídricos. Segundo o pesquisador, mesmo sendo obrigação dos governos gerir a água de forma eficiente, a população e as empresas também devem se envolver completamente.
Hoekstra defende que companhias precisam entender como utilizar os recursos hídricos da melhor forma e devolvê-los limpos para a natureza, e os consumidores devem se preocupar com a origem dos produtos que consomem e com os procedimentos adotados na produção.
“Precisamos desconstruir a percepção de que a água vem apenas da torneira e que simplesmente consertar um pequeno vazamento é o bastante para assumir uma atitude sustentável”, ressaltou à WWF-Brasil Albano Araujo, coordenador da Estratégia de Água Doce do Programa de Conservação da Mata Atlântica e das Savanas Centrais da The Nature Conservancy.
As organizações são algumas das 139 que já apoiaram oficialmente a pegada criada pela ONG Water Footprint (WFN) como norma mundial. Outras instituições internacionais, como Unilever, Unesco, WWF, Coca-Cola, PepsiCo, Nature, USP, Unep e Conservação Internacional também declararam apoio ao cálculo.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
O ano passado foi humilhante para os profetas. Quem esperava tudo aquilo? Em 2012 o estômago vem antes dos sonhos. Uma nova alta de alimentos ameaça a estabilidade de muitos pontos do globo. Os economistas afirmam que haverá uma transferência de renda para os que produzem alimentos. O Brasil está bem na foto. Mas o quadro geral não é nada animador.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o mundo entrou numa fase perigosa. O preço dos alimentos atingiu o nível mais alto desde a crise de 2008: nesse ano era de 213 a média ponderada do preço de alguns produtos (carne, cereais, lácteos, azeites e óleos), no fim de 2011 subiu para 215. Isso no ano em que passamos a ser 7 bilhões no planeta. Cerca de 70 milhões de novas bocas surgem a cada ano. Sem nenhum alarme, é preciso encarar o problema
Em Moçambique o preço do pão provocou uma revolta em setembro. Em todo mundo o aumento de quase 80% no trigo ao longo dos dois últimos anos foi um elemento, às vezes subavaliado, de instabilidade política.
Se olharmos a produção mundial com a perspectiva dos últimos 50 anos, custa-nos a entender como a crise chegou a esse patamar. Os alimentos foram tratados como qualquer mercadoria. O avanço tecnológico e a competição aumentaram a produtividade num ritmo animador. Os custos de alimentação caíram dramaticamente, a ponto de a produção mundial sobrepassar as necessidades calóricas per capita em 20%.
Paul Roberts, no seu livro O Fim da Comida, insinua que não foi casual o aumento da obesidade na década de 1980, quando o modelo de grandes volumes e baixo preço dos alimentos atingiu sua maturidade. Apesar do progresso, porém, ainda se atribuem à fome cerca de 36 milhões de mortes, sem contar a fadiga permanente, a atrofia física e intelectual causadas pela subnutrição.
Nesta conjuntura de alta de preços e consumo crescente na China e na Índia, é razoável duvidar do crescimento sustentável do modelo de produção de alimentos, que depende basicamente de três fatores: energia barata, estabilidade climática e água abundante. A China volta-se para o mercado de alimentos não apenas porque tem muita gente, mas também pela redução de recursos hídricos em algumas províncias, onde houve superbombeamento para garantir a safra de cereais.
Tais fatores estratégicos ainda passam ao largo porque a conjuntura configurou o que os especialistas chamam “perfeita tormenta”: vários fatores combinados puxaram as expectativas para baixo. Na Rússia houve a maior seca dos últimos 50 anos. Nos EUA, Austrália e Canadá registram-se grandes inundações. Alguns alimentos, como o milho, estão sendo usados na produção do etanol. E por último, mas com grande peso, houve o aumento do petróleo, embora menor que em 2008.
Cientistas e técnicos de grandes empresas, como Monsanto e Dow, acreditam poder resolver os grandes problemas da comida via conhecimento e inovação. Ainda que isso ocorra, a ausência de água abundante, energia barata e estabilidade climática transforma o quadro em que se movem. A elevação da temperatura e as mudanças no regime de chuvas tendem, mesmo em estimativas conservadoras, a frear o crescimento da produção mundial de alimentos. Como atenuante, áreas liberadas do gelo perene passam a ser mais produtivas em regiões frias. O aumento do petróleo revela a cada instante como é um dos insumos mais importantes na produção de alimentos, hoje – tratores, transporte da mercadoria, insumos para fertilizantes e pesticidas, o óleo é usado em todas as frentes.
Analistas como Paul Roberts reconhecem que novos eixos de poder alimentar se estruturam no mundo, principalmente o que associa um grande comprador como a China a um grande produtor que é o Brasil. Mas ele questiona a sustentabilidade a longo prazo: os produtores podem, ao longo do processo, esgotar também parte dos seus recursos hídricos.
No momento, o Brasil vive uma importante experiência externa no campo alimentar: depois de mandar seus soldados ao Haiti e contribuir para a pacificação do país, está sendo chamado a ajudá-lo a produzir sua própria comida. Atendendo a apelo da FAO, que pretende deslocar, pós-terremoto, 600 mil haitianos para o interior, o País enviou US$ 2 milhões, alguma toneladas de sementes e técnicos da Embrapa, além de ministrar cursos para os haitianos plantarem com êxito. Desse êxito, o próprio The New York Times reconheceu, depende o futuro próximo do Haiti: na capacidade de produzir parte de seu alimento reside uma das saídas para seu problema econômico e social.
Dia 1.º um brasileiro, José Graziano, assumiu a direção da FAO, prometendo, como não podia deixar de ser, buscar soluções para as dificuldades alimentares globais. Mas a FAO precisa de financiamento e os grandes doadores, como os EUA, estão se retraindo, em parte porque houve muitos casos de mau uso do dinheiro.
O Itamaraty, na preparação da Rio+20, formulou a seguinte pergunta: que novos instrumentos podem ser propostos para que o planeta avance no desenvolvimento sustentável? A renovação de um instrumento já existente, como a FAO, pode ser uma resposta. O Brasil ocupa a direção, é um dos maiores produtores do mundo, sediará uma conferência internacional e tem como objetivo n.º 1 de governo reduzir a miséria. Equacionar a produção de alimentos com a preservação ambiental e erradicação da miséria poderia ser um dos pratos de resistência no debate planetário de 2012.
Inegavelmente, o mercado propiciou um grande salto na produção, mas sozinho não resolve o problema. Quanto mais valor se agrega à comida, mais distante ela fica de mercados como Bangladesh ou Etiópia. Se os ganhos com a alta de alimentos transferem renda para os grandes produtores, eles podem ricochetear nos consumidores internos ou mesmo derrubar governos que não podem mais pagar os subsídios.
Sem arriscar profecias: a alta dos alimentos, tão presente em 2011, é do tipo que não festeja o réveillon, pois se move num tempo mais elástico do que a simples virada do ano.
Fernando Gabeira – O Estado de São Paulo
O mundo pode ter de ampliar em 175 milhões a 220 milhões de hectares a área disponível para a agricultura a fim de atender à demanda mundial por alimentos em 2030, uma expansão de 10% a 15% em relação às necessidades atuais.
A projeção faz parte do estudo “Resource Revolution: Meeting the worlds energy, materials, food and water needs” (Revolução dos Recursos Naturais: Atendendo à demanda mundial por energia, alimentos e água), publicado pela consultoria americana McKinsey.
Além do maior consumo de alimentos, a projeção leva em conta fatores como perdas de produtividade decorrentes da degradação do solo, falta dágua, mudanças climáticas, avanço das cidades e maior uso de biocombustíveis.
Considera, ainda, a projeção da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) segundo a qual a produtividade média agrícola deverá crescer a uma taxa anual de apenas 1% nos próximos anos – ritmo inferior à média das últimas décadas.
Atualmente, a área ocupada com a agricultura é estimada em 1,53 trilhão de hectares ao redor do globo. Considerando-se um cenário-base – sem investimentos relevantes em ganhos de eficiência nas fazendas, novas técnicas de irrigação, recuperação de solo e medidas contra o desperdício de alimentos -, seria necessária ampliá-la em 10% a 15%, para 1,71 trilhão a 1,75 trilhão de hectares.
Só o aumento da demanda por alimentos, em países como China e Índia, pode exigir uma expansão de 90 milhões de hectares. As perdas de produtividade provocadas pela degradação do solo, esgotamento dos recursos hídricos e outros efeitos das mudanças climáticas poderiam demandar mais 30 milhões a 75 milhões de hectares até 2030 como compensação. “A degradação acentuada do solo afeta 20% de toda a área arável no mundo”, aponta o estudo.
Cerca de 30 milhões de hectares agricultáveis seriam perdidos para a urbanização, exigindo a abertura de novas áreas e aumentando a pressão sobre as florestas. Por fim, o aumento da demanda por terras para a produção de energia exigiria outros 15 milhões de hectares. “Estimamos que a demanda por biocombustíveis de primeira geração vai dobrar nos próximos 20 anos, impulsionada por Brasil e EUA”.
O estudo conclui que 40% a 50% de toda a área remanescente disponível para a agricultura precisaria ser utilizada, especialmente em regiões pobres em infraestrutura, como América Latina e África, “o que deve aumentar de modo significativo os custos de oferta”. “Também é provável que, em um cenário de preços elevados (…), a maneira mais fácil de atender à demanda seria pela via do desmatamento.”
Por outro lado, seria possível até reduzir a área plantada nos próximos 20 anos se governos e empresas fossem capazes de “capturar” todas as oportunidades de investimento em ganhos de produtividade. Ao todo, calcula o estudo, entre 215 milhões e 325 milhões de hectares hoje utilizados poderiam ser “poupados” em duas décadas.
A McKinsey afirma que os governos precisam integrar as políticas relacionadas à gestão dos recursos naturais (água, florestas, terras), ao desenvolvimento rural e à segurança alimentar, sem o que o desafio de aumentar a eficiência pode fracassar. A consultoria diz ainda que os investimentos necessários seriam estimulados por cortes nos subsídios a setores ineficientes, desonerações e mecanismos que precifiquem as emissões de carbono.
Valor Online
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