3.10 - Coeficientes técnicos, custos, rendimentos e rentabilidade

Para obter rentabilidade econômica com a produção de leite nos sistemas de produção, o rebanho deve apresentar índices produtivos e reprodutivos eficientes e compatíveis com os sistemas de produção em regiões semiáridas. Seguem na Tabela 2 índices considerados ótimos para um rebanho de bovino de leite manejado em um sistema agrossilvipastoril no semiárido.

Tabela 2. Metas para os índices produtivos e reprodutivos de um rebanho de bovinos de leite manejado em sistema agrossilvipastoril no semiárido.
Índices Meta
Intervalo entre partos (dias) 395-410 dias
Intervalo Parto/Concepção (Período de Serviço) (dias) 85-115 dias
Intervalo Médio Parto/1º Serviço (dias) 60-70 dias
Taxa de Concepção ao 1º Serviço 50-60 dias
Serviços por Concepção 1,7-2,2
Idade Média ao Primeiro Parto 28-30 meses
Média de Produção Diária de Leite (litros) 42217
Duração da Lactação (dias) 270-300
Média de Produção de Leite na Lactação (litros) 2160 - 4500

Assim como o rebanho, o sistema forrageiro também deve apresentar uma produtividade ótima que permita dar suporte à alimentação do rebanho. O ideal é que as pastagens juntamente com suplementações na forma de forragens (gliricídia, leucena, palma, rolão de milho) e concentrados (grãos de milho) produzidos dentro do sistema, possibilitem atender as exigências de uma vaca em lactação com uma produção de 8-10 litros diários de leite, sem necessidade de utilizar concentrados (farelo de soja, farelo de trigo, caroço de algodão...) externos ao sistema. Nas Tabelas 3 e 4 encontram-se indicadores de produtividade de um sistema agrossilvipastoril.

Tabela 3. Produção de forragem em um sistema agrossilvipastoril.
Produção de Forragem  
Milho solteiro (40.000 plantas/ha) para ensilagem 25 ton/ha
Milho consorciado com gliricídia 15 ton/ha
Gliricídia (2.500 plantas/ha) para ensilagem 6 ton/ha/corte
Leucena (3.300 plantas/ha) para ensilagem 7 ton/ha/corte
Palma (fileira adensada 2 m x 0,25 m) 200 ton/ha/biênio
Palma (fileira adensada 3 m x 0,25 m) 150 ton/ha/biênio

Tabela 4. Capacidade de suporte de um sistema agrossilvipastoril.
Capacidade de Suporte  
Pastagens Cultivadas 0,6 U.A./ha/ano
Palma (fileira adensada 2.500 plantas/ha) 3,6 U.A./ha/ano
Palma (fileira adensada 3.300 plantas/ha) 5,0 U.A./ha/ano
Banco de proteína intercultivado com milho 1,5 U.A./ha/ano
Média do Sistema 0,8 U.A./ha/ano

Uma grande parte dos sistemas de produção de leite é deficiente na produção de alimentos ricos em proteína, o que poderia ser resolvido com a implantação de bancos de proteína. No entanto, tanto a leucena quanto a gliricídia, indicadas para esta finalidade, levam até dois anos depois de implantadas para poderem ser utilizadas na alimentação dos animais, aí vem a pergunta: como deixar uma área sem uso por dois anos para poder ter os primeiros cortes? Para resolver este problema poder-se-ia consorciar a gliricídia com outras culturas como, por exemplo, o milho, formando o sistema agrossilvipastoril e integrando a lavoura com a pecuária. A produção de milho evitaria a ociosidade da área por dois anos, o que deve ser considerado em função do tamanho pequeno das propriedades. Na Figura 56, pode-se visualizar um exemplo de espaçamentos utilizados para o consórcio do milho com a gliricídia e na Tabela 5 os custos de implantação deste sistema.


Figura 56. Espaçamentos (m) utilizados em um consórcio de milho com gliricídia.

Tabela 5. Custo de implantação de um hectare de gliricídia consorciada com milho.
Descrição Unidade Quantidade Custo Unitário Total/ha
Aração hora/máquina 4,4 65 286
Gradagem hora/máquina 1,8 65 117
Adubo saco 13 25 325
Adubação homem/dia 1,5 25 37,5
Plantio da gliricídia homem/dia 5 25 125
Gradagem hora/máquina 1,5 65 97,5
Semente de milho kg 24 4 96
Plantio de milho hora/máquina 2 65 130
Formicida kg 0,5 3 1,5
Capina homem/dia 9 25 225
Uréia kg 100 0,84 84
Adubação com uréia homem/dia 2 25 50

Este custo de implantação pode variar de acordo com a fertilidade do solo, maquinário utilizado no plantio, disponibilidade de sementes e mudas de gliricídia, mão de obra utilizada no plantio. Quando se utiliza a mão de obra da família e equipamentos como o da tração animal, o custo de implantação de um hectare pode cair de R$ 1.574,00 para R$ 506,00. O importante é lembrar que o milho plantado para implantação do sistema pode ser ensilado, contribuindo para a alimentação do gado no período seco, ou seus grãos podem ser colhidos para ser vendidos ou utilizados na alimentação dos animais, pagando o custo de implantação do sistema. No ano seguinte, se for realizado o plantio direto do milho, os custos caem mais ainda e a gliricídia possibilitará cortes cujo material poderá ficar no solo como adubo verde ou fenado/ensilado para suplementação proteica do rebanho.

Como o produtor de leite no semiárido não é somente produtor de leite, outras estratégias devem ser consideradas no sistema de produção para análise econômica da atividade. Os ovinos normalmente complementam a renda do produtor de leite. A confecção de queijos e doces, para agregar valor ao leite produzido, ocorre nas propriedades ou nas fabriquetas, sendo que, estas últimas, devolvem parte do soro para o agricultor utilizar na alimentação dos suínos. Galinhas de capoeira são encontradas na maioria das propriedades sendo utilizadas para alimentação das famílias e, o excedente delas, vendido em feiras locais onde são mais valorizadas do que as galinhas de granja. O bezerro macho nascido nas propriedades de leite não é descartado de imediato, mas engordado para venda em caso de necessidade. Além disso, é possível encontrar arrendamento de terras, venda de serviço e outras fontes de renda.

Por isso, a análise econômica desses sistemas é bastante complexa, no entanto, é possível afirmar que esta diversidade mantém a sobrevivência do agricultor familiar no campo e a produção de leite continua sendo a principal atividade nos sistemas de produção oferecendo a esses agricultores uma renda semanal que pode ser melhorada com a implantação de sistemas agrossilvipastoris.