4.10.2.16 - Controle de mastite

A mastite ou mamite é um processo inflamatório da glândula mamária causada pelos mais diversos agentes. Os mais comuns são as bactérias dos gêneros estreptococos e estafilococos além dos do gênero coliformes. A ocorrência da mastite envolve três fatores: a resistência da vaca, o agente patogênico e o ambiente. Esses três fatores terão influência direta na ocorrência e na forma de manifestação da doença.

Estima-se que no rebanho brasileiro a prevalência da doença seja de 20 a 38% o que representaria uma perda de 12 a 15% da produção.

A mastite pode ser classificada quanto à forma de manifestação em: mastite clínica, quando há sinais clínicos evidentes, como edema, endurecimento e dor na glândula mamária e/ou aparecimento de grumos ou pus no leite, e ainda sintomas sistêmicos como depressão, desidratação, diminuição da ingestão de alimento e queda na produção de leite; em mastite subclínica, quando há ausência de alterações visíveis, contudo, ocorre queda na produção e mudança na composição do leite (aumento de CCS, íon Cl- e Na+ e de proteína sérica, e diminuição de caseína, lactose e gordura). A mastite subclínica é a forma da doença que ocorre com certa frequência nos rebanhos, e também é a precursora da mastite clínica.


 Figura 11. Esquema representativo dos fatores que associados interferem na ocorrência de mastite.


 Figura 12. Animal com mamite clínica. Presença de grumos no leite.

A mastite subclínica, responsável por 90 a 95% dos casos de mastite no rebanho, apresenta uma prevalência 15 a 40 vezes maior que a forma clínica da doença. Embora a mastite subclínica seja responsável pelo maior prejuízo do produtor, a prevalência da doença é subestimada uma vez que para efeito de analise apenas os casos de mastite clínica são considerados.

Quanto à classificação baseada no agente causador, a mastite pode ser classificada como contagiosa ou ambiental.

Os casos de mastite contagiosa são caracterizados pela maior incidência da forma subclínica. São geralmente de longa duração, de alta CCS e são causados por micro-organismos que têm como habitat a própria glândula mamária e a pele dos tetos. A transmissão acontece principalmente no momento da ordenha, por meio de teteiras, e pelo manejo dos ordenhadores. As perdas econômicas, decorrente da mastite contagiosa, estão relacionadas principalmente à queda da produção de leite, que não é percebida pelos produtores, nos casos subclínicos da doença.

A mastite ambiental é causada por agentes cujo reservatório é o próprio ambiente onde há acúmulo de esterco, urina, barro, e camas orgânicas. Esse tipo de mastite é caracterizado pela maior incidência da forma clínica da doença, geralmente de curta duração e com manifestação aguda. A infecção, ou maior parte dela, ocorre no período entre ordenhas, embora possa ser transmitida em situações de problemas de funcionamento de equipamento. A mastite ambiental pode acometer todas as categorias animais, vacas lactantes, secas ou novilhas, já a forma contagiosa é mais comum nas vacas em lactação.
Os principais agentes e as características da mastite contagiosa e ambiental estão descritos na tabela que segue abaixo.

É preciso trabalhar na prevenção e no controle de mastite, pois é uma doença que pode surgir repentinamente, por se tratar de uma doença de manejo. Para se fazer uma prevenção adequada, é preciso considerar todo o manejo da propriedade. Quando os índices desta doença se elevam, significa que uma ou mais ações dentro do manejo estão sendo executadas de forma inadequada. Vale ressaltar que as mastites ambientais são esporádicas e podem acometer qualquer animal em lactação.

No manejo da propriedade devemos levar em consideração todo o processo realizado diariamente, iniciando com os animais no pasto, a ida para ordenha e o retorno ao pasto.
A forma de ordenha, seja ela mecânica ou manual, deve ser observada em todo o seu processo. A ordenha pode ser considerada um dos grandes causadores de mastite quando não é bem conduzida. No manejo utilizando ordenha mecânica, os equipamentos devem ser manipulados como recomendado pelos fabricantes. As peças e borrachas têm que ser trocadas dentro do prazo, assim como o nível de vácuo, tem que ser mantido segundo as normas do fabricante, uma vez que tanto o excesso como a falta deste vácuo são grandes fatores predisponentes para o aparecimento de mastite.

Existem vários testes que podem auxiliar no diagnóstico da mastite. O diagnóstico da mastite clínica é realizado pela observação de alterações no leite, pelo teste do caneco de fundo escuro, e pelos de sinais da inflamação como a presença de dor, edema no úbere e modificação das características da secreção do leite.

Para o diagnóstico da forma subclínica da mastite, dois testes são de grande importância. O California Mastitis Test (CMT) é um teste que pode ser realizado no campo, é muito prático embora deva ser executado por profissional treinado. Esse ultimo é um teste que estima o número de células somáticas no leite. A interpretação do CMT é baseada na observação visual da mistura do leite com o reagente. A reação ocorre entre o reagente e o material genético das células somáticas presentes no leite, formando um gel cuja concentração é proporcional ao número de células somáticas. O resultado do CMT é classificado como negativo (sem viscosidade), suspeito (levemente viscoso), fracamente positivo (viscosidade moderada) e fortemente positivo (viscosidade intensa).

Tabela 3. Relação entre o resultado do CMT e a estimativa da contagem de células somáticas e perdas na produção de leite.
Escore Viscosidade CCS Perdas de produção
0 Ausente 100000 0,05
Traços Média 300000 0,08
+ Leve/Moderada 900000 9 a 18%
++ Moderada 2700000 18 a 25%
+++ Intensa 8100000 > 25%
Fonte: Philpot e Nickerson (1991) in Santos e Fonseca, 2007.

A contagem de células somáticas (CCS) é outro exame realizado em laboratório, que é usado para o diagnóstico da mastite subclínica. Quando um agente patogênico invade a glândula mamária, o organismo animal tenta reverter o processo infeccioso enviando leucócitos para a região afetada. Os leucócitos somados às células de descamação do tecido do epitélio secretor dos alvéolos são as chamadas células somáticas do leite. Dessa forma quando há uma infecção da glândula mamária a contagem de células somáticas (CCS) aumenta, diagnosticando a mastite subclínica. A literatura determina um limite de 200.000 a 300.000 células/mL como resultado da CCS.

Uma observação importante é que a Instrução Normativa 51/2002, determina como limite aceitável 750.000 CCS/mL nas regiões do Sul, Sudeste e Centro-Oeste até dezembro de 2011, e reduzirá para 400.000 CCS/mL a partir daí. Nas regiões Norte e Nordeste esses limites serão alterados a partir de julho de 2012. A interpretação da contagem de CCS do rebanho também é muito importante. Na tabela abaixo está representada a relação CCS x redução de produção e estimativa de animais infectados.

Tabela 4. Interpretação da contagem de CCS do rebanho, de acordo com a redução da produção de leite e a porcentagem de animais infectados no rebanho.
CCS no leite do rebanho (x 1.000)(células/mL) Estimativa da gravidade da MASTITE Redução da produção de LEITE % dos animais infectados
< 250 Pouca ou nenhuma Irrelevante < 6
250 – 500 Média 4 6
500 – 750 Acima da média 7 26
750 – 1.000 Ruim 15 Aprox. 42
> 1.000 Muito ruim 18 Aprox. 54
Fonte: Carvalho, 2011.

Outro teste que pode ser auxiliar no diagnóstico da mastite é a cultura de bactérias. Uma porção de leite “suspeito” ou afetado é enviada ao laboratório para realização do exame bacteriológico. Esse exame identifica o agente infeccioso causador da doença, o que facilita o tratamento da mesma, principalmente se for realizado junto com o antibiograma.

Como citado anteriormente para o diagnóstico da mastite clínica, um teste prático, mas eficiente é o teste da caneca telada ou de fundo escuro. Este é o teste que deve ser feito em todas as ordenhas. Ele detecta a mastite clínica nos primeiros jatos de leite. Quando a mastite clínica aparece, há um depósito de leucócitos (células de defesa) no canal da teta e estes leucócitos formam os grumos que são visualizados logo nos primeiros jatos de leite. Estes primeiros jatos devem ser depositados na caneca de fundo escuro ou telada onde os grumos serão visualizados com mais facilidade, devido ao contraste do fundo da caneca com os grumos que ficam mais aparentes. Neste caso estamos frente à mastite clínica.

Uma vez identificada a mastite clínica, o animal deve ser retirado da sala de ordenha, voltando mais tarde para ser ordenhado. A utilização de uma linha de ordenha é um manejo recomendado para melhorar o controle das ocorrências de mastite. Neste manejo primeiramente são ordenhadas as vacas sadias, depois as que já tiveram mastite e foram curadas e no final da linha, aquelas que estão com mastite e em tratamento. Para ser mais rigoroso o procedimento, o final da linha de ordenha deve ser organizado de forma que primeiro sejam ordenhadas as vacas que estão com leite no descarte, mas já não apresentam sintomatologia clínica e, depois disto, os animais podem ser distribuídos conforme a gravidade do sintoma observado, de forma a deixar os animais mais graves por último.

Se a mastite se apresentar de forma muito intensa o animal deve ser ordenhado fora do local de ordenha para não contaminar o ambiente. Se a mastite for crônica é importante o descarte desse animal. O tratamento das vacas com mastite varia de acordo com o caso apresentado. Em geral, os tratamentos devem ser precedidos de ordenhas sucessivas em torno de quatro no período do dia, e havendo necessidade de medicamento, tratar somente após a última ordenha do dia.

As vacas secas devem ser tratadas com medicamentos próprios para esta fase. Existem no mercado vários medicamentos para tratamento preventivo de vacas neste período de descanso. É bom lembrar que estes medicamentos nunca devem ser utilizados para tratar mastites comuns, pois eles são próprios para a prevenção da mastite no período seco. Distribuição percentual do prejuízo causado pela mastite em um rebanho: Os três primeiros degraus da pirâmide representam os prejuízos causados pela mastite clinica e o último marcado em vermelho o prejuízo casado pela mastite subclínica.


Fonte: Santos e Fonseca, 2007.

Os custos com a mastite por caso clínico estão estimados em US$ 107 por animal e os componentes deste custo estão descritos no gráfico.


 Fonte: Santos e Fonseca, 2007.