4 - Tecnologias para produção de leite na Região da Mata Atlântica do Brasil

4.1 - Leite no Brasil e no mundo: aspectos socioeconômicos e ambientais

4.1.1 - Introdução

Em 2010 a produção mundial de leite foi de 695,7 bilhões de litros, dos quais o Brasil contribuiu com 4,42% ou 30,7 bilhões de litros. Entre 2000 e 2010 a produção cresceu em média 4,4% ao ano, a segunda maior taxa anual de crescimento do mundo. O primeiro lugar foi da China, com 17,61%.

Por outro lado o Brasil se destacou também como o país onde grande quantidade de fazendas abandonou a atividade leiteira. Neste período em média 3,2% dos produtores de leite migraram para outras atividades agropecuárias. Entre os maiores produtores mundiais é o primeiro em crescimento na quantidade de vacas por fazenda, com 5,3% por ano e o primeiro em crescimento relativo da produção por estabelecimento. Em produção por vaca é o quarto com maior crescimento indicando que a tecnologia de produção vem evoluindo rapidamente, sobretudo na questão da genética, nutrição e manejo. Os dados apontam o Brasil como promissor para continuar crescendo em tecnologia e produção de leite.

O tamanho da fazenda ainda é pequeno em comparação com outros países, no entanto as fazendas brasileiras estão crescendo em termos de volume individual de produção. Para competir no mercado internacional o país precisa se adaptar às transformações tecnológicas e de mercado, sobretudo em eficiência produtiva e qualidade da produção. Os cenários apontam nesta direção. O crescimento geral da renda per capita na maioria das regiões do mundo vai pressionar a expansão rápida da oferta. As mudanças de hábitos e a maior conscientização dos consumidores vão pressionar cada vez mais o aumento de qualidade.

Para competir neste cenário, os produtores brasileiros têm grandes desafios pela frente. O aumento de produtividade dos fatores, a redução dos custos de produção e a melhoria de qualidade dos produtos finais são questões que precisam ser focadas por todos os agentes da cadeia produtiva.

4.1.1.1 - Referencial de pesquisa

Para melhor fundamentar e focar o desenvolvimento de novas tecnologias adequadas à realidade dos produtores, um ano após a sua fundação em 1976, a Embrapa Gado de Leite implantou o que se denominou de Sistema Físico de Produção de Leite ou Sistema Mestiço de Produção de Leite (SMPL) dentro de sua área física de atuação no município de Coronel Pacheco, no Estado de Minas Gerais. O SMPL foi uma tentativa de simular na prática uma fazenda real de produção de leite, buscando manter as características básicas dos modelos predominantes de produção de leite na região naquela época: a) topografia acidentada, com 20 a 30% de meia-encosta e baixada; b) pastagens de capim-gordura (Melinis minutiflora); c) suplementação volumosa com cana e silagem de milho na época da seca do ano; d) rebanho mestiço, com padrão genético variando de 1/2 a 7/8 Holandês x Gir ou Guzerá. O modelo reunia algumas técnicas já conhecidas isoladamente e visava oferecer aos produtores da Região Sudeste do Brasil exemplos reais de uso de tecnologias que garantissem a expansão da produção, fundamentada, sobretudo no aumento da produtividade e da eficiência econômica.
Com características dinâmicas, este SMPL experimentou gradual processo de evolução tecnológica, preservando, porém, suas características básicas - pasto como única fonte de volumoso no verão, rebanho mestiço e emprego de tecnologia simples e de fácil adoção pelos produtores. Em 2011 o SMPL ocupa uma área de 107 ha, de relevo ondulado, com 20% a 30% de baixadas e meia-encosta, e bem servido por aguadas naturais. A precipitação pluviométrica na região é 1.535 milímetros por ano, alternando ao longo do ano meses secos (maio a outubro) e chuvosos (novembro a abril), com temperaturas médias de 22 °C no verão e 16,8 °C no inverno. A evolução da área total ocupada com pastagens e culturas forrageiras é mostrada na Tabela 1.

Tabela 1. Ocupação da área (ha), taxa de lotação e produtividade da terra do Sistema Físico de Produção de Leite ou Sistema Mestiço de Produção de Leite (SMPL) dentro de sua área física de atuação no município de Coronel Pacheco, no Estado de Minas Gerais SMPL no período de 1978 a 2011.
  1977/78 85/86 91/92 94/95 99/2000 2010/2011
Área total (ha) 97,6 103 103 107 105 105
Área útil destinada ao rebanho 96,5 102 98,9 100,8 100,8 100,8
Capim-gordura 86 80,6 30,4 28 28 28
Capim-jaraguá 2 2 4 3,5 3,5 3,5
Brachiaria decumbens - 2,5 39 39 39 39
Capim-elefante - 5,8 13,5 14,5 14,5 14,5
Estrela, Setária e Angola - 3,5 3,5 3,5 2,5 2,5
Capineira de capim-elefante 6 1 1 0 0 0
Cana-de-açúcar 0,5 1,5 3 1 1 1
Milho para silagem 2 4,5 4,5 8 7 7
Benfeitorias, matas etc. 1,1 1,1 1,1 6,2 6,2 6,4
Taxa de lotação (UA/ha) 0,8 0,7 1,5 1,5 1,7 1,5
Produção de leite (L/ha/ano) 1205 1234 2257 2300 2993 2528

O rebanho original do SMPL de 42 vacas era composto por animais com padrão genético entre 1/2 a 7/8 Holandês x Zebu. Para manter estes grupos genéticos as fêmeas com até 3/4 Holandês Preto e Branco (HPB) foram acasaladas com touro HPB e fêmeas 7/8 HPB com touro Gir, em sistema de monta controlada, buscando maior concentração de partos nos meses menos chuvosos do ano. A partir de 1989/90, em virtude da introdução de melhores práticas de manejo, entre elas o pastejo rotacionado, elevou-se o padrão genético do rebanho para até 15/16 HPB X Zebu. Para isso, com a adoção da inseminação artificial, as fêmeas até 7/8 HZ passaram a ser inseminadas com touros HPB e as fêmeas 15/16 H x Z inseminadas com Gir. A evolução do rebanho e a produção de leite são mostradas na Tabela 2.

Tabela 2. Composição do rebanho e produção de leite no Sistema Físico de Produção de Leite ou Sistema Mestiço de Produção de Leite (SMPL) entre 1978 e 2011.
  77/82 85/86 89/90 91/94 95/98 99/00 2010/2011
Vacas em lactação 36 35 57 64 68 75 63
Vacas secas 6 9 14 17 24 25 21
Fêmeas de 2 a 3 anos 10 12 20 27 34 35 24
Fêmeas de 1 a 2 anos 15 13 22 29 32 36 22
Fêmeas de 0 a 1 ano 17 20 28 34 40 40 31
Total de cabeças* 87 92 145 192 216 214 161
Total de UA* 66 68 108 133,6 150,6 158 148
Produção de leite (L/dia) 316 335 312 632 752 840 713
* Inclui animais de serviço, rufião e machos jovens

Dois indicadores mostram que houve razoável evolução tecnológica do SMPL desde sua implantação: a produtividade da terra e a produtividade da mão de obra (Tabela 3). A área total se manteve praticamente estável, mas a taxa de lotação das pastagens quase dobrou no período, passando de 0,8 para 1,5 UA/ha, um crescimento de 88%. Houve aumento da ordem de 124% no tamanho do rebanho medido em UA, de 85% no tamanho do rebanho (medido em cabeças) e de 126% na produção diária de leite. A introdução de novas tecnologias possibilitou este avanço, entre elas o pastejo rotacionado, a adubação de pastagens e o aumento no fornecimento de concentrados. A produtividade da mão de obra apresentou taxa de crescimento maior, passando de 24,4 mil para 78,1 mil litros por funcionário por ano, um aumento de 219%. Neste caso o aumento da produção individual das vacas e a mecanização da ordenha foram os principais instrumentos de modernização que possibilitaram esta melhoria.

Tabela 3. Evolução dos indicadores de tamanho e de eficiência técnica no Sistema Físico de Produção de Leite ou Sistema Mestiço de Produção de Leite (SMPL).
Indicador Unidade Períodos Variação %
    1977/78 2010/11  
Taxa de lotação das pastagens U.A./ha 0,8 1,5 88
Rebanho total cabeças 87 161 85
Rebanho total U.A 66 148 124
Rebanho (fêmeas) Cabeças 84 161 92
Vacas Cabeças 42 84 100
Produção de leite Litros/dia 316 713 126
Produção vaca/lactação kg 2.942* 4.131** 40
Produtividade da terra L/ha/ano) 1205 2528 110
Produtividade anual da mão de obra permanente (litros/funcionário) 24455 78110 219
* 1977/82, **2010/11

A composição percentual da renda e dos custos de produção de leite, em cinco períodos, é mostrada na Tabela 4. Conforme os dados da Tabela 4, o leite é o principal elemento na composição da renda no sistema descrito no decorrer dos anos analisados, sendo a comercialização, neste caso, acessória com inputs ou incremento na receita relativamente baixo. O custo com a mão de obra oscilou um pouco mantendo um patamar médio de 30%, atingindo um pico de 33,3% atualmente, enquanto o custo com concentrado vem apresentando alta na última década, chegando a 36% do custo efetivo. O custo com a alimentação se consolida no item de maior impacto, agregando-se a isto o custo com silagem. A mão de obra também ocupa posição de destaque na composição dos custos, demonstrando o ganho que pode ser auferido com a adoção de mecanização na atividade leiteira.

Tabela 4. Composição (%) da renda e dos custos de produção de leite em cinco períodos.
  1978/82 1983/87 1988/95 1995/99 2010/2011
1. Renda bruta (%) 100 100 100 100 100
Leite 85.4 88.8 82.9 86.6 88,7
Animais 41074 40950 40925 41012 11,3
2. Custos de produção          
2.1. Custo operacional efetivo (%) 100 100 100 100 100
Mão de obra 31.9 41180 21,7 40965 33,3
Pastagens * * * 40942 1,7
Forrageiras (cana-de-açúcar, c.-elefante) * * * 41000 1,9
Silagem * 41124 13,4 41129 7,2
Concentrados + minerais 31.0 41121 31,3 33.6 36
Leite para bezerros * * * 41124 *
Medicamentos 41096 41095 5,5 41066 7,3
Material de ordenha * * * 41031 1,2
Transporte do leite 41160 40977 7,6 ** **
Energia e combustível 41123 41123 2,6 41154 3,4
Inseminação artificial - 41093 4 36586 1,9
Impostos e taxas 41155 41155 3,4 41126 3,2
Reparos de benfeitorias e máquinas 0.7 0.7 0,6 36557 2
Outros gastos de custeio 13.0 41005 6 0.1 1
2.2. Custo operacional total 100 100 100 100 100
Custo operacional efetivo 89.3 88.0 95.3 94.6 95
Depreciação 41100 36861 41094 41004 5
2.3. Custo total 100 100 100 100 100
Custo operacional total 89.0 87.7 86.5 85.9 85
Remuneração capital 36831 40980 41042 40922 15
* Incluído em outros gastos de custeio
** Coleta de leite a granel.
Fonte: Adaptado de Novaes et al. 2001.

Em 33 anos de funcionamento, o sistema tem sido visitado por produtores, estudantes, técnicos e lideranças do setor leiteiro. Nestas oportunidades recebem orientações sobre as tecnologias adotadas e informações sobre outras disponíveis para os produtores. O SMPL é instrumento utilizado para a transferência de tecnologias para produção de leite a pasto com animais mestiços. A contribuição mais importante do sistema é o referencial tecnológico que o mesmo oferece para o emprego de técnicas ou medidas simples de fácil adoção, especialmente para produtores típicos de leite da Região Sudeste.
 

4.1.2 - Importância econômica da atividade leiteira

4.1.2.1 - A dinâmica da produção de leite nos últimos 20 anos

Em um contexto mundial o setor produtivo da cadeia do leite vem passando por mudanças que indicam uma acelerada modernização tecnológica em termos de processos de produção. De maneira geral as seguintes tendências mundiais são observadas notadamente nos últimos dez anos:

  •   Redução da quantidade total de vacas utilizadas para a produção de leite;
  •   Aumento do tamanho individual das fazendas em área, em quantidade de vacas e em volume de produção;
  •   Redução do número de fazendas produtoras de leite;
  •   Aumento do potencial genético do rebanho e da produtividade de leite por vaca;
  •   Aumento da produção na maior parte dos países produtores;
  •   Crescimento da oferta mundial e da qualidade da produção.

A seguir será feita uma comparação do Brasil frente a alguns importantes países produtores de leite no período de 2000 a 2009.

Na maioria das informações o destaque é a China. O desenvolvimento econômico daquele país, juntamente com o aumento de renda, mudanças de hábitos alimentares e migração do campo para as cidades, vem pressionando fortemente a demanda por lácteos e forçando grande parte das mudanças verificadas na produção leiteira do país. A abertura da economia chinesa e a melhor ocupação e remuneração da mão de obra impulsionou a demanda e influenciou a entrada de muitos novos produtores na atividade mudando rapidamente muitas estatísticas do setor como será visto nas próximas tabelas e figuras.
 

4.1.2.2 - Produção total nos países principais produtores

Nos últimos dez anos o crescimento geral da economia induziu a maior parte das transformações na atividade leiteira mundial ao pressionar numa intensidade sem precedentes a demanda por lácteos e a expansão da produção de maneira geral. Neste período a produção cresceu em praticamente todos os principais países produtores (Tabela 5).

Tabela 5. Evolução da produção de leite e da taxa média de crescimento anual nos países maiores produtores de leite. Período: 2000 a 2009 (valores em bilhões de kg por ano).
Ano USA Índia Rússia Alemanha China Brasil França N. Zelândia Austrália Argentina A. do Sul
2000 71,51 32,96 31,95 28,33 7,37 19,77 24,94 13,3 11,68 9 2,52
2001 71 34,51 32,59 28,19 9,1 20,51 24,9 14,3 10,9 8,8 2,74
2002 72,71 34,61 33,2 27,87 11,58 21,64 25,31 15,5 12,12 7,64 2,6
2003 73 34,79 33,08 28,53 15,6 22,25 24,69 15,5 10,3 7,5 2,9
2004 72,95 37,34 31,9 28,24 20,13 23,47 24,53 16,87 10,54 8,89 2,32
2005 75,51 39,75 30,89 28,45 24,52 24,62 24,72 16,32 10,46 9,32 2,42
2006 77,8 41,14 31,18 27,99 28,44 25,4 24,37 16,98 10,86 9,64 2,49
2007 79,31 43,47 31,91 28,4 31,39 26,14 24,38 17,83 9,96 9,04 2,59
2008 81,18 44,1 32,09 28,65 31,67 27,59 25,19 16,98 9,66 9,51 2,8
2009 80,76 45,14 32,32 30,19 30,07 29,11 24,18 18,54 9,83 9,54 2,68
Fonte: IFCN (2010).

Em 2009 o Brasil foi o sexto maior produtor mundial de leite (Figura 1), neste ranking, logo atrás da Alemanha, onde a produção esteve mais ou menos estabilizada, e da China, que apresentou o crescimento mais acelerado do período.

 


Figura 1. Produção total de leite nos principais paises produtores em 2009.

4.1.2.3 - Taxa de crescimento da produção

O Brasil com 4,40% foi o país que teve o maior crescimento anual da produção depois da China, onde a produção cresceu a uma taxa anual de 17,6% (Figura 2).

550
Figura 2. Taxa anual de crescimento da produção de leite em países selecionados. Período: 2000 a 2009 (valores em% ao ano).
Fonte: IFCN (estimativas para 2009).

As regiões Sudeste e Sul concentram a maior parte da produção brasileira. Entretanto, o Nordeste e Norte também apresentaram grande evolução na produção de leite no período entre 2000 e 2009 (Figura 3).

 
Figura 3. Produção de leite no Brasil entre 2000 e 2009.
Fonte: IBGE. Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

4.1.2.4 - Total de vacas

Em muitos países o número de vacas ordenhadas diminuiu (Figura 4), no entanto na China, Índia, Nova Zelândia e Brasil o rebanho cresceu. Neste caso o destaque ficou por conta da China onde houve um crescimento de 148% no número de vacas ordenhadas entre 2000 e 2009.


Figura 4. Variação percentual do número de vacas ordenhadas em alguns países produtores de leite entre 2000 e 2009.
Fonte: FAOSTAT (2011); IFCN (2010).

4.1.2.5 - Produção total por fazenda

No Brasil a produção total de leite por fazenda aumentou em uma média de 3,7 kg de leite por dia, um crescimento equivalente a 8,0% ao ano. Com isto a produção diária média por fazenda dobrou em dez anos. As fazendas de leite vêm aumentando seu volume de produção individual nos principais países produtores do mundo (Tabela 6). A exceção é a China onde a produção diária média por fazenda caiu de 50 para 29 kg, em decorrência do aumento de fazendas menores que passaram a produzir leite a partir de 2000.

4.1.2.6 - Quantidade de vacas por fazenda

Apesar da diminuição geral do número de vacas ordenhadas a redução no número de fazendas foi proporcionalmente maior, possibilitando o aumento do potencial produtivo da fazenda (Figura 5). Neste indicador o Brasil se destaca pela maior taxa de crescimento entre todos os países analisados. O crescimento da quantidade de vacas por fazenda e da produção por animal foi suficiente para compensar a redução do número de fazendas e do total de vacas dos países, elevando a produção global. A exceção, neste caso, foi a China, para a qual não houve redução, mas sim aumento no número de fazendas, o que do contrário acarretaria, no cômputo geral, um crescimento do índice percentual de vacas por fazenda.


Figura 5. Crescimento anual da quantidade de vacas por fazenda em países selecionados. 2000 a 2009 (%/ano).
Fonte: Dados estimados pelos autores a partir de informações fornecidas pelo IFCN (2010).

4.1.2.7 - Quantidade de fazendas

Embora a produção total mundial de leite tenha aumentado, a quantidade de fazendas diminuiu em quase todos os países produtores (Tabela 7). Em média houve uma redução acima de 2% no número de fazendas produtoras na maioria dos países. No Brasil a quantidade de fazendas que produzem leite tem reduzido a uma média de 3,2% ao ano. Somente em 2009 estima-se que a cada dia 100 fazendas deixaram de produzir leite. A exceção ficou por conta da China, onde a quantidade de estabelecimentos que produzem leite cresceu a uma taxa de 21,4% ao ano.

O aumento da escala de produção foi necessário para que as fazendas pudessem reduzir os custos unitários de produção para suportar a gradativa redução dos preços reais do leite ao longo dos anos. De maneira geral as fazendas menores, dependentes da mão de obra contratada e sem condições de mecanizar e aumentar a produção tendem a abandonar a atividade. As pequenas fazendas que ainda permanecem na atividade geralmente são fundamentadas na mão de obra familiar.

Tabela 7. Evolução do número de fazendas produtoras de leite em países selecionados. Período: 2000 a 2009 (valores em 1.000 fazendas).
Ano Brasil N. Zelândia USA Argentina Austrália Alemanha China França A. do Sul
2000 1622 14 105 17 13 142 404 133 5
2001 1575 14 98 16 12 132 506 130 5
2002 1529 14 92 15 11 127 1369 121 5
2003 1482 13 86 14 10 122 1774 114 5
2004 1435 13 81 14 10 116 2068 112 4
2005 1388 12 78 14 9 110 2178 104 4
2006 1341 12 75 13 9 106 2406 98 4
2007 1296 12 72 13 8 101 2668 93 4
2008 1252 11 69 12 8 100 2802 88 3
2009 1209 11 69 12 8 100 2802 88 3
Média -0,032 -0,026 -0,045 -0,037 -0,051 -0,038 0,304 -0,045 -0,05

4.1.2.8 - Produtividade da vaca

Devido às melhores técnicas de produção e ao melhoramento genético, a produtividade por vaca vem crescendo em todos os países importantes produtores de leite (Figura 6).


Figura 6. Taxa anual de crescimento da produtividade média de leite por vaca em países selecionados. Período 2000 a 2009.
Fonte: estimado pelos autores com base em informações fornecidas pelo IFCN (2010).

A produção brasileira de leite nos últimos 20 anos cresceu a uma taxa de 3,8% ao ano. O país passou de 15,1 bilhões de litros em 1991 para 30,4 bilhões em 2010 (Figura 7) com expectativa de chegar em 31,6 bilhões em 2011. Mesmo com este crescimento significativo da produção, o consumo interno cresceu em proporção semelhante não possibilitando ainda a formação de excedentes capazes de transformar o país em um importante exportador de lácteos no mercado mundial


Figura 7. Evolução da produção anual de leite do Brasil (valores em bilhões de litros por ano).

A abertura de novas fronteiras de produção em Rondônia, Mato Grosso, Pará e regiões de cerrado de Minas Gerais e de Goiás foi um dos pilares que suportou o crescimento da oferta de leite no Brasil. O outro pilar foram os ganhos de produtividade oriundos da adoção de melhores técnicas de produção. Considerando dados agregados do rebanho nacional, no início da década de 1970, a produtividade anual do rebanho nacional que era inferior a 700 litros por vaca ordenhada, praticamente dobrou no final dos anos 90 e em 2010 pode ter chegado a 2.000 litros. Em algumas bacias leiteiras tradicionais existem propriedades com rebanhos especializados para leite com produtividade acima de 7.000 litros por lactação, ou seja, dez vezes superior à média nacional de 30 anos atrás.

Estes ganhos de produtividade ocorrem basicamente pela adoção de novas tecnologias que possibilitam melhorar a eficiência do uso dos fatores de produção. O melhoramento genético, os ajustes da nutrição, o melhoramento das pastagens e da saúde dos rebanhos foram fundamentais nesta evolução. Cresceu também a participação das raças europeias nos rebanhos mestiços Holandês x Zebu ocorrendo também uma significativa evolução no melhoramento genético de raças zebuínas para leite. 

Em paralelo ao melhoramento da genética, também a nutrição, as pastagens e a saúde tiveram uma evolução tecnológica muito grande. Nos últimos 25 anos, as áreas de pastagens cultivadas no Brasil aumentaram 151%. Estimativas mais recentes indicam que essas áreas atingiram 100 milhões de hectares no final da década de 90.

A produção de leite deve continuar crescendo nos próximos anos e pode colocar o Brasil na condição de um importante exportador de lácteos. Esforços têm sido direcionados para impulsionar as vendas externas de lácteos e o rápido crescimento da produção pode garantir os excedentes exportáveis necessários (Figura 8).


Figura 8. Importação de lácteos no Brasil.

O agronegócio do leite ocupa posição de destaque na economia brasileira, sendo grandes as expectativas, nesta década, de continuar o crescimento da produção e da produtividade, com índices maiores do que os alcançados em anos recentes.

Compreender as especificidades edafo-climáticas das regiões produtoras e a aptidão das terras será fundamental para a modernização das pastagens, mecanização e evolução da genética dos rebanhos. Aumentando a eficiência do uso dos recursos, em termos de políticas regionais de desenvolvimento, é possível diminuir custos e melhorar a qualidade do leite, adotando-se boas práticas e contribuindo para um maior ganho e estabilização dos preços do produto. Ao nível de análise territorial, a área de domínio do Bioma Mata Atlântica se encontra em uma condição de dificuldade enorme na lida dos diversos fatores físico-ambientais e socioeconômicos, notadamente em razão de seu território se distribuir em diversas zonas climáticas e fitofisionomicas, ou em regiões de vegetação bem distintas.
 

4.1.3 - A produção de leite na Mata Atlântica

A Mata Atlântica é uma formação vegetal brasileira, bem como um bioma terrestre que detém uma grande área de domínio no Brasil (Figura 9). A vegetação original encontra-se significativamente reduzida devido ao desmatamento, visto que originalmente se estendia do litoral do nordeste ao sul do país, além do interior do sudeste ao centro-oeste (Figura 10).

Apesar de fragmentada, ainda detém grande biodiversidade, mesmo com a exploração madeireira massiva ocorrida desde o descobrimento, quase extinguindo espécies florestais tais como pau-brasil, sucupira, peroba, canela, jacarandá, braúna, paraju e vinhático.

                       
Figura 9. Mapa dos biomas terrestres no Brasil.
Fonte: Ministério do Meio Ambiente (2008). Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

Apenas 10% da mata original existem hoje, com grande risco de diminuir ainda mais em virtude do aumento da urbanização e da pressão sob o meio ambiente como um todo. Na Região Nordeste ela desapareceu, sendo vedada a exploração madeireira nos fragmentos de floresta primária restantes nas outras regiões. Persistem sérias restrições em áreas de florestas secundárias, as quais se encontram principalmente em Áreas de Preservação Permanente ao longo dos corpos d’água e em topos de morros.

A despeito dos novos esforços de modernização e de elaboração do novo código florestal, o Código Florestal de 1965 e as resoluções do Conama 303 de 2002 e 369 de 2006, ainda vigentes, regulamentam a preservação da vegetação ciliar e em topos de elevações, bem como sua utilização para fins agropecuários, desde que sustentáveis e, em geral, em menor escala ou adequada à produção familiar. Entretanto, apesar das restrições físicas, ambientais e legais, com a existência de relevo bastante movimentado, alto índice de degradação das pastagens e baixa disponibilidade de áreas novas para a agropecuária, observa-se nesta região de abrangência, mediante análise de dados censitários, uma produção importante em termos da cadeia leiteira no Brasil, talvez em razão dos esforços dos produtores, pesquisadores e extensionistas para a tecnificação da atividade nas últimas décadas.

Na realidade a produção de leite se distribui de forma heterogênea ao longo das regiões de domínio das muitas fitofisionomias da Mata Atlântica, de acordo com os últimos dados do censo agropecuário disponível para o ano de 2009. A partir desses dados destaca-se a produção na Região Sul do país, também porção sul da Mata Atlântica, bem como o Sudeste em áreas remanescentes de florestas estacionais semideciduais, assemelhando-se aos patamares atingidos no Centro-Oeste, em região do domínio do Cerrado, o qual detém uma maior produtividade animal, em termos de litros de leite por vacas ordenhadas (Figuras 11, 12 e 13). Numa visão ampliada da Mata Atlântica, percebe-se que em 2009 a produção de leite se encontrava com distribuição bastante homogênea ao longo de todo o bioma, com destaque para alguns municípios da Região Sul e Sudeste do país, concernente à área de abrangência da Mata Atlântica. Ainda pode-se destacar a grande produtividade dos municípios do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, demonstrando maior tecnificação das fazendas, com rebanhos de alto rendimento (Figuras 14, 15 e 16). Nas regiões de fitofisionomia de floresta ombrófila densa, próximo ao litoral, observa-se baixa produção e produtividade, caracterizadas por manejo bovino a pasto. Isto se deve, em parte, às dificuldades impostas pelo relevo bastante movimentado, pequena área disponível e baixa aptidão para a atividade pecuária extensiva.

                      
Figura 10. Produção de leite no Brasil entre 2000 e 2009.
Fonte: Fundação S.O.S. Mata Atlântica, 2008). Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

                      
Figura 11. Ilustração que mostra a produção de leite no Brasil em 2009 e a delimitação referente a cada Bioma.
Fonte: IBGE (2009). Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

                      
Figura 12. Distribuição dos dados de vacas ordenhadas 2009, frente a delimitação dos Biomas.
Fonte: IBGE (2009). Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

                      
Figura 13. Produtividade animal em 2009 por cabeça ou vaca ordenhada.
Fonte: IBGE (2009). Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

                      
Figura 14. Distribuição municipal da produção de leite em 2009 na Mata Atlântica.
Fonte: IBGE (2009). Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

                      
Figura 15. Distribuição das vacas ordenhadas em 2009 na Mata Atlântica.
Fonte: IBGE (2009). Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

                      
Figura 16. Distribuição municipal da produtividade animal em termos de vacas ordenhadas em 2009.
Fonte: IBGE (2009). Elaboração: Embrapa Gado de Leite.

4.1.4 - Coeficientes técnicos na produção de leite

Coeficientes técnicos são valores numéricos que expressam uma relação física entre a quantidade de insumo gasta para produzir certa quantidade de leite. De maneira geral no cálculo dos coeficientes técnicos, tanto os insumos quanto a produção são quantificados considerando o período de um ano, o tempo mínimo normalmente considerado necessário para analisar com precisão os resultados técnicos e econômicos de uma fazenda de produção de leite com rebanho estabilizado.
 
A seguir é apresentado um exemplo para ilustrar este conceito.
 
Suponha uma fazenda leiteira com os seguintes resultados para o período de um ano:
Produção total de leite: 547.500 litros;
Mão de obra usada nos serviços de rotina da fazenda como distribuição dos alimentos, manejo do rebanho, ordenha e limpeza de instalações, máquinas e equipamentos:
Três funcionários (3 x 365 dias = 1.095 d.h.); d.h. significa um dia-homem ou um dia de serviço prestado por um trabalhador.
 
Alimentos concentrados para 75 vacas em lactação: 246.375 kg por ano.
Fertilizantes para a produção de 1.600 t de silagem de milho e para aplicação nas áreas de produção de forragens verdes: sulfato de amônia, 4 t; superfosfato simples, 14 t; cloreto de potássio, 3,6 t; e calcário, 40 t.
 
Considerando apenas estes insumos e a título de exemplos, têm-se os seguintes coeficientes técnicos:
Mão de obra de rotina (manejo do rebanho): 1095 d.h./547.500 litros = 0,002 d.h./litro;
Sulfato de amônia: 4 t/547.500 litros = 0,007306 kg/litro;
Superfosfato simples: 14 t/547.500 litros = 0,0225 kg/litro;
Cloreto de potássio: 3,6t/547.500 litros = 0,0066 kg/litro;
Calcário: 40 t/547.500 litros = 0.073 kg/litro
 
Os coeficientes técnicos podem ser expressos em diferentes unidades. Se o objetivo for identificar quanto de mão de obra de manejo é necessária para produzir 1.000 litros de leite, basta multiplicar por 1.000 o coeficiente para produzir 1 litro, ou seja, 0,002 d.h. x 1000 = 2 d.h/1.000 litros.
 
Desta forma podem-se calcular os coeficientes técnicos para todos os insumos utilizados em uma fazenda de produção de leite. Conhecendo os coeficientes técnicos calcula-se o custo de produção de leite.
 

4.1.4.1 - Indicador de produtividade

Coeficiente técnico reflete uma relação entre insumo e produto. O indicador de produtividade é também uma relação física, mas define a quantidade produzida por unidade de insumo. No exemplo acima o índice de produtividade da mão de obra é de 500 litros por funcionário por dia.

4.1.5 - Custos e receitas na produção de leite

O cálculo dos custos totais para as diferentes atividades agrícolas sempre foi assunto controverso, principalmente por causa do desconhecimento a respeito dos critérios adotados e os itens de custos considerados pelos inúmeros estudos encontrados. No caso do leite esta constatação é ainda mais relevante, pela complexidade das atividades que envolvem a produção na fazenda. O interesse pelo cálculo do chamado “custo do leite” extrapolou o âmbito acadêmico e chegou aos agentes privados, indústrias e produtores que buscam principalmente a racionalização de suas atividades e a economia em custos, ganhando competitividade nos mercados finais.

4.1.5.1 - Recomendações

Os principais objetivos para conhecer o custo de produção do leite são os seguintes: (1) para fazer comparações com o custo de outras fazendas; (2) para fazer comparações com o preço recebido pelo leite; e, (3) para corrigir falhas e alterar metas no processo produtivo.
 
No levantamento dos custos de produção os seguintes aspectos devem ser considerados:

  •   Definir claramente o objetivo do cálculo do custo de produção. Aqui a pergunta básica é porque calcular o custo?
  •   Definir o tipo de custo que está sendo calculado: se o custo da atividade leiteira (considerando criação de animais, produção de alimentos e produção de leite como um único centro de custos); ou o custo do leite (separando a atividade de produção propriamente dita da criação de animais e produção de alimentos).

 

4.1.5.2 - Procedimentos práticos para estimar o custo

Procedimentos práticos para estimar o custo:

  •   Calcular o custo total da atividade leiteira. Ou seja, considerando a produção de leite, a produção de alimentos e a criação de animais como um único centro de custos. Ao fim dos cálculos, devem-se usar critérios adequados para se chegar ao custo do leite.
  •   Usar o período mínimo de um ano para se obter melhores e mais consistentes informações.
  •   Efetuar o cálculo do custo depois de realizada a atividade produtiva, ou seja, de um período passado.
  •   No caso dos insumos para produção de alimentos, deve-se trabalhar apenas com os totais efetivamente consumidos pelas atividades produtivas. Não devem ser considerados, para efeito de cálculo, eventuais estoques de insumos e/ou alimentos (esta observação é válida, embora o pressuposto inicial de cálculo anual dos custos diminua a importância dos estoques na atividade leiteira).
  •   Efetuar os cálculos com valores deflacionados explicitando na metodologia os índices de preços e o mês base de cálculos.
  •   Considerar nos cálculos o preço bruto pago pelos insumos e pelo leite.

 

4.1.5.3 - Componentes do custo da atividade leiteira

Devem ser considerados os seguintes itens:

  •   Alimentos concentrados: rações completas ou componentes para a formulação de rações completas (como farinhas e farelos) adquiridos nos mercados de insumos. Componentes para a formulação de rações completas produzidos na própria fazenda (neste caso, devem ser considerados todos os insumos utilizados para produção dos referidos alimentos, como fertilizantes, defensivos, sementes, horas de trator, combustíveis, mão de obra, armazenamento e outros).
  •  Alimentos volumosos: alimentos produzidos na propriedade e utilizados como volumosos na alimentação do rebanho (neste caso, devem ser considerados todos os insumos utilizados para produção de alimentos, como fertilizantes, defensivos, sementes, horas de trator, combustíveis, mão de obra, armazenamento, transporte e outros). Alimentos adquiridos para finalidade de utilização como volumosos na alimentação dos rebanhos, como fenos, silagens, cana e outros.
  •  Leite para bezerros: o volume de leite destinado à alimentação de bezerros deve ser considerado como item de custo, a preços idênticos aos recebidos pelo produtor na venda do produto.
  •   Suplemento mineral: minerais completos ou componentes para formular suplementos minerais completos.
  •   Medicamentos e vacinais: todos os itens relacionados à prevenção e/ou tratamento de doenças e/ou problemas sanitários no rebanho.
  •   Energia/combustível: neste item são considerados energia elétrica e combustíveis (álcool, gasolina e óleo diesel) desde que utilizados nas atividades relacionadas à atividade leiteira.
  •   Inseminação artificial: todos os materiais utilizados para realização da inseminação artificial, assim como o sêmen e o nitrogênio líquido para reposição nos botijões de armazenamento do produto.
  •   Manutenção e reparos: a) De máquinas e implementos: peças de reposição, óleo lubrificante, filtros, correias e outros componentes adquiridos para manutenção e reparos em máquinas e implementos agrícolas. Considerar também serviços de terceiros para reparos gerais de equipamentos. b) De benfeitorias: material e mão de obra utilizados em reformas de instalações usadas na produção de leite, como estábulos, salas de ordenha, bebedouros e outros. c) De pastagens: insumos, materiais e mão de obra contratada utilizada na reforma de pastagens perenes.
  •   BST: gastos com todos os materiais referentes à compra e aplicação da Somatotropina Bovina (hormônio utilizado em alguns rebanhos para incremento da produção de leite).
  •   Materiais de ordenha: detergentes, toalhas de papel, reagentes e outros materiais destinados à realização da ordenha.
  •   Despesas administrativas: despesas com telefone, computador, impressora, softwares, materiais de consumo de escritório e outros materiais utilizados no gerenciamento da fazenda.
  •   Impostos e taxas: todos os impostos incidentes sobre a atividade leiteira, além de outros eventualmente presentes, como taxa cobrada por associações de criadores e taxas de associações de representação de classe. Assumindo o pressuposto de considerar o preço bruto pago pelo leite, todos os impostos pagos pelo produtor e descontados já em sua nota mensal a partir do laticínio devem ser considerados e agregados neste item.
  • Mão de obra permanente: refere-se a todos os salários e encargos trabalhistas de funcionários contratados de forma permanente e destinados a toda e qualquer atividade vinculada à atividade leiteira.
  •   Mão de obra familiar: é considerada de duas formas concomitantes: a) No desempenho das atividades produtivas: isto é, substituindo a mão de obra contratada em funções como ordenha, manejo de rebanho, produção de forragens e outras. Neste caso, para cada uma das atividades desempenhadas por membros da família, atribui-se salário compatível à remuneração encontrada no mercado para a atividade realizada; b) Na atividade empresarial: outra forma de remuneração da mão de obra do fazendeiro é a sua retirada monetária da atividade, como empresário. Neste caso, atribui-se valor compatível a cada caso estudado, caso haja efetivamente algum tipo de retirada por parte do empresário; c) Mão de obra eventual/serviços prestados: qualquer tipo de serviço prestado por terceiros e que não se refira à manutenção e/ou reparos de máquinas, equipamentos e benfeitorias. Neste item são considerados serviços de assistência técnica, contratação eventual de serviços de máquinas e outros.
  •   Transporte do leite: admitindo que as receitas com a venda do leite estão considerando o preço bruto pago pelo laticínio, é agregado ao cálculo de custo total o valor descontado na folha de pagamento referente ao frete do leite.
  •   Materiais de consumo: qualquer tipo de material utilizado pela mão de obra destinada à atividade leiteira e que não se relacione especificamente a nenhum item até aqui relacionado.
  •   Depreciação: reserva contábil destinada a gerar fundos necessários para substituição de bens de produção de longa duração. Entre os bens passíveis de depreciação estão as máquinas, implementos, benfeitorias e animais de serviço. Em caso de separação entre as atividades de criação de animais e produção de leite, é possível realizar a depreciação das vacas em lactação. O método para cálculo da depreciação não foi determinado, já que todos os métodos resultam (e devem resultar) num mesmo valor final a ser depreciado; de qualquer forma, definiu-se que qualquer que seja o método utilizado este deve estar explicitado na metodologia do trabalho. Um dos métodos que pode ser utilizado é o método de depreciação linear, cuja fórmula é a seguinte:

                              

Onde,
Valor inicial: valor do bem no início do período. No caso de bens já usados, este valor deve ser estimado de acordo com a percepção do produtor e/ou a sinalização do mercado (no caso de existir mercado para bens usados, como tratores e alguns implementos)
Vida útil: normalmente medida em anos ou horas (no caso de tratores). Para o caso de bens já com algum período de uso, a quantificação da vida útil dependerá da percepção do produtor e do padrão de manutenção utilizado em cada um dos casos estudados.
Valor de sucata: assume-se um valor residual, representado por um percentual do valor inicial do bem. Para tanto, sugere-se o uso de alguns valores residuais para bens de capital, no tocante a atividade leiteira, indicados na Tabela 8 a seguir.

Tabela 8. Valor de sucata de alguns bens utilizados na atividade leiteira.
Bem Valor residual (em%)
Veículos 10
Máquinas 10
Implementos 5
Equipamentos 5
Construções 5
Animais de serviço 0
Touros e vacas Valor da venda para o corte
Fonte: Noronha, Silva Júnior e Geraldine, 1999.

Remuneração do capital investido: valor referente à remuneração anual do capital médio investido na atividade leiteira. Neste cálculo é usada a seguinte fórmula:

Remunera-se o capital médio investido em máquinas, implementos, benfeitorias e rebanho a uma taxa em geral de 6% ao ano. Em geral não se remunera o capital investido em terras. Sendo considerada esta remuneração, a taxa utilizada deve ser explicitada nos cálculos.
Remuneração do capital de giro: Entende-se como capital de giro o montante de recursos necessários para o desenvolvimento da atividade leiteira no período em que não exista entrada de capital na forma de receitas provenientes da referida atividade. Considerando que o produtor aufere pelo menos uma receita mensal com a atividade, o capital de giro necessário seria o capital médio gasto em desembolsos efetivos na atividade durante o mês.
Assume-se que se este for capital próprio deve ser remunerado à taxa de 6% ao ano; em caso de ser capital emprestado, deve ser remunerado à taxa obtida no empréstimo ou, no limite, à taxa média de mercado, explicitando-se a taxa utilizada. De qualquer forma, deve ser observada em cada caso a dimensão e a necessidade do capital de giro, para posterior remuneração do mesmo. O cálculo da remuneração sobre o capital de giro deve ser realizado segundo a seguinte fórmula:

Remuneração do capital de giro = (å Desembolsos líquidos mensais) * taxa de juros

Seguro: valor acrescido aos custos totais como pagamento de seguro sobre o capital investido na atividade leiteira. Representa uma taxa anual aplicada sobre o capital médio anual investido, de acordo com a fórmula:

Como regra, assume-se a taxa anual de 0,65% sobre o capital médio investido em máquinas, implementos, benfeitorias, animais de serviço e rebanho. Qualquer outro valor utilizado para a taxa anual de seguro deverá ser explicitado na metodologia do trabalho realizado (por exemplo, para veículos a taxa anual normalmente utilizada é de 5% do valor do bem).

 

4.1.5.4 - Componentes da receita da atividade leiteira

Componentes da receita da atividade leiteira:

  •   Leite para bezerras: assim como faz parte do custo total da atividade leiteira, o volume de leite destinado à alimentação de bezerros deve ser considerado como item de receita, a preços idênticos aos recebidos pelo produtor na venda do produto.
  •   Leite: o volume de leite comercializado no período deve ser multiplicado pelo preço bruto constante na nota fornecida pelo laticínio.
  •   Variação do inventário em rebanho: considera-se como receita os animais produzidos na fazenda e incorporados ao rebanho, não devendo ser considerados os animais adquiridos no mercado. O valor a ser atribuído aos animais criados e incorporados ao rebanho deve ser o de mercado, assumindo-se o mesmo valor para as diferentes categorias animais no início e no fim do período.
  •   Venda de animais: receitas provenientes da comercialização e/ou descarte de matrizes, novilhas e bezerras.
  •   Outras receitas: toda e qualquer receita proveniente da atividade leiteira, como venda de esterco, venda de animais de serviço, venda de sobras de alimentos concentrados e/ou volumosos e outras.

 

4.1.5.5 - Critérios para rateio de custos

Sabe-se que, na maioria das vezes, a propriedade rural não tem no leite a sua única atividade. Desta forma, deve existir um critério para rateio dos itens de custo incidentes em outras atividades além do leite, principalmente componentes como máquinas, implementos, energia elétrica e combustíveis. Os critérios mais utilizados para realização deste rateio são os seguintes:

  • De acordo com o tempo de uso: utilizado principalmente para máquinas e implementos agrícolas, é considerado o critério ideal, pois reproduz fielmente a quantidade utilizada de cada máquina em cada atividade. No entanto, a mensuração do tempo utilizado em cada atividade pode ser difícil e tornar-se imprecisa, o que se constitui numa limitação do método.
  • Participação na renda bruta da propriedade: faz-se o rateio dos gastos com componentes comuns a várias atividades de acordo com a participação percentual das mesmas na renda bruta da propriedade agrícola.
  •  Participação na área total: no mesmo princípio do mecanismo anterior, o rateio pode ser realizado de acordo com a participação das atividades na ocupação da área total da propriedade.
  • Participação na movimentação financeira da propriedade: usando o mesmo princípio, o rateio pode ser realizado de acordo com a participação percentual das atividades no total da movimentação financeira (Custos Totais + Receitas Totais) da propriedade.
    Seja qual for o método utilizado para o rateio, deve ser clara a ideia de que ele tem que ser realizado e o método utilizado deve estar claramente explicitado na metodologia do trabalho.
     

 

4.1.6 - Custo total da atividade e custo do leite

O custo total da atividade leiteira (CT), dado em Reais por ano, é a soma de todos os custos apurados nos itens descritos neste trabalho.

Para efetuar o cálculo do custo do leite, deve-se procurar isolar a produção dos demais setores que fazem parte da atividade leiteira. Propõe-se o uso da seguinte fórmula:

É importante observar que, principalmente em relação a itens correspondentes a desembolsos efetivos, como por exemplo, gastos com alimentos, medicamentos, administração e outros, a nomenclatura utilizada para cada item é irrelevante e sua inclusão nos custos totais é imediata e indiscutível. No entanto, deve-se ter mais atenção em itens como depreciação, remuneração sobre capital e seguro, que não representam desembolsos efetivos e cuja metodologia de cálculo é menos homogênea.

4.1.7 - Referências

AGUIRRE, J. de. Mini estábulo. In: SIMPÓSIO SOBRE MANEJO DE BOVINOS NO TRÓPICO, 4, 1981, Botucatu. Anais... Piracicaba: FEALQ, 1982. p. 104-109.

ASSIS, A. G. de. Sistema de alimentação de vacas em produção. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1982. 43 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 7).

ASSIS, A. G.; CASTRO, F. G.; DUSI, G. A.; NOVAES, L. P.; ENCARNAÇÃO, R. de O. Sistema intensivo de produção de leite para a região de Brasília - DF. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1982. 38 p.

BARCELOS, A. F.; KUGIZAKI, Y.; GUSS, A.; BARBOSA, M. A. Sistema de produção de leite - EMCAPA: resultados do 2º ano. Vitória: EMCAPA, 1986. 23 p. (EMCAPA. Documentos, 31).

BRASIL. Ministério da Agricultura. Normas técnicas e higiênico-sanitárias para leite tipo “B”. Portaria nº 8, de 26 jun. 1984. Brasília, DF: SNAD-SIPA/DILEI, 1984. 24p.

BROCKINGTON, N. R.; TEIXEIRA, N. M.; ASSIS, A. G. de; VEIL, J. M.; PÉREZ, C. A. G.; INFANZÓN, R. R. V. Modelo bioeconômico de sistemas de produção de leite na Zona da Mata de Minas Gerais. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1983. 57 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 8).

COSTA, J. L. da. Sistema intensivo de produção de leite com gado mestiço Holandês x Zebu. In: RELATÓRIO Técnico da Embrapa Gado de Leite 1995-1998. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 1999. (Relatório Técnico, 7). p. 111-120.

COSTA, J. L.; NOVAES, L. P.; MONTEIRO, J. B. N. 25 anos de produção de leite a pasto com gado mestiço. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 22, n. 211, p. 58-65, 2001.

DESCRIÇÃO do sistema de produção de leite a ser implantado no CNP-Gado de Leite. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1976. 19 p.

EMBRAPA (Brasília, DF) Sistemas de produção para bovinocultura leiteira. Batalha: EMBRAPA, 1975. 42p. (EMBRAPA. Sistemas de Produção. Circular, 74)

EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite (Coronel Pacheco, MG). O sistema de produção implantado no CNPGL. Coronel Pacheco, 1978. 55p.

FREIRE, W. J. Construções rurais. In: CORTEZ, L. A. B.; MAGALHÃES, P. S. G. (Ed.). Introdução à engenharia agrícola. Campinas: UNICAMP, 1992. p.137-144. (Série Manuais).

GARCIA-VAQUERO, E. Projeto e construção de alojamento para animais. 2. ed. Lisboa: Litexa-Portugal, 1981. 237 p.

GEMENTE, A. C.; OLIVEIRA, F. M. de; YAMAGUCHI, L. C. T.; SOUZA, R. M. de; BRUZZEGUEZ, I. Desempenho técnico e econômico do sistema de produção de leite do CNPGL. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1980. 20 p. (Embrapa Gado de Leite. Circular Técnica, 5).

GHELFI FILHO, H. Construções de um curral. In: SIMPÓSIO SOBRE MANEJO DE BOVINOS NO TRÓPICO, 4., 1981, Botucatu. Anais... Piracicaba: FEALQ, 1982. p. 110-130.

GOMES, A. T.; BROCKINGTON, N. R. Elaboração, condução e avaliação de projetos de pesquisa em modelos físicos de sistemas de produção de leite: orientações gerais. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1986. 21 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 31).

GOMES, A. T.; CASTRO, F. G. de; ASSIS, A. G. de. Análise técnico-econômica de sistemas de produção de leite. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1986. 34 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 30).

GOMES, A. T.; GEMENTE, A. C.; OLIVEIRA, F. M. de; BRUZZEGUEZ, I. Desempenho do sistema de produção de leite (CNPGL) na época da "seca" (maio a outubro/1978). Coronel Pacheco: EMBRAPA-CNPGL, 1979. 10 p. (EMBRAPA-CNPGL. Comunicado técnico, 3).

GOMES, A. T.; MELLO, R. P. de (Coord.). O sistema de produção implantado no CNPGL. 3. ed. rev. amp. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1985. 76 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 1.).

GOMES, A. T.; OLIVEIRA, F. M. de; BRUZZEGUEZ, I. Desempenho do sistema de produção de leite (CNPGL) na época das “águas” (novembro/1977 – abril/1978). Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1978. 10 p. (Embrapa Gado de Leite. Comunicado Técnico, 2).

GOMES, K. P. L. F1 e mercado de leite orgânico: da escolha dos animais à gestão da propriedade. In: ENCONTRO DE PRODUTORES DE F1: JORNADA TÉCNICA SOBRE UTILIZAÇÃO DE F1 PARA PRODUÇÃO DE LEITE, 3., 2001, Juiz de Fora. Anais... Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 39-47.

GUSS, A.; AGOSTINI, J. A. E.; SOUZA, R. M. de; LOBATO NETO, J.; BARBOSA, M. A.; SOUTO, P. R. L. Sistema de produção de leite implantado na Estação Experimental de Bananal do Norte Cachoeiro de Itapemirim (ES). 2. ed. Cariacica: EMCAPA, 1984. 63 p. (EMCAPA. Documentos, 1).

HOTT, M. C.; CARVALHO, G. R. Caprinocultura na Mata Atlântica: topografia como fator na tomada de decisão. In: FONSECA, J. F. da; BRUSCHI, J. H. (Ed.). Produção de caprinos na região da Mata Atlântica. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite; Sobral: Embrapa Caprinos e Ovinos, 2009. p. 25-35.

INSTALAÇÕES para gado de leite. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 12, n. 135/136, mar./abr. 1986. Edição sobre o tema “Instalações para gado de leite”.

KIEHL, E. J. Fertilizantes orgânicos. Piracicaba: Agronômica Ceres, 1985. 492 p.

LEMOS, A de M.; TEODORO, R. L. Utilização de raças, cruzamentos e seleção em bovinos leiteiros. Coronel Pacheco: Embrapa-CNPGL, 1993. 23 p. (Embrapa-CNPGL. Documentos, 52).

LOBATO NETO, J.; SOUZA, R. M. de; CASTRO, F. G. de; YAMAGUCHI, L. C. T. Sistema de produção de leite do CNP-Gado de Leite: resultados econômicos e zootécnicos do período de novembro/1981 a outubro/1982. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1983. 16 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 10).

MADALENA, F. E.; LEMOS, A. M.; TEODORO, R. L.; BARBOSA, R. T.; MONTEIRO, J. B. M. Dairy production and reproduction in Holstein - Friesian and Guzera crosses. Journal of Dairy Science, Champaign, v. 73, n. 7, p. 1872-1886, 1990.

MATTOS, W. R. S. Sistemas de estabulação livre para bovinos. In: SIMPÓSlO SOBRE PECUÁRlA LEITEIRA, 1., 1977, Águas da Prata. Anais... Campinas: Fac. Med. Vet. e Zoot. USP, 1977. p. 123-139.

MELO FILHO, G. A. de.; CASTRO, F. G. de; LOBATO NETO, J.; SOUZA, R. M. de; TEIXIERA, N. M. Sistema de produção de leite no CNP-Gado de Leite: resultados zootécnicos e econômicos do período de novembro/80 a outubro/81. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1982. 16 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 4).

NASCIMENTO, J.; LEME, P. R.; FREITAS, M. A. R.;MONTAGNINI,M. I.;FREITAS, E. A. N. de; SILVA, L. R. M. da; NOVAES, L. P. Produção de leite com gado mestiço a pasto; um modelo físico. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 16, n. 177, p.28-39, 1993.

NOVAES, L. P.; COSTA, J. L.; SÁ; W. F.; STOCK, L. A; TEIXEITRA, S. R.; BOTREL, M. A; CAMPOS, A. T.; MONTEIRO, J. B. N. Evolução e sustentabilidade de um modelo físico de sistema intensivo de produção de leite a pasto com gado mestiço Holandês x Zebu. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 38., 2001, Piracicaba, SP. Anais... Brasília, DF: Sociedade Brasileira de Zootecnia, 2001. p. 1488-1489

PEIXOTO, R. T. dos. Compostagem: opção para o manejo orgânico do solo. Londrina: IAPAR, 1988. 48 p. (IAPAR. Circular, 57).

PESAGRO (Niteroi, RJ). Primeira aproximação do sistema de produção de bovinos de leite em varzeas umidas: Pinheiral - Municipio de Pirai, RJ. Niteroi, 1983. 35p. (PESAGRO. Circular Tecnica, 7).

RUAS, J. R. M.; MARCATTI NETO, A.; FERREIRA, J. J. Organização e gestão da pecuária bovina da Epamig. In: VALENTE, J.; DURÃES, M. C.; MARTINEZ, M. L.; TEIXEIRA, N. M. (Ed.). Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 87-92.

SERPA, A. Subsídios para um sistema de produção de leite em pastagens. Niterói: PESAGRO, 1983. 28 p. (PESAGRO. Circular Técnica, 6).

SILVA, H. C. M. da. Instalações e manejo do gado leiteiro. In: CURSO DE PECUÁRIA LEITEIRA, 2, 1970, Belo Horizonte. Anais... São Paulo: A. P. N. L., 1970. p.122-135.

SIMPÓSIO INTERNACIONAL O FUTURO DOS SISTEMAS DE PRODUÇÃO DE LEITE NO BRASIL, 1995, Coronel Pacheco. Anais... Coronel Pacheco: EMBRAPA-CNPGL, 1996. 178p.

SISTEMA de produção para gado de leite. Porto Velho: EMBRATER; Embrapa, 1980. 42 p. (Sistema de Produção. Boletim, 219).

SISTEMA intensivo de produção de leite. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, [1996]. Folder.

SISTEMAS de produção para bovinocultura leiteira. [s.l]: EMBRAPA, 1975. 54 p. (Circular, 85). Encontro para elaboração de "Sistemas de Produção para Bovinocultura Leiteira", realizado em Eduardo Gomes-RN, no período de 1 a 5 de dezembro de 1975. Instituições participantes, ANCAR-CE, ANCAR-RN, EMBRAPA, ESAM-RN, SAG-RN, SEA-PE, UFR-PE.
SISTEMAS de produção para gado de leite. Bacabal, MA: Embrapa, 1976. 23 p. (Embrapa. Circular, 118).

SISTEMAS de produção para Gado de Leite. Vitória da Conquista: EMBRATER; Embrapa, 1977. 33 p. (Sistemas de Produção. Boletim, 70).
SISTEMAS de produção para gado leiteiro. Santa Catarina: EMBRATER; Embrapa, 1978. 93 p. (Sistemas de Produção. Boletim, 122).

SOUZA, R. M. de.; LOBATO NETO, J. Sistema físico de produção de leite no CNP -Gado de Leite: análise quinquenal dos resultados zootécnicos e econômicos referentes ao período de novembro/77 a outubro/82. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1986. 33 p. Embrapa CNPGL (Documentos, 28).

SOUZA, R. M. de; YAMAGUCHI, L. C. T.; MELO FILHO, G. A. de. Sistema de produção de leite no CNP-Gado de Leite: resultados zootécnicos e econômicos do período de novembro/1979 a outubro/1980. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1981. 16 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 2).

SOUZA, R. M. de; YAMAGUCHI, L. C. T.; MELO FILHO, G. A. de; OLIVEIRA, F. M. de. O sistema de produção implantado no CNP-Gado de Leite. Coronel Pacheco: 2. ed. Embrapa Gado de Leite, 1983. 39 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 1). Com plantas e formulários.

SOUZA, R.M. de; YAMAGUCHI, L.C.T.; MELO FILHO, G.A.; OLIVEIRA, F.M. de. O sistema de produção implantado no CNP-Gado de Leite. Coronel Pacheco: Embrapa Gado de Leite, 1981. 21 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 1).

TEIXEIRA, N. M. Raças e tipos In: VALENTE, J.; DURÃES, M.C.; MARTINEZ, M.L.; TEIXEIRA, N.M. (Ed.) Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 71-78.

TEODORO, R. L.; MADALENA, F. E.; LEMOS, A de M.; VERNEQUE, R. da S.; MARTINEZ, M. L. Cruzamento tríplice de raças leiteiras: avaliação de cruzamento de Jersey e Pardo-Suíço com vacas Girolando. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 22, n. 221, p. 7-10, 2001.

TEODORO, R. L.; MARTINEZ, M. L.; PIRES, M. de F.; VERNEQUE, R. da S. Cruzamentos. In: VALENTE, J.; DURÃES, M. C.; MARTINEZ, M. L.; TEIXEIRA, N. M. (Ed.) Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 89-104.

VILELA, D. Leite: sua importância econômica, social e nutricional. Minas de Leite, Juiz de Fora, v.3, n. 2, p. 17-18, 2002.

ZONEAMENTO ecológico da pecuária bovina do Estado de São Paulo. Boletim Indústria Animal, São Paulo, v. 32, n. 2, p. 185-237, 1975.
 

4.2 - Exigências ecológicas

4.2.1 - Introdução

Os novos modelos de desenvolvimento da pecuária são caracterizados por sistemas com tecnologias que se baseiam nos princípios da sustentabilidade da produção. Estes novos modelos devem gerar uma pecuária que tem como uma das prioridades o conforto e o bem estar dos animais. Os princípios gerais da criação dos animais em sistemas sustentáveis baseiam-se na ideia de que as espécies e raças dos animais são escolhidas a partir da sua capacidade de adaptação às condições edafoclimáticas de cada propriedade.
 
A partir deste conhecimento é fundamental definir a raça e o manejo da criação observando sempre o comportamento natural dos animais com vistas a obter o máximo de conforto e bem estar, atender suas necessidades em relação ao ambiente e suas exigências nutricionais.
 

4.2.2 - Qual o tipo de gado mais adequado para uma dada região?

Vacas de leite necessitam conseguir, no bioma em que estão inseridas, um conforto fisiológico, dispensando instalações e manejo sofisticados, os quais podem reduzir ou mesmo anular as perspectivas econômicas da exploração leiteira. Tais considerações suscitam a seguinte pergunta: qual o tipo de gado mais adequado, ou seja, com maior predisposição genética para uma dada região? Assim, pode-se dizer que esta aptidão ecológica está condicionada a dois fatores básicos: climático e edáfico.
 
As condições climáticas exercem fortes influências nos bovinos (na verdade, em todos os seres vivos). Diretamente afetam as funções orgânicas envolvidas na manutenção do equilíbrio interno do organismo (homeostasia) e processa-se principalmente pela temperatura do ar, radiação solar e umidade relativa do ar. A influência indireta se dá na qualidade e quantidade de volumoso, no favorecimento ou não de doenças infecto-contagiosas, na ocorrência de endo e ectoparasitas etc.
 
Assim, os fatores climáticos e edáficos indicam a potencialidade do meio físico para a atividade pastoril. As raças de origem europeia (Bos taurus) foram selecionadas ao longo de centenas de anos para viverem e produzirem leite e carne em condições de clima temperado, estando, portanto, bem adaptadas a tal ambiente. As condições mais adequadas para os bovinos de origem europeia correspondem à temperatura média mensal inferior a 20 °C em todos os meses e umidade relativa do ar variando entre 50 e 80%. A temperatura limite sob a qual cai o consumo de alimentos e a produção de leite, está entre 24 e 26 °C para a raça Holandês, entre 27 e 29 °C para Jersey e acima de 29,5 °C para a Pardo-Suiça. A zona de conforto térmico está entre -1 °C e 21 °C, com poucas variações conforme a raça europeia, para animais adultos.
 
Já as raças zebuínas (Bos indicus) foram selecionadas naturalmente para as condições de ambiente tropical da Índia - clima mais quente e até árido. A raça Gir é originária da região ao sul da península de Kathiawar, na costa ocidental da Índia, sob o Trópico de Câncer, em ambiente quente e seco. A raça Guzerá é originária da região norte de Gujarat, território vizinho ao do Gir. A região tem clima muito quente, quase inóspito.
 
Os zebuínos desfrutam no Brasil Central de um ambiente mais adequado que o de sua origem na Índia. A temperatura que limita o conforto térmico dos zebuínos é de 10 °C a 32 °C, com temperatura crítica máxima de 35 °C e mínima de 0 °C. Considerando-se que a produção ou mesmo a sobrevivência de qualquer ser vivo está intimamente relacionada a esses fatores ecológicos, antes de introduzir ou aconselhar qualquer tipo de exploração pecuária para uma determinada região, deve-se fazer uma análise do ambiente onde tal exploração será introduzida. Assim, o zoneamento bioclimático, utilizando um índice de conforto térmico, é um importante recurso zootécnico para aumentar a eficiência da produção, pela distribuição de animais adequados a determinadas regiões.
 

4.2.3 - Índices de conforto térmico

Índices de conforto térmicos têm sido utilizados para melhor avaliar o impacto ambiental sobre os animais. Geralmente, os dois parâmetros ambientais considerados na obtenção desse índice são a temperatura e a umidade relativa do ar, dados que são facilmente disponíveis nas estações climatológicas. O mais conhecido desses índices é o Índice de Temperatura e Umidade (ITU). Existem diferentes equações para calcular o ITU, dentre elas pode ser citada a proposta por McDowell & Jhonston (1971) por considerá-la a mais simples:
 
ITU= 0,72 (tbs + tbu) + 40,6
 
onde:
tbs é a temperatura do bulbo seco;
tbu é a temperatura do bulbo úmido.

Valores de ITU de 70 ou menos são considerados confortáveis; de 75 a 78 estressantes e maiores de 78 os animais são incapazes de manter a temperatura corporal normal. O valor de ITU de 72 constitui o limite acima do qual vacas leiteiras começam a reduzir a produção de leite e o consumo de alimentos 71.
 

4.2.4 - Zoneamentos bioclimatológicos

Em um zoneamento bioclimatológico, baseado no ITU, realizado pela Embrapa Gado de Leite em parceria com a Universidade Federal de Viçosa foi possível identificar áreas na Região Sudeste do Brasil que apresentam condições climáticas adequadas para bovinocultura leiteira de alta produção, onde há a maior concentração de bacias leiteiras no país. Para o Estado do Espírito Santo: a região do Central-Espírito-Santense passa todo o ano livre dos efeitos do estresse calórico, assim como parte da Região Sul do Estado. No Rio de Janeiro, a região do Centro Fluminense é propícia à atividade leiteira; no entanto, em algumas localidades situadas mais ao Norte, a situação é de precaução nos meses de novembro a março. Para Minas Gerais, durante todo o ano as mesorregiões Campos das Vertentes e Sul/Sudeste ficam completamente fora dos efeitos do estresse calórico e, em São Paulo, o Vale do Paraíba permanece durante todo o ano livre dos efeitos do estresse, assim como uma pequena região que se estende para o Sul, com variações nos meses mais quentes. As Figuras 1 a 4 mostram a variação climática, de acordo com o ITU nos meses de janeiro, abril, julho e outubro para a Região Sudeste. Pode-se perceber que nos meses mais quentes existem áreas em que o gado de leite está sujeito à condição de estresse calórico. Nestas situações os produtores devem ficar atentos para adotar medidas estratégicas visando amenizar ou mesmo eliminar o estresse calórico evitando, assim, os prejuízos causados pelo desconforto térmico, como queda da produção.


Figura 1. Distribuição espacial do ITU no mês de janeiro para a Região Sudeste do Brasil.

 


Figura 2. Distribuição espacial do ITU no mês de abril a Região Sudeste do Brasil.

 


Figura 3. Distribuição espacial do ITU no mês de julho a Região Sudeste do Brasil.

 


Figura 4. Distribuição espacial do ITU no mês de outubro a Região Sudeste do Brasil.

Para o Estado do Espírito Santo o zoneamento bioclimático mostrou que as regiões Norte e Noroeste apresentam-se como áreas de riscos para animais de alta produtividade no período de janeiro a maio e de outubro a dezembro, com ITU variando de 72 a 78. Na parte mais Central e parte Sul do Estado identificou-se uma região propicia à criação de gado leiteiro de origem europeia, devido à altitude e por permanecerem fora dos efeitos do estresse durante todo o ano. Do mesmo modo, no Estado do Rio de Janeiro, a região serrana na mesorregião do Centro Fluminense é uma área que apresenta condições adequadas para bovinocultura leiteira uma vez que o ITU variou de 70 a 72. Em localidades mais ao Norte, onde o ITU variou de 72 a 78 nos meses de novembro a março, assim como em todo o litoral do Estado a situação é de alerta para os produtores, uma vez que o ITU ultrapassou o limite crítico para produção de leite.

Para o Estado de Minas Gerais, de setembro a novembro, as mesorregiões Metropolitana de Belo Horizonte, Zona da Mata e Oeste permanecem livres do estresse calórico e, a partir de dezembro, apenas as mesorregiões Metropolitana de Belo Horizonte, e localidades mais altas da Zona da Mata e Oeste Mineiro permanecem propícias a atividade leiteira. As regiões mais críticas, nos meses mais quentes e nos meses de transição (novembro a março, e abril e setembro) são: Norte, Noroeste, Jequitinhonha (áreas situadas mais ao norte), Vales do Mucuri e Rio Doce, Central Mineira, Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba parte mais ao Sul, com ITU variando de 72 a 78.
 

4.2.5 - Considerações finais

Em São Paulo as mesorregiões mais críticas são: Oeste e Norte Paulista, com ITU variando de 72 a 78 nos meses de janeiro a março, novembro e dezembro e no Litoral Paulista de janeiro a março.

O cruzamento de animais zebuínos com animais da raça Holandês é utilizado como opção para unir a rusticidade do Zebu com a produtividade do holandês visando a produção econômica de leite em condições tropicais e subtropicais.

No verão, os animais 1/2 sangue apresentam superioridade termorregulatória enquanto as vacas 3/4 HZ e 7/8 HZ demonstram maior dificuldade em manter a sua homeotermia em relação às 1/2 sangue HZ. Outro fator a ser considerado em relação à maior capacidade de termorregulação das vacas 1/2 sangue é demonstrado pela normotermia (manutenção da TR dentro da normalidade) destes animais em condições climáticas adversas enquanto animais 3/4 HZ e 7/8 HZ ultrapassaram o limite da normalidade. Com base na TR, foram estimados valores críticos superiores de ITU iguais a 80, 77 e 75 para os grupos genéticos 1/2, 3/4 e 7/8 HZ, respectivamente (AZEVEDO et al.,2005).

As vacas mestiças por estarem mais adaptadas ao ambiente tropical podem ser altamente produtivas se selecionadas e manejadas adequadamente. Assim, estes animais têm muito a contribuir para a pecuária leiteira no País com o fornecimento de um alimento tão essencial ao desenvolvimento da população.
 

4.2.6 - Referências

AZEVEDO, M.; PIRES, M. F. A.; SATURNINO, H. M. et al. Estimativa de níveis de críticos superiores do índice de temperatura e umidade para vacas leiteiras ½, ¾ e 7/8 Holandês-Zebu em lactação. Revista Bras. Zootec., v. 34, n. 6. p. 2000-2008, 2005.

BARBOSA, O. R.; SILVA, R. G.; SCOLAR, J.; GUEDES, J. M. F. Utilização de um índice de conforto térmico em zoneamento bioclimático da ovinocultura. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIOMETEOROLOGIA, 1., 1995, Jaboticabal. Anais... Jaboticabal, 1995. p. 251-259.

BRUNINI, O.; PINTO, H. S.; ZULLO, J. et al. Sistema de aconselhamento Agrometeorológico. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE BIOMETEOROLOGIA, 2., 1998, Goiânia. Anais... Goiânia, 1998. p. 15-37.

CAMPOS, A. T.; PIRES, M. F. Á.; VERNEQUE, R. S.; CAMPOS, A. T. Prognóstico de declínio na produção de leite em função do clima na Região de Goiás. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 38., 2001, Piracicaba. Anais... Piracicaba: FEALQ, 2001. v. 1. p. 11-13.

McDOWELL, R. E.; JHONSTON, J. E. Research under field conditions. In: A GUIDE to environmental research on animals. Washington: National Academy of Sciences, 1971. p. 306-359.

PIRES, M. de F. Á.; SILVA JÚNIOR, J. L. C. da; COSTA, L. C.; CAMPOS, A. T. de. Zoneamento bioclimatológico de Gado no Sudeste do Brasil. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2003. Disponível em: <http://www.cnpgl.embrapa.br/nova/informacoes/ zoneamentos/2003/menuzoneamtoSudGado.php>. Acesso em: 27 jul. 2011.

PIRES, M. F. Á.; CABRAL, J. L.; COSTA, L. C.; NOVAES, L. P.; CAMPOS, A. T.; FERNANDES, E. N.. Mesoregiões do Estado de Minas Gerais propícias à produção de leite, durante o verão, tendo como referência o índice de temperatura e umidade (ITU). In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 40., 2003, Santa Maria. Anais... Viçosa: SBZ, 2003. 1 CD-Rom.

PIRES, M. F. A.; CAMPOS, A. T. Relação dos dados climáticos com desempenho animal. In: RESENDE, H.; CAMPOS, A. T.; PIRES, M. F. A. (Ed.). Dados climáticos e sua utilização na atividade leiteira. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2003. p. 103-114.

PIRES, M. F. Á.; SILVA JÚNIOR, J. L. C.; CAMPOS, A. T.; COSTA, L. C.; NOVAES, L. P. Zoneamento bioclimatológico para a pecuária leiteira. In: SUSTENTABILIDADE PARA PECUÁRIA LEITEIRA, 2003, Araxá. Gestão Ambiental e Políticas para o Agronegócio do Leite: anais. Juiz de Fora: Embrapa gado de Leite, 2003. v. 1, p. 205-226.

RIBEIRO, A. C.; GUIMARAES, P. T. G.; ALVAREZ V., V. H. (Ed.). Recomendação para o uso de corretivos e fertilizantes em Minas Gerais: 5a. aproximação. Viçosa, MG: Comissão de Fertilidade do Solo do Estado de Minas Gerais, 1999. 359 p.

SILVA JÚNIOR, J. L. C.; PIRES, M. F. Á.; COSTA, L. C.. Número de horas de estresse nas mesoregiões do estado de Minas Gerais, durante o verão, tendo como referência o índice de temperatura e umidade (ITU), para a produção de leite. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE AGROMETEOROLOGIA, 12., 2003, Santa Maria. Anais... Santa Maria: UNIFRA; SBA; UFSM, 2003. v. 2, p. 601-602.
 

4.3 - Manejo de solo e planta aplicados às pastagens

4.3.1 - Introdução

O manejo correto do solo é um dos pontos principais para o sucesso na atividade agropecuária, especialmente nos sistemas intensivos de produção de leite a pasto. Assim, a amostragem do solo, com o objetivo de conhecer sua fertilidade natural, constitui-se no primeiro passo a ser seguido pelo produtor de leite, para possibilitar que técnicos habilitados possam recomendar de forma racional a calagem e a adubação a serem realizadas considerando a cultura forrageira que será estabelecida na área. Após a amostragem do solo, o produtor deverá encaminhar a amostra a um laboratório credenciado, para que se determine a sua fertilidade. O passo seguinte consiste do preparo do solo. Após essa prática, o produtor poderá realizar a adubação de plantio, efetuar o plantio propriamente dito e usar a pastagem, manejando-a adequadamente. A calagem deverá ser realizada antes do preparo do solo.

4.3.2 - Manejo do solo

4.3.2.1 - Escolha da área adaptada ao cultivo de forrageiras

A escolha da área a ser cultivada em uma propriedade rural constitui um dos principais pontos no sucesso da exploração agrossilvipastoril. Esta escolha é importante, pois permite selecionar forrageiras ou qualquer outra espécie vegetal, adaptadas a cada um dos diferentes segmentos da paisagem da propriedade. A Figura 1 descreve a situação de cada um desses segmentos. Vale ressaltar que esta situação, embora sendo mais característica da Região Sudeste, pode também ser encontrada nas demais regiões fisiográficas do País.


Figura 1. Topossequência característica da Região Sudeste do Brasil (Adaptado de RESENDE, 1995).

A seguir, é descrito cada um desses segmentos, localizando alguns aspectos relacionados ao seu uso, objetivando a exploração animal.

  • A - Leito Menor. Caracterizado pela presença de fontes de água da propriedade, normalmente constituído por olhos d'água, minas d'água, córregos, riachos e rios, açudes etc.
  • B - Leito Maior. Este segmento é caracterizado por inundações periódicas, ora permanecendo encoberto de água por períodos prolongados, ora inundados, porém com escoamento rápido do excesso de água. Além disso, sobressai por um enriquecimento de sua fertilidade natural, mercê das constantes inundações, que depositam grande quantidade de colóides na superfície do solo. Em decorrência desses frequentes alagamentos, este segmento apresenta fortes limitações relativas à drenagem e à mecanização motorizada. Normalmente é utilizado com forrageiras resistentes ao encharcamento, citando como exemplo: capim-angola, estrela africana, tangola, coast-cross e setária. Por ser o capim-elefante uma planta que não se adapta a solos com problemas de drenagem, o leito maior não é recomendado para o seu cultivo. Da mesma forma, este segmento não é recomendado para o cultivo de forrageiras dos gêneros Panicum ou Brachiaria.
  • C - Terraço. É também um segmento plano da paisagem, porém mais elevado que o leito maior, não sujeito às inundações. Caracteriza-se também por apresentar fertilidade natural bastante elevada, além de não apresentar impedimento à moto-mecanização. Em geral, é utilizado com as culturas de milho, sorgo, feijão, arroz de sequeiro etc. Se utilizado para pastagens, deverá ser cultivado com espécies que apresentem alto potencial de produção de biomassa, destacando-se: capim-elefante, Panicum maximum, estrela africana, coast-cross, milho, sorgo e cana-de-açúcar.
  • D – Meia-encosta. Sua forma côncava facilita a deposição de partículas de solo, removidas dos segmentos (E) e (F) pelo processo de erosão, enriquecendo sua fertilidade natural. Em geral, pode ser cultivado utilizando-se tração animal e/ou mecanizada. Por apresentar maior fertilidade natural e possibilidade de mecanização, deverá ser cultivado com forrageiras que apresentem alto potencial de produção de biomassa.
  • E - Morro (Área côncava e convexa). Caracterizado por solos de baixa fertilidade natural e forte impedimento à mecanização motorizada.
  • Em razão desta baixa fertilidade natural e declive acentuado, é recomendado para cultivos com forrageiras que apresentem características de tolerância a fatores de acidez de solo; adaptação à baixa fertilidade natural; rapidez na cobertura do solo, após plantio; boa capacidade de produzir sementes, dentre outras. As forrageiras mais indicadas para serem utilizadas neste segmento são: braquiárias (especialmente B. ruziziensis e B. decumbens), Hyparhenia rufa (capim-jaraguá) e capim-gordura (Melinis minutiflora), dentre outras. Salienta-se, ainda, que o cultivo desta área implica utilização de práticas conservacionistas de manejo do solo.
  • F - Topo do Morro. Caracteriza-se por apresentar, geralmente, baixa fertilidade natural; entretanto permite a utilização de mecanização por tração motorizada.

Neste segmento, poderão ser cultivadas forrageiras adaptadas a solos de baixa fertilidade e acidez elevada. Poderá também ser cultivado com forrageiras que apresentem alta capacidade de produção de biomassa; neste caso haverá necessidade de se elevarem os níveis de calagem e de adubação de plantio e de manutenção.

O capim-elefante, assim como as cultivares do gênero Panicum, bem como as forrageiras milho, sorgo e cana de açúcar, recursos forrageiros utilizados como suplementos volumosos para a época seca do ano, são plantas extremamente sensíveis ao encharcamento do solo. Assim, as áreas da propriedade sujeitas a inundações ou elevação do lençol freático, como é o caso do segmento B, apresentado na Figura 1, não são indicadas para o cultivo dessas forrageiras. Além dessa limitação, áreas com declive acima de 25 a 30% (segmento E) não devem também ser utilizadas. A não-recomendação das áreas de relevo mais acidentado deve-se à dificuldade de mecanização, bem como às perdas de solo e água pela erosão, e pelas dificuldades de adoção de práticas racionais de conservação de solo.

Assim, as áreas da propriedade mais indicadas ao cultivo destes recursos forrageiros são o terraço e a meia-encosta (segmentos C e D), áreas estas não-sujeitas às inundações. Essas áreas, além de não apresentarem impedimento à mecanização, são também as que apresentam os solos de fertilidade natural mais elevada.
 

4.3.2.2 - Amostragem de solo

A amostragem do solo, para fins de diagnóstico de sua fertilidade, constitui uma das práticas mais importantes do processo produtivo, principalmente, quando se pensa na utilização intensiva e racional dos solos. Pela amostragem do solo e posterior análise laboratorial para determinação dos conteúdos dos nutrientes e outros elementos minerais, é possível fazer uma recomendação racional e econômica de adubos e corretivos.

A importância de uma análise de solo depende da exatidão de cada uma das seguintes fases:
a) coleta de amostra;
b) extração e determinação dos nutrientes “disponíveis”;
c) interpretação dos resultados das análises; e
d) recomendação de adubos e corretivos.

Em cada uma destas fases poderão ocorrer erros, que afetarão o resultado da análise e, por conseguinte, a recomendação de adubos e corretivos para mais ou menos do que o necessário. O erro, devido a uma amostragem mal conduzida, é geralmente o mais significativo, porque não pode ser corrigido nas fases subsequentes. Uma amostragem mal feita pode facilmente causar erros de 50% ou mais na avaliação da fertilidade de um solo. Daí a importância da orientação técnica de um profissional habilitado.

A coleta de amostras representativas é essencial para a correta recomendação de adubos e corretivos e possibilita a obtenção de rendimentos econômicos.
A amostragem do solo é, pois, a fase mais crítica do programa de recomendações de adubação com base na análise do solo, pelos seguintes motivos:

  • O solo é um corpo heterogêneo em propriedades químicas;
  • A heterogeneidade química do solo é acentuada pelas práticas de adubação, calagem e de manejo cultural;
  • Insuficiência de conhecimento dos princípios de amostragem de solos por parte da pessoa que realiza amostragem; e
  • Insuficiência de informações complementares para a interpretação de análise como: adubação, calagem, rendimento de cultivos anteriores, topografia etc.
    É importante destacar que a amostra encaminhada ao laboratório para análise, deve ser representativa da área a ser cultivada, já que não é possível analisar a área inteira a ser adubada ou a receber calagem. Assim, a amostra deve ser coletada da melhor maneira possível, de forma a refletir com fidelidade as condições de fertilidade da área específica.
    Devem-se salientar sete aspectos importantes na amostragem do solo:

4.3.2.2.1 - Seleção da área para cada amostragem

Cada área a ser amostrada deve ser a mais uniforme possível, considerando os seguintes aspectos: cor do solo, posição na encosta, vegetação existente, textura do solo, drenagem, presença de pedras, pedregulhos e cascalho e histórico da área. Ao se amostrar uma determinada área de solo, não se devem misturar amostras de um solo de coloração acinzentada com amostra de solo de coloração avermelhada; amostra de solo de uma baixada com amostra de solo de área amorreada. Em cada uma destas situações, deverão ser feitas coletas individualizadas, permitindo assim, maior racionalidade nas recomendações de corretivos e adubos.

4.3.2.2.2 - Determinação da época de amostragem

A amostragem do solo deverá ser feita após o final da época chuvosa, sendo para a Região Sudeste os meses de abril/maio os mais indicados. Até pouco tempo recomendava-se duas amostragens anuais, sendo uma no final e outra no início da época chuvosa. Entretanto, como os resultados obtidos, quase sempre, apresentam valores semelhantes, um grupo de técnicos pertencentes a diversas instituições de ensino, pesquisa e extensão do Estado de Minas Gerais, que compõem a Comissão de Fertilidade de Solo do Estado de Minas Gerais (CFSEMG, 1999), optou por recomendar a realização de uma única amostragem. Assim, a amostragem feita no final da época chuvosa, além de permitir conhecer a fertilidade natural do solo, reduz o custo de implantação da pastagem, por reduzir o número de amostragens a serem feitas. Vale a pena ressaltar que a amostragem feita nesta época possibilita ao produtor adquirir corretivos e fertilizantes nos meses de entressafra (junho/julho) quando, geralmente, o preço destes insumos é menor.

4.3.2.2.3 - Número de amostra simples

Para se proceder à amostragem do solo, percorre-se em zigue-zague a área que se deseja avaliar, coletando-se de 20 a 30 amostras simples por gleba para formar uma amostra composta. Em áreas (glebas) homogêneas, pode ser considerada, para efeito de amostragem, uma área entre 10 e 20 hectares.

Conforme mencionado anteriormente é muito importante subdividir a área a ser amostrada, de modo que esta seja a mais homogênea possível. Nesta subdivisão, deve-se levar em conta a vegetação, a posição topográfica (topo de morro, meia-encosta, baixada etc.), as características perceptíveis do solo (cor, textura, condição de drenagem, produtividade da cultura anterior, uso de fertilizantes e corretivos etc.). Portanto, os limites de uma gleba de terra para amostragem não devem ser definidos exclusivamente pelo tamanho da área (hectares), mas, sim, pelas características mencionadas, que determinam sua homogeneidade. Para maior eficiência, não amostrar glebas superiores a dez hectares. Assim, áreas amorreadas não devem ser misturadas com áreas de baixadas, da mesma forma que numa área amorreada, por exemplo, não se devem misturar amostras que tenham cores muito diferentes. Estes cuidados são importantes, pois permitem obter resultados mais representativos da fertilidade natural do solo.

Mesmo que a área a ser amostrada seja a mais uniforme possível, recomenda-se trabalhar, para cada amostra composta, com área inferior a dez hectares. Assim, se existe uma área uniforme de 20 hectares a ser amostrada, recomenda-se dividi-la em duas glebas, obtendo-se assim duas amostras compostas.
 

4.3.2.2.4 - Profundidade de amostragem

Na maioria das culturas, a profundidade de amostragem é de 0 a 20 cm. Dependendo da situação, é possível que a amostragem deva ser feita em outras profundidades. Para pastagens já estabelecidas, por exemplo, recomenda-se a amostragem na camada de 0 a 5 cm, ou até 0 a 7 cm. Quando necessário, pode-se retirar outra amostra composta de 5 a 20 cm ou de 7 a 20 cm. Para áreas novas, principalmente quando se pretende a implantação de culturas perenes, como é o caso das pastagens, recomenda-se coletar as amostras simples nas profundidades de 0 a 20, 20 a 40 e 40 a 60 cm. As amostras simples das diferentes camadas devem ser coletadas no mesmo ponto e em igual número, obtendo-se amostras compostas para cada camada. A determinação da profundidade de amostragem deverá ser baseada nas sugestões de um técnico.

4.3.2.2.5 - Coleta, homogeneização e remessa da amostra ao laboratório

Estas amostras retiradas são colocadas em um balde seco e limpo, colocadas para secar, destorroando em seguida a massa de solo proveniente destas amostras. Depois de destorroada e homogeneizada esta massa de solo, retira-se uma quantidade de 300 a 500 gramas, que são colocados em saco plástico limpo, identificando-a (Figuras 2 e 3), para envio ao laboratório. É importante ressaltar que além da análise química do solo, também deve ser solicitada a análise textural, uma vez que a recomendação da necessidade de calagem e de fósforo depende da mesma.

                
Figura 2. Ficha de identificação da amostra de material de solo.


Figura 3. Formulário de informações complementares a ser enviado ao laboratório.

Observações:

  • Existem outros tipos de formulários que também poderão ser utilizados quando do envio das amostras aos laboratórios;
  • Não usar, em hipótese alguma, sacos de adubos, mesmo que bem lavados, para o acondicionamento das amostras;
  • Tanto a etiqueta de identificação da amostra composta, quanto o formulário de informações complementares, deverão acompanhar a amostra de solo enviada ao laboratório;
  • As amostras deverão ser encaminhadas a laboratórios de comprovada idoneidade

Cuidados especiais na amostragem

  • Não retirar amostras simples próximas a casas, brejos, voçorocas, árvores, sulcos de erosão, formigueiros, caminho de pedestre etc.;
  • Nunca colocar as amostras compostas em embalagens usadas ou sujas, como latas de soda, saquinhos de leite, sacos de adubos, de calcário, de cimento, embalagens de defensivos etc.;
  • Após a remessa da amostra a um laboratório credenciado, este irá processá-la visando à sua determinação, conforme se segue.

 

4.3.2.2.6 - Análise do solo

Esta operação é desenvolvida em laboratórios credenciados, pelo uso de extratores químicos, e posterior determinação quantitativa do elemento, na solução do solo. O extrator a ser usado deverá apresentar uma boa correlação com a capacidade de extração (absorção) de nutrientes pelas plantas. Assim, um bom extrator deve simular o que a planta é capaz de absorver dos elementos essenciais (nutrientes).
 
Observação:

  • É de suma importância que o laboratório ao encaminhar o resultado de análise de solo ao produtor rural, informe qual extrator foi utilizado. Esta informação é importante, pois para cada extrator, existem tabelas apropriadas para determinação dos níveis críticos dos principais nutrientes.

4.3.2.2.7 - Interpretação do resultado da análise do solo

Esta é uma das fases mais difíceis e onerosas de um programa de análises de solo e recomendação de corretivos e fertilizantes. Esta etapa deve ser desenvolvida por um técnico, baseada nos padrões de interpretação de análise de solo disponíveis no País. Preparo do solo.

Antes de iniciar o preparo do solo, deve-se fazer uma amostragem para determinar a fertilidade e permitir uma recomendação racional de corretivos e fertilizantes.

O preparo do solo é uma operação importante quando se pretende estabelecer uma pastagem. O bom preparo do solo, a correção da acidez e a adubação racional garantem um ambiente adequado para a germinação das sementes ou para a brotação de gemas de forrageiras que se propagam por mudas. O preparo do solo deve ser feito com o objetivo de deixá-lo suficientemente destorroado, solto e uniforme. Desta forma, uma aração, seguida de uma ou duas gradagens e da sulcagem (para forrageiras que se multiplicam por mudas) constituem operações importantes para a garantia do estabelecimento da forrageira.

Quanto mais rápido for a germinação e o estabelecimento da forrageira, mais cedo o produtor poderá utilizar a pastagem para a alimentação animal.

Em situações em que há necessidade de se fazer duas arações, recomenda-se que a primeira deva ser rasa, para destruir os restos culturais, enquanto a segunda deverá ser feita numa profundidade de 15 a 30 cm (RODRIGUES & REIS, 1993).

Havendo necessidade de calagem, esta deverá ser feita com antecedência mínima de 60 dias do plantio (com o solo úmido), utilizando-se calcário dolomítico. Ela deverá ser feita a lanço, sobre toda a área, antes da aração.

Outro ponto importante é o estabelecimento de pastagens de capim-elefante, ou cultivares dos gêneros Panicum e Cynodon, em áreas anteriormente cultivadas com braquiárias.

Segundo observações feitas em fazendas particulares, o custo de manutenção dessas pastagens é bastante aumentado, em decorrência das constantes capinas e/ou aplicações de herbicidas para controle de braquiárias. Assim, recomenda-se trabalhar a área pelo menos por dois anos, utilizando-se culturas anuais, visando reduzir a população de sementes de braquiária e, com isto, reduzir o custo de manutenção dessas pastagens.

Também merece destaque o estabelecimento de pastagens de capim-elefante em áreas sujeitas à erosão. Neste caso, o preparo do solo deverá ser precedido de práticas conservacionistas. Segundo Castilhos (1987), em solos com declive de até 3%, o plantio deverá ser feito com os sulcos abertos em curva de nível; em declividade entre 6 e 12%, deve-se proceder à abertura de terraços; e em solo com declividade de 12 a 15%, recomendam-se terraços com faixa de retenção.

O manejo de solo em áreas de relevo acidentado constitui prática importante durante o estabelecimento de forrageiras, uma vez que o manejo mal conduzido acarretará perdas apreciáveis de solo, aumentando ainda mais sua degradação. Dependendo da espécie forrageira a ser implantada, há necessidade do estabelecimento de práticas conservacionistas, tais como: terraços e cordões de contorno.

Para exemplificar, na Figura 4 são apresentados resultados de perda de solo por erosão, numa pastagem degradada de capim-gordura, com aproximadamente 40% de declive em função dos tratamentos de manejo de solo que consistiram de diferentes proporções de área preparada.

Esta é uma das fases mais difíceis e onerosas de um programa de análises de solo e recomendação de corretivos e fertilizantes. Esta etapa deve ser desenvolvida por um técnico, baseada nos padrões de interpretação de análise de solo disponíveis no País.


Figura 4. Perdas relativas de solo por erosão, comparando-se sistemas de preparo do solo para a recuperação de pastagens.
Fonte: Saraiva (1981).

Verifica-se que no preparo A, onde o solo permaneceu durante todo o período de avaliação descoberto, a perda relativa de solo foi de 100%, ao passo que nos outros dois tratamentos as perdas de solo sofreram redução bastante expressiva.

No preparo B, onde o solo foi totalmente preparado (aração e gradagem, seguido de adubação e plantio a lanço de capim-gordura), a perda de solo ao final do período experimental reduziu em 58%, em relação ao tratamento A. Quando o solo foi preparado em faixas e em nível, adubado e seguido de semeadura da forrageira (preparo C), cujas áreas preparadas corresponderam a um terço da área total, as perdas de solo reduziram em média 93%. Esses resultados confirmam a importância da cobertura vegetal do solo, no controle da erosão e, principalmente, a manutenção de faixas de retenção, durante as operações de preparo do solo para a formação de pastagens em áreas declivosas.

A redução ocorrida no preparo de solo C é de extrema importância não só para a pastagem, pois evita que haja perdas de nutrientes e água durante o processo erosivo, mas, principalmente, por manter-se quase que inalterado, do ponto de vista de fertilidade natural, o solo, um recurso natural não-renovável.

Do ponto de vista prático, vale a pena destacar que as faixas devem ter largura média de dois metros. Caso a declividade do solo seja menor, pode-se aumentar a largura da faixa a ser preparada. Essa largura facilita a operação de gradagem do solo, uma vez que as grades de tração animal têm, em média, dois metros de largura.

Além disso, convém ressaltar que, dependendo dos resultados da análise do solo, há necessidade de se fazer recomendações de calagem e adubação nas faixas a serem preparadas.

Na Embrapa Gado de Leite, observou-se que, ao se utilizar no processo de recuperação uma forrageira com grande capacidade de produzir sementes, como é o caso das braquiárias, as faixas não-preparadas tiveram sua cobertura vegetal (em geral capim-gordura), totalmente substituída pela braquiária.

A Figura 5 apresenta com detalhes o processo de estabelecimento em faixas, em áreas declivosas.


Figura 5. Plantio de forrageiras em áreas montanhosas, por meio de faixas (a) cultivadas em nível e intercaladas por faixas de retenção (b), não-cultivadas.
Fonte: Cóser & Cruz Filho, (1989).

Dependendo da espécie forrageira a ser implantada, especialmente se for uma forrageira “agressiva”, como é o caso das braquiárias, as faixas poderão ser substituídas por sulcos em nível, alternados com áreas não-preparadas. A escolha de faixas ou sulcos dependerá da declividade do terreno. Sugerem-se sulcos em terrenos muito íngremes, onde o preparo das faixas é dificultado. O preparo de solo em áreas declivosas utilizando sulcos em nível é também bastante usado para o estabelecimento de leguminosas forrageiras.

Observação:
Em hipótese alguma se deve utilizar grade aradora acoplada a trator de esteira, no sentido morro abaixo, morro acima. Utilizando esta estratégia o solo fica ainda mais exposto aos processos erosivos.

4.3.3 - Calagem e adubação de plantio

4.3.3.1 - Calagem

A calagem tem como principal objetivo neutralizar o alumínio tóxico presente na solução do solo, responsável direto pela sua acidez.

É importante ressaltar que as forrageiras tropicais, utilizadas na maioria dos sistemas de produção de leite e/ou carne do País, são medianamente tolerantes a fatores de acidez do solo e, portanto, não requerem grandes quantidades de calcário por ocasião do plantio, ou mesmo durante a fase de utilização da pastagem pelos animais. O calcário é um insumo barato, mas se o produtor tiver que implantar ou reformar áreas extensas, o investimento realizado na operação da calagem será alto, em função da quantidade total utilizada.

Entretanto, não se deve negligenciar esta importante característica que as forrageiras tropicais apresentam, qual seja a de tolerância mediana a fatores de acidez.

De acordo com CFSEMG, 1999, o método mais indicado para a recomendação de calagem para o Estado de Minas Gerais, e, por analogia, para toda a Região Sudeste e parte do Centro-Oeste deverá basear-se nos teores de alumínio (Al3+) e de cálcio mais magnésio (Ca2+ + Mg2+), embora também possa ser usado o método que se baseia na porcentagem de saturação de bases (V%).

No primeiro caso, a equação que determina a quantidade de calagem (NC) a ser utilizada, considerando-se o PRNT de 100% é: NC = Y (Al3+)+ [X – (Ca2+ + Mg2+)]. No segundo caso, considerando-se a saturação de bases (V%), o valor considerado para efeito de quantificar a necessidade de calagem é de no máximo 60%.

O valor Y é variável em função da capacidade tampão da acidez do solo e que pode ser definido de acordo com a textura do solo. Assim, em solos arenosos, ele assume valores de 0 a 1; em solos de textura média, valores de 1 a 2; em solos argilosos valores de 2 a 3, e em solos muito argilosos, valores de 3 a 4. O valor X é variável em função dos requerimentos nutricionais de cálcio e magnésio das culturas. Para obter estes valores, consulte o manual da CFSEMG, 1999. O encaminhamento dos resultados da análise de solo a um técnico da assistência técnica pública e/ou privada e extensão rural permitirá a recomendação racional de calcário e fertilizantes.

Vale a pena salientar que ambas as opções relativas à recomendação de calcário são baseadas na capacidade da planta em responder ao corretivo aplicado.

O calcário deverá ser aplicado a lanço sobre toda a área, com uma antecedência mínima de 60 dias do plantio, seguido de uma aração ou de uma gradagem. Em sistemas irrigados a calagem poderá ser feita com antecedência mínima de 15 dias da época do plantio.

A seguir é apresentado um exemplo sobre necessidade de calagem (NC) para se corrigir a camada de 0 – 20 cm.

1) Método do Al e Ca + Mg trocáveis
A quantidade de calcário a ser aplicada é baseada nos teores de Al e Ca + Mg, obtidos mediante análise química do solo.

NC = Y (Al3+)+ [X – (Ca2+ + Mg2+)]

O valor Y varia com a textura do solo, enquanto o valor X é variável em função da exigência da cultura. Assim, Y e X podem admitir os seguintes valores.

Obs. Para as gramíneas tropicais, X assume o valor 2.

Exemplo: Al3+ = 1,1 cmolc/dm3 equivalente a meq/100 cm3
Ca2+ + Mg2+= 0,6 cmolc/dm3 equivalente a meq/100 cm3
Teor de argila = 36% (Nesse caso, Y admite valor 3)
NC = [(3 x 1,1) + (2 - 0,6)] = 4,7 t/ha de calcário, com PRNT 100%
Obs.: Se o calcário tiver o PRNT de 80%, a quantidade a ser aplicada é de:

vale ressaltar que se o solo apresentasse textura média (15 a 35% de argila), e com os mesmos teores de Al e Ca + Mg, a quantidade de calcário a ser aplicada, com PRNT de 100%, reduziria para 3,6 t/ha, isto porque Y admitiria o valor 2.

2) Método da saturação de bases
Neste método, a calagem é calculada para elevar a saturação de bases (V%) da capacidade de troca de cátions a pH 7,0, a valores desejados de acordo com a cultura de interesse, sendo a necessidade de calagem calculada por:

NC = necessidade de calcário em toneladas/ha, considerando-se a camada de incorporação de 0-20 cm e calcário com PRNT 100%.

T = capacidade de troca de cátions do solo a pH 7,00 = cmolc/dm3 de Ca2++ Mg2++ K++ H+ + Al3+.
V2 = porcentagem de saturação de bases (%) desejada para a cultura em questão (obtida por dados de pesquisa).

onde
SB = soma de bases = Ca2++ Mg2++ K+ (cmolc/dm3 de solo)
Exemplo: T = 10,8 cmolc/dm3
V2 = 60%
V1 = 20%

para uma incorporação a 20 cm de profundidade.

Obs.: Se o calcário tiver um PRNT de 80%, a quantidade a ser aplicada ao solo será de:

É importante destacar que as gramíneas tropicais apresentam tolerância moderada à saturação de alumínio; portanto, recomendação de calagem, utilizando valores de V2 elevados, poderá redundar em aumentos exagerados no custo de implantação da pastagem, além de promover alterações substanciais na disponibilidade de alguns nutrientes.

Convém destacar que, dependendo da região fisiográfica e do Estado, existem outros métodos de recomendação de calagem que também podem ser utilizados.
 

4.3.3.2 - Adubação de plantio

Com referência à adubação de plantio, a Embrapa Gado de Leite recomenda apenas a utilização do fósforo, uma vez que o nitrogênio e o potássio, utilizados durante esta fase, podem ser supridos pela matéria orgânica que será mineralizada, disponibilizando estes nutrientes para o crescimento inicial das plantas. A recomendação da adubação fosfatada de plantio prende-se ao fato de ser o fósforo o nutriente mais importante durante as fases de germinação e estabelecimento da forrageira. Resultados de pesquisa conduzidos pela Embrapa Gado de Leite com capim-elefante cultivar Napier mostraram que a quantidade de fósforo a ser aplicada por ocasião do plantio varia de 100 a 120 kg/ha de P2O5, correspondentes a 500 a 600 kg/ha de superfosfato simples, ou 222,22 a 266,67 kg/ha de superfosfato triplo, distribuídos no fundo do sulco de plantio (Tabela 1). Essa recomendação de adubação fosfatada é para solos que apresentam nível crítico de fósforo baixo, independente da classe de solo. Essas fontes poderão ser substituídas por outra, desde que mantida a mesma quantidade de P2O5 recomendada. Esta sugestão também poderá ser recomendada para os gêneros Cynodon, Panicum, o mesmo acontecendo com a espécie de Brachiaria brizantha. Para as espécies de Brachiaria decumbens e Setaria sphacelata, esta sugestão poderá ser reduzida, dependendo dos resultados de análise do solo.

As adubações com nitrogênio (N) e potássio (K2O) serão feitas em cobertura, 60 a 70 dias após o estabelecimento da cultura. Caso a análise de solo indique baixas concentrações de potássio na solução do solo, esse nutriente deverá ser aplicado.

Também merecem destaque o enxofre (S) e o zinco (Zn). O enxofre passa a assumir uma grande importância, na medida em que fontes tradicionais de outros nutrientes que contêm S, como é o caso do sulfato de amônio, superfosfato simples ou sulfato de potássio, estão sendo substituídas por outras fontes mais concentradas ou por outras mais baratas, necessitando nestes casos, de ser suplementado.

Em geral, para solos com deficiência de enxofre, tem sido recomendada a aplicação de 20-40 kg/ha de enxofre (CARVALHO, 1985).

As deficiências de zinco são mais comuns em áreas de cerrado (CARVALHO, 1985), havendo, pois, necessidade de suplementação. Nesse caso, recomenda-se a aplicação de 2 kg/ha de Zn, equivalente a 10 kg/ha de sulfato de zinco, juntamente com a adubação fosfatada por ocasião do plantio (WERNER, 1986).

A aplicação de micronutriente em forrageiras, de forma mais geral, tem sido aconselhada através do emprego de FTE (Fritted Trace Elements) nas formulações BR-10 (com 2,5% de B; 0,1% de Co; 1,0% de Cu; 4,0% de Fe; 4,0% de Mn; 0,1% de Mo; 7,0% de Zn) ou BR-16 (com 1,5% de B; 3,5% de Cu; 0,4% de Mo e 3,5% de Zn) à base de 30 a 50 kg/ha, junto com a adubação fosfatada (MONTEIRO, 1994).

Tabela 1. Recomendações de doses e épocas de aplicações de adubos e corretivo em pastagem de capim-elefante.
Atividade Dose Época
Amostragem do solo - As amostras deverão ser colhidas nos meses de abril/maio (CFSEMG, 1999)
Calagem Calcário dolomítico - De acordo com recomendação de análise do solo. 20 a 30 dias antes do plantio; desde que o solo esteja úmido.
Adubação de plantio Depende de análise de solo. Em geral, recomenda-se a aplicação de 100 a 120 kg/ha de P2O5 equivalentes a 500 a 600 kg/ha de superfosfato simples (SS), ou 222,22 a 266,67 kg/ha de superfosfato triplo (ST). No fundo do sulco, por ocasião do plantio.
Adubação de manutenção No ano do plantio, recomenda-se fazer duas coberturas com nitrogênio e potássio, usando 66,67 kg/ha de N e K2O, respectivamente, em cada aplicação, equivalentes a 333,5 kg/ha de sulfato de amônio (SA) e 111,17 kg/ha de cloreto de potássio (KCl). Neste primeiro ano de condução da pastagem são aplicados 2/3 da recomendação anual (200 kg/ha) de N e K20No segundo ano e nos demais, aplicar 50 kg/ha de P2O5, correspondendo a 250 kg/ha de SS e 200 kg/ha de N e K2O, correspondendo a 1.000 e 333,33 kg/ha de SA e KCl, respectivamente, fracionadas em três aplicações iguais, no início, meio e final da época chuvosa. Se for usada a irrigação, como mecanismo de aumentar a produção de biomassa, recomenda-se a aplicação de 300 kg/ha de N, equivalentes à 1.500 kg/ha de SA. 60 a 70 dias após o plantio e imediatamente após o pastejo de uniformização, com distribuição a lanço.Ambos os adubos deverão ser aplicados a lanço. O N e o K2O devem ser parcelados em três aplicações (início, meio e fim da época chuvosa) e o P2O5 em uma única aplicação no início da época chuvosa.
Adubação orgânica Depende da disponibilidade de matéria orgânica na propriedade. Tanto no plantio como em cobertura na pastagem já formada.
Adubação com micro-nutrientes Em regiões de comprovada deficiência de micronutrientes, especialmente zinco, cobre e boro, sugerem-se as recomendações feitas para a cultura do milho. No plantio.
Fonte: Martins et al. (1995).

4.3.3.3 - Adubação de manutenção

Adubação de manutenção, também chamada de adubação para produção, aplicada durante a fase de utilização da pastagem, tem como principal objetivo possibilitar que a cultura forrageira tenha o máximo de produtividade e com o menor custo possível. Assim, nesta fase, o nitrogênio, o fósforo e o potássio são recomendados. Entretanto, há necessidade de que o produtor continue analisando o seu solo, para que o técnico, ao recomendar estes nutrientes, possa fazê-lo de forma racional. Em muitos solos e, em função dos resultados de análise obtidos, nutrientes como o fósforo e o potássio não necessitarão de ser aplicados, por encontrarem-se com seus teores na solução do solo, acima do que a planta é capaz de responder com a adubação. Nesta fase, o nitrogênio é, sem dúvida alguma, um dos nutrientes mais importantes, por ser o principal responsável pelo aumento na produção de matéria seca da pastagem.

No ano do plantio, recomenda-se fazer duas coberturas com nitrogênio e potássio, usando de 66,67 kg/ha de N e K2O, respectivamente, em cada aplicação, equivalentes a 333,5 kg/ha de sulfato de amônio (SA) e a 111,17 kg/ha de cloreto de potássio (KCl) (Tabela 1). Neste primeiro ano de condução da pastagem são aplicados 2/3 da recomendação anual (200 kg/ha) de N e K20. A primeira aplicação destes nutrientes deverá ser feita 60 a 70 dias após a fase de estabelecimento, após o pastejo de uniformização.

No segundo ano e nos demais, aplicar 50 kg/ha de P2O5, correspondendo a 250 kg/ha de SS e 200 kg/ha de N e K2O, correspondendo a 1.000 e 333,33 kg/ha de SA e KCl, respectivamente, fracionadas em três aplicações iguais, no início, meio e final da época chuvosa. Se for usada a irrigação, como mecanismo de aumentar a produção de biomassa, recomenda-se a aplicação de 300 kg/ha de N, equivalentes a 1.500 kg/ha de SA.
O sulfato de amônio (SA) poderá ser substituído pela ureia. Neste caso, 200 kg/ha N, correspondem a 444,44 kg/ha de ureia e 300 kg/ha de N, correspondem a 666,67 kg/ha de ureia.

A recomendação de 200 kg/ha de N, 50 kg/ha de P2O5 e 200 kg/ha de K2O, poderá ser substituída por 1.000 kg/ha da fórmula 20:05:20 que, além de fornecer estas mesmas quantidades, tem um custo operacional menor, por ser de menor custo e evitar que sejam feitas três aplicações de adubos.

Na Tabela 2, são apresentadas as recomendações de adubação de cobertura ou de manutenção, para as principais gramíneas forrageiras tropicais e as respectivas taxas de lotação, para cada uma destas forrageiras.

Tabela 2. Sugestão para adubação de manutenção para as principais forrageiras utilizadas nos sistemas intensivos de produção de leite a pasto, utilizando a fórmula 20-05-20 e considerando a taxa de lotação esperada da pastagem.
Forrageira Adubação (kg/ha/ano) Taxa de lotação(UA***/ ha/ano)
Capim-elefante e Cynodon* 1000 4 a 7
Panicum** 800 4 a 5
Brachiaria brizantha 700 4 a 4,5
B. decumbens ou Setaria sp. 500 3 a 3,5
*O gênero Cynodon engloba as forrageiras: Coast-cross1, Tifton 85, Tifton 68, Estrela Africana, Florona, Florico e Florakirk;
**O gênero Panicum engloba as forrageiras: Colonião, Tanzânia, Mombaça, Tobiatã, como sendo seus principais representantes.
***Uma UA corresponde a um animal de 400 a 450 kg de peso vivo. Obs.: O gênero Brachiaria tem hoje como sinônimo o gênero Urochloa.

As quantidades de adubos recomendadas na Tabela 2 estão relacionadas a uma forma racional de adubação de pastagens, sempre voltada para a resposta das forrageiras ao fertilizante aplicado, bem como baseada em sua capacidade máxima de produção de biomassa. Assim é que, forrageiras do grupo do capim-elefante ou do Cynodon recebem maiores quantidades de adubo se comparada à B. decumbens, por exemplo. No primeiro caso, a pastagem é capaz de suportar de 4 a 7 vacas por hectare, enquanto na B. decumbens ela suportaria no máximo três vacas por hectare, durante a época chuvosa do ano, quando os animais permanecem o tempo todo nos piquetes.

Para sistemas de produção de leite a pasto não-irrigado, a adubação de cobertura ou de manutenção recomendada nas Tabelas 1 e 2, deverá ser fracionada em três aplicações, no início, meio e final da época chuvosa. Se a pastagem for irrigada, a quantidade de nitrogênio deverá ser aumentada e sua aplicação fracionada em seis vezes durante o ano, distribuída após a irrigação. Assim, para capim-elefante, Cynodon e Panicum, sugere-se acrescentar mais 100 kg/ha de N, enquanto nas braquiárias e na setária, recomendam-se aplicações que variam de 50 a 70 kg/ha para B. decumbens ou Setaria e Brachiaria brizantha, respectivamente.

Em sistemas intensivos de produção de leite em pastagens irrigadas, é necessário esclarecer que, sendo a água um recurso natural não-renovável, caro e com disponibilidade reduzida, há que se ter o cuidado de somente recomendá-la para forrageiras de elevado potencial de produção e em regiões onde não haja impedimento de temperatura e luminosidade. Em regiões onde a média da temperatura mínima for inferior a 16/18 oC, não se recomenda irrigação durante todo o ano, pois as respostas da forrageira a este insumo é reduzida, especialmente nos meses de maio a julho. Neste caso, recomenda-se irrigação estratégica a partir do mês de agosto, quando a temperatura do ar se eleva além de 18 oC.

4.3.3.4 - Considerações sobre algumas culturas forrageiras de interesse econômico

4.3.3.4.1 - Cana-de-açúcar

Cultura tradicional no Brasil, alta produção por unidade de área (70 a 250 t/ha), cultura de implantação e manejo simples, exigindo poucos tratos culturais, período de maturação e colheita coincidentes com o período de escassez de pasto, pequena taxa de risco de perda da cultura, disponibilidade e qualidade constantes se plantadas variedades de ciclos médio e tardio. É uma cultura perene, produzindo um corte a cada doze meses, fonte rica de carboidratos, na forma de sacarose, bem consumida pelos animais e dispensa a conservação como silagem ou feno. Isto porque a cana-de-açúcar é cortada e fornecida diretamente no cocho. Vale salientar que sua utilização na forma de silagem, tem crescido nos últimos anos.

Suas limitações nutricionais para os bovinos estão relacionadas ao baixo teor de proteína bruta (2 a 3% na matéria seca), a qual é corrigida através da associação com 1% da mistura de nove partes de ureia e uma parte de sulfato de amônio, ou oito partes de ureia e duas partes de sulfato de cálcio, e a deficiência em alguns minerais, principalmente fósforo, enxofre, zinco e manganês, exigindo para tanto o fornecimento de uma boa mistura mineral aos animais suplementados com cana.

De modo geral, para culturas agronomicamente bem conduzidas, dois hectares de canavial são suficientes para suplementar 50 bovinos adultos durante 150 dias. O manejo de corte e retirada da produção é fator importante para a longevidade do canavial, devendo ser evitado o tráfego de veículos e máquinas sobre a área plantada, daí, a necessidade de se preparar acessos e carreadores.

A escolha das variedades é fundamental e devem ser plantadas uma ou mais variedades industriais melhoradas de cana de açúcar, adaptadas às condições locais, considerando-se o relevo, a fertilidade do solo e o clima da região, além de apresentar características desejáveis como alta produtividade, alto teor de açúcar, rebrotação vigorosa, ausência de tombamento e resistência a pragas e doenças.

Adubações orgânicas e químicas devem ser usadas no plantio e manutenção do canavial. Plantio em sulcos espaçados de 1,20 a 1,30 m com 0,30 m de profundidade, usando-se mudas retiradas de canaviais com 8 a 12 meses, vigorosos e sem infestação de pragas e doenças. Se gasta de 10 a 12 toneladas de mudas para implantar um hectare, e duas são as épocas de plantio. Cana de ano, plantada em setembro/outubro e colhida a partir de junho do ano seguinte e a cana de ano e meio, plantada de janeiro a março (dependente de chuvas) e colhida a partir de junho do ano seguinte. No plantio são colocados dois colmos no sistema pé com ponta, no fundo do sulco de plantio, após a adubação de plantio; Estes colmos são cortados em toletes de 50 a 70 cm, com o objetivo de aumentar a brotação das gemas e, consequentemente o número de touceiras e a produtividade por área.

No estabelecimento e ao longo de sua utilização devem ser procedidos tratos culturais, tais como, controle de ervas daninhas, formigas, lagartas, cigarrinha, cupins e outras pragas.
 

4.3.3.4.2 - Mandioca

De fácil adaptação, a mandioca é cultivada em todos os estados brasileiros, solteira e em cultivo associado, exigindo solos bem drenados, não excessivamente argilosos, com boa profundidade efetiva e pH entre 5,0 e 6,0. O potencial máximo de produção é atingido com adubação adequada e dentre os macronutrientes, o fósforo permite resposta mais acentuada em termos de produtividade. O plantio é normalmente feito no início da estação chuvosa. Em Minas Gerais é plantada de outubro a dezembro nas áreas de Cerrado e de junho a setembro na Zona da Mata mineira. Selecionar uma cultivar para se conseguir boa uniformidade e maior produtividade do mandiocal, escolher manivas maduras provenientes de plantas com 10 a 14 meses de idade. Usar apenas o terço médio das manivas, eliminando a parte herbácea superior. Essas manivas devem possuir um diâmetro em torno de 2,5 cm, sendo que a medula deve ocupar 50% ou menos disso.

O plantio é feito em sulcos de 10 cm de profundidade, e os melhores rendimentos têm sido obtidos com espaçamentos de 1,00 m x 0,50 m e 1,00 m x 0,60 m, em fileiras simples e 2,00 x 0,60 m x 0,60 m, em fileiras duplas. É necessário o controle de plantas daninhas, pragas comuns (mandarová, ácaros, percevejo de renda, mosca branca, mosca do broto, broca do caule, cupins e formigas) e doenças (bacteriose, antracnose, podridão das raízes e o superbrotamento).

Na alimentação animal, tanto a parte aérea quanto as raízes podem ser consumidas pelos animais na forma fresca, seca ao sol sob a forma de raspa da raiz, feno de ramas e ensilada. O fornecimento da matéria fresca é o modo mais simples de fornecer raízes e parte aérea da mandioca aos animais. Trituração ou picagem e murcha em condições ambiente, por 24 horas, são necessárias para servir aos animais. Para ruminantes, tratando-se apenas da parte aérea, misturá-la com 50% de outros volumosos. A introdução deste alimento na alimentação animal deve ser feita de forma gradativa para adaptação, sendo a quantidade dependente da espécie, idade e da produção do animal.

A qualidade da silagem ou feno da parte aérea da mandioca depende da rapidez da colheita, picagem e acondicionamento do material a ser armazenado.
 

4.3.3.4.3 - Milho ou Sorgo

Em sistemas sem irrigação, o plantio do milho deve ser feito no início do período chuvoso. Pode-se fazer dois plantios por ano em áreas irrigadas, nesse caso, usar cultivares precoces. Como o sorgo exige menos quantidade de água para se desenvolver, o seu plantio pode ser feito tanto no início como no final do período chuvoso. Culturas exigentes em solos com boa drenagem e férteis, podendo ser plantados em plantio tradicional ou plantio direto.
Recomenda-se o uso de herbicidas em pré-plantio ou pré-emegência, nesse caso, consulte um Engenheiro Agrônomo e peça uma indicação e o receituário para aquisição do herbicida, use equipamentos de proteção e siga as recomendações para uso dos produtos e o descarte das embalagens após o uso.

A cultivar de milho ou de sorgo deve ser aquela que mais se adapta à região e que seja boa produtora de grãos, para assim, assegurar a produção de silagem de melhor qualidade.
Cultivares normais (variedade ou híbrido) apresentam porte alto, atingindo o ponto de ensilagem cerca de 120 dias após o plantio de verão, estendendo-se em até 30 dias nos plantios tardios com colheita no inverno.

Cultivares precoces são de porte mais baixo, resistindo melhor ao tombamento e oferecem melhor relação espiga:colmo, e o ponto de ensilagem pode ser antecipado em 20 dias, em relação às cultivares normais.

O espaçamento, a profundidade de semeadura e o número de sementes por metro linear (densidade de plantio) dependem do tipo de solo, da disponibilidade de chuvas ou irrigação na área, da capacidade da cultivar em aproveitar a luz e os nutrientes, e do porte da planta. Para cultivares de milho de porte e ciclo normais, é recomendado o espaçamento de 0,90 a 1,00 m entre linhas, e para cultivares de porte mais baixo e precoces o de 0,80 a 0,90m. A profundidade de plantio é de 4 cm para solos argilosos a 5 a 8 cm para solos arenosos.
A densidade de plantio, população ou número de plantas por hectare deve ficar entre 40.000 e 50.000 plantas/ha para cultivares de ciclo normal, e de 50.000 a 60.000 plantas/ha para cultivares precoces. Entretanto, aumentos na densidade de plantio, pela redução no espaçamento entre linhas ou pelo aumento no número de plantas, poderá ser feito em condições especiais de solo e de clima, promovendo, neste caso, uma adubação adequada a esta nova realidade.

A quantidade (kg) de sementes necessária para cada hectare depende do tamanho da peneira, e deve ter um acréscimo de 20% para compensar eventuais perdas no campo, gastando-se em média de 20 a 26 kg de sementes/ha.

A população final para o sorgo deve ficar entre 150.000 e 200.000 plantas/ha, sendo gasto em média de 8 a 10 kg de sementes/ha, considerando sementes com valor cultural superior a 70% e um acréscimo de 30% para compensar perdas diversas.

A adubação é feita em função da análise de solo e do histórico de uso da área. A adubação de cobertura para o milho é realizada quando as plantas apresentarem 8 a 10 folhas bem desenvolvidas e, em sorgo, 30 a 35 dias após a emergência das plântulas. Doses de N acima de 100 kg/ha, como regra prática, recomenda-se que sejam divididas em duas aplicações com a primeira cobertura aos 20 a 25 dias com metade da dose de N e o restante aos 35 a 40 dias da emergência da plântula. O adubo deve ser colocado na superfície do solo próximo à linha de plantio, podendo ser distribuído a lanço, com adubadeira manual e/ou cultivador-adubadeira, ou ainda a tração mecânica.

Os tratos culturais necessários à condução da cultura são o controle mecânico ou químico de plantas daninhas e combate a pragas (formigas, lagartas etc.).
 

4.3.3.4.4 - Girassol

É uma planta originária do continente norte-americano, pertencente à família Asteraceae, antigamente chamada de Compositae, que foi utilizada como alimento, pelos índios americanos, em mistura com outros vegetais. No século XVI, o girassol foi levado para a Europa e Ásia, onde era utilizado como uma planta ornamental e como uma hortaliça.
Possui raiz pivotante profunda, que atinge cerca de 2 metros ou mais de profundidade e ciclo vegetativo médio de 120 a 130 dias.

É uma cultura alternativa ao milho na produção de silagem na safrinha, pois possui maior tolerância às deficiências hídricas e ao frio, podendo atingir de 20 a 30 t/ha de matéria verde.
Por isso é uma excelente opção para os agricultores que produzem silagem na segunda safra, quando as condições climáticas são mais adversas. A silagem de girassol apresenta teor de proteína superior ao do milho (aproximadamente 30%), sendo também, em média, 20 a 30 dias mais precoce. A cultura do girassol para produção de silagem na safrinha não exige grandes investimentos em insumos, porém responde bem à utilização destes, pois o girassol aproveita bem os resíduos da adubação da cultura anterior e tem boa capacidade para suportar a competição com o mato.

A calagem é indispensável, pois a planta é sensível à acidez do solo. A quantidade de calcário é a recomendada pela análise de solo para elevar o índice de saturação de bases (V2) para 70%.

Com base na análise de solos e do histórico da área, recomenda-se aplicar por ocasião do plantio 20 kg/ha de nitrogênio, de 30 a 70 kg/ha de P2O5, dependendo da disponibilidade de P, e de 30 a 70 kg/ha de K2O, também dependentes da disponibilidade de K nos solos. A adubação de cobertura deverá ser feita, utilizando-se 40 kg/ha de N, fracionada em duas aplicações iguais aos 25 e 35 dias após a emergência das plântulas (CFSEMG, 1999). Em áreas novas, recomenda-se também a aplicação de 20 kg/hectare de enxofre, que pode estar sendo suprido se há uso constante de sulfatos. Esta aplicação de S também se faz necessária em solos pobres em matéria orgânica, sendo recomendados, neste caso, de 20 a 30 kg/ha de S. O boro é um dos micronutrientes de extrema importância para a cultura do girassol. Pode ser adicionado na adubação de plantio ou junto com a adubação de cobertura.
Também pode ser aplicado junto ao herbicida utilizado por ocasião da dessecação da cultura existente antes semeadura do girassol. Tem sido comum o uso de glyphosate associado ao ácido bórico. A quantidade pode chegar a 1, 2 kg/ha de B durante o ciclo. Em solos de comprovada deficiência de zinco este deverá ser aplicado entre 2 a 4 kg/ha de Zn. Destaca-se que algumas formulações de adubos químicos utilizados por ocasião do plantio, contêm o zinco em sua formulação. Em caso do uso de formulações contendo zinco, não há necessidade de se proceder a esta adubação.

Vale salientar que a Embrapa Soja responde pela cultura do girassol a nível nacional. Para maiores informações o site desta Unidade da Embrapa poderá ser consultado - www.cnpso.embrapa.br.

Se houver necessidade de uso de herbicidas, há dois registrados para a cultura: Trifluralin e Alachlor.

Outro ponto interessante é a possibilidade de produção de até 20 a 30 kg de mel por hectare por meio da introdução de colmeias nas culturas, o que indiretamente aumenta a produção de grãos pela melhor polinização, já que a sua florada dura de 15 a 30 dias, o que deve ser levado em consideração caso haja necessidade de uso de algum inseticida.

O período de plantio é muito amplo em todo o Brasil, e, na Região Sudeste, deve ser plantado no período de safrinha, ou seja, de fevereiro a março. O plantio no período de safra normal (primavera-verão) é anti-econômico, e pode ocasionar sérios problemas fitossanitários.

O espaçamento nas entrelinhas poderá variar de 0,70 a 0,90 m (0,7 m se usar plataforma para soja e 0,8 a 0,9 m se for usar plataforma de colheita para o milho), semeando-se de 5 a 7 sementes por metro linear, dependendo da cultivar, procurando-se atingir 45 a 60 mil plantas por hectare. De acordo com o tamanho da semente, gastam-se 4 a 5 kg de sementes por hectare. Mesmo plantado em épocas corretas pode sofrer ataque de maritacas se estas não dispuserem de alternativas de alimentos na região, da mesma forma que para o sorgo, fator esse agravado pela perda de áreas com florestas.
 

4.3.3.4.5 - Banco de proteína/Legumineira

Nos sistemas intensivos de produção de leite tem-se sugerido que a área de pastagem tenha somente a gramínea forrageira, sendo as leguminosas cultivadas em área separada. Quando esta leguminosa é utilizada para pastejo, recebe o nome de “Banco de Proteínas”, se utilizada para corte e fornecimento no cocho, recebe a denominação de “Legumineira”. Normalmente, tanto no Banco de Proteínas quanto na Legumineira, a área cultivada é de 20 a 30% em relação à área total da pastagem com gramínea tropical.

Quando a área da pastagem é usada para Banco de Proteínas, a área cultivada é dividida em piquetes e o pastejo com os animais tem duração média de 2 horas/dia.

As leguminosas Guandu (Cajanus Cajan - arbustiva), Leucena (Leucaena leucocephala - arbórea), Soja perene (Neonotonia wightii) e Estilosantes (Stylosanthes sp.) são as leguminosas mais utilizadas. Também são utilizados como Banco de Proteínas ou Legumineira a Aveia (Avena bizantina) e o Azevém (Lolium multiflorum), devido à sua elevada qualidade nutritiva. Os procedimentos para a implantação são os mesmos recomendados para a formação de pastagens e capineiras.
 

4.3.3.5 - Manejo de pastagem

4.3.3.5.1 - Espaçamento e sistemas de plantio

O espaçamento empregado no estabelecimento de plantas forrageiras irá depender da espécie utilizada. Em capim-elefante o espaçamento utilizado no estabelecimento é, em última análise, aquele que promove maior densidade de touceiras, aliado a um bom preparo de solo, uma boa muda e uma boa adubação. O espaçamento entre sulcos deverá ser de 50 a 70 cm (MOZZER, 1993; MARTINS & FONSECA, 1994). Quanto menor o espaçamento, mais rápida será a cobertura do solo. Espaçamentos maiores facilitam o aparecimento de plantas invasoras, devido à demora na cobertura do solo pela cultura.

Os sulcos deverão ter uma profundidade de 20-25 cm, com as mudas (colmos) sendo distribuídas no fundo do sulco. Deverão ser colocadas duas mudas no sistema pé com ponta (a ponta de um colmo junto ao pé do outro). Depois de distribuídos os colmos nos sulcos, deve-se cortá-los em toletes de aproximadamente 70 cm. Cobrir os colmos com mais ou menos 10 cm de solo. O plantio deverá ser feito no início do período chuvoso, utilizando-se mudas com três a quatro meses de idade. O plantio poderá ser realizado em outra época do ano, desde que para isto a irrigação seja utilizada.

Esta operação possibilitará maior homogeneidade das brotações. O corte destes colmos poderá ser efetuado com a própria enxada, ou com o uso de facão. O enchimento dos sulcos com enxada é aconselhável para o estabelecimento em áreas menores, enquanto o enchimento feito com trator é recomendado para áreas maiores. Nesse caso, o tombamento da leiva de terra, na abertura de um sulco, é utilizado no enchimento do sulco anterior. É importante salientar, nesse caso, que, imediatamente após a abertura do sulco, deverão ser distribuídos o adubo e os colmos, para que, na abertura do novo sulco, estes sejam cobertos. Esse processo exige muita mão de obra para distribuição rápida do adubo, dos colmos no fundo do sulco e o seu corte em toletes.

Os trabalhos de Carvalho (1981), Gomide (1994), Mozzer, (1990) e Rodrigues & Reis (1993) apresentam uma revisão bastante detalhada sobre o assunto, podendo ser utilizados para consultas.

Poderão ser também adotados sistemas de plantio em covas, com as mudas sendo colocadas deitadas sobre o adubo no fundo da cova, ou através de estacas enterradas, tomando-se o cuidado de deixar de duas a três gemas desenterradas. Em ambos os sistemas de plantio, deve-se ter em mente que quanto menor o espaçamento mais rápida será a cobertura do solo.

Após o estabelecimento da pastagem, recomenda-se fazer um pastejo de uniformização, seguindo de uma roçada, a 20 cm de altura. Esta roçada tem como finalidade aumentar o perfilhamento e consequentemente o diâmetro das touceiras, conferindo maior cobertura do solo pela cultura, além de promover o desenvolvimento do sistema radicular. Apesar desta roçada retardar o início da utilização da pastagem, ela tem como principal objetivo evitar que os animais arranquem as plantas, especialmente em solos mais arenosos, quando a área for utilizada sob condições de pastejo pelos animais.

Esse pastejo de uniformização deverá ocorrer 60 a 70 dias após o estabelecimento, ou quando as plantas atingirem 1,60 a 1,80 m de altura. Tanto este pastejo quanto a roçada não deverão ser feitos na mesma época em toda a área. Assim, recomenda-se que a área seja dividida em três partes iguais, sendo a primeira pastejada e roçada no primeiro dia, a segunda parte da área 10 dias depois, e a terceira, 20 dias após a primeira. Este escalonamento permitirá que as plantas tenham crescimento diferenciado, facilitando o manejo subsequente da pastagem. A adoção desta prática permitirá que o início do pastejo, em cada piquete, ocorra com as plantas num estádio vegetativo semelhante, e com melhor valor nutritivo.

Terminada a roçada, inicia-se a divisão da área em piquetes. Deverão ser feitos 11 piquetes de igual área, sendo cada um deles pastejado por três dias, o que permite um período de descanso de 30 dias entre um pastejo e outro. Esta recomendação de 30 dias de descanso é feita para cultivares do tipo Napier, Mineiro, Taiwan e Pioneiro, ou cultivares que tenham hábito de crescimento semelhante a estes.

O formato da pastagem é importante, por reduzir seu custo de implantação, bem como facilitar o manejo animal. Assim, recomenda-se que a pastagem de capim-elefante tenha forma quadrangular, devendo sempre que possível estar próxima ao estábulo.

Vale ressaltar, também, que a pastagem, além de apresentar uma boa cobertura de plantas, deverá também ter água, sombra e cocho para sal mineral disponíveis, se possível localizados no corredor. A Figura 6 ilustra duas alternativas, dentre outras, que poderão ser utilizadas no manejo de capim-elefante cv. Napier sob pastejo.

Para o estabelecimento de cultivares do gênero Cynodon, que também se multiplicam por mudas, o método de plantio mais recomendado é o da distribuição das mudas sobre o solo já preparado de forma conveniente, após ter recebido a calagem e a adubação. Após esta distribuição e, com o solo úmido, promover uma gradagem da área. Durante esta gradagem, o operador da máquina deverá ter o cuidado de manter os discos da grade bem abertos, de forma a promover um menor aprofundamento das mudas (gradagem leve). Também poderá ser utilizado o plantio por sulcos para cultivares do gênero Cynodon. Estes deverão ser espaçados de aproximadamente 30 a 50 cm. Com referência ao custo de implantação de cultivares do gênero Cynodon, este será maior no plantio por sulcos, quando comparado com o método da distribuição das mudas sobre o solo, seguido de uma gradagem leve.

Para as forrageiras utilizadas em sistemas intensivos de exploração de leite a pasto, que multiplicam-se por sementes e após o preparo do solo, da aplicação de calagem e da adubação, proceder à distribuição das sementes a lanço sobre a área.


Figura 6. Croquis de uma área de pastagem de capim-elefante, utilizando duas alternativas.
Fonte: Martins et al. (1995).

O tamanho de cada piquete é função do número de vacas em lactação na propriedade. Assim, se o produtor tiver 30 vacas em lactação e, considerando-se uma taxa de lotação de 5 vacas/ha/ano, serão necessários 6 ha de capim-elefante, divididos em 11 piquetes de 5.454 m2 cada um.

As cercas periféricas deverão ser fixas, utilizando-se arame farpado ou liso e mourões de madeira. As cercas internas, dividindo os piquetes, poderão ser fixas ou eletrificadas, dependendo do seu custo de implantação e manutenção.

Durante a estação das chuvas, os animais podem permanecer o tempo todo nos piquetes, saindo, apenas, nos horários correspondentes às ordenhas. Neste período, os animais podem receber mistura mineral e concentrado, dependendo da produção de leite de cada animal. Animais com produção média diária de 10 kg de leite não necessitam receber concentrado. Acima desta produção, os animais poderão receber 1 kg de concentrado (com 20% de proteína bruta e 70% de NDT), para cada 2 kg de leite produzido. Uma vaca com produção média de 14 kg de leite por dia poderá receber, diariamente, 2 kg de concentrado, sendo 1 kg na ordenha da manhã e 1 kg na ordenha da tarde.

Durante a época seca do ano, as vacas devem permanecer no curral, no período entre a ordenha da manhã e a ordenha da tarde, recebendo, no cocho, cana de açúcar picada, com 1% de ureia, ou outra fonte de suplementação volumosa, como silagem, feno, forrageira de inverno, etc. Estas retornarão aos piquetes, após a segunda ordenha, ali permanecendo até à ordenha da manhã, obedecendo ao mesmo manejo de utilização e descanso dos piquetes.

A quantidade de cana-de-açúcar mais ureia ingerida varia entre 25 a 30 kg/animal/dia, dependendo da contribuição da pastagem, do estádio de maturação da cana-de-açúcar e da quantidade de concentrado fornecida.

A ureia a ser aplicada deverá ser enriquecida com uma fonte de enxofre. Esta poderá ser o sulfato de amônio ou sulfato de cálcio (gesso agrícola), nas proporções de nove partes de ureia para uma parte de sulfato de amônio ou oito de ureia para duas de sulfato de cálcio. Se forem preparados 100 kg desta mistura, devem ser colocados 90 kg de ureia e 10 kg de sulfato de amônio ou 80 kg de ureia com 20 kg de sulfato de cálcio. Esta mistura deverá ser diluída em água, na relação de 1 kg para cada cinco litros de água, e aplicada com regador sobre a cana de açúcar picada que, depois de bem misturada, será fornecida aos animais.

Também à época seca do ano, os animais devem receber concentrado de acordo com a produção de leite. Assim, a partir de 6 kg de leite/animal/dia, os animais devem receber 1 kg de concentrado (com 18% de proteína bruta e 70% de NDT), para cada 2 kg de leite produzido. O fornecimento deste concentrado será semelhante ao fornecimento à época chuvosa.

Independente do período do ano, os animais deverão ter acesso à suplementação mineral, colocada à vontade. Essa poderá ser colocada no próprio corredor de acesso aos piquetes, conforme é apresentado na Figura 6.

Na Tabela 3, é apresentado um resumo do manejo da pastagem de capim-elefante e da ração utilizada.

Tabela 3. Resumo do manejo da pastagem e da alimentação.
Atividade Recomendação Época
Pastejo de uniformização e roçada. Recomenda-se que a área seja dividida em três partes iguais, sendo a primeira pastejada e roçada no primeiro dia, a segunda parte da área, 10 dias depois, e a terceira, 20 dias após a primeira. 60 a 70 dias após o estabelecimento, ou quando as plantas atingirem 1,40 a 1,60 m de altura.
Divisão da área em piquetes. Recomenda-se fazer 11 piquetes de igual tamanho. O tamanho de cada piquete é função do número de vacas em lactação da propriedade. Se o produtor tiver 30 vacas em lactação, considerando uma taxa de lotação de 5 vacas/ha/ano, serão necessários 6 ha de capim-elefante, divididos em 11 piquetes de 5.454 m2 cada um. Cada piquete será pastejado por um período de três dias, com um período de descanso de 30 dias entre um pastejo e outro.
Cercas periféricas e internas. As cercas periféricas deverão ser fixas, usando-se arame farpado ou liso. As cercas internas, dividindo os piquetes, poderão ser fixas ou eletrificadas, dependendo do seu custo de implantação e manutenção. -
Pastejo propriamente dito. Durante a estação chuvosa, os animais podem permanecer o tempo todo nos piquetes de capim-elefante, saindo, apenas, nos horários correspondentes às ordenhas.Durante a estação da seca, as vacas devem permanecer no curral, no período entre a ordenha da manhã e da tarde, recebendo cana picada com 1% de ureia enriquecida com uma fonte de enxofre. Após a ordenha da tarde, os animais retornam aos piquetes de capim-elefante.Tanto no período das águas quanto no da seca, os animais deverão receber uma mistura mineral à vontade. O pastejo inicia-se 50 a 60 dias após a roçada dos piquetes, ou quando as plantas atingirem uma altura de 1,60 a 1,80 m.
Fornecimento de ração. O fornecimento de ração depende da produção de leite do animal e da época do ano. No período chuvoso, animais com produção média diária de 10 kg de leite não necessitam receber ração. Acima desta produção, os animais receberão 1 kg de concentrado para cada 2 kg de leite produzido.No período seco do ano, animais com produção acima de 6 kg de leite/dia receberão 1 kg de concentrado para cada 2 kg de leite produzido.Este concentrado deverá ter 18% de PB e 70 de NDT. A quantidade de concentrado a ser fornecida para cada animal deverá ser dividida em duas partes iguais, sendo uma parte oferecida na ordenha da manhã e a outra na ordenha da tarde.
Fonte: MARTINS et al. (1995).

4.3.4 - Referências

CARVALHO, L. de. A. Capim-elefante (Pennisetum purpureum, Schum.): formação e utilização de uma capineira. Coronel Pacheco: EMBRAPA-CNPGL, 1981. 16p. (EMBRAPA-CNPGL. Circular Técnica, 12).

CARVALHO, M. M. Melhoramento da produtividade das pastagens através da adubação. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, n. 132, p. 23-32, 1985.

CASTILHOS, Z. M. de S. Capim-elefante (Pennisetum purpureum Schum.): estabelecimento, manejo e utilização. Porto Alegre: Rebrote Granja São Vicente, 1987. 32p.

CÓSER, A. C.; CRUZ FILHO, A. B. da. Estabelecimento de leguminosas em pastagens de capim-gordura. Revista da Sociedade Brasileira de Zootecnia, Viçosa, v. 18, n. 5, p. 410-416, 1989.

EVANS, M. L. Functions of hormones at the cellular levels of organization. In: SCOTT, T. K. (Ed.). Hormonal regulation of development. II. Encyclopedia of Plant Physiology. Berlin: Springer-Verlag, 1984. v. 10, p. 23-79.

FONTES, L. E. F.; FONTES, M. P. F. Glossário de termos técnicos e expressões em ciência do solo. Viçosa, MG: Universidade Federal de Viçosa, 1982. 97 p. (Boletim n. 138).

GOMIDE, J. A. Formação e utilização de capineiras de capim-elefante. In: CARVALHO, M. M.; ALVIM, M. J.; XAVIER, D. F.; CARVALHO, L. de A. (Ed.). Capim-elefante: produção e utilização. Coronel Pacheco: EMBRAPA-CNPGL, 1994. p. 81-115.

MARTINS, C. E.; CÓSER, A. C.; DERESZ, F. Manejo de solo e água em sistemas intensivos de produção de leite a pasto. In: MARTINS, C. E.; CÓSER, A. C.; YAMAGUCHI, L. C. C.; MENDES, L. C. R.; LIMA, I. B. de.; SILVA, M. P. da.; PEDROSA, V. L. Gestão estratégica para o desenvolvimento da pecuária leiteria na Região Campo das Vertentes. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2002, p. 135-160.

MARTINS, C. E.; CÓSER, A. C.; DERESZ, F.; SALVATI, J. A.; SOUZA NETTO, F. E. de. Desempenho de novilhas mestiças Holandês x Zebu, em pastagem de capim-elefante submetida a diferentes níveis de adubação fosfatada. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 29., 1992, Lavras, MG. Anais... Lavras: SBZ, 1992. p. 415.

MARTINS, C. E.; DERESZ, F.; MATOS, L. L. Capim-elefante, implantação e utilização. Coronel Pacheco: Embrapa-CNPGL, 1995. 8 p. (Embrapa-CNPGL. Comunicado Técnico, 13).

MARTINS, C. E.; SALVATI, J. A.; CÓSER, A. C.; DERESZ, F.; ALVIM, M. J. Efeito de níveis de nitrogênio e fósforo em pastagem de capim-elefante cv. Napier sob pastejo, sobre a produção de leite de vacas mestiças Holandês x Zebu. Coronel Pacheco: EMBRAPA-CNPGL, 1994. (EMBRAPA. Programa - Sistema de Produção Animal - código 06.0.94.203). Projeto de Pesquisa em Andamento.

MONTEIRO, F. A. Adubação para estabelecimento e manutenção de capim-elefante. In: CARVALHO, M. M.; ALVIM, M. J.; XAVIER, D. F.; CARVALHO, L. de A. (Ed.). Capim-elefante: produção e utilização. Coronel Pacheco: EMBRAPA-CNPGL, 1994. p. 49-79.

MONTEIRO, F. A.; WERNER, J. C. Ciclagem de nutrientes minerais em pastagens. In: SIMPÓSIO SOBRE ECOSSISTEMA DE PASTAGEM, 1989, Jaboticabal, SP. Anais... Jaboticabal: UNESP-FCAV/FUNEP, 1989. p. 149-192.

MOZZER, O. L. Capim-elefante: Curso de pecuária de leite. Coronel Pacheco, MG, EMBRAPA-CNPGL, 1990. 34 p. (EMBRAPA-CNPGL. Documentos, 43).

NASCIMENTO JÚNIOR, D. Pastagens (Glossário). Viçosa, MG: Universidade Federal de Viçosa, 1982. 15 p. (Boletim n. 145).

PASSOS, L. P. Fisiologia do Capim-elefante: uma revisão crítica. In: CARVALHO, L. P.; CARVALHO, L. de A.; MARTINS, C. E. et al. Biologia e manejo do Capim-elefante. Juiz de Fora, MG: Embrapa Gado de Leite, 1999. p. 29-62.

RESENDE, M. Pedologia. Viçosa: Imprensa Universitária, 1995. 100 p.

RODRIGUES, L. R. de. A.; REIS, R. A. Estabelecimento da cultura de capim-elefante. In: SIMPÓSIO SOBRE MANEJO DE PASTAGENS, 10., 1992, Piracicaba, SP. Anais... Piracicaba: USP/ESALQ, 1993. p 63 85.

SARAIVA, O. F. Recuperação e formação de pastagens e seus efeitos sobre as perdas de solo por erosão em área acidentada com capim-gordura. Coronel Pacheco: Embrapa-CNPGL, 1981. Relatório Final de Pesquisa.

SARAIVA, O. F.; CARVALHO, M. M. Adubação nitrogenada e fosfatada para o estabelecimento de capim-elefante em Latossolo Vermelho-Amarelo, textura argilosa. Revista Brasileira Ciência Solo, Campinas, v. 15, p. 201 205, 1991.

VILELA, D.; ALVIM, M. J. Produção de leite em pastagem de Cynodon dactilon (L.) Pers., cv “Coast cross”. In: WORKSHOP SOBRE POTENCIAL FORRAGEIRO DO GÊNERO CYNODON, 1996, Juiz de Fora. Anais... Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 1996. p. 77-91.

WERNER, J. C. Adubação de pastagens. 2. ed. Nova Odessa: Instituto de Zootecnia, 1986. 49 p.
 

4.4 - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta: manejo de plantas daninhas e forrageiras por meio de herbicidas

4.4.1 - Introdução

A integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF) agrega sistemas produtivos diversificados de madeira, grãos, fibras, carne e leite implantados numa mesma área em consórcio, sucessão ou rotação. Esse sistema procura minimizar e otimizar a utilização de produtos químicos, aumentando a eficiência na utilização de máquinas, equipamentos e mão de obra, gerando empregos e renda, além de melhorar as condições sociais no meio rural e reduzir os impactos ao meio ambiente.

De acordo com o Portal da Integração Lavoura-Pecuária (2008), o objetivo geral da iLPF é desenvolver sistemas de implantação de espécies florestais e culturas anuais associadas à pastagens. Tem ainda como objetivos específicos:

a) avaliar o comportamento de culturas anuais, cultivadas em consórcio com diferentes plantas forrageiras, em áreas de pastagens degradadas e de agricultura de grãos, nas diferentes condições edafoclimáticas;
b) selecionar forrageiras mais adaptadas para cobertura de solo em sistemas de semeadura direta e/ou alimentação animal na entressafra;
c) definir o manejo de herbicidas para reduzir e/ou eliminar a competição da forrageira com a cultura anual, possibilitando também a produção de forragem na entressafra;
d) definir estratégias de correção e adubação de solo para implantação da semeadura direta em pastagens degradadas;
e) avaliar o desempenho dos animais em sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta;
f) promover estratégias para validação e transferência de tecnologias de associações de espécies florestais, culturas anuais e pastagens.
Quando se associam vários cultivos implantados simultaneamente, torna-se um pouco mais complexo o controle de espécies daninhas. Também há necessidade de manejar corretamente a espécie forrageira para que não haja interferência da mesma nos cultivos em consórcio, com possibilidades de prejuízos à produtividade.
 

4.4.2 - Vantagens da iLPF

A implantação de sistemas de iLPF possibilita ao agricultor alcançar rendimentos satisfatórios de madeira e grãos, concomitantemente à recuperação ou renovação da pastagem, de forma mais rápida e econômica. Além disso, as pastagens utilizam-se dos nutrientes residuais da exploração lavoureira, com sistemas radiculares capazes de explorar maiores profundidades e volumes de solo. Essa tecnologia também possibilita e favorece a sucessão/rotação de culturas anuais e forrageiras, proporcionando os benefícios já conhecidos e desejados.

Quando o objetivo é também a obtenção de palhada para o sistema de semeadura direta, há um aumento considerável dos teores de matéria orgânica no solo, em função das plantas forrageiras serem eficientes no acúmulo de biomassa. Esse incremento de matéria orgânica tem ação positiva sobre a atividade da macro e microfauna do solo, auxilia na agregação das partículas, facilitando a infiltração de água no perfil. Consequentemente possibilita a redução da erosão e do escorrimento superficial (PALM et al., 2001). Além do mais, o aumento do teor de matéria orgânica favorece a maior porosidade e reduz a compactação do solo; também reflete no aumento da capacidade de troca catiônica (CTC) efetiva e, assim, possibilita maior armazenamento e retenção de nutrientes pelo solo (VILELA et al., 2003).

As forrageiras tropicais não são intensamente atacadas por insetos e doenças comuns às plantas cultivadas, quebrando o ciclo de vida dessas pragas. O uso da iLPF tem auxiliado na superação desses problemas advindos da agricultura tradicional como insetos-pragas, doenças (KLUTHCOUSKI et al., 2000), nematoides (VILELA et al., 1999) e plantas daninhas (COBBUCI et al., 2001). Esse fato possibilita a utilização de menores quantidades de produtos fitossanitários (OLIVEIRA et al., 2001), reduzindo enormemente os custos de produção. A palha da braquiária tem contribuído para diminuição da intensidade de ataque de doenças como o mofo-branco e podridões radiculares causadas por Rhizoctonia solani e Fusarium solani f. sp. phaseoli na cultura do feijoeiro (KLUTHCOUSKI et al., 2000). Existe ainda a opção em utilizar a gramínea forrageira como fonte de biomassa seca, ou palhada, para cobertura do solo, imprescindível para a implantação da semeadura direta (VILELA et al., 2003). A palhada sobre o solo exerce efeitos físicos e químicos sobre as plantas daninhas, proporcionando redução considerável da emergência e do estabelecimento dessas espécies, principalmente as infestantes de inverno (COBBUCI et al., 2001).

As forrageiras são eficientes em aumentar a população de fungos micorrízicos nativos, aumentando a capacidade dessas plantas em absorver nutrientes do solo, principalmente o fósforo (MIRANDA et al., 2001).

Existe também a possibilidade de inserção de árvores que trazem inúmeros benefícios ao sistema tais como a maior disponibilização de nutrientes para as culturas e forrageiras em consórcio; maior produção de biomassa e proteção do solo. Além disso, as árvores absorvem nutrientes de camadas mais profundas no perfil do solo, disponibilizando-os mais à superfície e ao alcance das forrageiras e das culturas anuais. No que concerne ao sombreamento proporcionado pelo componente florestal, o conforto térmico propiciado pelo mesmo aos animais em pastejo contribui para o maior ganho de peso (PACIULLO et al., 2006). A expectativa é que o conjunto de benefícios resultantes da presença de árvores em pastagens reflita em maior produção de leite, hipótese a ser confirmada em estudos posteriores.

Como consequência dos vários benefícios citados anteriormente, é possível observar maiores produções de grãos, carne, leite, madeira; produtores mais capitalizados; geração de empregos diretos e indiretos e, garantia do desenvolvimento e da sustentabilidade econômica do setor rural.
 

4.4.3 - Implantação dos cultivos e da espécie forrageira

Em relação ao componente florestal, a espécie mais empregada nesse sistema tem sido o eucalipto (Figura 1). Contudo, outras espécies também podem ser utilizadas e as pesquisas têm caminhado no sentido de proporcionar alternativas ao agricultor.


Figura 1. Implantação do componente florestal com eucalipto consorciado com braquiária.

Ao se determinar a área a ser utilizada para implantação da espécie florestal e dos cultivos anuais mais forrageiras, há necessidade prévia de combate às formigas cortadeiras, tanto na área em questão quanto nas áreas adjacentes. Também, a correção da acidez e a descompactação do solo devem ser realizadas previamente. De preferência, a aplicação do calcário deve ser efetuada seis meses a um ano antes da implantação das culturas anuais.

Quando se emprega o sistema de semeadura direta, é necessário realizar a dessecação pré-semeadura das culturas, a fim de controlar as espécies daninhas, plantas de cobertura ou plantas voluntárias presentes na área. Alguns herbicidas são indicados para aplicação antes da semeadura dos cultivos e citados na Tabela 1.

Tabela 1. Herbicidas para dessecação em pré-semeadura das culturas anuais e pré-plantio das espécies florestais.
Nome Técnico Nome comercial Concentração
g i.a/L - g e.a./L
Doses¹
kg i.a./hakg e.a./ha

Doses ¹
L p.c./ha

Paraquat² Gramoxone 200 0,3 a 0,6 1,5-3,0
2,4-D³ Diversos 670 a 720 0,5 a 1,1 0,8 a 1,5
Paraquat + Diuron Gramocil 200 + 100 0,4-0,6 + 0,2-0,3 2,0 a 3,0
Glyphosate Diversos 360 a 720 0,36 a 2,16 1,0 a 6,0
Glyphosate Potássico Zap QI 500 0,35 a 2,0 0,7 a 4,0
1Doses: i.a. (ingrediente ativo), e.a. (equivalente ácido) e p.c. (produto comercial);
2Adicionar 0,1 a 0,2% v/v de adjuvante não iônico (Agral);
3Estar atento para problemas de deriva, podendo afetar culturas sensíveis próximas à área de aplicação. Manter intervalo de 10 dias entre a aplicação e a semeadura da soja e do girassol.

As aplicações dos herbicidas são mais comumente realizadas por meio de pulverizadores de barra tratorizados (Figura 2A) ou mesmo pulverizadores manuais utilizados em áreas menores ou amorreadas (Figura 2B).


Figura 2. Pulverizador de barra tratorizado (A) e pulverizador manual (B).

A forma de implantação do consórcio de culturas anuais e espécies forrageiras deverá ser escolhida em função da operacionalidade das atividades na propriedade.

Situação 1 - Semeadura Convencional
Quando realmente não for possível realizar a semeadura direta, o sistema convencional também pode ser empregado. Nessa situação, faz-se o preparo do solo com aração e gradagem. A semeadura da cultura produtora de grãos e da forrageira, de preferência, deve ser realizada concomitantemente e um dia depois da última gradagem, a fim de evitar o rápido estabelecimento de espécies infestantes. Caso o agricultor não possua a semeadora múltipla de grãos e pastagem (Figura 3A), existe a opção de utilização de semeadoras simples de plantio convencional (Figura 3B). Neste caso, misturam-se as sementes da braquiária ao adubo de semeadura. Normalmente, é recomendado 2 a 4 kg de sementes puras viáveis (100% de valor cultural) por hectare (FERREIRA et al., 2007). Essas sementes devem ser misturadas no mesmo dia da semeadura, para que o adubo não prejudique o processo germinativo.


Figura 3. Semeadora múltipla de grãos e pastagem (A) e semeadora convencional (B).

Situação 2 – Semeadura direta
No sistema de semeadura direta, faz-se a dessecação pré-semeadura, conforme as opções de herbicidas descritas na Tabela 1. O herbicida mais empregado é o glyphosate. Nessa situação, há a opção de adicionar o ácido bórico como fonte de boro junto à calda herbicida, caso a análise de solo indicar baixo teor desse micronutriente (CASTRO & BRIGHENTI, 2007).
Em pequenas propriedades e também em regiões de relevo acidentado pode ser utilizada a matraca (Figura 4A) ou também semeadoras de plantio direto de uma linha de tração animal (Figura 4B). Nessas duas situações, as sementes da braquiária são misturadas ao adubo de semeadura, conforme procedimento mencionado anteriormente.

Existe também a possibilidade de implantação do consórcio das duas espécies utilizando semeadoras de plantio direto múltiplas de grãos e pastagem, conforme Figura 3A. Esses implementos possuem compartimentos separados de sementes maiores (milho, soja, feijão e girassol) e de sementes menores (braquiárias). Dessa forma, não é necessário misturar as sementes da forrageira ao adubo de semeadura.


Figura 4. Matraca (A) e semeadora de plantio direto de uma linha de tração animal (B).  

4.4.4 - Manejo de herbicidas para supressão da braquiária consorciada com culturas anuais

Os estudos envolvendo o consórcio de culturas anuais com forrageiras revelam que, em média, a presença da forrageira reduz a produtividade da lavoura em 5% (ALVARENGA, 2006). Contudo, existe a possibilidade de aplicação de doses reduzidas de herbicidas, imprescindíveis à supressão do crescimento da forrageira, evitando sua interferência sobre a cultura produtora de grãos.

No caso do milho, uma das combinações mais utilizadas é a mistura de atrazine mais nicosulfuron (FREITAS et al., 2005; JAKELAITIS et al., 2005; JAKELAITIS et al., 2006). O herbicida atrazine tem como função o controle das espécies daninhas de folhas largas e o nicosulfuron, aplicado em subdose (4 g i.a. ha-1), se encarrega da supressão temporária das plantas de braquiária (Figura 5A). No final, ao se colher o milho, há o restabelecimento da pastagem. Essa supressão se faz importante, pois, caso contrário, a braquiária pode interferir sobre o crescimento e o desenvolvimento do milho e, consequentemente prejudicar a sua produtividade (Figura 5C).

Em relação à cultura do feijoeiro, há a possibilidade em se utilizar o herbicida tepraloxydim que, em doses baixas (6 g i.a. ha-1), também é capaz de retardar o crescimento da braquiária (Figura 5B). Quando não se aplica o herbicida, a braquiária pode ultrapassar o dossel da cultura, competindo com as plantas de feijão com possibilidade de redução da produtividade e dificultando, até mesmo, a colheita (Figura 5D).


Figura 5. Controle de plantas daninhas e supressão do crescimento da braquiária com a aplicação de atrazine mais nicosulfuron na cultura do milho (A) e tepraloxydim na cultura do feijão (B) e as testemunhas sem aplicação na cultura do milho (C) e do feijoeiro (D).

Outra cultura que vem sendo pesquisada nos sistemas de iLPF é o girassol. No período de planejamento e aquisição das sementes dessa cultura, pode-se optar por genótipos convencionais (sem o gene de resistência a herbicidas do grupo químico das imidazolinonas), ou mesmo, optar por genótipos resistentes a esses herbicidas (Girassol Clearfield).

Ao se utilizar genótipos convencionais, como por exemplo, o híbrido Aguará 4, a aplicação de subdoses de herbicidas graminicidas, em pós-emergência, é vantajosa para o sucesso do consórcio, evitando a competição da gramínea forrageira com o girassol (BRIGHENTI et al., 2008a). A aplicação é feita normalmente no estádio fenológico V6 do girassol e as plantas de braquiária com 2 a 3 perfilhos, com altura média de 15 a 20 cm. Nesse caso, os herbicidas tepraloxydim (10 g i.a. ha-1) (Figura 6A e 6B) ou mesmo o fluazifop-p-butyl (12,5 e 25,0 g i.a. ha-1) (Figuras 7 e 8, respectivamente) são graminicidas potenciais na supressão da B. ruziziensis. Essa prática proporciona a redução no crescimento inicial da espécie forrageira sem causar a morte das plantas e assim permitindo a recuperação posterior da pastagem.


Figura 6. Supressão do crescimento da Brachiaria ruziziensis aos 14 DAA (dias após a aplicação do herbicida) (A) e recuperação das plantas aos 48 DAA (B), em função da dose de 10 g i.a. ha-1 de tepraloxydim.


Figura 7. Supressão do crescimento da Brachiaria ruziziensis aos 14 DAA (dias após a aplicação do herbicida) (A) e recuperação das plantas aos 48 DAA (B), em função da dose de 12,5 g i.a. ha-1 de fluazifop-p-butyl.


Figura 8. Supressão do crescimento da Brachiaria ruziziensis aos 14 DAA (dias após a aplicação do herbicida) (A) e recuperação das plantas aos 48 DAA (B), em função da dose de 25,0 g i.a. ha-1 de fluazifop-p-butyl.

As doses aplicadas destes herbicidas são bastante seletivas para a cultura do girassol, cujas plantas não apresentam nenhum sintoma de injúria.

Quando são implantados genótipos de girassol resistentes a herbicidas do grupo químico das imidazolinonas como, por exemplo, o híbrido Paraíso 102 CL, há a opção em se utilizar herbicidas que controlam tanto plantas daninhas dicotiledôneas (folhas largas) quanto as gramíneas, possibilitando também a redução do crescimento da espécie forrageira (BRIGHENTI et al., 2009). Esses herbicidas são aplicados em condições de pós-emergência do girassol, preferencialmente no estádio fenológico V6 e as plantas de braquiária com altura média de 15 a 20 cm e 2 a 3 perfilhos. Nessa condição, o herbicida aplicado é capaz de retardar o crescimento da espécie forrageira e, ao mesmo tempo, controlar as plantas daninhas de folhas largas, com recuperação posterior da pastagem. A dose de 70 g i.a. ha-1 de imazethapyr proporciona controle eficaz de espécies daninhas de folhas largas e retarda o crescimento da braquiária (Figura 9) (BRIGHENTI et al., 2008b).

Figura 9. Supressão do crescimento da Brachiaria ruziziensis aos 9 DAA (dias após a aplicação do herbicida) (A) e recuperação das plantas aos 36 DAA (B), em função da aplicação da dose de 70 g i.a. ha-1 de imazethapyr.

Próximo ao estádio de maturação fisiológica e senescência das culturas anuais, ocorre gradativamente maior penetração de luz nas entrelinhas das culturas produtoras de grãos. Esse fato permite que a espécie forrageira se restabeleça mais rapidamente, a fim de recobrir o solo e recuperar a pastagem (Figuras 10A e 10B).


Figura 10. Restabelecimento da pastagem de braquiária após a aplicação de nicosulfuron na cultura do milho (A) e imazethapyr na cultura do girassol resistente a herbicidas do grupo químico das imidazolinonas (Girassol Clearfield) (B).

4.4.5 - Considerações finais

Atualmente, o manejo de plantas daninhas e forrageiras em sistemas consorciados como os de iLPF é bastante complexo. Com a expansão desse sistema, caso não sejam envidados esforços em se pesquisar formas mais adequadas de manejo correto de espécies infestantes e forrageiras, corre-se o risco de haver prejuízos consideráveis ao consórcio. Além do que, novas espécies florestais, culturas anuais e forrageiras têm sido consideradas como potenciais e com possibilidade de inserção nos diferentes sistemas de iLPF.

A prática de aplicação de subdosagens de herbicidas é uma tecnologia viável no sentido de retardar o crescimento da espécie forrageira, evitar a competição com a cultura produtora de grãos e garantir a recuperação posterior da pastagem. Entretanto, no Brasil, não há uma modalidade de registro de herbicidas para utilização em subdosagens com o intuito de retardar temporariamente o crescimento de plantas forrageiras. Além disso, combinações de herbicidas com o propósito de controlar plantas daninhas e, ao mesmo tempo, inibir o crescimento de plantas forrageiras ainda não estão comercialmente disponíveis. Também o fato de existir somente dois herbicidas registrados para a cultura do girassol no Brasil (o alachlor e o trifluralin) limita, de forma considerável, as ações técnicas quando da necessidade de recomendações para essa cultura. Por isso, qualquer trabalho dessa natureza deve ser sempre acompanhado por um engenheiro agrônomo.
 

4.4.6 - Referências

ALVARENGA, R. C.; COBUCCI, C.; KLUTHCOUSKI, J.; WRUCK, F. J.; CRUZ, J. C.; GONTIJO NETO, M. M. A cultura do milho na integração lavoura pecuária. Sete Lagoas: EMBRAPA-CNPMS, 2006. 12 p. (EMBRAPA-CNPMS. Circular Técnica, 80).

BRIGHENTI, A. M.; CASTRO, C.; SOUZA SOBRINHO, F.; ROCHA, W. S. D.; COSTA, T. R.; MARTINS, C. E. Manejo da Brachiaria ruziziensis consorciada com girassol resistente aos herbicidas inibidores da enzima aceto-lactato sintase (ALS). In: CONGRESSO NORDESTINO DE PRODUÇÃO ANIMAL, 5., 2008, Aracaju. Anais... Aracaju: SNPA, 2008b. 1 CD-Rom.

BRIGHENTI, A. M.; SOUZA SOBRINHO, F. de; COSTA, T. R.; ROCHA, W. S. D. da; MARTINS, C. E.; CALSAVARA, L. H. F. A cultura do girassol consorciada com capim braquiária em sistemas de integração lavoura pecuária. In: TORRES, R. de A.; OLIVEIRA, V. M.; PIRES, J. A. A. (Ed.). Práticas de manejo na intensificação da produção de leite de base familiar do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2009. p. 123-144.

BRIGHENTI, A. M.; SOUZA SOBRINHO, F.; ROCHA, W. S. D.; COSTA, T. R.; CASTRO, C.; MARTINS, C. E. Supressão do crescimento da Brachiaria ruziziensis consorciada com girassol utilizando doses reduzidas de herbicidas inibidores da ACCase. In: CONGRESSO NORDESTINO DE PRODUÇÃO ANIMAL, 5., 2008, Aracaju. Anais... Aracaju: SNPA, 2008a. 1 CD-Rom.

CASTRO, C.; BRIGHENTI, A. M. Compatibility of herbicides with boron fertilizers for weed desiccation and mineral nutrition of sunflower. Helia International Scientific Journal, v. 30, n. 47, p. 1-14, 2007.

COBUCCI, T.; KLUTHCOUSKI, J.; AIDAR, H. Sistema Santa Fé: produção de forragem na entressafra. In: WORKSHOP INTERNACIONAL PROGRAMA DE INTEGRAÇÃO AGRICULTURA E PECUÁRIA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DAS SAVANAS TROPICAIS SULAMERICANAS, 2001, Santo Antônio de Goiás. Anais... Santo Antônio de Goiás: Embrapa Arroz e Feijão, 2001. p. 125-135. (Embrapa Arroz e Feijão. Documentos, 123).

FERREIRA, L. R.; QUEIROZ, D. S.; MACHADO, A. F. L.; FERNANDES, L. O. Formação de pastagens em sistemas de integração. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 28, n. 240, p. 52-62, set./out. 2007.

FREITAS, F. C. L.; FERREIRA, L. R.; FERREIRA, F. A.; SANTOS, M. V.; AGNES, E. L.; CARDOSO, A. A.; JAKELAITIS, A. Formação de pastagens via consorcio de Brachiaria brizantha com milho para silagem no sistema de plantio direto. Planta Daninha, v. 23, n. 1, p. 49-58, 2005.

INTEGRAÇÃO Lavoura-Pecuária - Portal. Disponível em: <http://ilpf.cnpms.embrapa.br>. Acesso em 18 nov. 2011.

JAKELAITIS, A.; SILVA, A. A.; SILVA, A. F.; SILVA, L. P.; FERREIRA, L. R.; VIVIAN, R. Efeito de herbicidas no controle de plantas daninhas, crescimento e produção de milho e Brachiaria brizantha em consórcio. Pesquisa Agropecuária Tropical, v. 36, n. 1, p. 53-60, 2006.

JAKELAITIS, A.; SILVA, A. F.; SILVA, A. A.; FERREIRA, L. R.; FREITAS, F. C. L.; VIVIAN, R. Influência de herbicidas e de sistemas de semeadura de Brachiaria brizantha consorciada com milho. Planta Daninha, v. 23, n. 1, p. 59-67, 2005.

KLUTHCOUSKI, J.; COBUCCI, T.; AIDAR, H.; YOKOYAMA, L. P.; OLIVEIRA, I. P. de.; COSTA, J. L. da S.; SILVA, J. G. da; VILELA, L.; BARCELLOS, A. de O.; MAGNABOSCO, C. de U. Sistema Santa Fé – Tecnologia Embrapa: integração lavoura-pecuária pelo consórcio de culturas anuais com forrageiras, em áreas de lavoura, nos sistemas direto e convencional. Santo Antônio de Goiás: Embrapa Arroz e Feijão, 2000. 28 p. (Embrapa Arroz e Feijão. Circular Técnica, 38).

MIRANDA, J. C. C.; MIRANDA, L. N.; VILELA, L.; VARGAS, M. A.; CARVALHO, A. M. Manejo da micorriza arbuscular por meio de rotação de culturas nos sistemas agrícolas dos cerrados. Planaltina: Embrapa Cerrados, 2001. 3 p. (Embrapa Cerrados. Comunicado Técnico, 42).

OLIVEIRA, I. P. de; ROSA, S. R. A. da; KLUTHCOUSKI, J.; AIDAR, H.; COSTA, J. L. da. Palhada no Sistema Santa Fé. Informações Agronômicas, Piracicaba, n. 93, p. 69, 2001.

PACIULLO, D. S. C.; AROEIRA, L. J. M.; PIRES, M. F. A. Sistemas silvipastoris para a produção de leite. In: SIMPÓSIO SOBRE MANEJO DE PASTAGENS, 23., 2006, Piracicaba. Anais... Piracicaba: FEALQ, 2006. p. 327-351.

PALM, C. A.; GILLER, K. E.; MFONGOYA, P. L. Management of organic matter in the tropics: translating theory into practice. Nutrient Cycling in Agroecosystems, Dordrecht, v. 61, n. 1, p. 63-75, 2001.

VILELA, L.; MACEDO, M. C. M.; MARTHA JÚNIOR, G. B.; KLUTHCOUSKI, J. Benefícios da Integração Lavoura Pecuária. In: KLUTHCOUSKI, J.; STONE, L. F.; AIDAR, H. Integração lavoura-pecuária. Santo Antônio de Goiás: Embrapa Arroz e Feijão, 2003. p. 145-170.

VILELA, L.; MIRANDA, J. C. C.; SHARMA, R. D.; AYARZA, M. A. Integração lavoura-pecuária: atividades desenvolvidas pela Embrapa Cerrados. Planaltina: Embrapa Cerrados, 1999. 31p. (Embrapa Cerrados. Documento, 9).
 

4.5 - A pecuária de leite na integração lavoura-pecuária-floresta

4.5.1 - Introdução

A pecuária nacional caracteriza-se pela dependência das pastagens, que são constituídas, principalmente, por forrageiras tropicais nativas ou naturalizadas e cultivadas, com produção vegetal sazonal em consequência de fatores climáticos.

A regularidade da produção de leite torna-se dependente de alternativas de alimentação, como suplementação alimentar em pasto e, também, do uso de forragens conservadas. Os métodos, modelos ou sistemas de produção adotados vão da utilização extensiva da pastagem ao confinamento total, cujos índices de produtividade também apresentam grandes variações regionais. Ademais, a cadeia produtiva do leite é a que mais se transformou nos últimos anos, tendo ocorrido profundas alterações em todos os seus segmentos, da produção ao consumo.

Embora a exploração leiteira brasileira seja bastante diversificada, há necessidade de se intensificar os sistemas de produção para manutenção dos produtores na atividade. A busca pela redução de custos é essencial. Nesse aspecto, a possibilidade de produção em pasto é estratégica para o país, visto que a alimentação animal é responsável por até 60% do custo operacional da produção do leite. Logo, a intensificação dos sistemas produtivos de leite, obrigatoriamente passa pela melhoria das pastagens e aumento da capacidade de suporte. Contudo, essa necessidade de incremento no rendimento das pastagens confronta-se com a consideração que a maioria dos pecuaristas brasileiros tem a respeito das áreas de pastagens, não as considerando como culturas.

Neste contexto, a integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF) apresenta-se como uma valiosa ferramenta a ser difundida para uso pelos produtores de leite, pois a associação dos conhecimentos e das tecnologias hoje existentes faz deste sistema uma excelente alternativa para a produção estável, econômica e ecologicamente sustentável, além de possibilitar a diversificação de renda do produtor. A visão consensual da iLPF é de ser uma estratégia gerencial que integra sistemas de produção agrícola, pecuário e florestal, em dimensão espacial e/ou temporal, buscando efeitos sinérgicos entre os componentes do agroecossistema para a sustentabilidade da unidade de produção, contemplando sua adequação ambiental e a valorização do capital natural.

A iLPF contempla sistemas produtivos diversificados de grãos, fibra, carne, leite, lã, produtos florestais, realizados na mesma área, em plantio consorciado, em sucessão ou rotacionado. Tem por objetivo maximizar a utilização dos ciclos biológicos das plantas, animais e seus respectivos resíduos, assim como dos efeitos residuais de corretivos e nutrientes. Visa ainda minimizar e otimizar a utilização de agroquímicos, aumentar a eficiência no uso de máquinas, equipamentos e mão de obra, gerar emprego, renda, melhorar as condições sociais no meio rural, além de reduzir os impactos ao meio ambiente.

Mesmo que o produtor de leite não tenha intenção de enveredar pelo “caminho da agricultura”, a possibilidade de utilização das lavouras apenas para recuperação das pastagens faz da iLPF uma excelente alternativa para produção de alimentos para venda ou uso na alimentação animal. No caso dos componentes arbóreos, que podem ser inseridos a qualquer momento nos sistemas produtivos, há possibilidade de criação de uma “poupança” verde, que pode fornecer madeira para diversas finalidades tais como lenha, mourões e madeira para serraria, com consequente geração de renda adicional para o produtor.
 

4.5.2 - A inserção da iLPF nos sistemas de produção de leite

No caso do pecuarista de leite, uma das alternativas de integração seria por meio do consórcio de forrageiras com culturas anuais utilizadas para produção de grãos, destinadas à obtenção de concentrado ou de silagem. O milho, o sorgo e o milheto são culturas bastante empregadas com essas finalidades. As espécies forrageiras, nessas situações, podem ser plantadas sem maiores prejuízos às culturas. Lavouras de grãos também são muito bem aceitas nos sistemas de iLPF e seus produtos podem ser empregados tanto para comercialização direta como para a produção de concentrado de menor custo. No caso do componente arbóreo, diferentes espécies podem ser utilizadas. A definição dependerá da finalidade do produto que será gerado. De modo geral, as árvores são utilizadas para proporcionar sombra, conforto aos animais, e para fornecer madeira utilizada como lenha ou mourões destinados à recuperação e construção de cercas. Nesses casos, o componente mais utilizado é o eucalipto. Porém, se o interesse do produtor for a produção de frutos, fibras, energia (carvão, biodiesel) ou banco de proteína, outras espécies poderão ser utilizadas. É sempre importante salientar que o arranjo do componente arbóreo tem grande influência na produtividade do pasto.

As opções das culturas (lavouras, forrageiras e/ou componente arbóreo) e dos esquemas de rotações a serem utilizados são muitas, devendo ser adaptadas de acordo com o interesse e aptidão de cada produtor e região. Vale ressaltar que a iLPF não é um sistema fechado (um pacote tecnológico), por isso permite a adaptação de quaisquer espécies vegetais e animais, visando atender aos anseios dos produtores. A assistência técnica deve sempre estar presente para auxiliar os produtores nas adaptações necessárias.

Como exemplo de culturas e rotação para a iLPF1 , explorando a pecuária de leite, segue o esquema abaixo (Figura 1). É importante salientar que o esquema é somente uma orientação, pois a escolha do uso de iLP (integração lavoura-pecuária) ou iLPF dependerá de discussões entre os interessados, além disso, os produtores poderão implantar diferentes sistemas na mesma fazenda.


Figura 1. Esquema de rotação de culturas e forrageiras na iLP2. Adaptado de Souza Sobrinho et al. (2007).

Nesse caso (Figura 1), a área total3 da fazenda foi dividida em três partes. Cada uma delas cultivada por duas safras com milho para silagem em consórcio com uma espécie forrageira. Após a retirada da silagem na segunda safra, a área permanece como pasto por, aproximadamente, um ano e meio (março de um ano – colheita da silagem, até setembro/outubro do ano seguinte – plantio de milho para silagem). Após esse período, a área novamente seria utilizada para produção de silagem. Ressalta-se, contudo, que durante o inverno, período de maior escassez de forragem, toda a área cultivada pode ser pastejada.

A semeadura da forrageira pode ser simultânea à da cultura ou com alguma defasagem para evitar competição que possa reduzir a produtividade da lavoura. Apesar da preocupação de muitos agricultores, na maioria das vezes, as forrageiras não prejudicam o desempenho das culturas, mesmo quando semeadas simultaneamente, em função, principalmente, de diferenças nas curvas de crescimento das espécies. Portanto, recomenda-se o plantio simultâneo (Figura 2).


Figura 2. Ilustração do desenvolvimento inicial e próximo à colheita para silagem do milho e da braquiária, semeados simultaneamente, em cultivo de iLP.

Quando o desenvolvimento inicial da lavoura é prejudicado por algum motivo, ou quando a forrageira apresenta grande vigor, é possível retardar o desenvolvimento desta última, sem prejuízos para as lavouras, por meio da aplicação de herbicidas seletivos, em subdoses. Nesse caso, não há morte da forrageira, apenas supressão ou paralisação no desenvolvimento por intoxicação com os produtos. Mesmo sem a aplicação de herbicida o desenvolvimento das braquiárias, espécie forrageira amplamente difundida no Brasil, é bem mais lento que o do milho. A aplicação do nicosulfuron, em doses bem abaixo das recomendadas para controle total das plantas daninhas, mostra-se muito eficiente para redução do desenvolvimento da braquiária.

As decisões das culturas a serem empregadas na iLPF devem ser tomadas pelo produtor, auxiliado pela assistência técnica, bem como os esquemas de rotação e a forma de operacionalizar o consórcio. Normalmente os agricultores utilizam rotações em que o pasto permanece por menor tempo (1 a 2 anos, por exemplo), ao contrário dos pecuaristas, que preferem utilizar as pastagens por intervalos maiores de tempo. É importante mencionar que o incremento em quantidade e qualidade da forragem advindo da iLPF é decorrente da correção e disponibilização de nutrientes residuais da adubação das lavouras. Quando o intervalo de renovação dos pastos, ou seja, de retorno das lavouras nas áreas de pasto, for maior que 2 a 3 anos é recomendada adubação da forrageira para evitar queda acentuada na produtividade. É importante lembrar que a aplicação de corretivos no pasto é feita a lanço e sem incorporação (1/4 da dose recomendada para uma profundidade de 20 cm) e que o fósforo é um nutriente de baixa mobilidade no solo. Assim, o plantio da lavoura favorece mais a recuperação da camada agricultável do solo, pois há incorporação do fósforo e de parte do corretivo na linha de semeadura. Portanto, caso o produtor não faça o plantio do milho novamente na área o processo de degradação continuará, o que poderá obrigar o pecuarista a renovar a pastagem de forma convencional, utilizando aração e gradagem. Desta forma, ocorrerá aumento nos custos de produção e o sistema de integração perderá uma de suas finalidades, que é a recuperação de áreas degradadas.

É importante salientar, no caso do componente florestal, que a associação de diferentes espécies em um mesmo sistema implica na existência de interações ecofisiológicas entre os componentes arbóreos/arbustivos e não arbóreos (forrageiras, culturas de grãos e animais). Estas interações se fazem presentes, principalmente pela competição por luz, água e nutrientes. Desta forma, é possível inferir que fatores tais como: o arranjo estrutural (composição de espécies e espaçamentos de plantio), a idade do plantio, o tipo de espécie (arquitetura de copa) e o sistema de manejo (desramas e desbastes) são de fundamental importância para a sustentabilidade desses tipos de sistemas. De forma geral, espaçamentos mais abertos (por exemplo, entre 20 e 30 m) favorecem a penetração de radiação luminosa no subbosque, proporcionando melhores condições para a produtividade da pastagem.

A definição do sistema de manejo do componente florestal também assume fundamental importância tanto na produção florestal quanto na produção pecuária. Basicamente, são duas as práticas silviculturais adotadas: a desrama e o desbaste, que proporcionam maior incidência de luminosidade no sub-bosque favorecendo a produção das culturas forrageiras.

Assim, pode-se inferir que não existe uma fórmula definida para o desenho desses sistemas. Cada caso deve ser analisado in loco e juntamente com o produtor, levando-se em consideração diversos fatores tais como: finalidade do sistema (produção de madeira para serraria, para uso na propriedade, etc.), perfil do produtor (pecuarista, lavourista, silvicultor), condições socioeconômicas, condições edafoclimáticas locais, mercado, etc. Dessa forma, o arranjo espacial e as práticas silviculturais das árvores devem ser manejados de forma que se possa aumentar ou diminuir a densidade de árvores sem prejuízo da área útil para a cultura forrageira.

Verifica-se grande potencial da pecuária leiteira em participar, com vantagens, nos sistemas integrados de produção. Há possibilidade de ganhos tanto para os sistemas integrados como para a cadeia do leite.

Ressalta-se, ainda, que o custo de produção do leite em sistemas integrados pode ser reduzido em função, basicamente, de maior disponibilidade de alimentos em quantidade e qualidade. Dois pontos merecem destaque. O primeiro refere-se à incorporação de culturas de grãos na fazenda ou na região produtora de leite. O custo do transporte de grãos das principais regiões produtoras para as fazendas de leite eleva o preço do concentrado fornecido às vacas, aumentando o custo de produção unitário. A proximidade ou a interação com a produção de grãos permitirá a adoção de subprodutos das culturas ou indústrias processadoras na formulação de concentrados. Gera-se, então, expectativa de redução nos custos com a suplementação concentrada.

O segundo ponto diz respeito à melhoria da quantidade e qualidade de forragem disponível nas pastagens. Como já mencionado, a maioria das pastagens brasileiras encontra-se abaixo do seu potencial produtivo, ou seja, em algum estágio de degradação. Como normalmente os pecuaristas não consideram a pastagem como uma lavoura, que deve ser cuidada e adubada, a tendência seria a redução cada vez maior do potencial produtivo das pastagens e dos solos. Com a adoção da iLPF, que nada mais é do que uma forma de intensificação da exploração agrícola, haverá maior disponibilidade de forragem de melhor qualidade para os animais, quer seja pela adubação residual das lavouras ou da própria pastagem (Figura 3).


Figura 3. Ilustração de áreas de uma fazenda que aplica as tecnologias da iLPF.

Com a iLPF espera-se que haja mudanças de hábitos, tanto de pecuaristas como de lavouristas. No caso específico dos pecuaristas, os custos de recuperação das pastagens serão embutidos no custo de implantação e na receita gerada pelo sistema, fazendo com que percebam que o gasto com a adubação anual das pastagens é menor que os prejuízos causados pela redução da produção de forragem e/ou pela necessidade de altas doses de corretivos e adubos a cada vez que as pastagens forem sucedidas por lavouras. Se for utilizado o plantio direto no sistema de iLPF, o solo terá a sua estrutura preservada, a matéria orgânica será mantida e incrementada em muitos casos, a infiltração de água no solo será aumentada, reduzindo a erosão e a perda de solo. Do ponto de vista econômico, a iLPF proporciona redução de 10 a 25% nos desembolsos com a reforma de pastagens e permite a amortização do capital investido já no primeiro ano (SANTOS, 2004). Com a elevação e manutenção da disponibilidade de forragem de qualidade, novos fatores dentro das fazendas poderão ou deverão ser alterados. Havendo qualidade na alimentação, os produtores conhecerão melhor o potencial do seu rebanho, em termos de produção de leite, com possibilidade de incremento de renda. Em contrapartida, melhorias na gestão das propriedades serão necessárias não só pela inclusão de novos fatores na exploração leiteira, mas principalmente em função de novas atividades agrícolas muitas vezes desconhecidas dos pecuaristas. Por isso, o acompanhamento da assistência técnica é essencial para a adoção das tecnologias preconizadas pela iLPF.

Uma outra característica importante da iLPF com reflexos positivos no aumento da competitividade da exploração leiteira é a existência de pastos recém-formados todos os anos em diferentes glebas/áreas. Nota-se que os pastos de primeiro ano mantém-se verdes por mais tempo no início da estação seca, retardando a necessidade de suplementação volumosa no cocho. Como a escassez de alimentos nessa época do ano é um dos principais gargalos da produção de leite em pasto, a iLPF poderá contribuir com sua viabilização na maior parte do ano, reduzindo a necessidade de suplementação volumosa. Além do mais, dentro de uma fazenda produtora de leite é possível a obtenção de renda a partir da produção e comercialização de alimentos (grãos, silagem e feno) e maior número de animais excedentes, além dos produtos obtidos com o componente arbóreo.

 

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------
1A implantação do sistema de iLPF não dispensará a necessidade de volumoso no inverno. Porém, os pastos reformados serão mais produtivos e permitirão retardar o trato no cocho. Além disso, por serem adubados, de acordo com a recomendação técnica, a rebrota será mais rápida no final da seca, quando as temperaturas estiverem altas e ocorrerem as primeiras chuvas. Nesse caso, o produtor poderá parar ou reduzir o trato dos animais no cocho mais cedo.
É importante salientar, ainda, que sempre haverá áreas de lavouras para produção de silagem. Essa silagem deverá ser suficiente para tratar dos animais no período seco (volumoso).
2A inserção do componente arbóreo pode ser realizada a qualquer momento e não necessariamente em todas as áreas, dependendo do desejo e necessidade do produtor. Naquelas áreas onde o componente florestal está presente a entrada dos animais deverá ser retardada, caso não seja possível utilizar proteção para as árvores. Recomenda-se também que se utilizem, de preferência, animais mais jovens nos pastejos iniciais, evitando-se danos às árvores que, embora sejam altas, apresentam pequeno diâmetro do caule.
3Não há restrição de local para a implantação do sistema. Por ser maleável, ele será ajustado e adaptado de acordo com as características do local.

4.5.3 - Referências

BRIGHENTI, A. M.; SOUZA SOBRINHO, F. de; ROCHA, W. S. D. da; MULLER, M. D.; MARTINS, C. E. Integração Lavoura-Pecuária-Floresta. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DO LEITE, 7., 2009, Juiz de Fora. Fórum das Américas: leite e derivados: anais. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2009. p. 171-199.

BRIGHENTI, A. M.; SOUZA SOBRINHO, F.; ROCHA, W. S. D.; MULLER, M. D.; MARTINS, C. E.; SANTOS, E. V. Utilização do sistema de plantio direto na renovação de pastagens. In: ZAMBOLIM, L.; SILVA, A. A.; AGNES, E. L. (Ed.) Manejo Integrado: integração agricultura-pecuária. Viçosa: UFV, 2004. p. 269-286.

ROCHA, W. S. D.; MULLER, M. D.; SOUZA SOBRINHO, F.; MARTINS, C. E.; SANTOS, A. M. B.; ANDRADE, P. Pecuária de leite na integração lavoura-pecuária-floresta. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 31, p. 579-584, 2010.

ROCHA, W. S. D.; SOUZA SOBRINHO, F.; CASTRO, C. R. T.; MULLER, M. D.; BRIGHENTI, A. M.; GOMIDE, C. A.; MARTINS, C. E.; PACIULLO, D. S. C. Integração Lavoura-pecuária-floresta (IFLP). In: AUAD, A. M.; BRIGHENTI, A. M.; CARNEIRO, A. V.; RIBEIRO, A. C. de C. L.; CARVALHO, A. da C.; FREITAS, A. F. de; CARVALHO, B. C. de; ALENCAR, C. A. B. de; GOMIDE, C. A. de M.; MARTINS, C. E.; CASTRO, C. R. T. de; PACIULLO, D. S. C.; NASCIMENTO JUNIOR, E. R. do; SOUZA SOBRINHO, F. de; DERESZ, F.; LOPES, F. C. F.; SOUZA, G. N. de; WERNERSBACH FILHO, H. L.; OLIVEIRA, J. S. e; CARNEIRO, J. da C.; VIANA, J. H. M.; FURLONG, J.; MENDONCA, L. C.; STOCK, L. A.; CAMARGO, L. S. de A.; MULLER, M. D.; OTENIO, M. H.; PEREIRA, M. C.; MACHADO, M. A.; GAMA, M. A. S. da; JUNQUEIRA, M. M.; SILVA, M. V. G. B.; PIRES, M. de F. A.; PEIXOTO, M. G. C. D.; GUIMARAES, M. F. M.; TORRES, R. de A.; TEIXEIRA, S. R.; VEIGA, V. M. de O.; ROCHA, W. S. D. da MANUAL de bovinocultura de leite. Brasília: LK Editora; Belo Horizonte: SENAR-AR/MG; Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2010. p. 183-202.

SOUZA SOBRINHO, F.; SANTOS, A. M. B.; NOVAES, L. P. La ganadería de leche en la Integración Agricultura-Ganadería-Floresta In: MARTINS, P. do C.; DINIZ, F. H.; MOREIRA, M. S. de P.; NOGUEIRA NETTO, V.; ARCURI, P. B. (Ed.). Conocimientos y estrategias tecnológicas para la producción de leche en regiones tropicales. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2007, p. 173-210.
 

4.6 - Alimentação de bezerras, novilhas e vacas leiteiras

4.6.1 - Introdução

Os nutrientes (água, proteína, fibra, minerais e vitaminas) contidos na dieta dos bovinos (pastagens ou pastagens e suplementos concentrados) são utilizados para atender as necessidades de mantença, crescimento, reprodução e produção, quer seja na forma de leite ou carne. As necessidades de mantença do animal (metabolismo e funções de respiração, digestão, manutenção da temperatura do corpo, assim como a locomoção) variam muito e podem representar 30 a 40% das necessidades de energia e proteína. As necessidades de nutrientes para atender o leite produzido por uma vaca em lactação também são grandes e variam em função da quantidade produzida. Manter uma alimentação balanceada para atender cada uma das necessidades acima mencionadas é de fundamental importância, tanto do ponto de vista nutricional quanto econômico. Em sistemas de produção de leite, a alimentação do rebanho pode representar de 40 a 60% do custo total.

A vaca de leite é capaz de transformar alimentos não essenciais (forragens) aos não-ruminantes, em produtos (leite e carne) de valor econômico. A digestão de alimentos volumosos e concentrados ocorre no estomago, o qual é dividido em rúmen, retículo, omaso e abomaso. No rúmen e retículo, há população microbiana (bactérias e fungos) que digere os alimentos volumosos e concentrados, produzindo os ácidos graxos voláteis (acético, propiônico e butírico, entre outros). Estes ácidos são absorvidos, atravessam a parede ruminal, entram na corrente sanguínea e são utilizados pelo organismo como nutrientes para a síntese de leite, para ganho de peso, etc. Entretanto, à medida que se busca maior produtividade por animal, os volumosos (pasto, silagens e feno) não contêm nutrientes em quantidades suficientes para atender esta maior produtividade. Neste caso, além dos volumosos, a alimentação do rebanho leiteiro deve ser acrescida de uma mistura de concentrados, minerais e algumas vitaminas. É bom salientar que, em cada fase da vida do ruminante, é necessária dieta balanceada em energia, proteína, fibra, minerais e vitaminas.

Na prática, é preciso balancear as dietas para cada categoria animal usando a composição química dos alimentos. Para tal, é preciso conhecer as necessidades de mantença do animal e de nutrientes para produção de leite e ganho de peso. No caso de vacas, estes dados de necessidades são obtidos de tabelas do tipo NRC (CONSELHO DE NECESSIDADES NUTRICIONAIS OU NUTRIENT REQUIREMENTS COUNCIL 1989 e 2001). A combinação ideal para formular uma dieta adequada pode ser realizada de forma manual ou com a ajuda de programas de computador, mas é preciso conhecer a composição química dos alimentos.
 

4.6.2 - Alimentação e manejo de bezerras

Este tópico vai se referir mais à fêmea, pois o macho, usualmente, é abatido logo ao nascer, mas se isso não ocorre serve para o manejo do macho. Ao nascer, a bezerra é um animal monogástrico (não ruminante) com o estômago apresentando características diferentes do animal ruminante adulto, não sendo capaz de utilizar alimentos sólidos, mas com todas as condições fisiológicas e bioquímicas para utilizar o leite. Sob condições normais de alimentação e manejo, em 45 dias a bezerra pode ser desmamada e considerada animal ruminante e com habilidade para sobreviver consumindo alimentos volumosos e concentrados.

4.6.2.1 - Aleitamento de bezerras

A fase de aleitamento pode ser natural ou artificial. No aleitamento natural, o bezerro mama o leite diretamente no úbere da vaca, podendo ou não ser controlado. Este sistema deve ser adotado em propriedades cujo plantel é formado por rebanhos puros das raças zebuínas, ou rebanhos de vacas mestiças Europeu x Zebu, onde é comum as vacas “esconderem o leite” na ausência do bezerro no momento da ordenha. Felizmente, a seleção de vacas para ordenha mecânica está superando esta característica. Outra possibilidade é adaptar a ordenha mecânica para a presença do bezerro na hora das ordenhas. A mão de obra pouco qualificada, no aspecto de higiene, é outro fator limitante para se usar o aleitamento artificial.

Quando o método de aleitamento usado for o natural, há sugestões de que a amamentação seja restrita, ou que se deixe apenas um teto para o bezerro, pois oferece maiores benefícios no desempenho das vacas e dos bezerros quando comparada à amamentação natural sem restrição ou controle. Há algumas informações na literatura que, quando o bezerro mama, as vacas produzem mais leite por lactação. Porém, é difícil controlar a quantidade de leite fornecida para o bezerro, sendo preciso pesar e avaliar seu ganho de peso ou condição corporal.

O aleitamento artificial consiste em fornecer a dieta líquida em balde, mamadeira ou similar. Este sistema permite racionalizar o manejo de ordenha dos animais e controlar a quantidade de leite ingerida pelo bezerro.

Em ambos os tipos de aleitamento, o importante é:
a) Fornecer colostro dentro de 2 a 4 h após o nascimento, pois isto garante a sobrevivência do bezerro, porque o colostro é rico em anticorpos e as imunoglobulinas são melhor absorvidas nas primeiras horas após o nascimento. A maneira mais eficiente é fazer o bezerro mamar o colostro na vaca logo após o nascimento. É comum deixar o bezerro junto com a vaca nas primeiras 24 horas. Quando o colostro é fornecido no balde, usar o colostro integral, permitindo a ingestão de 5 a 6 kg/dia de colostro;
b) Na fase de aleitamento, o alimento natural do bezerro é o leite integral que por seu valor comercial pode ser substituído pelo colostro excedente ou por um sucedâneo comercial do leite, depois de duas semanas. O sucedâneo, normalmente vendido na forma de pó, deve ser de boa qualidade e com preço menor que o do leite;
c) Fornecer 4 litros/animal/dia qualquer que seja a dieta líquida usada, em duas refeições diárias durante as duas primeiras semanas de vida do animal. A partir daí, uma vez ao dia, de manhã ou à tarde, conforme mais conveniente para o produtor. Se for considerar a qualidade do leite, é melhor fornecer o leite da tarde, pois o leite da manhã tem mais qualidade no sentido higiênico (menos contagem de células somáticas);
d) Quantidade fornecida, regularidade no horário e boa limpeza do balde ou utensílios são fundamentais para evitar distúrbios gastrointestinais;
e) Realizar a desmama ou desaleitamento com 45 a 60 dias ou quando o bezerro estiver ingerindo 800 a 1.000 g por dia de concentrado para garantir bom ganho de peso.
 

4.6.2.2 - Fornecimento de concentrado e volumoso para bezerras

O concentrado inicial, com 18% de proteína bruta (PB) e 80% de nutrientes digestíveis totais (NDT) e de preferência na forma peletizada deve ser fornecido aos bezerros da primeira semana em diante até os 30 dias de idade. Depois, pode ser utilizado concentrado na forma farelada, mas a dieta deve conter 12 a 14% de PB e 75 a 80% de NDT, independente do sistema de aleitamento empregado. O concentrado deve ter na sua composição alimentos de excelente qualidade, como milho moído, farelo de soja e mistura de minerais e de vitaminas.

Concentrados com grãos que sofreram tratamento térmico e/ou vapor, e aqueles na forma de pellets, aumentam a digestibilidade e estimulam seu consumo, mas usualmente são mais caros.

A partir dos 60 dias, usar concentrados de menor custo, desde que se obtenha ganho de peso desejado (500 g por dia). Muito embora alguns estudos demonstrem ser viável a utilização de ureia nos concentrados iniciais para bezerros, recomenda-se o seu uso somente após os três meses de idade quando o rúmen estará desenvolvido o suficiente para utilizar o nitrogênio não-protéico da dieta e na quantidade de 1/3 da PB do concentrado.

Após a fase de desaleitamento, o consumo de concentrado aumentará rapidamente, devendo-se limitar a quantidade fornecida para estimular o consumo de volumoso. Tem-se sugerido o fornecimento de 2 kg de concentrado, mas que a proteína bruta da dieta na base da matéria seca não seja menor que 12% e 70% de NDT. A qualidade do alimento volumoso utilizado é muito importante e por isso que o teor de PB da dieta é fundamental.

É importante verificar a condição do concentrado que sobrou, pois quando molhado ou mofado, deve ser removido.
 

4.6.2.3 - Fornecimento de volumoso

Os alimentos volumosos são muito importantes para o crescimento dos bezerros e a composição química precisa atender o teor de proteína e energia para se conseguir o ganho de peso desejado. O capim, utilizado na forma verde picado ou feno, deve ser cortado com 30 dias de rebrota para garantir qualidade em termos de matéria seca (MS), PB, fibra em detergente neutro (FDN) e digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS). Volumoso de baixa qualidade reduz o consumo de alimento e pode afetar o desenvolvimento do animal. Um bom volumoso (feno, capim verde picado ou silagem de milho) deve ser fornecido desde a segunda semana de idade.

4.6.2.4 - Fornecimento de água

A água disponível deve estar limpa e fresca. Recomenda-se que os bezerros tenham, à sua disposição, desde a primeira semana de idade, água de qualidade à vontade, para estimular o consumo de concentrado.

4.6.2.5 - Desaleitamento ou desmame das bezerras

As maiores vantagens da desmama ou do desaleitamento precoce são as reduções no custo da alimentação, da mão de obra e da diminuição de distúrbios gastrointestinais. Quando o bezerro estiver consumindo 800 a 1.000 g de concentrado por dia, de maneira consistente, ele estará pronto para ser desaleitado, independentemente de sua idade, tamanho ou peso. Desconsiderando o sistema de criação adotado, não há razão, do ponto de vista do bezerro, do fornecimento da dieta líquida (leite) ser superior a oito semanas. Recomenda-se o desaleitamento abrupto.

Os bezerros devem permanecer na sua instalação (gaiola ou casinha individual) por mais uma ou duas semanas, após o corte da dieta líquida. Assim, perdem o hábito da dieta líquida com menor estresse, e será possível observar como reagem ao desaleitamento. Outro fator de importância é evitar o estresse por competição por concentrado especialmente, para isso a formação de grupos por idade é aconselhável, desde que a mudança ocorra logo após a desmama, para instalações coletivas (baias ou pasto).
 
Dicas importantes

  • Observe o bezerro, cuidadosamente, todos os dias nos horários de alimentação;
  • Verifique o olhar do bezerro: olhar vivo significa saúde;
  • Verifique a existência de corrimento nasal;
  • Verifique se a consistência das fezes está sólida;
  • Verifique o apetite dos bezerros: bezerros sadios bebem a dieta líquida com avidez;
  • Pese o bezerro ao nascer e depois a cada 21 ou 30 dias. Calcule o ganho de peso médio diário.

 
Observação: O ganho médio diário deve ser superior a 500 g.
Anote na ficha individual, o peso do bezerro e quaisquer problemas ocorridos com o mesmo.
 

4.6.2.6 - Alimentação e manejo de novilhas

A fase de recria inicia após o desmame e vai até a idade do parto. Esta fase exige muita atenção do produtor, pois os requerimentos do animal em crescimento estão constantemente mudando, especialmente as necessidades de mantença, pois o peso da novilha aumenta com a idade. Se o peso vivo e a movimentação do animal, aumentam com a idade, as necessidades de mantença devem ser ajustadas para peso e para a idade. Do início desta fase, 70 a 80 kg de peso vivo (considerando o peso ao nascer em 30 a 40 kg), até a puberdade (incluir peso médio, à semelhança do que fez com o “início desta fase”), o monitoramento do ganho de peso é fundamental, não devendo ultrapassar 800 g por dia, especialmente, até a fase da puberdade. Este procedimento evita o acúmulo de gordura na glândula mamária. Em alguns períodos curtos de tempo é possível ganhos acima de 800 g por animal por dia para corrigir alguns erros de manejo alimentar nas fases anteriores. Hoje, há controvérsia sobre o efeito negativo do limite máximo de ganho médio diário de 800 g, mas é preciso avaliar os resultados deste ganho no desempenho da novilha quanto à produção de leite e vida útil. É lógico que novilha gorda não deve ser o objetivo, pois este animal costuma apresentar muitos problemas ao parto e no período logo após o parto (menor consumo de MS e doenças metabólicas, tais como: cetose, problemas de casco e reprodutivos).

A idade à cobertura é importante, mas o peso à cobertura é mais importante ainda e este determinará a alimentação das novilhas nesta fase. Idades à cobertura mais precoces (15 meses) exigirão mais nutrientes e assim alimentos de melhor qualidade. É bom mencionar que hoje a idade média à primeira cria é de 48 meses, mas há propriedades obtendo 24 meses. Para diminuir a idade à primeira cria, a alimentação é o principal fator. Entretanto, mais importante que a idade da novilha é o peso à cobertura. É preferível atrasar a idade a cobertura para obter peso ao parto adequado para a raça ou novilhas mestiças. Este peso deve estar no mínimo a 80 a 90% do peso adulto. O peso ao parto é que determina a produção de leite da primeira lactação. Vacas de primeira lactação com peso abaixo do adequado para a raça e de bom potencial genético dificilmente alcançam o peso adulto, pois priorizam a utilização dos nutrientes para a lactação e usualmente são magras, com reflexos negativos na reprodução (intervalos de partos longos). É por isso que se recomenda que as vacas de primeira lactação sejam agrupadas em lote separado das vacas mais velhas e as tabelas de exigências (NRC 1989, 2001) recomendam que se forneça 20% a mais nas necessidades de mantença para tentar alcançar o peso adulto adequado. Isso é mais fácil de ser utilizado em animais confinados ou quando a distribuição do concentrado é feita em grupo ou lotes por produção.

A puberdade ou a idade ao primeiro cio aparece antes do peso ideal à cobertura e para isso é preciso separar o macho ou touro das novilhas para evitar o acasalamento em idade ou peso não desejado.

Salienta-se a importância da inseminação artificial no desempenho do rebanho leiteiro nacional. É por meio da inseminação artificial que é possível obter novilhas com maior produção de leite (ganho genético), conformação (aprumos) conformação do úbere, distribuição dos tetos e seu tamanho, leite com maior teor de proteína (caseína), cruzamentos entre raças para buscar características que se queiram melhorar no rebanho. Hoje, o cruzamento de Holandês com Jersey é muito usado buscando leite com melhor composição, especialmente maior teor de proteína do leite, que é a variável mais difícil de alterar por meio do manejo da alimentação, pois seus ganhos são pequenos.

Deste modo, a alimentação das novilhas será aquela que, de forma mais econômica permita que elas atinjam o peso à cobertura. O peso vivo à cobertura das novilhas varia de acordo com a raça, sendo o mínimo 350 kg para a raça Holandês, 330 kg para Pardo Suíça, 230 kg para Jersey, 350 kg para as mestiças Holandês x Zebu e de 280 kg para as mestiças Jersey x Zebu.

Mais uma vez, chama-se a atenção para o peso vivo ao parto que é muito mais importante que o peso à cobertura sendo o mínimo 550 kg para a raça Holandês, 530 kg para Pardo Suíça, 430 kg para a Jersey, 550 kg para as mestiças Holandês x Zebu e de 480 a 500 kg para a mestiças Jersey x Zebu.
 

4.6.2.7 - Recria de novilhas a pasto

Este sistema é caracterizado por duas épocas do ano bem distintas. Na época das chuvas, na idade de pós desaleitamento (45 a 60 dias) e peso vivo de 70 a 80 kg, além do pasto de boa qualidade é indicado fornecer 2 kg/cabeça/dia de concentrado, ou algum suplemento protéico ou energético dependendo do teor de PB da dieta. O uso do sistema de pastejo rotativo (24 a 30 dias de período de descanso ou intervalo de desfolha) ajuda a controlar melhor a qualidade do pasto. A dieta (volumoso ou volumoso e concentrado) deve ter 14% de PB e 65% de NDT. A composição do concentrado em termos de NDT e PB vai depender da qualidade do volumoso. Sob adequadas condições de manejo e adubação, pode-se obter composição do volumoso de 20, 14, 65 e 65% de MS, PB, FDN e DIVMS, respectivamente. Neste caso, a composição do concentrado deve ser de 14 a16% de PB, com 70% de NDT. A pesagem dos animais a cada 21 a 30 dias é muito importante para avaliar o ganho de peso e esta variável vai ajudar no balanceamento das dietas. Os animais, nesta fase 60 a 180 dias, devem obter ganho de 650 a 750 g por dia. Além disso, há necessidade de separar ou agrupar as novilhas em lotes por idade.

Considerando o peso vivo inicial nessa fase, de 70 a 80 kg e ganho de peso de 78 a 90 kg durante o período de 60 a 180 dias de idade resulta em 148 a 160 kg, podendo chegar a 170 kg se considerar o peso e o ganho maior (80 + 90 = 170 kg)

Na época seca do ano, o pasto deve ser suplementado com cana de açúcar corrigida com 1% da mistura de ureia (900 g de ureia e 100 g de sulfato de amônio) na base da matéria natural (peso da cana madura). A cana de açúcar contém em média 3% de PB na base da MS e a mistura eleva o teor de PB da cana para 10 a 11% o que é, ainda insuficiente para atingir os 14% de PB recomendados para a dieta. A composição do concentrado deverá conter mais PB e NDT para suprir a deficiência do volumoso e alcançar os 14% de PB. A quantidade de concentrado recomendada é de 2 kg/cabeça/dia. Exemplo: se a cana corrigida com 1% de ureia entra na dieta com 50% do consumo de MS, os 10% equivalem a 5% de PB e falta 9% proveniente do concentrado (50% da MS), o que significa 18% de PB no concentrado para fechar em 14% de PB na dieta.

Além da cana de açúcar, outros volumosos podem ser utilizados, com destaque para as silagens de milho e sorgo, pela qualidade apresentada. Misturas de cana e de silagem também podem ser utilizadas. É importante reforçar que a composição química do volumoso deve ser conhecida, para permitir o correto balanceamento da dieta.

Para bezerras dos 60 aos 120 dias, recomenda-se a silagem como opção de volumoso devido a sua melhor qualidade. É preciso enfatizar que os ganhos de peso na época da seca do ano devem ser sempre menores que aqueles da época das chuvas, devido ao maior custo da alimentação na época seca. Além disso, os animais quando ganham peso aquém do desejado (300 a 400 g/dia) recuperam na fase seguinte (época das chuvas), pois ocorre ganho de peso compensatório ou consumo compensatório, devido à menor necessidade de mantença, pois são mais leves. A estratégia de alternar ganhos, maior ganho em certo período e menor em outro é interessante e pode trazer benefícios econômicos. Entretanto, o ganho médio diário nunca deve ser alto na fase inicial da recria, pois os animais ficam pesados, aumentam as necessidades de mantença e diminuem a eficiência do ganho de peso. Então, devem-se buscar ganhos menores no início da recria e maiores nas fases próximas ao parto ou depois da puberdade, quando o ganho não interfere no acúmulo de gordura na glândula mamária e assim não prejudica a lactação.

Chama-se a atenção que essa estratégia não visa aumentar a idade ao primeiro parto ou o peso ao parto aos 24 meses.

Quando a alimentação na época seca do ano é feita apenas com cana de açúcar e 1% de ureia, o ganho de peso vai ser baixo (nutrientes para atender a mantença e 100 a 200 g/dia de ganho) se não houver suplementação com concentrado. Para ganhos maiores, dependendo da idade e peso da novilha 1 kg/cabeça/dia de farelo de soja ou 1,5 kg/cabeça/dia de farelo de algodão podem ser suficientes para se alcançar o ganho esperado nesta fase.

Para se escolher qual farelo utilizar, é preciso comparar seus preços em termos de equivalente em proteína para saber qual a fonte de proteína é mais barata, pois a concentração de proteína é diferente entre as fontes (45 a 48% de PB ou 28 a 35% de PB) para farelo de soja e farelo de algodão, respectivamente. Em termos de energia, a do farelo de soja (80%) é maior que a do farelo de algodão (70%). Outras fontes de proteína e energia podem ser alternativas (caroço de algodão, farelo de trigo, farelo de arroz, polpa cítrica, casquinha de soja etc.).

A mistura mineral bem balanceada fornecida à vontade em cochos cobertos não pode ser esquecida e dependendo da idade a suplementação com vitaminas A, D e E, deve ser considerada.

Outras fontes de volumoso podem ser alternativas, como as silagens de gramíneas tropicais, cuja composição química deve ser conhecida para balancear a dieta das novilhas em cada fase do crescimento e conter pelo menos 14% de PB na base da MS da dieta. Chama-se a atenção que a qualidade desta silagem vai depender da idade de corte da gramínea, quanto maior a idade, pior sua qualidade e a necessidade de suplementação concentrada aumenta. A capineira (capim verde picado) de gramíneas tropicais se for usada, deve ser priorizada para o início da época das chuvas, pois a composição química cai muito com a idade e capim com 40 dias de idade já não contém a PB necessária para atender as necessidades de ganho de peso do animal. A análise da composição química é sempre necessária para balancear a dieta em termos de energia e proteína. O feno, como fonte de volumoso, é muito difícil de ser incluído nas dietas, especialmente, nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, pois a grande quantidade de chuva dificulta a sua confecção. A idade de corte é de fundamental importância. Capim com 35 a 40 dias de idade é velho e com baixa qualidade necessitando ser suplementado com concentrado para balancear as dietas. Normalmente as gramíneas de caule fino são as mais indicadas para fenação, em função da maior rapidez de secagem.

Para o fornecimento de volumosos em cochos é necessário minimizar a competição por alimento entre os animais manejados em grupos. Para isto, é importante propiciar aos animais área de cocho suficiente, permitindo que todos tenham chance de se alimentar adequadamente.
 

4.6.2.8 - Alimentação e manejo de bezerras na fase de recria em confinamento

Neste sistema, os alimentos são colocados no cocho, em mistura completa ou não, e as fontes são as mesmas daquelas citadas anteriormente como alternativas para a época seca do ano. O balanceamento também é necessário buscando-se dietas que atendam as necessidades dos animais em cada fase de crescimento. A mistura mineral deverá estar sempre à disposição, em cochos separados, independente do volumoso utilizado. Neste caso, as vitaminas (A, D e E) devem ser incluídas na dieta dos animais e as pesagens a cada 21 ou 30 dias ajudam no acompanhamento da qualidade da dieta e no desempenho dos animais, assim como pode ajudar no ajuste das dietas com maior precisão. As mesmas estratégias de ganhos menores por certo período e ganhos maiores em outros podem ser aplicadas.

Chama-se a atenção que qualquer fonte de volumoso de gramíneas vai precisar de balanceamento de dieta para os ganhos de peso propostos para cada fase da recria. As novilhas devem ter à sua disposição água fresca e limpa diariamente.

4.6.3 - Vacas em lactação

4.6.3.1 - Alimentação e manejo de vacas durante o período pré-parto

O período pré-parto das vacas usualmente é de 60 dias. Este período é também chamado de período seco da vaca. Ele é muito importante para que a glândula mamária (células da glândula) se regenere e a vaca tenha uma lactação normal, ou seja, expresse todo o seu potencial de produção de leite, desde que a alimentação não limite o processo. É no período seco da vaca que se faz a terapia da vaca seca (tratamento com antibióticos), objetivando evitar a ocorrência da mastite na próxima lactação.

A alimentação no pré-parto deve ser feita de maneira diferente para novilhas e vacas gestantes. A novilha gestante, independentemente da raça, deve atingir peso adequado ao parto. Chama-se a atenção que este peso é o fator mais importante para se atingir o máximo potencial de produção de leite. O peso ao parto é característico de cada raça. Novilhas de raça Holandês devem parir com 550 kg ou até mais, se forem animais de grande porte. Além do peso vivo ao parto, é importante a condição corporal ou escore da condição corporal da novilha. A novilha gestante não pode chegar ao parto magra ou abaixo do peso vivo, pois a produção de leite da primeira lactação pode ser muito prejudicada, assim como seu desempenho reprodutivo. Vai atrasar o aparecimento do cio no período pós-parto e assim aumentar o intervalo de partos. As vacas de primeira cria são os animais do rebanho que apresentam o pior desempenho reprodutivo, ou seja, o maior intervalo entre partos. Ainda, se a vaca de primeira lactação tem alto potencial de produção de leite, ela não vai conseguir ganhar peso durante a lactação, pois vai usar os nutrientes da dieta e também as reservas corporais acumuladas na forma de gordura para a produção de leite. A vaca de primeira lactação que parir magra vai ser um animal pequeno e magro, com tendência de ser eliminado do rebanho, seja por baixa produção de leite ou por baixo desempenho reprodutivo.

O peso vivo ao parto das novilhas mestiças Holandês x Zebu deve ser no mínimo de 500 kg. Então, o importante no caso da novilha não é o peso à cobertura e sim o peso ao parto e a condição corporal boa. Por outro lado, também a novilha gestante não deve parir muito gorda, pois esse tipo de animal apresenta baixo consumo de alimento no início da lactação e é mais propenso a apresentar doenças metabólicas como acetonomia (cetose:doença causada pelo excesso de mobilização de gordura corporal para produção de leite), problemas de casco e de parto, devido ao elevado peso do bezerro ao nascer. Isto pode predispor, ainda, à ocorrência de metrite (retenção de placenta com infecção uterina).

No caso da novilha gestante chegar ao parto magra, também podem ocorrer problemas de parto (parto distócito) e assim levar à retenção de placenta e metrite, além de baixo desempenho reprodutivo. Por essas razões todas é que as vacas de primeira cria devem ser manejadas em grupos separados. Como estes animais ainda estão crescendo, devem receber dietas com pelo menos 20% acima das exigências de mantença em termos de energia e proteína no período pós-parto. Na primeira lactação, sob o ponto de vista prático, é preferível adiar a idade de cobertura da novilha e permitir o acasalamento ou a inseminação artificial com peso acima do normalmente usado. Mas, atingir o peso ao parto desejado é o fator mais importante e fazendo isso possibilita expressar o máximo potencial de produção de leite e bom desempenho reprodutivo da vaca.

Chama-se a atenção que novilhas gestantes podem ganhar até 1 kg/cabeça/dia, sem prejudicar a lactação, mas isto por períodos curtos e sempre após a confirmação da gestação. Por outro lado, novilhas não gestantes não devem ganhar acima de 800 gramas/cabeça/dia do nascimento à gestação, pois se ocorrer acúmulo de gordura na glândula mamária pode prejudicar o crescimento de tecido secretor de leite. Por essa razão é que se deve evitar novilhas gordas no período antes da gestação, pois além de prejudicar a produção de leite na primeira lactação, os custos de alimentação são aumentados, devido à maior exigência para atender às necessidades de mantença do animal.
 
Dicas ou recomendações
Defina a idade do primeiro parto da novilha, mas lembre sempre que o peso ao parto e a condição corporal do animal são os fatores determinantes da produção de leite e do desempenho reprodutivo. Não esqueça que é no terço final da gestação que ocorrem 80% do crescimento do feto e placenta e este pode representar 500 g/dia do ganho do peso da novilha ou da vaca gestante. Então, é muito difícil recuperar a condição corporal ou aumentar o escore do animal nos últimos 60 dias pré-parto, pois a maior parte do ganho do peso se destina para o desenvolvimento do feto e sobra pouca energia e proteína para ganho de peso para a novilha ou para a vaca gestante melhorarem a condição corporal ou escore. Para aumentar a condição corporal, avaliada por meio de notas variando de 1 (vacas magras) a 5 (vacas gordas), em uma unidade é preciso cerca de 70 kg de ganho de peso em animais de raças de porte médio (mestiços ou equivalentes). O escore corporal ao parto recomendado é de 3,5.

Recomenda-se que a vaca ou novilha gestante comece a receber de 0,5 a 1,0% do peso vivo de concentrado 20 a 30 dias antes da data prevista para o parto. A escolha de 0,5% do peso vivo é para aquelas vacas que estão em boas condições corporais.

Reduza os níveis de cálcio e sal comum para a metade dos níveis normais nos últimos 20 a 30 dias do parto para evitar a febre do leite e o edema de úbere, no caso do sal comum.

Balanceie muito bem as dietas das vacas no pré-parto em termos de proteína, energia, fibra, minerais (macro e micro-minerais) e vitaminas A, D e E no período pré e pós-parto, especialmente nos animais manejados em confinamento.

Trabalhe com dietas que contenham 12 e 14% de PB na dieta na base da matéria seca (volumoso e concentrado) de novilhas ou vacas secas, caso contrário o consumo de alimentos é prejudicado.

Vacas e novilhas gestantes durante a época das chuvas manejadas em boas pastagens podem ganhar 700 a 800 g/cabeça/dia sem suplementação com concentrado, desde que tenham forragem em quantidades adequadas, ou seja, que possibilitem consumo de matéria seca de 2,7 a 3,0% do peso vivo. Vacas e novilhas com 400 kg de peso vivo consomem 12 a 14 kg de MS ou cerca de 60 a 70 kg de ponta de capim adubado e de boa qualidade.

Durante a época seca do ano, os animais devem ser suplementados com silagem de milho, sorgo, gramíneas tropicais ou cana de açúcar corrigida com 1% de ureia à vontade além de, 1,0 a 1,5 kg de farelo de soja ou o equivalente em proteína para ganharem 1,0 kg/cabeça/dia. Analise o preço de outros suplementos protéicos, como alternativas ao farelo de soja, mas sempre calcule pelo preço da proteína e energia para decidir qual é mais barato.
 

4.6.3.2 - Alimentação e manejo de vacas no período pós-parto

A alimentação e manejo das vacas durante a lactação que, usualmente, dura 305 dias, devem ser divididos em três fases: Fase 1) 1 a 100 dias, Fase 2) 101 a 200 dias e Fase 3) 201 a 305 dias. Isto é mais apropriado ou indicado para vacas de alta produção de leite (acima de 30 kg/vaca/dia) e manejadas em condições de confinamento ou semiconfinamento. O pico de produção de leite das vacas ocorre entre 45 a 60 dias pós-parto e o pico de consumo ocorre após este período e por isso é que nesta fase de lactação é normal as vacas perderem peso, pois a produção de leite é maior que o consumo de nutrientes provenientes da dieta (concentrado e volumoso). A vaca neste período pode produzir até 30% de leite acima do nível de consumo de nutrientes, pois consegue utilizar as reservas de gordura acumuladas em seu organismo. Quanto às proteínas, as reservas são pequenas e muito pouco utilizadas nesta fase da lactação e este nutriente é que limita a produção de leite. Na prática, o que se faz é aumentar a concentração de PB na dieta, que pode ser de 18 a 20% na base da matéria seca. Este teor de PB na verdade varia em função do consumo de matéria seca e da produção de leite da vaca.

Para vacas com produção de leite acima de 40 kg/dia, o teor de proteína pode ser maior que 20%. A melhor estratégia de alimentação nos primeiros 100 dias de lactação é trabalhar com dietas completas e usar a relação concentrado: volumoso na base de 60:40. Se o volumoso for de boa qualidade pode usar a relação de 50:50, ou seja, se a vaca estiver consumindo 20 kg/dia de MS na relação concentrado:volumoso 60:40 seriam 12 kg/dia de MS de concentrado e 8 kg de volumoso, totalizando os 20 kg. No caso da relação 50:50 e considerando os mesmos 20 kg seriam 10 kg/dia de concentrado e 10 kg de volumoso, sempre na base da MS.

Quanto melhor a qualidade do volumoso, em termos de proteína bruta e energia ou digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) e teor de fibra em detergente neutro (FDN) menor a quantidade de concentrado necessária na dieta para balancear a mesma. O fator mais importante para diminuir a quantidade de concentrado na dieta é obter volumoso de melhor qualidade, uma vez que com isso se consegue reduzir custos da alimentação.

Chama-se a atenção que nunca pode faltar volumoso. Deve-se planejar para que a quantidade de volumoso de reserva seja suficiente para pelo menos 120 dias (se o volumoso for silagem de milho, entretanto se for feno de alfafa ou feno de gramíneas pode ser menor, em torno de 30 dias) caso contrário, existe o risco de faltar volumoso na propriedade, devido à ocorrência de veranico ou chuva de granizo, ou um ataque de pragas, que podem causar sérios prejuízos econômicos para o produtor devido à falta de planejamento na quantidade de volumoso a armazenar.
 

4.6.3.2.1 - Alimentação de vacas de alta produção manejadas em pastagens

É possível manejar vacas com produção de 30 kg/dia de leite em condições de pastejo, especialmente, utilizando o pastejo rotativo durante a época das chuvas nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte do País. Na Região Sul, a produção de leite a pasto pode ser feita o ano todo devido à boa distribuição de chuvas durante o ano. Com exceção da Região Sul, na época das chuvas quando existe forragem em quantidade e qualidade, desde que adubado, o pasto de boa qualidade fornece nutrientes (energia e proteína) para produção de até 14 kg/vaca/dia. A partir daí é necessária a complementação com concentrado.

Chama-se a atenção que é possível formular um concentrado balanceado em termos de proteína e energia para, por exemplo, 1 kg de concentrado para cada 2,5 kg de leite. O que isto significa é considerar que são necessários 85 g de PB para cada 1 kg de leite, então se um concentrado for formulado na base de 1 kg para cada 2,5 kg de leite, é preciso multiplicar os 85 g de proteína por 2,5 vezes e teremos 212,5 g de proteína em 1 kg de concentrado, ou 21,3% de PB no concentrado. Então, se a vaca estiver produzindo 14,5 kg de leite e a suplementação com concentrado iniciar a partir de 12 kg/dia, esta vaca receberia 1 kg de concentrado e assim por diante até chegar à quantidade de concentrado por vaca por dia.

Outra forma seria formar grupos de vacas de produção de leite semelhantes e alimentar ou fornecer o concentrado por grupos de produção. O mesmo raciocínio é valido para balancear a energia do concentrado. Sabe-se que para cada 1 kg de leite com 4% de gordura são necessários 320 g de nutrientes digestíveis totais (NDT). Ao se usar um concentrado na base de 1 kg para cada 2,5 kg de leite é só multiplicar 320 g vezes 2,5 kg, obtendo-se 800 g de NDT (80% de NDT). É bom mencionar que não é possível balancear o concentrado para a relação de 1 kg de concentrado para 3 kg de leite produzido, pois o NDT não pode ser atingido quando se usa esta relação (320 g x 3 kg = 960 g de NDT) e esta concentração de energia não é possível em concentrado sem o uso de gordura ou óleos, usando os ingredientes normais de balanceamento de concentrado (milho = 85%, farelo de soja 82 a 85% de NDT).

Ainda é bom esclarecer que a qualidade de 1 kg de matéria seca de pasto selecionado pelo animal é melhor em qualidade em termos de proteína que 1 kg de silagem de milho, sorgo, ou de gramíneas tropicais. Seu valor energético, contudo, pode ser menor que o da silagem de milho ou sorgo, mas semelhante ao da silagem de gramíneas ou da cana de açúcar.
Apesar do teor de energia de um alimento ser diretamente relacionado ao seu teor de FDN, quanto maior o teor de FDN, menor será o teor de NDT ou energia. O teor de FDN nas plantas aumenta com a idade e isto é importante saber, pois este teor limita o consumo de alimento. Gramíneas tropicais apresentam elevados teores de FDN em relação às gramíneas temperadas e devido a esse maior teor de FDN apresentam menor teor de energia, quando consideradas na mesma idade. Usando-se gramíneas temperadas, é possível obter 20 a 24 kg/vaca/dia de leite, desde que não haja limitação de consumo devido à disponibilidade de forragem. O teor de PB (20 a 24%) destas forrageiras também é maior.

Na fase 1 (1 a 100 dias) a composição da dieta seria 18 a 20% de PB, 75 a 80% de NDT e 25 a 28% de FDN e uma relação concentrado volumoso de 60:40. Em relação ao teor de FDN recomenda-se que 80% deste sejam de origem do volumoso. Na fase 2 (101 a 200 dias) a composição da dieta seria 16% PB, 75 a 80% NDT e 28 a 32% FDN e uma relação concentrado volumoso de 50:50. Na fase 3 (201 a 305 dias) a composição da dieta seria no mínimo 14% PB, 72 a 75% NDT e 35% FDN e uma relação concentrado volumoso de 40:60.

Enfatiza-se que a avaliação do consumo de matéria seca permite aferir melhor se os teores de PB, NDT e FDN são adequados ou não em cada fase da lactação. A fonte de volumoso usualmente é a silagem de milho e esta tem em sua composição de 8 a 10% de PB e em torno de 50% de FDN.

Então, a perda de peso das vacas nesta fase é uma condição normal e consequentemente balanço energético negativo. Por isso o escore corporal de 3,2 a 3,5 das vacas ao parto, pois este pode cair para 2,2 a 2,5 na escala de 1 a 5. O monitoramento do peso e escore das vacas com pesagens a cada 14 ou 21 dias é algo que deve ser avaliado. Quando se utilizam dietas completas ou mistura total, os ingredientes devem ser bem balanceados e bem misturados, usualmente a mistura é feita em vagão misturador, pois o princípio da dieta completa é de que a cada bocada que a vaca realiza haja um balanceamento em energia, proteína, fibra e minerais e vitaminas. Assim, evita-se a ocorrência de doenças metabólicas. Além do teor mínimo de FDN é importante usar um elemento tamponante de pH do líquido ruminal (60% de bicarbonato de sódio e 40% de óxido de magnésio) na base de 1 a 1,5% da MS da dieta. O FDN estimula a mastigação e isto aumenta a produção de saliva que é o melhor tamponante natural do pH do líquido ruminal. Além disso, o monitoramento do teor de umidade do volumoso é fator fundamental para não alterar a relação concentrado/volumoso e assim provocar o desbalanceamento da dieta, podendo resultar em aparecimento de doenças metabólicas devido à alteração da relação concentrado/volumoso. Ainda, a qualidade dos ingredientes da dieta é muito importante para se evitar algum tipo de distúrbio devido à presença, por exemplo, de aflatoxinas ou micotoxinas na dieta.

Nota: quando a qualidade do volumoso permite (feno de alfafa de boa qualidade ou silagem de milho com baixo teor de FDN (menos que 50%) a relação concentrado/volumoso na fase 1 (1 a 100 dias da lactação) pode ser de 50:50 na base da MS, assim como, na fase 2 da lactação esta relação permite aumentar o teor de volumoso na MS da dieta.
 

4.6.3.3 - Alimentação de vacas leiteiras em pastagens tropicais durante a época das chuvas

O potencial de produção de leite das forrageiras tropicais é de 12 a 14 kg/vaca/dia dependendo do tamanho do animal e do potencial de produção de leite das vacas, manejadas com período de descanso de 30 dias e adubadas com N, P e K com base na análise de solos e na retirada de nutrientes do sistema que ocorre por meio da forragem consumida pelos animais. Então, durante a época das chuvas é possível começar a suplementação com concentrado a partir de 12 ou até 14 kg/vaca/dia, desde que a disponibilidade de forragem não limite o consumo. Vacas em lactação de 450 kg de peso vivo podem consumir 13,5 kg de matéria seca ou o equivalente a 80 a 100 kg de forragem em condições de pastejo.

Para vacas com potencial de produção maior que 12 a 14 kg/vaca/dia de leite, adotar a mesma estratégia de suplementação de 1 kg de concentrado balanceado em termos de proteína e energia para cada 2,5 kg de leite, conforme exemplificado anteriormente. Outra estratégia interessante a adotar é usar a suplementação concentrada até a confirmação da gestação da vaca e depois eliminar ou diminuir a suplementação com concentrado ao mínimo objetivando manter a condição corporal ou recuperar a condição corporal a partir da fase 3 da lactação (201 a 305 dias). Salienta-se que as exigências de nutrientes aumentam muito no terço final da lactação e mesmo ganhos de peso diários de 1 kg/cabeça/dia, na realidade podem representar apenas ganhos para a vaca de 400 a 500 g por dia, pois o resto vai para o crescimento do feto e placenta e não se consegue recuperar 0,5 ponto percentual do escore corporal ou condição corporal da vaca (500 g por dia x 60 dias = 30 kg de peso ou 1/2 escore corporal). Chama-se a atenção que a vaca não pode parir magra e nem gorda, pois os dois extremos representam problemas sérios tanto para a produção de leite quanto para o desempenho reprodutivo.

Na segunda fase da lactação de 101 a 200 dias a relação concentrado/volumoso seria de 50:50 ou 40:60 dependendo da qualidade do volumoso e o teor de proteína na dieta seria de 16 a 18% e não mais 18 a 20% pois nesta fase as vacas já atingiram o pique de consumo que ocorre na fase 1 da lactação e assim, podemos reduzir a concentração de nutrientes na dieta devido ao maior consumo de alimento nesta fase da lactação.

Na fase 3 da lactação de 201 a 305 dias a relação concentrado/volumoso pode ser de 30:70 na base da MS e o teor de PB pode ser de 14 a 16%, pois o nível de produção de leite nesta fase diminui bastante e o consumo de alimento continua alto. De maneira que as vacas magras nesta fase da lactação precisam começar a recuperação da condição corporal, ou ganho de peso para poder obter boa condição ao parto das vacas que estão magras.
 

4.6.3.3.1 - Mistura mineral

Quanto à mistura mineral, esta deve ser de alta qualidade e bem balanceada em macro e micro minerais, além de vitaminas A, D e E. Usualmente, a mistura mineral entra na composição da dieta com 2 a 3% da MS. Quanto aos minerais é recomendado que a mistura seja de boa qualidade e tenha em sua composição níveis adequados de Ca, P, Mg, K, Cu , Zn, Fe, I, Se ,Co. Esta mistura deve estar à vontade durante toda a lactação e período seco da vaca. As vitaminas A, D e E são extremamente importantes especialmente na época seca do ano e no período seco da vaca. Durante a época das chuvas, as vitaminas podem ser dispensáveis se os animais têm acesso à pastagem de boa qualidade e sem limite na quantidade. Entretanto, para os animais mantidos em confinamento é imprescindível a sua suplementação em níveis adequados (NRC, 1989; 2011), pois normalmente estes animais recebem silagens como volumoso exclusivo e isto aumenta as suas necessidades para a saúde da glândula mamaria, a qualidade dos cascos e reprodução.

4.6.3.4 - Alimentação de vacas em lactação durante a época seca do ano

A produção de leite a pasto durante a época seca do ano usando vacas não confinadas exige manejo diferente do pasto embora o pastejo rotativo não se altere em seu sistema e o período de descanso ou intervalo de desfolha continue o mesmo nas regiões onde existe alguma rebrota da pastagem. Onde as condições climáticas são severas (falta de chuva) e não há rebrota da pastagem por falta de chuvas, ou em regiões onde a ocorrência de geadas é comum, e são utilizadas forrageiras tropicais, a rebrota pode ser zero e os piquetes podem ser usados apenas para as vacas dormirem em local limpo e depositar as fezes e urina, para se obter maior ciclagem de nutrientes no sistema durante o intervalo da ordenha da tarde e da manhã.

Em regiões onde há alguma ocorrência de chuvas durante a época seca, a queda na disponibilidade de forragem ocorre de forma gradual e, neste caso, a necessidade de suplementação volumosa varia em função de cada mês da época seca dependendo da disponibilidade de matéria seca.

A Tabela 1 ilustra a disponibilidade de matéria seca por mês em pastagem de capim-elefante cv. Napier no município de Valença, Estado do Rio de Janeiro, quando a pastagem foi manejada em pastejo rotativo com 30 dias de intervalo de desfolha ou período de descanso e três dias de ocupação do piquete e adubada na época das chuvas, aplicando-se 200 kg/ha/ano de N e K2O e 50 kg/ha/ano de P2O5, em três parcelas iguais em outubro/novembro, dezembro/janeiro e março/abril de 2001/2002. A disponibilidade de matéria seca foi obtida em amostras de capim coletando o material acima da altura do resíduo da pastagem um dia antes da entrada dos animais em quatro piquetes por ciclo de pastejo para obter uma amostra representativa.

Tabela 1. Médias mensais da disponibilidade de matéria seca (kg/ha) dos três tratamentos, para a pastagem de capim-elefante, durante o período experimental, no município de Valença, RJ.
Meses Disponibilidade de MS (kg/ha)*
  T0 T60 T120 Média
36831 1082 1379 1381 1281
36861 2092 2631 2603 2442
36892 2258 2455 2884 2533
36923 2019 2699 2718 2479
36951 2054 2206 2203 2154
37012 304 397 610 437
37043 581 577 661 606
Média 1485 1764 1866 -
Total 10390 12345 13061 -
Deresz et al. (2006). * T0 = sem concentrado; T60 = concentrado até 60 dias pós-parto; T120 = concentrado até 120 dias pós-parto.

Observa-se declínio da disponibilidade de matéria seca à medida que se inicia a época seca do ano. Os menores valores foram observados no mês de maio. Entretanto, é bom salientar que a época seca usualmente vai do mês de maio a outubro, ou seja, no mínimo 180 dias, mas o produtor deve garantir estoque de alimentos volumosos para pelo menos 210 dias para qualquer eventualidade. Volumoso tem que sobrar na propriedade leiteira e nunca faltar, pois é o alimento mais barato dos ingredientes da dieta das vacas, com exceção de minerais e vitaminas.

Salienta-se que a disponibilidade de matéria seca por área serve para definir a taxa de lotação da pastagem, desde que se tenha uma estimativa da variável consumo de matéria seca (kg/vaca/dia). Por exemplo, caso for usado o valor de 1.379 kg/ha do mês de novembro do tratamento T60 e dividir esse valor por 30 dias, que é o período de descanso adotado, resulta em 45,97 kg/dia de forragem disponível, o que dividido por quatro vacas por hectare (taxa de lotação utilizada), representa disponibilidade de 11,5 kg/vaca/dia de matéria seca.

Conhecendo-se a composição química (MS, PB e NDT) da forragem disponível, pode-se estimar o conteúdo total de nutrientes (PB, NDT) disponíveis para o animal.

Observa-se que nos meses de abril e maio há queda acentuada em relação aos meses da época das chuvas na disponibilidade de matéria seca por hectare. Isto mostra que a taxa de lotação deve ser ajustada para a quantidade de matéria seca disponível ou mais comumente iniciar a suplementação com volumosos para completar a quantidade de matéria seca por área e manter a taxa de lotação da época das chuvas. Por exemplo: se usarmos os 304 kg/ha/mês de matéria seca em maio no T0 (Tabela 1) para manter a mesma taxa de lotação seriam necessários 2.054 - 304 = 1.750 kg de MS para manter a taxa de lotação usada em março (Tabela1). Ainda, os 1.750 kg de MS teriam de ser corrigidos com fonte protéica ou ureia para apresentar a mesma composição química do pasto em termos de energia e proteína. Fazendo isto os animais seriam suplementados em cochos com o volumoso armazenado na propriedade para ser usado na época seca do ano e assim manter o sistema de pastejo rotativo funcionando durante o ano todo e mantendo a taxa de lotação daquela da época das chuvas.

As fontes de volumosos mais utilizados na época seca do ano nas regiões Sudeste, Centro-Oeste, Norte e Nordeste são: cana de açúcar corrigida com 1% da mistura de ureia, ou a silagem de milho ou sorgo, ou mesmo silagens de gramíneas tropicais. Para cada alternativa de volumoso, é preciso fazer uma análise da sua composição química de amostras representativas a cada troca de silo ou de canavial, ou então, uma amostra a cada 30 dias, para o técnico poder balancear a quantidade de concentrado e a sua composição. O volumoso de capim-elefante (capim verde picado) para usar na época seca do ano precisa ser cortado ou ensilado a cada 40 dias para manter a composição química, pois a qualidade do volumoso cai muito com a idade da planta. Então, capim verde picado deveria ser o primeiro volumoso a ser usado na época seca do ano se a capineira foi manejada durante a época das chuvas com cortes a cada 40 dias. A capineira que não foi cortada na época das chuvas não tem qualidade para ser utilizada na dieta de vacas em lactação devido à sua baixa qualidade, especialmente em termos de PB e NDT. Assim, a capineira pode ser utilizada nos primeiros 40 dias da época seca, desde que a mesma tenha sido cortada em faixas no corte anterior para maximizar a qualidade na época seca. Usualmente, a composição da capineira com 40 dias de idade apresenta 7 a 9% de PB, 65% de FDN e 22 a 24% de MS. Isto mostra que a PB deve ser corrigida para que na dieta (volumoso mais concentrado) o teor seja de pelo menos 14% de PB para vacas com média de 15 kg/dia de leite e para vacas com 25 a 30 kg/dia de leite o teor de PB na dieta deve ser de 16 a 18%.

Quando a cana-de-açúcar é usada como volumoso único ou cana-de-açúcar e rebrota do capim (gramínea tropical) em regiões onde ocorre alguma precipitação pluviométrica (chuvas), nos primeiros meses e nos últimos meses da época seca do ano, o consumo de volumoso varia em função da disponibilidade de forragem existente na rebrota. A cana-de-açúcar apresenta em sua composição 2 a 3% de PB, 26 a 30% de MS e 50 a 55% de FDN. Quando se utiliza a mistura de 1% de ureia (900 g de ureia e 100 g de sulfato de amônio) para cada 100 kg de cana na matéria natural é importante fazer uma mistura homogênea da ureia com a cana e usar 4 a 6 L de água para 100 kg de cana na matéria natural, mas salienta-se que é necessário homogeneizar bem esta mistura. Depois da cana picada e amontoada, faz-se a mistura antes do fornecimento no cocho.

Deve-se fazer adaptação dos animais à ureia, iniciando-se a mistura com 0,5% de ureia durante 5 a 7 dias e depois passar a fornecer 1% de ureia. O teor de 1% na base da matéria natural da cana é equivalente a 3% na base da MS se a cana contiver 33,3% de MS. O teor de 1% de ureia (mistura) e um consumo de 30 kg de cana na matéria natural é igual a (30 kg x 1% de ureia) = 300 g de ureia x 45 de nitrogênio (N) na ureia é igual a 135 g de N x 6,25 (fator para converter o N para equivalente protéico) = 844 g de PB. De maneira que os 30 kg de cana x 28% de MS da cana resulta em 8,4 kg de MS de cana contendo 844 g de PB. Isto é igual a 8,4 dividido por 844 g = 9,95% de PB mais os 3% de PB na MS da cana sem a ureia resultando em (8,4 kg x 3%) = 250 g de PB provenientes da cana.

Somando 844 g de PB da ureia mais as 250 g de PB da cana resulta em 1.094 g de PB dividido por 8.400 g de MS de cana, resulta em 13% de PB na dieta na base da MS. Na verdade o teor é um pouco menor, pois se a ureia for usada em 900 g por 100 kg de cana e não 1.000 g por 100 kg de cana, o valor da dieta é menor que os 13% de PB na dieta e é na verdade 12%, senão vejamos (30 kg x 9% da ureia = 270 g x 45% de N = 121 g x 6,25 (fator para converter N em PB) = 759 g de equivalente protéico mais as 250 g provenientes da cana (3% de PB) =759 g + 250 g = 1.009 g de PB em 8,4 kg de MS de cana). Se considerar que os 30 kg de cana corrigidos com 1% da mistura (900 g de ureia) e na base da MS é 8,4 kg de cana e nesta temos 1.009 g de PB e diminuirmos 500 g de PB para mantença da vaca (100 g de PB para 100 kg de peso vivo da vaca e 500 kg de peso resulta em 1009 g menos os 500 g da mantença = 509 g de PB para leite, ou seja, 85 g de PB para cada 1 kg de leite) resulta em 509 g que quando dividido por 85 g = 6,0 kg de leite.

De maneira que, os 30 kg de cana na matéria natural corrigida com 1% da mistura fornecem nutrientes para 6 kg de leite. Assim, as vacas produzindo acima de 6 kg de leite (500 kg de peso e comendo 30 kg de cana corrigida com 1% da mistura e descontando as 500 g de PB para mantença) devem receber concentrado balanceado na época seca do ano quando o pasto não contribui com nada de MS.

No caso da energia, a estimativa é pior e os 30 kg de cana com 1% de ureia teriam 8,4 kg de MS (500 kg dividido pelo consumo de MS da cana = 8,4 kg resulta em 1,68% do peso vivo) e estes teriam 65% de NDT (8,4 x 0,65) = 5.460 g de NDT menos 4.000 g de NDT para mantença da vaca = 1.460 g de NDT para leite, ou seja, 1460 dividido por 320 g por kg de leite (4% de gordura) = 4,6 kg de leite. Mostrando que a energia da cana limita mais a produção de leite que a PB da cana corrigida com 1%. Assim, se não houver pasto, a suplementação com concentrado deve iniciar a partir de 4,6 kg de leite.

Uma estratégia de melhorar o balanço de nutrientes da cana de açúcar é formular uma dieta básica adicionando 1 kg/vaca/dia de farelo de soja. O farelo de soja contém 45% de PB e 85% de NDT na sua composição na base da MS. Assim 1 kg = 880 g de farelo de soja na MS (12% de umidade) e 880 x 0,45 = 396 g de PB que dividido por 85 g para cada 1 kg de leite resulta em 4,7 kg de PB para leite. Para o NDT os cálculos são 880 g x 0,85 = 748 g de NDT dividido por 320 g por kg de leite resulta em 2,3 kg de leite provenientes do NDT do farelo. Assim, os 6 kg de leite provenientes da proteína da cana corrigida somando aos 4,7 kg de leite do farelo de soja, resultam em 10,7 kg de leite.

Para a energia, os 30 kg de cana corrigidos com 1% da mistura atenderiam a produção 4,6 kg de leite, acrescidos de mais 2,3 kg de leite do NDT fornecido pelo farelo de soja, o que resulta em 7 kg de leite. Assim, a suplementação com concentrado começa a partir de 7 kg de leite, sem considerar a rebrota do capim na época seca do ano. Isto mostra que 1 kg de farelo de soja contém nutrientes para 2,3 kg de leite quando considera a variável PB e isto pode ser economicamente vantajoso.

Note que se o consumo de cana de açúcar corrigida com 1% da mistura de ureia for de 22 kg por vaca por dia, isto resulta em 200 g de ureia e o teor de PB na dieta vai ser de 11%, ou seja, 22 kg x 0,28% de MS da cana = 6,2 kg de MS. As 200 g de ureia x 0,45 de N é igual a 90 g de N x 6,25 (fator para chegar a PB) = 562 g de equivalente PB. Então, 6.200 g de MS dividido por 562 g resultam em dieta com 11% de PB.

De maneira que, se a mantença da vaca de 500 kg é de 500 g por dia sobram apenas 62 g de PB, ou seja, menos que 1 kg de leite que necessita 85 g de PB. Se considerar que a cana tem 65% de NDT (6,2 kg x 0,65 = 4.030 g menos as 4.000 g para mantença da vaca, a cana só atende as necessidades de mantença da vaca) (500 kg de peso e 800 g de NDT para cada 100 kg de peso = 4.000 g).

Se o consumo de cana de açúcar for de 35 kg por vaca por dia é preciso calcular a contribuição da cana considerando as necessidades de mantença em PB e NDT.

Por esta razão que informações da literatura mostram que quando se usa cana como volumoso exclusivo ou único, na época da seca do ano é preciso usar de 50 a 60% de concentrado na dieta na base da MS e 40 a 50% do consumo de MS da cana de açúcar e a dieta balanceada em NDT e PB. Se este custo é viável economicamente, a cana pode ser uma alternativa de volumoso para a época seca do ano na alimentação de vacas, ou então, pode ser usada para novilhas e vacas secas e apenas, como parte do volumoso da dieta quando for usada para vacas em lactação e com potencial de produção de leite de 10 kg/vaca/dia e além disso, 4 a 5 kg de concentrado balanceado na base de 1 kg para 2 kg de leite acima do potencial da cana, o qual varia em função do consumo de MS da cana.

O consumo de MS de silagem de milho de boa qualidade é em torno de 30% maior que o da cana e a digestibilidade da fração FDN do milho é 50%, ao passo que, a da cana de açúcar é de 25 a 30% e esta fração passa ser o principal fator limitante do consumo de MS da cana. Por isso que muitos produtores utilizam a silagem de milho como alimento volumoso para vacas em lactação, especialmente para vacas de alta produção (acima de 30 kg/dia).

Nota: a silagem de milho e de sorgo de boa qualidade também pode ser corrigida com a mistura de ureia (900 g de ureia e 100 g de sulfato de amônio) na base de 0,5% na base da matéria natural. Essa menor quantidade de ureia deve-se à PB destas silagens, usualmente na faixa de 7 a 10% da MS e não 2 a 3%, como aquela da cana.

Quanto à rebrota de forrageiras tropicais, ela varia de região para região, mas em sistemas de pastejo rotativo sua qualidade permanece mesmo durante a época seca do ano. O teor de PB da rebrota está ao redor de 14 a 16%, pois o material é composto basicamente de folhas nesta época. O consumo de 1 kg de MS de rebrota equivale a praticamente 2 kg de leite pela sua qualidade (PB e NDT), mas sua quantidade é limitada e depende do mês da época seca do ano. Assim, 3 kg de rebrota (base MS) em pastagens tropicais manejadas em pastejo rotativo resultam em aproximadamente 6 kg de leite e, assumindo (mostrado acima) que a cana de açúcar atende às necessidades de mantença das vacas e sobra certa quantidade de nutrientes para a produção de leite, é possível que a suplementação com concentrado comece a partir de 7 a 8 kg, utilizando concentrado balanceado de 1 kg de concentrado para 2,5 kg de leite. Para vacas produzindo 8 kg na dieta básica de pasto e cana de açúcar corrigida com 1% da mistura de ureia o primeiro 1 kg de concentrado seria fornecido para as vacas com 10,5 kg de leite e assim por diante, em múltiplos de 2,5 kg de leite. Entretanto, é preciso lembrar que a partir de 3 kg de concentrado por vaca por dia observa-se o efeito de substituição de consumo de MS. Quando se fornece concentrado, há redução no consumo de MS do volumoso e isso precisa ser considerado no sistema de alimentação. A taxa de substituição pode ser de 40 a 60%, ou seja, 1 kg de concentrado pode causar redução no consumo de MS do volumoso em 400 a 600 g. De maneira que, se o consumo de MS da dieta não aumenta na proporção da MS fornecida pelo concentrado vai haver desbalanceamento de nutrientes nas dietas.
 

4.6.3.5 - Agrupamento de vacas e distribuição de concentrado em função da produção de leite

Esta técnica é indicada para reduzir mão de obra, pois a distribuição do concentrado é feita em lotes de vacas agrupados por produção de leite. A formação dos lotes deve ser feita por época do ano, pois a qualidade do volumoso varia em função da época. Na época das chuvas a suplementação com concentrado pode começar a partir de 12 kg/vaca/dia, pois a pastagem (forrageiras tropicais) fornece nutrientes para atender a mantença e 12 kg/vaca/dia de leite, mas para isso é preciso que o animal consiga consumir quantidade de MS até atingir consumo de 2,7 a 3% do peso vivo quando se usa gramíneas tropicais e vacas com potencial de 20 kg/vaca/dia de leite no início da lactação (100 dias). Contudo, para se obter este consumo a oferta de forragem não pode ser limitante. Usualmente, a qualidade da forragem é definida pelo intervalo de desfolha ou período de descanso e esta parece ser específica para cada gramínea ou grupo de gramíneas com características semelhantes.

Se na época das chuvas o lote 1 vai iniciar a suplementação a partir de 12 kg /vaca/dia de leite, então neste grupo, se o balanceamento de concentrado é feito na base de 1 kg para cada 2 kg de leite produzido, daí as vacas de 12 a 16 kg podem receber 2 kg de concentrado balanceado na base de 1 kg para 2 kg de leite em termos de PB e NDT (85 g de PB por kg de leite x 2 kg =170 g de PB ou 17% de PB na MS) do concentrado e 320 g de NDT por 1 kg de leite e 320 x 2 = 640 g de NDT ou 64% de NDT). Neste caso, se houver 20 vacas neste lote e cada vaca recebe 2 kg de concentrado por dia e só pesar 2 kg x 20 vacas = 40 kg de concentrado por dia e fornecer 20 kg de manhã e 20 kg na parte da tarde. A vantagem é que não precisa pesar 2 kg por vaca por dia e assim se economiza mão de obra.

Entretanto, neste sistema se considera a produção média de leite do grupo para a definição da quantidade de concentrado. Sempre dentro do grupo algumas vacas serão beneficiadas e outras prejudicadas e espera-se que isto seja corrigido com o consumo maior de volumoso para aquelas que estiverem sendo penalizadas no grupo. O lote 2, seria aquele formado por vacas com produção média acima de 16 e se adotarmos o mesmo concentrado, as vacas com 20 kg por dia de leite estariam recebendo 4 kg de concentrado por dia (usando o concentrado na base de 1 kg para 2 kg de leite). E, assim, sucessivamente, com grupos de produção acima de 20 kg por dia.

Na época seca do ano, o início da suplementação concentrada deve começar com 8 kg/vaca/dia e então vacas com 12 kg de leite receberiam 2 kg de concentrado por vaca por dia, considerando o concentrado balanceado na base de 1 kg para 2 kg de leite em termos de PB e NDT. O outro lote seria de vacas produzindo acima de 12 e então, as vacas com produção de 12 a 16 kg de leite receberiam 4 kg por dia, sendo metade na ordenha da manhã e o resto na ordenha da tarde. Outros lotes poderiam continuar usando a mesma base de produção de leite e 6 kg/vaca/dia para aquelas com produção acima de 16 kg.

Em muitas fazendas, as vacas de primeira lactação formam um lote separado para evitar a competição por concentrado com animais maiores e mais velhos. Neste caso, o critério para formação dos lotes seria semelhante, mas a separação do lote permite alterar o fornecimento de concentrado considerando que estas vacas ainda devem ganhar peso durante a lactação e aí a quantidade de concentrado pode ser maior em 20%, durante parte ou dependendo da condição corporal da vaca, durante a lactação toda. É importante que a área de cocho não seja limitante e que todas as vacas do lote tenham acesso ao concentrado.

A mudança de vacas para outros lotes de maior ou menor produção usualmente é feita a cada 30 dias com base na produção de leite. Por isso é importante medir a produção de leite, vaca por vaca, a cada 14 dias. A avaliação do escore corporal das vacas é uma ferramenta importante no manejo das vacas e na mudança ou não de lote e para isso é preciso pesar as vacas e avaliar o escore também a cada 14 dias.
 

4.6.3.6 - Outras fontes de alimentos volumosos e de concentrados

Existem outras fontes de alimentos volumosos que já estão disponíveis e são utilizadas por alguns produtores, tais como: silagem de girassol, palma forrageira, mandioca rama, mandioca planta inteira, algumas leguminosas do tipo Leucena, Guandu, etc.

A silagem de girassol pode ser utilizada na alimentação de ruminantes, mas o teor de óleo na semente limita a quantidade a ser usada. Como as sementes contidas nas panículas do sorgo podem conter 18% de óleo é preciso cuidado, pois o óleo na dieta de vacas não pode passar de 5 a 6% da MS. Isto deve ser feito somando o óleo de todos os ingredientes da dieta, pois o milho grão contém 4% de óleo, por exemplo. É importante salientar que as bactérias do rúmen não utilizam o óleo como nutriente para seu crescimento e, ao contrário, pode reduzir a fermentação ruminal. Nesse caso, a fração fibrosa do alimento, na forma de FDN, é menos digerida e cai a produção de ácido acético a nível ruminal. Assim, o óleo em vez de ser benéfico devido ao seu teor de energia passa a ser prejudicial para o processo de fermentação no rúmen e sendo assim a produção de ácido acético diminui e pode causar redução no teor de gordura do leite. Por isso a limitação destas fontes na dieta das vacas. Ainda, a silagem de girassol apresenta relação colmo/folha alta e os colmos grossos e sem folhas têm baixa digestibilidade, o que limita seu uso na dieta.

Outro alimento alternativo é o caroço de algodão que se caracteriza por ser alimento rico em energia e não é preciso desintegrá-lo antes de fornecê-lo às vacas em lactação. O caroço de algodão usualmente apresenta em sua composição química 88% de matéria seca, 23% de PB, 85 a 90% de NDT, 18 a 20% de óleo na semente e 30 a 40% de FDN. Devido ao teor de óleo seu uso é limitado na dieta ou como alimento exclusivo, sendo de 2 a 4 kg/vaca/dia, desde que o teor de extrato etéreo não ultrapasse 6 a 7%. Se for utilizado em dietas completas, usualmente, não deve ultrapassar 20% da matéria seca. Não deve ser usado na alimentação de touros, pois o gossipol (presente no caroço) interfere na espermatogênese, prejudicando a reprodução.

O cuidado com o caroço de algodão é em relação ao teor de umidade que deve estar em 12%. É preciso fazer cálculo para decidir quando o custo é interessante em relação ao farelo de soja, calculando pelo teor de PB. O importante é que, sempre que aparecer um volumoso ou fonte de concentrado alternativo, este deve ser analisado para determinar a sua verdadeira composição química. Os ingredientes mais importantes numa análise química são: teor de MS e na base da MS o teor de PB, FDN, lignina e se possível a digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) ou na matéria orgânica (DIVMO) e ainda os minerais. Isto permite ao técnico a formulação de dietas balanceadas e suas limitações na dieta de ruminantes.

Outra fonte de alimento é a semente de soja que é excelente alimento em termos de proteína e energia e pode ser usada no lugar do farelo de soja desde que se use com base na sua composição para o balanceamento de dietas. Seu preço deve ser em torno de 30% menor que o do farelo de soja para valer a pena e para vacas de até 25 kg/dia de leite não precisa tostá-la antes de ser fornecida às vacas. Para vacas de maior produção recomenda-se tostá-la antes de usar em certas condições de temperatura e tempo para não estragar a proteína (NRC, 1989, 2001) Deve-se evitar o armazenamento da soja desintegrada por longos períodos, pois ela tende a empedrar e tornar-se rançosa, perdendo o valor nutritivo.

No grão de soja integral há 37% de PB, enquanto que, o farelo contém 45 a 48%, então a soja grão moída deve ser em torno de 30% mais barata do que o farelo de soja. Ainda assim, não se recomenda usar mais do que 20% da matéria seca da dieta, pois o grão se soja apresenta 18 a 20% de óleo e as dietas de vacas não devem conter acima de 6 a 7% de extrato etéreo na matéria seca. Portanto, deve-se considerar o extrato etéreo presente no milho grão (4% de óleo) e na silagem de milho (2% de óleo), somando os valores de óleo destes alimentos com o óleo proveniente do grão de soja. É importante salientar que os microrganismos do rúmen-retículo não utilizam o óleo como nutriente. Desta forma, as bactérias celulolíticas podem diminuir na população microbiana, reduzindo a produção de ácido acético e a digestão de celulose, diminuindo o teor de gordura no leite. Entretanto, é possível fornecer 3 kg de soja grão por vaca por dia em duas vezes ao dia no horário da ordenha, se este for o único concentrado. O mesmo limite é considerado quando se utiliza caroço de algodão. O teor de óleo no caroço limita a sua quantidade no concentrado. A semente de algodão tem em torno de 18% de óleo.
 

4.6.3.6.1 - Resíduo de cervejaria na alimentação de bovinos

Mais uma fonte de resíduo importante na alimentação de bovinos é o resíduo de cevada. A composição da cevada úmida varia com seu teor de matéria seca. Resultados de análises de laboratório mostram a seguinte composição:

  • Matéria seca: de 21 a 25%.
  • Proteína bruta: de 23 a 28%.
  • Nutrientes digestíveis totais – NDT: de 64 a 66%.
  • Fibra detergente neutro – FDN: 42%.
      

A maior limitação da cevada úmida é a energia, especialmente para vacas de alta produção de leite (acima de 25 kg/dia). Para vacas com produção abaixo de 20 kg de leite/dia, a cevada úmida pode ser uma boa alternativa, dependendo de seu preço e da disponibilidade. Sempre determinar o teor de matéria seca (MS). Se possível antes de comprar, para conhecer o preço da base de MS, pois este valor deve ser multiplicado por 4 (quando tem 25% de MS) ou 5 para saber o valor na base de MS.

Usualmente, o teor de resíduo de cevada não deve ultrapassar a 20% da MS da dieta. Ou seja, vacas ingerindo 20 kg de MS por dia, apenas 4 kg devem ser provenientes da cevada e os outros 16 da dieta.

4.6.3.6.2 - Ureia na alimentação do rebanho bovino

Usualmente, recomenda-se que a quantidade de nitrogênio não-protéico não ultrapasse um terço da proteína total da dieta. O aproveitamento do nitrogênio não-protéico pela população microbiana do rúmen depende do nível de energia da dieta, o que significa que pouca energia causa menor aproveitamento do nitrogênio (N) não protéico. Quando a energia da dieta é insuficiente para bom aproveitamento do nitrogênio da ureia ou de outros alimentos (pois existe N que é proveniente de plantas jovens e que não está na forma de proteína) o excesso de PB é eliminado na urina na forma de ureia. Isto deve ser evitado, pois a PB é a fonte mais cara do concentrado e quando em excesso aumenta o custo da dieta.

Exemplo: Dieta com 18% de proteína bruta (PB) na base de matéria seca (MS), 6 unidades de PB (1/3) podem ser provenientes da ureia, ou seja, 100 kg de ureia equivalem a 280% de PB (45% de N x 6,25 = 280% de PB).ou melhor em equivalente protéico. Então, 2% de ureia no concentrado equivalem a 5,6 unidades de PB. Por isso, usualmente são utilizadas no máximo 2% de ureia no concentrado, pois a energia pode limitar o aproveitamento da ureia pela população microbiana e ser eliminada na urina. Portanto, para utilizar ureia é necessário fornecer um alimento como fonte de energia, como por exemplo, milho moído, sorgo moído, polpa cítrica, dentre outros, que são pobres em PB e ricos em energia.

Quando há mobilização de reservas corporais (perda de escore) no início da lactação (60 dias após o parto), a PB poderá ser limitante para a produção de leite, pois durante a mobilização de reservas um dos compostos mais demandados é a gordura, que é uma forma de energia, ou seja, podem faltar aminoácidos em quantidade suficiente para a produção de leite.

Na realidade, é a população microbiana (bactérias, principalmente) presente no rúmen da vaca que utiliza o nitrogênio não-protéico para seu crescimento e multiplicação. Salienta-se que o aproveitamento do nitrogênio não protéico no rúmen somente acontece quando há energia disponível em quantidade suficiente para o crescimento da população microbiana. Caso a energia da dieta ou do alimento seja limitante, o nitrogênio não protéico será eliminado na urina. Desta forma, a fonte de alimentos energéticos é imprescindível para a síntese da proteína microbiana.

A deficiência mineral também poderá limitar a síntese de proteína. O teor de ureia na dieta deverá respeitar os limites recomendados (exemplo, no caso da cana recomenda-se a adição de 1% de ureia, entretanto na silagem de milho recomenda-se 0,5%). Há, portanto, a produção de proteína microbiana no rúmen. Essa proteína microbiana é a proteína da dieta que escapa ao ataque dos microrganismos no rúmen, e que será digerida no abomaso e posteriormente absorvida no intestino delgado, como aminoácidos.
 

4.6.4 - Referências

DERESZ, F.; PAIM-COSTA, M. L.; CÓSER, A. C.; MARTINS, C. E.; ABREU, J. B. R. Composição química, digestibilidade e disponibilidade de capim-elefante cv. Napier manejado sob sistema rotativo. Revista Brasileira de Zootecnia, Viçosa, v. 35, n. 3, p. 863-869, 2006.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient requirements of dairy cattle. 7. ed. Washington, DC: Natl. Acad. Sci., 1989. 157 p.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL. Nutrient requirements of dairy cattle. 7. ed. rev. Washington, DC: Natl. Acad. Sci., 2001.
 

4.7 - Produção de leite com qualidade na propriedade rural

4.7.1 - Introdução

Produzir leite de qualidade é hoje um objetivo comum a toda a cadeia produtiva do leite no Brasil e no mundo. Leite de qualidade é definido por ser seguro para quem o consome, pois não veicula doenças ou bactérias patogênicas; ter reduzida contagem de células somáticas (CCS); ter reduzida contagem total bacteriana (CTB); ser livre de resíduos químicos (principalmente antimicrobianos e endectocidas); possuir composição adequada (teor de proteína, gordura, lactose); e preservar as características de cor, gosto e cheiro (livre de fraudes).

A busca pela qualidade se deve não somente pelos ganhos econômicos para toda a cadeia do leite, ganhos de produtividade e de rentabilidade para o produtor e para a indústria, mas também pelos ganhos com a garantia da qualidade e segurança dos alimentos e principalmente, com a saúde dos consumidores. Como o consumo de leite e derivados está ligado a princípios de nutrição e saúde, garantir a segurança e a qualidade da fabricação desses produtos é essencial para a indústria. Só que a qualidade do leite deve ser garantida desde o momento em que ele é ordenhado: não há como melhorar a qualidade do leite depois que ele sai da propriedade. Por isso, todo o foco tem sido direcionado para o produtor de leite, pois ele é o responsável pelo início do processo da qualidade.

Para impulsionar ainda mais os programas de incentivo à melhoria da qualidade do leite brasileiro, está em vigor no país desde julho de 2005 a Instrução Normativa 51, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (BRASIL, 2002), que tem como objetivo estabelecer padrões de qualidade do leite cru refrigerado. Quanto aos principais parâmetros da qualidade do leite, o limite atual para a contagem total bacteriana (CTB) é de 750.000 UFC/mL e para a contagem de células somáticas (CCS) de 750.000 células/mL. Os limites definitivos da IN 51 estão ainda sendo discutidos pelos órgãos competentes e devem ser publicados em breve.
 

4.7.2 - Parâmetros de qualidade do leite

4.7.2.1 - Contagem de células somáticas

As células somáticas (CCS) são as células de defesa do animal originadas do sangue que migram para o úbere e também as células de descamação da glândula mamária. Quando bactérias ou outro tipo de patógeno invadem o úbere de uma vaca, ocorre de imediato uma resposta inflamatória a esta invasão. As células de defesa do sangue são transportadas para dentro da glândula mamária com objetivo de destruir as bactérias. Com isso, a consequência direta é o aumento do número destas células no leite. Uma alta CCS no leite de uma vaca indica que provavelmente existe infecção em pelo menos um quarto mamário do úbere, causando um processo inflamatório chamado mastite. A CCS é usada como ferramenta para avaliação e monitoramento da saúde do úbere nos programas de controle e prevenção de mastite em vários países.

4.7.2.2 - Contagem total de bactérias

A contagem total de bactérias (CTB) é o número de bactérias contidas no leite, cujo valor numérico é expresso em unidades formadoras de colônias (UFC) por mililitro de leite (UFC/mL). A CTB indica as condições gerais de higiene de ordenha e dos utensílios utilizados bem como da refrigeração do leite. A alta CTB pode causar vários prejuízos para a cadeia do leite, como alterações no sabor e odor do leite e derivados e alterações no tempo de validade do leite in natura e dos produtos lácteos, tendo, portanto, um importante impacto na segurança dos alimentos. De forma geral, as principais fontes de contaminação direta de bactérias para o leite cru são: quartos mamários infectados (mastite); úbere e pele dos tetos sujos; utensílios e/ou equipamentos (tubulações de leite) sujos, que entrem em contato com o leite.

4.7.2.3 - Resíduos químicos

A presença de resíduos químicos contaminantes no leite, como por exemplo, de antibióticos, de carrapaticidas, de pesticidas, entre outros, é considerada um problema sério pelo impacto que pode causar na saúde pública e pela dificuldade de fabricação de determinados produtos como queijos e iogurtes, devido à inibição do crescimento de culturas lácteas e processos fermentativos que fazem parte da fabricação destes produtos.

Os tratamentos térmicos (pasteurização, esterilização) que o leite recebe nas indústrias apresentam pouca ou nenhuma influência sobre a concentração de resíduos químicos contaminantes do leite. Desta forma, por meio do consumo de leite e seus derivados, estes resíduos podem chegar à mesa do consumidor através dos produtos lácteos e causarem problemas graves, como o desenvolvimento de alergias, anemias, distúrbios intestinais e aumento da resistência das bactérias aos antibióticos.
 

4.7.3 - Práticas para a produção de leite com qualidade

Para que o produtor de leite consiga atingir os parâmetros mínimos de qualidade do leite, valorizando seu produto, tornando-o seguro para o consumidor e com isso, contribuindo para o desenvolvimento da cadeia do leite, é necessário que ele adote na propriedade práticas de manejo (como por exemplo, higiene na ordenha, limpeza dos equipamentos, qualidade da água, controle de mastite, etc.) simples e de fácil adoção. As informações sobre estas práticas estão separadas da seguinte maneira:

4.7.3.1 - Práticas para evitar os resíduos químicos no leite

4.7.3.1.1 - Instalações da ordenha

As instalações referentes a todas as atividades de ordenha incluem a sala de espera, a sala de ordenha e a sala do leite.

  • A sala ou o curral de espera é o local onde as vacas aguardam para entrar na sala de ordenha para serem ordenhadas. Este local deve ser coberto ou, no mínimo, proteger as vacas do sol e do calor (sombrite, árvores); deve ter também cochos d’água com capacidade para atender todas as vacas em lactação ou as vacas de cada lote. Como é o local que antecede o momento da ordenha, ele deve propiciar às vacas conforto térmico e tranquilidade, para que nenhum tipo de estresse interfira na hora da ordenha.
  • A sala de ordenha deve ser coberta, para proteger as vacas, os ordenhadores e o leite (em caso de ordenha manual) do calor e da chuva. Deve ter piso antiderrapante para segurança dos funcionários e das vacas e o local arejado e de fácil limpeza.
  • A sala de leite deve ficar localizada junto à sala de ordenha para facilitar o transporte do leite para o tanque de expansão, e também, o livre acesso dos ordenhadores e ajudantes. Deve ter espaço suficiente para abrigar os equipamentos de refrigeração do leite, e pia ou tanque para limpeza dos utensílios, coleta do leite, etc.
     

4.7.3.1.2 - Ordenha manual e mecânica

Existem dois tipos de ordenha: manual e mecânica. Quando se trata da qualidade do leite, não há diferença do leite ordenhado manualmente se comparado ao leite ordenhado mecanicamente. Os dois tipos de ordenha não interferem na qualidade em termos de higiene do leite, garantindo contagens baixas de CTB. A escolha pela ordenha manual ou mecânica deverá ser baseada em informações como, por exemplo: infraestrutura da propriedade, número de animais, produtividade animal (kg/dia de leite) e número de funcionários.

Na ordenha manual, o leite é tirado pelas mãos do ordenhador num balde. Os utensílios principais que são utilizados para a ordenha manual são: o balde, o coador/filtro para transferir o leite do balde para o tanque de refrigeração ou latão, a peia para conter as pernas da vaca e o banquinho para o ordenhador sentar e proceder a ordenha. Geralmente, a escolha pela ordenha manual se dá em propriedades cujo número de vacas em lactação é pequeno e/ou a produção de leite diária é menor.

Na ordenha mecânica o leite é tirado através de um equipamento mecânico que simula a mamada do bezerro. Existem informações importantes sobre tipos e dimensionamento do equipamento que o produtor deve conhecer antes de optar pela ordenha mecânica.
Existem quatro tipos de ordenha mecânica: Balde ao pé; Canalizada Linha Alta; Canalizada Linha Intermediária; Canalizada Linha Baixa. Todo equipamento de ordenha mecânica é composto por três sistemas fundamentais:
Sistema de Vácuo: Bomba de Vácuo, Regulador, Reservatório, Frasco Sanitário, Vacuômetro e Tubulação de Vácuo.

A bomba de vácuo é considerada a parte principal do equipamento de ordenha. As mais utilizadas no Brasil e, em sua maioria, no mundo, são as bombas rotativas de palhetas com rotor excêntrico. A sua função é extrair o ar do sistema de ordenha comprimindo-o e eliminando para a atmosfera pelo escapamento. As bombas variam em capacidade, que deve ser proporcional à quantidade de unidades de ordenha e acessórios que tenha o equipamento. Esta capacidade se mede em litros/minuto de ar livre que a bomba é capaz de extrair a 50 kPa (quilo Pascal) de pressão de vácuo. A força motora requerida para acionar estas bombas é normalmente de 1 HP para cada 300 litros de ar extraído por minuto, isto para caso de motores elétricos, e de 2 HP para cada 300 litros de ar, para motores à explosão. Existem normas nacionais que estabelecem a capacidade de bomba necessária para cada instalação.

Os reguladores de vácuo cumprem a função de manter estável o nível de vácuo de toda a instalação. Permitem entradas de ar exterior ao equipamento e interrompem esta entrada de acordo com as variações no nível de vácuo, que são provocadas por ingressos de ar em outros pontos como unidades de ordenha, pulsadores, descarregadores, etc. Existem vários tipos de reguladores com diferentes mecanismos: regulador à mola; contrapeso invertido; e o(s) servo assistido(s), que representam a geração mais moderna de reguladores, pois respondem rapidamente e são de alta capacidade. Os níveis de vácuo recomendados são, respectivamente: Balde ao pé: 50 kPa; Canalizada Linha Alta: 48 a 50 kPa; Canalizada Linha Intermediária: 45 a 47 kPa; Canalizada Linha Baixa: 42 a 44 kPa.

O reservatório de vácuo tem como função evitar que cheguem líquidos (detergentes, água ou leite) à bomba de vácuo. Este funciona como um sistema de segurança. Deve ser instalado o mais próximo possível da bomba. Deve possuir um sistema de drenagem dos líquidos, dispositivo este que permita esgotar rapidamente o líquido acumulado.
O frasco sanitário só é encontrado em sistemas de ordenha canalizada. Suas funções são de impedir a passagem de leite desde a unidade final até o sistema de vácuo, e, por sua vez, evitar a contaminação do leite na unidade final.

A função do vacuômetro ou "relógio" do equipamento é indicar o nível de vácuo com que está trabalhando. Deve estar localizado à vista do ordenhador. As normas atuais determinam que ele seja instalado próximo ao sensor do regulador de vácuo antes das unidades de ordenha. A sequência ideal de instalação é: Bomba de vácuo - Reservatório de vácuo - Regulador - Vacuômetro - Unidades de Ordenha.
A tubulação de vácuo tem como função conduzir o ar até a bomba, de onde será expulso. Atualmente trabalha-se exclusivamente com tubulação de PVC. O ponto mais importante é o dimensionamento correto conforme Tabela 1.

Tabela 1. Diâmetro da tubulação (polegadas) de acordo com a capacidade da bomba de vácuo:
Balde ao Pé Diâmetro da tubulação (pol.)
Bombas até 260 litros 37987
Bombas de 260 a 590 litros 37257
Bombas acima de 600 litros 2
Canalizada- linha média central 2
Canalizada- linha baixa 3

Sistema de Leite: Linha de Leite e Unidade de Ordenha
Tem como função transportar o leite desde o teto até o recipiente de armazenamento, que pode ser um latão ou um tanque. Abaixo estão descritas suas partes:
A linha de leite é utilizada para fornecer vácuo para ordenha e transporte do leite extraído até o latão ou tanque recebedor. As normas estabelecem o diâmetro adequado para cada instalação em função da distância da tubulação, desnível e o fluxo de leite. Respeitar estas normas permite manter estável o nível de vácuo em todos os conjuntos de ordenha e conduzir o leite de forma suave e sem turbulência, separado do ar. Um transporte turbulento pode produzir rupturas dos glóbulos de gordura do leite, deixando-o com menor teor de gordura. As linhas de leite, de acordo com a localização em relação ao piso das vacas, classificam-se: Linha alta; Linha intermediária; Linha baixa.

A unidade de ordenha tem como função aplicar vácuo ao orifício do teto e extrair o leite do úbere. Esta é composta de quatro copos inoxidáveis, unidos mediante um tubo curto de vácuo, teteira e um coletor. Dentro destes copos localizam-se as teteiras, que são o ponto de união entre o teto e a máquina. A teteira é a parte do equipamento que tem maior contato com o animal.

Sistema de Pulsação: Pulsadores
Entre o copo de inox e a teteira fica um espaço denominado câmara externa de pulsação, que está conectada com o pulsador mediante os tubos curtos do sistema de vácuo e as mangueiras de pulsação. A função do pulsador é alternar vácuo e entrada de ar no interior da câmara de pulsação dos copos, determinando assim as fases de ordenha e massagem. A fase de massagem é essencial para que se mantenha a irrigação sanguínea na ponta do teto durante a ordenha, para que a vaca não se sinta incomodada ou sofra danos nos tetos. O pulsador cumpre este objetivo ao alternar a fase de ordenha com a fase de massagem. Estas fases devem ser bem ajustadas, ou seja, a entrada e saída de ar da câmara devem acontecer de forma rápida, e isto dependerá do bom funcionamento do pulsador.

O funcionamento dos pulsadores pode ser dividido em duas fases:
Fase de ordenha (A e B) e fase de massagem (C e D), que determinam um ciclo de pulsação:
A e B - Fase de ordenha: quando a teteira está se abrindo (fase A) e quando está totalmente aberta (fase B)- retirando o leite da glândula mamária.

C e D - Fase de massagem: quando a teteira está fechando (fase C) e quando está fechada (fase D)- massageando os tetos.

A relação de pulsação é o tempo relativo que dura a fase de ordenha e de massagem durante um ciclo de pulsação. Assim, uma relação de pulsação 60:40 significa que 60% do tempo que dura uma pulsação é de ordenha e 40% é de massagem. As maiores velocidades de ordenha se dão com fases de ordenha relativamente altas. A fase de massagem é a que evita que o teto sofra danos; por isso, o risco de ordenhar mais rápido (aumentar a fase de ordenha) e diminuir a fase de massagem pode prejudicar o teto. As relações de pulsação que se utilizam atualmente se encontram entre 60:40 e 70:30. A frequência de pulsação é o número de pulsações por minuto (normalmente é de 60 pulsações/minuto) e deve variar entre 58 e 62 pulsações/min. Na pulsação simultânea, ordenha-se os quatro tetos ao mesmo tempo. As fases de massagem e de ordenha ocorrem simultaneamente nos quatro tetos. Na pulsação alternada, dois copos de teteiras estão ordenhando enquanto dois estão massageando.

Os cuidados no funcionamento e manutenção também precisam ser de conhecimento do ordenhador, pois, um equipamento mal regulado pode ser fator de risco para a ocorrência de mastite. Sendo a máquina de ordenha o equipamento que funcionará diariamente nas propriedades, e no mínimo duas vezes ao dia, é preciso conhecer os principais fatores que influenciam na ocorrência de infecções intramamárias no rebanho correlacionados ao equipamento de ordenha. São eles:

Teteiras: As teteiras, ou insufladores, em condições precárias, com cortes, podem funcionar como veículos de transferência dos microrganismos, de um teto para os outros. Isto ocorre principalmente, em rebanhos em que não se separam as vacas infectadas (com mastite subclínica) das vacas sadias, por meio de adoção de uma linha de ordenha. Esta prática pode ser implantada com o auxílio do teste "California Mastitis Test" (CMT), ou por meio da contagem eletrônica de células somáticas realizada mensalmente nas vacas. A troca das teteiras deve ser feita a cada 2.500 ordenhas se for de material sintético e a cada 5.000 a 7.500 ordenhas se for de silicone, ou a cada seis meses. A pressão exercida pelos insufladores sobre o teto visa provocar a massagem, para garantir uma circulação adequada de sangue. Quando as borrachas dos insufladores ultrapassam o período de troca, elas apresentam rachaduras, e tendem a absorver a gordura do leite, retendo bactérias e prejudicando a massagem.

Leite ou ar na linha de ordenha: Quando uma teteira fura ou rasga, ou quando o ordenhador deixa encher muito o latão em ordenhas tipo "balde ao pé", pode ocorrer entrada de ar ou leite na linha de ordenha. Estas situações representam risco de novos casos de mastite, pela contaminação por bactérias de uma vaca para outra.

Teoria do impacto: O impacto de leite para o interior da glândula mamária, conhecido como gradiente de pressão reversa, ocorre quando existe uma flutuação no nível de vácuo dentro da teteira. Esta flutuação é causada principalmente pela entrada de ar em uma das teteiras, que, em consequência, reverte o fluxo normal de leite, permitindo que algumas gotículas retornem em alta velocidade para o interior da glândula mamária, podendo causar futura infecção.
Deslizamento de teteiras: A queda das teteiras, com consequente contaminação bacteriana, ocorre quando os tetos estão molhados ou quando o vácuo está abaixo do nível recomendado. Com o nível de vácuo baixo, não existe força suficiente para manter as teteiras conectadas.

Diâmetro do canal do teto: O diâmetro do canal do teto de determinadas vacas exerce certa influência sobre a ordenha mecânica. Este diâmetro, quando reduzido, provoca uma ordenha lenta, que pode levar à mastite, pela permanência do leite residual. Ao contrário, quando o diâmetro é maior que o normal, a ordenha ocorre mais rapidamente, constituindo um alto fator de risco para a mastite.

Lesões na pele e canal dos tetos: O manejo inadequado com a ordenha mecânica pode levar à ocorrência de ferimentos nos tetos, tais como: rachaduras, ressecamento da pele, lesões provenientes de irritações causadas por desinfetantes cáusticos, congestão e edemas. Estas lesões podem ser causadas principalmente por falhas no sistema de pulsação e nível de vácuo muito alto, e na maioria das vezes, são colonizadas por microrganismos, principalmente Staphylococcus aureus. O risco de mastite ocorre também quando, após a higienização dos tetos pré ordenha, utilizam-se toalhas de pano para a secagem. Pode-se, ainda, promover a disseminação de agentes de infecções em rebanhos que fazem uso de pano para limpeza de tetos.

Integridade da queratina: A queratina é a primeira barreira física que impede a multiplicação de microrganismos na glândula mamária. Esta camada de queratina pode ser modificada principalmente quando a pulsação não é a adequada, isto é, em torno de 60 batidas duplas por minuto.

4.7.3.1.3 - Ordenha com e sem bezerro

Tanto a ordenha manual como a mecânica, pode ser realizada: com ou sem a presença do bezerro. De maneira geral, opta-se pela presença do bezerro quando a vaca necessita de sua presença para descer ou apojar o leite; o que acontece, geralmente, com vacas mais azebuadas. Ao final da ordenha, o bezerro é solto com a vaca para retirar o leite residual e pode ser separado imediatamente após o esgotamento total do leite ou permanecer junto até a hora da apartação. Esta última opção não é a mais recomendada, pois neste caso, o bezerro mama o leite que poderia ser aproveitado na ordenha seguinte. O manejo de ordenha com bezerro é mais trabalhoso, então, o ideal, é mantê-lo fora da ordenha. Porém, considerando-se o fato de algumas vacas necessitarem da presença do bezerro, alguns cuidados devem ser tomados. O teste da caneca telada para detecção de mastite clínica deve ser realizado antes da mamada do bezerro, para não mascarar algum sintoma clínico. Depois da mamada do bezerro, os tetos devem ser desinfetados (pré-dipping) e secados com papel-toalha.

A ordenha sem bezerro é mais simples, e assim, facilita a mão de obra na ordenha. Além disso, existe um controle maior da quantidade de leite produzido pela vaca, da quantidade de leite ingerido pelo bezerro e permite a observação individualizada, dando a oportunidade de se tomar atitudes mais rápidas para sanar os problemas que aparecerem.
 

4.7.3.1.4 - Práticas para uma ordenha higiênica

4.7.3.1.4.1 - Manejo da ordenha

Seguir uma rotina adequada no momento da ordenha poderá garantir a obtenção de um leite seguro e de qualidade, além de prevenir a ocorrência de mastite. Para isso, é necessário seguir alguns passos, descritos a seguir.

  • Antes de iniciar a ordenha, verifica-se o equipamento de ordenha e o tanque de refrigeração, quanto a limpeza e sanitização. Caso estejam sujos, é necessário fazer uma nova limpeza. É necessário verificar também se todo o material a ser utilizado na ordenha está facilmente disponível: latões, caneca telada ou de fundo escuro para teste de mastite clínica, frascos com os desinfetantes de tetos, papel-toalha, filtro ou coador de leite. O ordenhador deve lavar as mãos antes de iniciar a ordenha, com água limpa e sabonete e secá-las com papel-toalha.
  • A principal maneira de diagnosticar os casos clínicos de mastite é fazendo o teste da caneca telada ou de fundo preto. Para isso, o ordenhador retira os três primeiros jatos de leite de cada teto na caneca de fundo preto e observa se há alguma alteração no aspecto do leite. Este teste deve ser feito todos os dias, em todas as ordenhas, em todas as vacas, em todos os tetos. Em sistemas “bezerro ao pé”, o bezerro somente deve mamar (apojar a vaca) após o teste da caneca telada e antes da desinfecção e secagem dos tetos.
  • A desinfecção dos tetos antes da ordenha reduz a quantidade de bactérias que está na pele dos tetos, auxiliando na redução da CTB e dos casos de mastite. Antes de iniciar a ordenha, os tetos das vacas devem ser imersos em solução desinfetante própria para o uso antes da ordenha, utilizando o frasco do tipo sem retorno.
  • Após a desinfecção dos tetos antes da ordenha, é importante secá-los com papel-toalha descartável para evitar a queda das teteiras durante a ordenha.
  • Após o término da ordenha, é muito importante fazer a desinfecção dos tetos, para matar as bactérias que possam ter sido transmitidas de vaca para vaca por meio do equipamento de ordenha ou pelas mãos do ordenhador. A desinfecção dos tetos após a ordenha só não deve ser realizada nas propriedades nas quais as vacas são soltas junto com seus bezerros após a ordenha.

4.7.3.1.4.2 - Limpeza dos utensílios e equipamento de ordenha

A limpeza correta dos utensílios e equipamentos da ordenha auxilia na produção de leite com qualidade. O leite ordenhado mecanicamente deixa resíduos nas tubulações por onde ele passa, e esses resíduos podem ser uma das fontes de contaminação para o leite, aumentando a CTB. O processo de limpeza dos equipamentos de ordenha não permite esterilizá-lo, e sim desinfetá-lo, ou seja, eliminar micro-organismos patogênicos (causadores de doenças).

A higiene dos equipamentos de ordenha depende de alguns fatores, tais como: condições das superfícies internas e externas, natureza dos resíduos aderidos, produtos de limpeza e de sanitização disponíveis, água potável, temperatura da água e ordenação das operações.

Existem dois tipos de resíduos que se acumulam nos equipamentos de ordenha:

a) Os orgânicos, representados pelas gorduras, proteínas, lactose, podem ser removidos por soluções de produto alcalino ou alcalino clorado.
b) Os inorgânicos, representados pelos depósitos de minerais tais como: cálcio, magnésio, sódio, potássio, etc. Os depósitos de constituintes do leite no equipamento de ordenha se processam na forma de películas que são provenientes de reações bioquímicas, em que os componentes orgânicos (gordura, proteína, carboidratos) se ligam na presença de um mineral, proveniente da água e do leite. Esta película constitui excelente substrato para as bactérias favorecendo o ambiente onde elas podem se multiplicar. Há resíduos de sólidos minerais (inorgânicos) formados pelo depósito de cálcio, magnésio e íons de ferro, comumente conhecidos como pedras de leite, que se apresentam com texturas porosas e invisíveis quando molhados. Geralmente são removidos por soluções de produtos ácidos e/ou contendo sequestrantes.

As características físico-químicas da água são fatores de grande relevância no processo de limpeza. A dureza da água (água rica em sais de cálcio e magnésio) é o principal componente que afetará o processo de limpeza, uma vez que o produto só promoverá efeito de higienização após neutralizar estes sais. Em relação à qualidade microbiológica, o uso de água com qualidade microbiológica insatisfatória na limpeza e higienização da ordenha pode comprometer a qualidade e segurança do leite e de seus derivados.

A rotina de limpeza eficiente deve ocorrer imediatamente após a ordenha, para remover totalmente os resíduos de leite (principalmente a gordura), e ainda as bactérias ou leveduras. A temperatura e o pH das soluções de limpeza são muito importantes para determinar a eficiência na higiene.

A limpeza correta deve ser aquela que resulta de uma ação física bem realizada, associada à utilização de produtos químicos diluídos em concentrações corretas (recomendadas pelos fornecedores) usando-se água de boa qualidade. A limpeza dos equipamentos deve ser realizada imediatamente após a ordenha, pois dela dependem não só a qualidade do leite como também o bom estado e a durabilidade do equipamento.

A limpeza do equipamento de ordenha deve seguir as seguintes etapas: Pré-enxágue: a primeira fase se baseia na passagem de água morna entre 38 e 43 °C pela tubulação de leite, sem recircular, para arrastar com a água a maior parte dos componentes do leite que ficaram no equipamento. Nesta fase consegue-se retirar até 97% dos resíduos de leite. O uso de água à temperatura ambiente (18-25 °C) nesta fase deve ser evitado, porque a gordura pode se “fixar” nas paredes do equipamento, uma vez que ela se solidifica.

Limpeza com detergente alcalino clorado: a segunda fase consiste da utilização do detergente alcalino clorado. A ação dos detergentes alcalinos ocorre em temperatura de 75 a 77 °C, conforme especificação dos fabricantes dos produtos. No entanto, deve-se iniciar o processo em temperaturas próximas do limite superior, para evitar que ao final da limpeza esta temperatura não esteja abaixo de 43 °C. Quando a temperatura da solução estiver abaixo, a solução pode iniciar o depósito da fração sólida que removeu em temperatura mais alta. Esta fase deve ter uma duração de 10 minutos. O pH desta solução deve estar entre 10,0 e 11,5. A alcalinidade ativa deve ter uma concentração mínima de 250 a 300 ppm (partes por milhão), com 50 a 80 ppm de cloro disponível. Os detergentes devem ser adquiridos de firmas idôneas, sempre acompanhando o prazo de validade e guardados em local seguro.
Após a circulação com detergente alcalino, deve ser realizada uma passagem da água em temperatura ambiente sem recircular, para tirar os restos de solução de limpeza.

Limpeza com detergente ácido: A terceira fase compreende a limpeza com detergente ácido. Os detergentes ácidos têm a função de remover os minerais provenientes do leite e da água utilizada na limpeza. Os minerais formam incrustações na superfície interna das tubulações e mangueiras, prejudicando os processos de limpeza e reduzindo a eficiência dos detergentes.
A frequência do uso do detergente ácido vai depender da dureza da água. Com águas ricas em minerais, acima de 150 ppm de CaCO3, o enxágue deve ser diário; abaixo de 150 ppm de CaCO3, a frequência pode ser semanal. Deixar a solução circular por cinco minutos com água morna (35 a 45 °C) ou temperatura ambiente. O pH desta solução deve estar entre 3,0 e 4,0.

Sanitização: Vinte a trinta minutos antes de iniciar a ordenha, sanitizar o equipamento, com hipoclorito de sódio (150 ppm de cloro) à temperatura ambiente (18 a 25 °C), deixando circular por cinco minutos. O objetivo desta sanitização é eliminar as bactérias que sobreviveram durante a limpeza e se desenvolveram durante o intervalo das ordenhas. Após a sanitização, não realizar o enxágue, apenas a drenagem (retirar o excesso de solução que pode ter ficado na tubulação).

Limpeza da tubulação de vácuo: A higiene da tubulação de vácuo deve ser realizada uma vez por mês, ou sempre que houver subida de leite para tubulação de vácuo.
O vácuo, ao passar do balde ou latão para o interior da tubulação, pode levar gotas de leite e formar incrustações no interior da tubulação, tornando-se focos de contaminação e dificultando o fluxo de ar.

Partes externas: As partes externas que não estão em circuito de limpeza devem ser lavadas com detergentes, escovas apropriadas e água (coletor, latões, tubulações etc.).
Em equipamentos de balde ao pé, a limpeza é manual, feita com detergente, escovas apropriadas e água. A escova exerce uma ação mecânica de grande importância. As escovas devem ser de boa qualidade, não muito duras a ponto de danificarem as borrachas. Na limpeza manual o detergente deve ser espumante para auxiliar na dispersão e na remoção dos resíduos da superfície, mantendo-o em suspensão.

Para utilização dos produtos de limpeza e desinfecção, recomenda-se que o ordenhador use aventais, luvas, botas e óculos de segurança. Em caso de contato com os olhos ou a pele, lavar com água em abundância por no mínimo 15 minutos.

Todas as etapas utilizadas na limpeza de equipamentos de ordenha devem ser seguidas na higienização dos tanques de resfriamento do leite. Uma limpeza inadequada do tanque de refrigeração pode levar à ocorrência de alta CTB no leite.
 

4.7.3.1.5 - Práticas para o controle da mastite

A mastite, inflamação da glândula mamária, é reconhecidamente a doença que mais causa prejuízos econômicos e produtivos aos rebanhos leiteiros em todo o mundo. Ela pode ser classificada de duas formas: subclínica e clínica. A mastite subclínica é a forma silenciosa da doença. Não há alterações visíveis no leite ou na vaca e o diagnóstico é realizado por meio de exames do leite. A forma clínica da doença, aquela em que os sinais da infecção são visíveis, é uma das grandes preocupações do produtor. Os prejuízos de um caso clínico de mastite já foram cuidadosamente calculados e apresentam sempre resultados preocupantes. As principais perdas se devem à expressiva redução na produção de leite, gastos com medicamentos e mão de obra, descarte de leite devido à presença de resíduos de antimicrobiano, descarte prematuro de vacas e até mesmo, devido à morte ocasionada por casos de mastite clínica aguda.

A mastite clínica pode ser detectada pela inspeção visual diária do úbere, do leite e da vaca. Os sinais mais comuns observados podem ser divididos em três graus de severidade:

  • Grau 1: apenas alterações no leite, como coágulos, grumos, pus, sangue, coloração amarelada.
  • Grau 2: alterações no leite e também no úbere, que pode se apresentar inchado, dolorido e avermelhado.
  • Grau 3: além de alterações no leite e no úbere, a vaca apresenta sinais de comprometimento sistêmico, ou seja, apresenta febre, apatia, inapetência, desidratação e redução drástica da produção de leite. Estes últimos são chamados de sinais sistêmicos e ocorrem nos casos mais graves da doença. 

Os casos subclínicos da mastite são causados, principalmente, pelas bactérias contagiosas Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae. Os casos clínicos de mastite são causados, na maioria das vezes, por patógenos oriundos do ambiente, como Escherichia coli, Klebsiella sp. e estreptococos ambientais, como Streptococcus uberis e S. dysgalactiae. Mas as bactérias contagiosas, como, S. aureus e S. agalactiae, também podem causar mastite clínica, originada de uma mastite subclínica crônica. De maneira geral, somente 7% dos animais são responsáveis por mais de 50% dos casos de mastite clínica num rebanho, o que significa que poucos animais representam metade das ocorrências da doença clínica. Mas, para cada caso de mastite clínica no rebanho, espera-se de 20 a 40 casos de doença na forma subclínica. Os casos clínicos de mastite são detectados por meio da inspeção do estado de saúde do úbere e do aspecto físico do leite. Esta detecção é realizada todos os dias, no momento da ordenha, utilizando o teste da caneca telada ou de fundo preto. Este teste permite a visualização de alterações no leite, como a presença de coágulos, sangue e/ou pus e mudança na coloração normal do leite. No momento da realização do teste da caneca telada também é possível, e recomendável, uma inspeção física cuidadosa do úbere. O comportamento e aspecto geral das vacas também devem ser observados. Vacas com mastite clínica aguda (grau de severidade 3) podem se apresentar apáticas e desidratadas.

Para detecção da mastite subclínica, o teste direto, que é a cultura microbiológica, e os testes indiretos, como o CMT e a contagem eletrônica de células somáticas (CCS) são os mais utilizados. Atualmente, considera-se o valor de 200.000 células/mL para avaliar o estado de saúde do úbere. Valor de CCS superior ao mencionado é um forte indicativo da presença de mastite em pelo menos um quarto mamário.

A CCS possui estreita correlação com a produção de leite dos animais: quanto maior a CCS do animal ou do rebanho em geral, menor a sua produção de leite. Isto ocorre porque as bactérias que causam a mastite acabam por lesar as células produtoras de leite, reduzindo a produção de leite do animal.

Para redução da CCS e controle da mastite nos rebanhos, as práticas recomendadas são as seguintes:
 

  • Diagnóstico precoce da mastite clínica.
  • Fazer o teste da caneca de fundo preto (ou caneca telada), todos os dias, em todas as ordenhas, em todas as vacas. Fazer o teste antes de o bezerro mamar. Retirar os três primeiros jatos de leite de cada teto na caneca de fundo preto, observando se há alguma alteração no aspecto do leite. Qualquer alteração é sinal de mastite clínica.
  • Quanto mais rápido se diagnosticar a mastite clínica, mais rápido esta vaca será separada do rebanho e o tratamento será iniciado. Assim, diminuem-se as chances de infecção de outras vacas e maior será a chance de cura. O tratamento da mastite clínica deve seguir as recomendações do veterinário.
  • Desinfecção dos tetos antes e após a ordenha.
  • Depois de fazer o teste da caneca, mergulhar todo o comprimento do teto em solução desinfetante própria para o uso antes da ordenha, utilizando o frasco do tipo sem retorno, aguardar 30 segundos para o desinfetante agir e secar os tetos com papel-toalha. Imediatamente após a ordenha, mergulhar todo o comprimento do teto em solução desinfetante própria para o uso após a ordenha, utilizando o frasco do tipo sem retorno. A desinfecção dos tetos elimina as bactérias que contaminam a pele dos tetos e que podem causar mastite.
  • Limpeza do ambiente de permanência das vacas.
  • Manter limpo e seco o local de permanência das vacas. O objetivo é evitar que o menor número possível de bactérias contamine a pele dos tetos das vacas e consigam penetrar pelo canal do teto, causando a mastite.
  • Segregação e descarte das vacas com mastite crônica.
  • Ordenhar separadamente as vacas com mastite clínica, para evitar que elas contaminem as vacas sadias. Elas devem ser ordenhadas por último ou em conjunto de ordenha diferente dos utilizados nas vacas sadias. Descartar as vacas que possuem mastite crônica (vacas “mamiteiras”), que passaram por vários tratamentos, durante a lactação e no período seco, mas que não curaram. As vacas com mastite crônica são fonte de contaminação permanente para as vacas sadias.
  • Terapia da vaca seca.
  • No dia da secagem da vaca, aplicar uma bisnaga de antibiótico próprio para vaca seca em cada teto. A terapia de vaca seca trata as infecções subclínicas adquiridas durante a última lactação e previne novas infecções no período seco da vaca.
  • Uso correto e manutenção do equipamento de ordenha.
  • Em rebanhos que utilizam a ordenha mecânica, o principal fator de risco de infecções da glândula mamária ocorre durante o período de lactação das vacas, no momento da ordenha. As principais causas se referem à falta de higiene e manutenção do equipamento, ou, na maioria das vezes, à falta de capacitação técnica da mão de obra. Por isso, a manutenção do equipamento deve estar em dia, inclusive, com treinamento dos funcionários da ordenha para manejarem bem o equipamento e detectarem falhas no uso e na limpeza.
     

4.7.3.1.6 - Práticas para evitar os resíduos químicos no leite

Quando há necessidade de administrar/aplicar algum produto químico-farmacêutico a uma vaca em lactação, cuidados devem ser tomados para evitar resíduos desses produtos no leite:

  • Consultar o médico veterinário sempre quer for necessário administrar produtos químico-farmacêuticos aos animais em lactação, para que ele indique o melhor tratamento para cada caso e para evitar erro ou gastos excessivos;
  • Consultar a bula do produto químico-farmacêutico para conferir e respeitar o período de carência, já que cada droga tem períodos diferentes;
  • Descartar toda a produção de leite da vaca durante o período de carência, mesmo quando apenas um teto recebeu o tratamento intramamário;
  • Não utilizar antimicrobianos ou endectocidas em diferentes categorias de animais, dosagens, ou diferentes usos ou locais de aplicação que não estejam indicados na bula do produto. Exemplo: medicamento próprio para vacas secas não deve ser utilizado em vacas em lactação;
  • Não realizar, sem orientação do médico veterinário, mistura, diluição, preparo ou associação de antibióticos ou de carrapaticidas, pois, entre outros prejuízos, isso altera o período de carência;
  • Identificar as vacas em tratamento de maneira fácil de ser visualizada (com cordas presas ao pé ou pescoço, bastões coloridos marcados na anca, entre outros). O leite desses animais não pode ser misturado ao leite total do rebanho;
  • Registrar em cadernos/computador todas as ocorrências de doenças e o uso dos produtos químico-farmacêuticos e consultar essas anotações antes de liberar o leite para venda e/ou consumo;
  • Tomar cuidado com vacas que parirem antes do tempo previsto, para que não haja risco de ocorrer resíduo do antimicrobiano utilizado na terapia de vaca seca;
  • Ter atenção ao período de carência dos antimicrobianos aplicados via oral, intravenosa, intramuscular, subcutânea ou intra-uterina, pois independente do local de aplicação, o medicamento é levado para a corrente sanguínea do animal e também ao leite;
  • Para combate aos carrapatos, efetuar o teste de sensibilidade de carrapatos aos carrapaticidas, oferecido gratuitamente pela Embrapa Gado de Leite. Seguir as orientações que acompanham o resultado do teste para efetuar o tratamento com o produto apropriado para cada caso, no momento e na forma adequada.

4.7.4 - Referências

BRASIL, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa N°51 de 18 de setembro de 2002. Regulamento Técnico de Produção, Identidade e Qualidade do Leite Tipo A, do Leite Tipo B, do Leite Tipo C, do Leite Pausterizado e do Leite Cru Refrigerado e o Regulamento Técnico da Coleta de Leite Cru Refrigerado e seu transporte a Granel. Diário Oficial da União, Brasília, 18 set. 2002. Secção 3. Disponível em: http://www.agricultura.gov.br/ das/dipoa/in51.htm>. Acesso em: 10 mar. 2009.

BRITO, M. A. V. P.; BRITO, J. R. F. Diagnóstico microbiológico da mastite. Juiz de Fora, MG: Embrapa Gado de Leite, 1999. 26 p. (Embrapa Gado de Leite. Circular Técnica, 55.).

CARVALHO, A. C.; RIBEIRO, A. C. C. L. Ordenha mecânica: implantação e operação. 2. ed. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite; Viçosa: CPT, 2008. 214 p. (CPT. Série Coleta e armazenamento do leite). Acompanha 1 DVD.

JAYARAO, B. M.; PILLAI, S. R.; SAWANT, A. A.; WOLFGANG, D. R, HEGDE, N. V. Guidlines for monitoring bulk tank milk somatic cell count e bacterial counts. J. Dairy Sci., v. 87, n. 10, p. 3561-3573, 2004.

LAGO, A.; GODDEN, S.; BEY, R.; et al. Effect of the selective treatment of clinical mastitis based in on-farm culture results on clinical mastitis recurrence, somatic cell count, milk production and culling. In: ANNUAL MEETING NATIONAL MASTITIS COUNCIL, 48., 2009, Charlotte. Proceedings… Charlotte: NMC, 2009. p. 150-151.

LEITE, M. O; ANDRADE, N. J.; SOUZA, M. R.; FONSECA, L. M.; CERQUE IRA, M. M. P.; PENNA, C. F. A M. Controle de Qualidade da água em industrias de alimentos. Leite & Derivados, n.69, p. 38, mar./abr. 2003.

MARTINS, C. E.; BRESSAN, M.; COSER, A. C.; ZOCCAL, R.; ESPíNDOLA, H. D. (Ed.). Tecnologias para Ia producción de leche en los trópicos. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2002. 228 p.

PHILPOT, W. N.; NICKERSON, S. C. Mastitis: counter attack – a strategy to combat mastitis. Naperville: Babson Bros. Co., 1991. 150 p.

POL, M.; BEARZI, C.; MAITO, J.; et al. On-farm culture: characteristics of the test. In: ANNUAL MEETING NATIONAL MASTITIS COUNCIL, 48., 2009, Charlotte. Proceedings… Charlotte: NMC, 2009. p. 146-148.

SANTOS, M. V. Alta contagem bacteriana: as causas. Balde Branco, v. 39, n. 462, p. 60-65, abr. 2003.

SANTOS, M. V.; FONSECA, L. F. L. Estratégias para controle de mastite e melhoria da qualidade do leite. Barueri: Editora Manole, 2006. 314 p.

SPENCER, S. B. A importância e procedimentos para a limpeza e higienização de equipamentos de leite. In: ENCONTRO DO CONSELHO BRASILEIRO DE QUALIDADE DO LEITE, 1., 2000, Curitiba. Anais... Curitiba: Conselho Brasileiro de Qualidade do leite, 2000. p. 53.

STEENEVELD, W.; GAAG, L. V.; BARKEMA, H. et al. Probability distribution for the causal pathogen of clinical mastitis cases. In: ANNUAL MEETING NATIONAL MASTITIS COUNCIL, 48., 2009, Charlotte. Proceedings… Charlotte: NMC, 2009. p. 132-133.

STEENEVELD, W.; VAN WERVEN, T.; BARKEMA, H. W.; HOGEVEEN H. Cow-specific treatment of clinical mastitis: An economic approach. Journal of Dairy Science, v. 94, p. 174-188, 2011,
.
TECNOLOGIA e ordenha (editorial). Gado Holandês, v. 60, n. 434, p. 3, 1994.
 

4.8 - Recursos genéticos animais

De acordo com a FAO (2010), o termo “recurso genético animal” refere-se às espécies animais utilizadas, ou que podem ser utilizadas na agricultura e produção de alimentos, assim como às populações que as contém

4.8.1 - Sistemas de produção

O sistema de criação e produção a ser adotado na propriedade rural é decorrente do desempenho dos animais existentes e das práticas de criação e produção utilizadas. Esse desempenho pode ser estimado por ano, por lactação, por dia ou por animal, sendo que a maneira mais praticada no Brasil é a média da produção de leite por lactação por vaca.

Os rebanhos podem ser classificados pelo nível de criação, considerando os percentuais em cada categoria de produção (vacas em lactação, vacas secas, novilhas e bezerras), pela taxa de mortalidade (relação entre número de animais mortos e número total de animais no rebanho), pelo índice de descarte (relação entre número de matrizes descartadas e número total de matrizes no rebanho) e pelo nível de adoção de tecnologias na propriedade (inseminação artificial, ordenha mecânica, ou outras).
 

4.8.2 - Raças

As raças bovinas são agrupadas quanto à sua origem em taurinas (também conhecidas como europeias), zebuínas e sintéticas. As mesmas podem se destacar por sua especialização para a produção de leite, de carne ou por dupla aptidão (leite e carne).


Figura 1. Diagrama de cruzamento para obtenção da raça sintética Girolando.
Fonte: SILVA et al. (2011).

4.8.3 - Heterose ou vigor híbrido

O acasalamento entre animais de raças ou linhagens diferentes é chamado de cruzamento. A heterose, também chamada de vigor híbrido, é o fenômeno pelo qual os filhos provenientes de cruzamentos apresentam melhor desempenho (mais vigor ou maior produção) do que a média de seus pais. A heterose será tão mais pronunciada quanto mais divergentes, ou seja, quanto mais diferentes geneticamente forem as raças ou linhagens envolvidas no cruzamento. O conhecimento e o entendimento do conceito da heterose pode ajudar o produtor na escolha do tipo de cruzamento mais adequado conforme o sistema de produção adotado em sua propriedade.

4.8.4 - Estratégias de cruzamento

Em função das condições predominantemente tropicais, a utilização de animais mestiços prevalece nos sistemas de produção de leite cujos rebanhos se situam nas regiões do Cerrado e Mata Atlântica do Brasil. Na pecuária leiteira, é comum considerar como gado mestiço aqueles animais derivados do cruzamento de uma raça pura de origem europeia (E), especializada na produção de leite, com uma raça zebuína (Z) também com potencial para produção de leite, e mais adaptada aos trópicos.

Da mesma forma que o produtor rural dispõe de diversas opções de raças puras para produção de leite, ele também dispõe de diversas opções para o cruzamento entre raças europeias, ou destas com raças zebuínas, em variadas composições genéticas. Os cruzamentos que envolvem uma raça europeia e outra zebuína resultam em maiores níveis de heterose, quando comparados com os cruzamentos entre raças de mesma origem. No Brasil, a utilização das raças Holandês e Gir predomina na produção dos mestiços. Dentre as estratégias de cruzamento, as mais utilizadas são:
 

4.8.4.1 - Cruzamento simples, com produção de F1

Usando-se touros, ou sêmen, de raças europeias e vacas zebuínas, ou vice-versa, obtêm-se vacas 1/2 EZ (Figura 2), que nesse caso (pai e mãe puros de raças distintas) são chamadas de F1. Existem resultados de pesquisas científicas mostrando heterose para produção de leite variando de 17,3% até 28% nos cruzamentos entre animais da raça Holandês e animais das raças zebuínas. Para outras características, os níveis de heterose podem ser variados, pois a heterose afeta características particulares e não o indivíduo como um todo. O animal F1 reúne características das raças de ambos os progenitores (touro e vaca). No caso do cruzamento de vaca Gir com touro Holandês, espera-se que as fêmeas F1 apresentem características típicas do Holandês como bom porte, maior precocidade e maior aptidão leiteira do que a raça Gir, e também maior resistência a ectoparasitas, maior tolerância ao calor e maior rusticidade do que o Holandês, pois essas são características marcantes das raças zebuínas. O desempenho (produção) do animal F1 depende da qualidade genética dos progenitores envolvidos em cada cruzamento. Portanto, é importante utilizar sempre touros provados para leite, sejam eles taurinos ou zebuínos. Até início dos anos 90, a recomendação para se obter F1 era o cruzamento de vacas Gir com touros Holandês. Isto porque a população da raça Gir era grande, a vaca Gir era relativamente de baixo custo e dispunha-se de touros Holandês provados para leite, sendo as vacas Holandês de maior custo. A partir de 1993, começou a ser disponibilizado sêmen de touros Gir provados para produção de leite, além de ter ocorrido redução no preço de vacas Holandês. Assim, pode-se utilizar tanto o cruzamento de vacas Gir com touro Holandês, como o cruzamento recíproco, de vacas Holandês com touro Gir. O rebanho leiteiro seria formado apenas por vacas F1, fazendo-se a reposição anual de 20 a 25% do seu rebanho sempre por produtos do cruzamento entre animais puros das duas raças envolvidas, os quais podem ser obtidos por meio da manutenção de fêmeas e machos (ou sêmen) puros no próprio rebanho ou por meio da aquisição de fêmeas F1.


Figura 2. Diagrama de cruzamento simples envolvendo uma raça zebuína (Z) e uma raça europeia (E), com produção de F1.

4.8.4.1.1 - Vantagens

  • A expressão de heterose é máxima, dentro do possível, de acordo com as raças envolvidas;
  • As fêmeas F1 apresentam uniformidade aceitável entre si, o que permite facilidade no manejo dos animais de produção.

4.8.4.1.2 - Desvantagem

  • Há a necessidade de manutenção das fêmeas F1, e das fêmeas puras para produção das F1, simultaneamente no rebanho, ou de aquisição das fêmeas F1 para reposição.

4.8.4.1.3 - Alternativas para o acasalamento das fêmeas F1

As fêmeas F1 precisam ser acasaladas para que entrem em lactação. Porém, a escolha da raça mais adequada para esse acasalamento dependerá do nicho de mercado onde o produtor irá vender seus animais. Algumas opções são apresentadas abaixo:

4.8.4.1.3.1 - Cruzamento das fêmeas F1 com europeu, ou Zebu, dependendo do mercado, e venda de animais 3/4 EZ ou 1/4 EZ (3/4 Zebu), respectivamente

Se a raça europeia escolhida for Holandês, as fêmeas 3/4 EZ serão boas produtoras de leite, porém, mais exigentes em trato, mais sensíveis a carrapatos e ao calor do que as F1. As fêmeas 3/4 EZ são animais muito valorizados no mercado brasileiro. O produtor poderá vendê-las após o desmame, ou recriá-las, emprenhá-las e vendê-las no ano seguinte.

No caso de se utilizar Zebu na F1, uma opção seria touro Guzerá de dupla aptidão, possibilitando a venda das novilhas 1/4 EZ para produtores de leite, enquanto os bezerros podem ser vendidos para abate, apresentando melhor desempenho se comparados aos bezerros provenientes de cruzamentos entre raças especializadas para leite.
 

4.8.4.1.3.2 - Cruzamento terminal

As fêmeas F1 são cruzadas com touros de raças de corte, como Nelore, Canchim, Tabapuã, ou mesmo linhagens de corte da raça Guzerá, entre outras, destinando-se ao abate todas as crias, machos e fêmeas. Este é o esquema conhecido como ”vaca de leite, cria de corte”.

4.8.4.1.3.3 - Manutenção de rebanho com fêmeas F1 e 3/4 EZ

Neste caso, o produtor optará por manter no rebanho também as fêmeas 3/4 EZ, ao cruzar fêmeas F1 com touro europeu. As fêmeas 3/4 EZ são destinadas para produção de leite, enquanto os machos são descartados ou destinados para corte, fazendo a cria e recria dependendo da disponibilidade de pastagem, ou vendendo os bezerros no mercado local. As fêmeas 3/4 EZ poderão ser cruzadas com touros de raças de corte, repetindo o bordão “vaca de leite, cria de corte”. A reposição das fêmeas F1 deverá ser feita por aquisição no mercado. As fêmeas de reposição 3/4 EZ são selecionadas no próprio rebanho.
 

4.8.4.2 - Cruzamento absorvente

- escolhida uma raça especializada para produção de leite, utilizam-se touros provados dessa raça, geração após geração, para cruzar com as vacas disponíveis no rebanho, até que se obtenham animais com características semelhantes à raça pura. Os animais de composição genética 15/16 ou 31/32 (conforme a raça considerada) são chamados puros por cruza (PC). A cada geração adicional aumenta a proporção da raça especializada na composição genética dos animais obtidos, conforme diagrama da figura 3.


Figura 3. Diagrama de cruzamento absorvente envolvendo uma raça zebuína (Z) e uma raça europeia (E), com produção de animais puros por cruza (PC) em gerações futuras (geração n).

4.8.4.2.1 - Vantagens

  • Possibilita a obtenção de animais especializados, mais padronizados quando comparados aos animais mestiços, e mais adaptados quando comparados à raça pura, a partir de um rebanho comum, com baixo custo inicial;
  • O melhoramento genético do rebanho pode ser obtido pela seleção das fêmeas nascidas no próprio sistema, para a reposição.
     

4.8.4.2.2 - Desvantagens

  • À medida que os animais se tornam mais apurados, suas exigências em termos de ambiente, manejo e alimentação também aumentam;
  • Espera-se uma diminuição gradual da heterose ao longo das gerações.
     

4.8.4.3 - Cruzamento alternado simples, também chamado rotacional

São utilizados touros, ou sêmen, de duas raças, alternando-se a raça do touro a cada geração. A prática mais comum é acasalar fêmeas F1 com macho de raça europeia, obtendo-se animais de composição genética aproximada 3/4 EZ. As fêmeas 3/4 são acasaladas com machos zebuínos, obtendo-se animais 3/8 EZ. O mesmo procedimento de alternância da raça do touro continua nas gerações seguintes, de forma que a raça do touro utilizado será sempre diferente da raça do pai da vaca, e igual à raça do avô materno dessa vaca. A ideia é possibilitar a manutenção de heterose no rebanho. A figura 4 apresenta um esquema que exemplifica o cruzamento alternado simples envolvendo uma raça zebuína e uma raça europeia. A composição genética converge nas gerações futuras para 2/3 EZ ou 1/3 EZ, aproximadamente, de forma alternada a cada geração. Podem ser utilizadas quaisquer raças europeias e zebuínas puras, mas na prática as mais usadas são Holandês e Gir. É um esquema praticado por pequenos produtores que desejam produzir leite a pasto e recriar os machos para corte.


Figura 4. Diagrama de cruzamento alternado simples envolvendo uma raça zebuína (Z) e uma raça europeia (E), com produção de animais de composição genética aproximada ao 1/3 EZ ou 2/3 EZ, de forma alternada a cada geração (gerações n-1 e n).

4.8.4.3.1 - Vantagens

  • O melhoramento genético do rebanho pode ser obtido pela seleção das fêmeas nascidas no próprio sistema, para a reposição;
  • Manutenção de níveis satisfatórios de heterose, mesmo que inferiores à heterose obtida na geração F1.
     

4.8.4.3.2 - Desvantagens

  • Há a necessidade de se manter touros das duas raças na propriedade, o que pode encarecer o sistema. No entanto, isso pode ser facilitado caso a inseminação artificial seja adotada;
  • A falta de padronização dos animais no rebanho pode dificultar o manejo das fêmeas em produção
     

4.8.4.4 - Cruzamento alternado com repetição

São utilizados touros, ou sêmen, de duas raças, sendo uma europeia e outra zebuína. A raça europeia é repetida por duas ou três gerações seguidas do Zebu (E-E-Z ou E-E-E-Z, respectivamente). Em gerações futuras as composições genéticas variam entre os limites de 43 e 86% EZ para o esquema E-E-Z, ou entre os limites de 47 e 93% EZ para o esquema E-E-E-Z, aproximadamente. O diagrama da Figura 5 ilustra o esquema E-E-Z, com as proporções de composição genética europeia esperadas a cada geração. Pode ser uma boa estratégia se as condições de manejo e alimentação forem satisfatórias, pois quanto maior a composição de europeu, maior a exigência do animal. Neste esquema, os produtores de melhor nível tecnológico podem utilizar touro europeu por três gerações seguidas até obtenção de 15/16 EZ, para então utilizar touro zebuíno na geração seguinte, retornando a composição genética do gado para próximo do meio-sangue e recuperando um pouco da heterose no gado. Uma possibilidade dessa estratégia é a realização de ordenha sem bezerro ao pé. No entanto, ao se cruzar vacas 7/8 EZ ou 15/16 EZ com touro Zebu, podem ocorrer casos de vacas com lactação curta e/ou que dificultem a ordenha sem o bezerro ao pé.


Figura 5. Diagrama de cruzamento alternado com repetição (esquema E-E-Z), envolvendo uma raça zebuína (Z) e uma raça europeia (E), com produção de animais de composição genética variando entre 43 e 86% da raça europeia.

4.8.4.4.1 - Vantagens

  • O melhoramento genético do rebanho pode ser obtido pela seleção das fêmeas nascidas no próprio sistema, para a reposição;
  • Manutenção de níveis satisfatórios de heterose, mesmo que inferiores à heterose obtida na geração F1.
     

4.8.4.4.2 - Desvantagens

  • Há a necessidade de se manter touros das duas raças na propriedade, o que pode encarecer o sistema. No entanto, isso pode ser facilitado caso a inseminação artificial seja adotada;
  • A falta de padronização dos animais no rebanho pode dificultar o manejo das fêmeas em produção.

     

4.8.4.5 - Cruzamento triplo ou “tricross”

Usa-se nas fêmeas F1, touro ou sêmen de uma terceira raça pura, na premissa de se manter bom nível de heterose e introduzir características desejáveis da terceira raça (Figura 6). Geralmente, são utilizadas como segunda raça europeia: Pardo-Suíço, Jersey ou Simental. Um exemplo desse tipo de estratégia, que tem sido utilizado no Brasil, é o cruzamento de fêmeas F1 (Holandês x Zebu) com touro Jersey para obtenção do “tricross”, considerando, além da manutenção da heterose, as características importantes desta raça, tais como: precocidade, fertilidade e elevado teor de sólidos no leite. Se as fêmeas são F1, as crias serão 50% Jersey, 25% Zebu (Gir, Guzerá ou Sindi) e 25% Holandês. Assim, a propriedade terá fêmeas valorizadas porque a raça Jersey transmite precocidade, alta fertilidade, docilidade, longevidade, além do que as fêmeas são menores, possibilitando criar maior número de animais por hectare. Vale lembrar, porém, que os machos possuem baixo valor como animal de corte.


Figura 6. Diagrama de cruzamento triplo em que a F1 é obtida através do cruzamento entre duas raças (R1 e R2) e o produto final é obtido pelo cruzamento da F1 com touro de uma terceira raça (R3).

4.8.5 - Escolhendo o recurso genético adequado

A escolha do recurso genético a ser utilizado pelo produtor de leite dependerá de vários aspectos, principalmente relacionados a:

  • Aspectos de ambiente e infraestrutura (localização geográfica, topografia, clima, pluviosidade, recursos hídricos, eletrificação, área agricultável, pastagem, instalações, maquinários, implementos, acesso a insumos e alimentos);
  • Recursos humanos (mão de obra, capacitação, assistência técnica);
  • Comercialização dos produtos (volume de produção, acesso viário, entreposto, laticínio, indústria, mercado consumidor, agregação de valor);
  • Disponibilidade de recursos financeiros para investimento e preferência pessoal do produtor.

Não existe uma raça ou um cruzamento que se possa generalizar como o melhor ou o pior, ou seja, uma receita perfeita para qualquer sistema de produção de leite no Brasil. Busca-se sempre adequar esta escolha em função dos diversos aspectos acima citados e proceder aos ajustamentos em função dos resultados e desafios que se apresentem, minimizando os riscos de introdução de recurso genético inadequado e, por consequência, de prejuízos econômicos.

Sem dúvida alguma, o sistema de produção a ser utilizado ou adotado na propriedade é item importante a ser considerado na escolha da raça ou do cruzamento. No entanto, o retorno econômico esperado para o sistema de produção como um todo é que deve ser o principal fator determinante da melhor estratégia a ser adotada, em termos de nível de tecnificação e recursos genéticos aplicados.
 

4.8.6 - Desempenho de vacas mestiças

Pesquisa realizada durante mais de 15 anos pela Embrapa Gado de Leite, com parte dos resultados apresentados por Madalena et al. (1990), mostrou que o desempenho de cada cruzamento é variável de acordo com os níveis de manejo e tecnificação adotados nas fazendas, conforme se pode ver na Tabela 1.

Tabela 1. Características de primeira lactação (duração da lactação: DL, produção de leite: PL, produção de gordura: PG e produção de proteína: PP) em animais de quatro diferentes proporções da raça Holandês em sua composição genética, em fazendas de nível de manejo alto ou baixo.
Composição genética Nível de manejo              
  Alto       Baixo      
  DL (dias) PL (kg) PG (kg) PP (kg) DL (dias) PL (kg) PG (kg) PP (kg)
40940 305 2953 132 100 375 2636 114 83
41002 329 2981 121 94 367 2251 94 70
41128 295 2821 104 84 304 1672 66 51
H 365 3147 113 93 258 1226 49 38
Fonte: Adaptado de Madalena et al. (1990).

Nas fazendas com nível mais alto de manejo, a produção de leite (litros/vaca/dia) foi bastante semelhante entre vacas mestiças com proporções de Holandês em sua composição de 1/2, 3/4 ou 7/8. Já nas fazendas com nível baixo de manejo, as produções foram maiores nos grupos com proporções de Holandês de 1/2 e 3/4. Os grupos com maiores proporções da raça Holandês em sua composição genética tenderam a apresentar maiores diferenças produtivas na comparação entre os níveis alto e baixo de manejo, evidenciando a maior adaptação dos zebuínos a ambientes produtivos menos favoráveis.
Conforme resultados apresentados por Lemos et al. (1993), vacas mais azebuadas foram mais resistentes a ectoparasitas (Tabela 2).

Tabela 2. Infestações por ecto e endoparasitas em novilhas de diferentes proporções da raça Holandês em sua composição genética.
Composição genética Média de carrapatos Média de coopérias Média de Bernes
40940 71 4861 4,34
41002 223 26115 8,77
41128 282 26422 7,28
H 501 21938 8,43
Fonte: Adaptado de Lemos et al. (1993).

4.8.7 - Acasalando as vacas

Este é um processo muito relevante para os sistemas de produção, pois possibilitará à vaca entrar em lactação, além de viabilizar o nascimento de animais geneticamente superiores para a eficiente reposição e melhoria do desempenho produtivo do rebanho. É fundamental o equilíbrio vitalidade-fertilidade-produtividade-longevidade da fêmea que irá substituir uma vaca de descarte. O primeiro passo é evitar acasalamentos entre indivíduos aparentados (também denominados consanguíneos ou endogâmicos), que é indesejável por acarretar prejuízo à eficiência reprodutiva, produtiva e, subsequentemente, econômica. Depois, deve-se alcançar o equilíbrio através de acasalamento corretivo ou direcionado para melhoria de características morfológicas e funcionais, que concorrem para o melhor desempenho animal e finalmente consolidam o retorno econômico da atividade.

4.8.8 - Escolhendo o reprodutor

A escolha adequada de reprodutores para monta natural e/ou inseminação artificial (IA) de fêmeas no rebanho é essencial para o sucesso do sistema de produção de leite, pois no mínimo espera-se manter os níveis de produção/produtividade já alcançados na propriedade. Deve-se definir o sêmen ou reprodutor a ser introduzido com base no nível de produção do rebanho, nas linhagens existentes e na disponibilidade de recursos financeiros, evitando-se perdas produtivas e econômicas.

Àqueles que pretendem introduzir a IA na propriedade, recomenda-se avaliar previamente aspectos relacionados à infraestrutura (instalações, botijão, fornecimento de nitrogênio) e treinamentos (detecção de cio, protocolos de inseminação) necessários à adoção desta prática. É importante destacar que a adoção da IA requer investimentos maiores em um primeiro momento, mas minimiza custos com a manutenção de touros na propriedade e diminui a transmissão de doenças através da monta natural. Além disso, permite melhorias na qualidade genética do rebanho, por permitir o acesso a material genético superior. Porém, deve-se salientar que, apesar da adoção da inseminação artificial na propriedade, é necessário possuir touro para repasse de cobertura por monta natural, em quantidade suficiente para atender àquelas fêmeas que não responderem satisfatoriamente a IA.

Tanto nos rebanhos puros quanto nos mestiços, ao se adquirir um touro para monta natural deve-se avaliar a idoneidade do criatório, verificar a qualidade genética de seu rebanho e consultar os dados de produção registrados na propriedade, além de solicitar a avaliação andrológica dos reprodutores a serem adquiridos. Em se tratando de sêmen, o produtor deve procurar centrais registradas no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, e solicitar o catálogo de sêmen disponível para as raças pretendidas.

De posse do catálogo, a escolha do sêmen se dará com base na informação sobre o valor genético (VG ou BV) de cada reprodutor ou sobre o desempenho esperado da sua progênie (DEP ou PTA), principalmente para a produção de leite. Quanto maior a DEP maior o ganho genético esperado no rebanho. Além da produção de leite, devem ser consideradas também as características lineares de tipo, conformação e manejo, optando-se pelos animais com avaliação favorável para as características a serem melhoradas. Os constituintes do leite, como proteína ou gordura, são características produtivas que merecem atenção, principalmente se houver bonificação pela indústria a que se destina a produção.
 

4.8.9 - Realizando o descarte/reposição de vacas

Nos rebanhos bovinos, a ênfase de seleção é dada aos reprodutores, em função da proporção macho: fêmea, ou seja, os machos acasalam-se com maior número de fêmeas e por isso cada reprodutor deixa um número maior de descendentes. Porém, o descarte/reposição de fêmeas também merece atenção, independente do sistema de criação escolhido pelo produtor, sendo de aproximadamente 20% o índice de descarte recomendável. Dessa forma, são substituídas as vacas com problemas de aprumos e úbere, as muito velhas, as inférteis ou com problemas reprodutivos recorrentes.

Para auxiliar no descarte de fêmeas, os animais podem ser agrupados de acordo com sua produção de leite em: ótima; boa; média; regular; ou insatisfatória. A seguir, os grupos insatisfatório e regular devem ser totalmente eliminados. Dos demais grupos, os animais com problemas de qualquer ordem devem ser também eliminados. O que se espera é que os animais tenham longa vida útil nos rebanhos e que haja melhoria na média da produção. Diante dessa perspectiva, devem ser realizadas melhorias no manejo nutricional e sanitário com os recursos obtidos na venda do descarte, acompanhando as novas exigências do rebanho. Deve-se reter todas as bezerras da propriedade, filhas de vacas dos lotes de ótima e boa produção e, portanto, que tenham maior potencial produtivo para futuramente substituírem parte do rebanho, desde que observados os aspectos discutidos anteriormente. Ou, então, opta-se pela compra de novas vacas, desde que bem avaliadas e mais produtivas que a média do rebanho.

Esse esquema deve ser repetido a cada ano. Fica evidente que para adotar o esquema proposto, é essencial que o produtor conheça a produção de leite de cada uma das vacas. Isso só poderá ser feito de forma adequada se houver escrituração zootécnica na propriedade, com anotação de informações como data do parto, data e motivo da secagem, e controles leiteiros pelo menos uma vez por mês, até o encerramento da lactação de cada vaca.
 

4.8.10 - Referências

BREEDS of Livestock: North America dairy breeds. Oklahoma State University, Department of Animal Science, Stillwater, OK, 2009. Disponível em: <http://www.ansi.okstate.edu/ breeds/cattle/nadairy.htm>. Acesso em: 01 jul. 2011.

FAO. Conceptos básicos. In: FAO. La situación de los recursos zoogenéticos mundiales para la alimentación y la agricultura. Roma, Italia, 2010. p.369-377. Disponível em: <http://www.fao.org/ docrep/012/a1250s/a1250s15.pdf>. Acesso em: 28 jul. 2011.

LEMOS, A. M.; TEODORO, R. L. Utilização de raças, cruzamentos e seleção em bovinos leiteiros. Coronel Pacheco: Embrapa – CNPGL, 1993. 23 p. (Embrapa–CNPGL. Documentos, 52).

MADALENA, F. E.; LEMOS, A. M.; TEODORO, R. L. et al. Dairy production and reproduction in Holstein - Friesian and Guzera crosses. Journal of Dairy Science, Champaign, v. 73, n. 7, p. 1872-1886, 1990.

PEIXOTO, M. G. C. D.; VERNEQUE, R. S.; PANETTO, J. C. C. et al. Programa Nacional de Melhoramento do Guzerá para Leite: resultados do Teste de Progênie, do Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos da ABCZ e do Núcleo MOET. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2011. 61 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 144).

SILVA, M. V. G. B.; PAIVA, L. C.; CEMBRANELLI, M. A. R. et al. Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando: Sumário de Touros – Resultado do Teste de Progênie – Junho 2011. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2011, 46 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 148).

TEIXEIRA, N. M. Raças e tipos In: VALENTE, J.; DURÃES, M. C.; MARTINEZ, M. L.; TEIXEIRA, N. M. (Ed.) Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 71-78.

TEODORO, R. L.; MADALENA, F. E.; LEMOS, A. M.; et al. Cruzamento tríplice de raças leiteiras: avaliação de cruzamento de Jersey e Pardo-Suíço com vacas Girolando. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 22, n. 221, p. 7-10, 2001.

TEODORO, R. L.; MARTINEZ, M. L.; PIRES, M. F. A. et al. Cruzamentos. In: VALENTE, J.; DURÃES, M.C.; MARTINEZ, M. L.; TEIXEIRA, N. M. (Ed.) Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 89-104.

VERNEQUE, R. S.; PANETTO, J. C. C.; BRUNELI, F. A. T.; et al. Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro: Sumário Brasileiro de Touros – Resultado do Teste de Progênie – Maio 2011. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2011. 58 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 145).

VERNEQUE, R. S.; PEIXOTO, M. G. C. D.; MARTINEZ, M. L. et al.. Seleção para objetivos econômicos em gado de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2006. 152 p.
 

4.9 - Manejo Reprodutivo na pecuária leiteira

4.9.1 - Introdução

O desempenho reprodutivo é muito importante em qualquer sistema de produção leiteira, pois permite que a vaca retorne ao momento em que é mais eficiente em produzir leite, o início da lactação. Assim, uma boa eficiência reprodutiva, caracterizada por curtos intervalos entre partos faz com que a propriedade tenha uma alta taxa de natalidade e elevada porcentagem de vacas em lactação. Isso tem reflexos na produção total de leite por dia do rebanho, além de maior número de crias nascidas por ano.

O manejo reprodutivo do rebanho consiste na avaliação de índices zootécnicos para acompanhamento e intervenção no manejo das novilhas e vacas do rebanho. De posse dos dados produtivos e reprodutivos é possível a tomada de decisões para a melhoria do manejo reprodutivo dos animais, sempre com base em bons manejos nutricional e sanitário.
 

4.9.2 - Importância da escrituração zootécnica

A escrituração zootécnica é imprescindível em qualquer sistema de produção de leite e envolve a identificação individual dos animais, geralmente por meio de numeração, e o registro de ocorrências reprodutivas como parto, identificação da cria e cobrições/inseminações artificiais e ocorrências produtivas como peso, produção de leite e duração da lactação. Tradicionalmente, fichas individuais são usadas para o controle zootécnico do rebanho. Entretanto, atualmente existem diferentes softwares que podem ser usados para a escrituração. Independente do método de controle vale ressaltar a importância do uso de cadernetas ou relatórios de campo. Essas cadernetas de campo são utilizadas pelos vaqueiros e ordenhadores e nelas são feitos os registros diários da propriedade, como a anotação dos partos, ocorrência de doenças e mortes, vacas em cio e inseminadas. As anotações de campo são a base para o controle do rebanho e sua boa utilização e preenchimento garantem confiabilidade ao processo. Assim, é importante o comprometimento das pessoas envolvidas, que devem saber da importância das anotações e como elas podem ajudar na tomada de decisão na propriedade.

4.9.2.1 - Identificação individual

A base da escrituração zootécnica é a identificação individual dos animais no rebanho. Para tanto, recomenda-se o uso de números para a identificação dos animais. Pode-se usar numeração sequencial ou arranjos mais elaborados, como o primeiro número indicando o ano de nascimento do animal. De qualquer forma, cada animal deve ter um número único que o acompanha durante toda a sua vida. É comum a utilização de brincos ou marcação a fogo (ferro quente) para a identificação dos animais. A marcação a fogo é indelével e pode ser feita na anca ou na perna, mas o crescimento dos pêlos ou uma marcação mal-feita (geralmente com ferro frio) podem dificultar a leitura do número. Os brincos, por outro lado, apresentam melhor visualização, mas há a possibilidade de perda. No caso de animais registrados em associações de criadores, cada associação tem suas normas próprias para a identificação e registro dos animais.

4.9.2.2 - Registros reprodutivos

O primeiro registro reprodutivo do animal é a cobrição e/ou inseminação artificial, quando este ainda encontra-se na fase de novilha. As cobrições devem ser registradas com a data do cio e da cobrição, além do tipo de acasalamento (monta natural ou inseminação artificial) e da identificação do reprodutor (número e nome do touro, no caso de monta, e no caso de inseminação, também o número da partida do sêmen e número de doses utilizadas). Todas as repetições de cio devem ser anotadas, mesmo aquelas em que o animal não seja acasalado. Nesses casos, deve-se anotar o motivo.

Outra informação importante é o diagnóstico de gestação, realizado por médico veterinário.
Além da confirmação da gestação, o diagnóstico permite identificar os animais que não ficaram gestantes e os que não repetiram o cio. Doenças e outras alterações do sistema reprodutivo também podem ser diagnosticadas e devem ser anotadas. Confirmada a gestação, é possível calcular a data provável do parto, por meio de tabelas próprias baseadas em 285 dias de gestação. A data provável é importante para a adoção de diferentes manejos nutricionais e sanitários para a fêmea gestante.

O registro do parto deve ser feito anotando-se o tipo de parto (normal ou difícil), a data e a identificação da cria, com número e sexo. Ocorrências como natimorto e retenção de placenta também devem ser anotadas. Abortos também devem ser registrados, com anotação da data e outras observações pertinentes.
 

4.9.2.3 - Registros produtivos

A produção de leite e dados como escore da condição corporal e peso das vacas também devem ser anotadas. Essas avaliações permitem mensurar o desempenho animal e servem como base para a tomada de decisões quanto a mudanças no manejo do rebanho.
O peso é uma informação importante no sistema de produção e deve ser adotado para acompanhar o ganho de peso das novilhas e a variação de peso das vacas durante a lactação. São recomendadas pesagens a intervalos regulares em novilhas, como mensais ou bimestrais, até o parto. Em vacas, também se recomendam pesagens regulares, mas também em momentos estratégicos, como na secagem e no dia do parto. Em propriedades em que não se dispõe de balança para pesagem animal, pode-se utilizar fitas para medição do perímetro torácico, disponíveis em lojas agropecuárias. Essas fitas já trazem uma escala que converte o perímetro torácico em peso, de acordo com a raça do animal.

Outra importante avaliação é o escore da condição corporal. A condição corporal é a avaliação visual do quanto o animal está magro ou gordo, numa escala de 1 a 5. É recomendada a avaliação do escore da condição corporal de forma regular nas vacas, junto com a data da pesagem.

Toda propriedade leiteira deve fazer o controle leiteiro, que nada mais é que a anotação da produção individual diária (manhã e tarde) das vacas e deve ser realizado uma ou duas vezes por mês. Além de permitir individualizar a produção, o controle leiteiro possibilita separar ou categorizar os animais de acordo com o nível de produção. A partir disso, o produtor pode dividir os animais em lotes e oferecer dietas que atendam à exigência nutricional de cada um. A partir do controle leiteiro, ao final da lactação o produtor também pode calcular a produção média e total de leite durante a lactação. Outras informações importantes, como a ocorrência de mastites devem ser registradas na ficha de controle leiteiro.

Assim como a data do parto, a data da secagem também é muito importante na escrituração do rebanho. A secagem pode ser realizada por dois motivos, baixa produção ou por proximidade com o parto seguinte. Se a produção de leite da vaca for muito baixa, pode não ser economicamente viável manter a vaca em lactação. Nesses casos, deve-se anotar a data da secagem e o motivo. Quando a vaca mantém uma elevada produção de leite, a secagem deve ser realizada 60 dias antes da data prevista para o próximo parto.
 

4.9.2.4 - Avaliação de índices zootécnicos

4.9.2.4.1 - Produção de leite

A produção de leite da propriedade deve ser controlada diariamente, anotando-se a produção total de cada ordenha. Com o uso de tanques de expansão, isso pode ser facilmente realizado com a medição do volume de leite, com o uso de régua própria que converte a altura que o leite ocupa no tanque em volume. É esperada uma pequena variação na produção diária de leite, mas grandes variações podem significar falhas no manejo dos animais, principalmente nutricional. A partir dos dados do controle leiteiro podem ser calculadas as produções de leite média e total para cada vaca do rebanho.

4.9.2.4.2 - Duração da lactação

A lactação tem uma duração normal de 305 dias, considerando-se um intervalo de partos de 12 meses. Em rebanhos mestiços, contudo, a lactação tende a ser menor, com duração de 270 a 290 dias, enquanto que em rebanhos especializados, com vacas com maior grau de sangue de raças como Holandês ou Jersey, a lactação pode ser estendida, devido a uma maior seleção dessas vacas para persistência de lactação. Assim, a lactação acaba sendo encerrada pela proximidade do parto seguinte, respeitando-se 60 dias de período seco.

4.9.2.4.3 - Idade ao primeiro parto

A idade ao primeiro parto é dependente do manejo alimentar das novilhas durante a recria. O ideal é que o primeiro parto ocorra aos 24 meses de idade. Entretanto, deve-se respeitar um peso ao primeiro parto mínimo de 90% do peso à idade adulta. Esse peso adulto é obtido das próprias vacas do rebanho, com mais de três partos. Com a meta de peso ao primeiro parto, devem-se estabelecer as metas de ganho de peso durante a fase de recria. Para novilhas mestiças, recriadas a pasto, o ganho de peso tende a ser menor, com maior idade ao primeiro parto, que pode variar de 28 a 32 meses.

4.9.2.4.4 - Período de serviço

O período de serviço corresponde ao tempo que vai do parto até a primeira cobrição fértil. O ideal é que seja de no máximo 85 dias, para que se tenha um intervalo de partos de 12 meses. Para isso, recomenda-se o uso de matrizes e touros de alta fertilidade, além de manejo adequado.

4.9.2.4.5. Intervalo de partos

Período de tempo entre dois partos consecutivos. Ou seja, é composto pelos dois períodos que determinam a sua duração: o período de gestação mais o período de serviço. Intervalos de 13-14 meses são considerados bons, porém o ideal é que seja de 12 meses. De Alba (1970) relata que intervalos entre partos maiores que 420 dias revelam deficiência ou problema reprodutivo do rebanho.

Tabela 1. Efeito dos períodos de serviço e gestação sobre o intervalo entre partos e taxa de natalidade.
Período de Serviço (dias) Duração da gestação (dias) Intervalo entre partos (meses) Taxa de natalidade (%)
432 285 24 50
315 285 20 60
255 285 18 65
225 285 17 70
195 285 16 75
165 285 15 80
135 285 14 86
105 285 13 90
75 285 12 100
Fonte: Adaptada de De Alba (1970)

4.9.3 - Situação reprodutiva do rebanho

A análise da situação reprodutiva do rebanho pode ser realizada pela categorização dos animais, de acordo com seu estado reprodutivo. Assim, os animais em produção (vacas) são separados de acordo com a situação produtiva: vacas lactantes ou secas e, depois, pela reprodução: prenhes ou vazias. Depois, dentre as vazias, ordenam-se as vacas pelo número de dias em lactação (ou dias abertos, para as vacas que ainda não foram cobertas após o parto). Assim, é possível determinar qual a porcentagem de vacas do rebanho que estão vazias e como é essa distribuição.

4.9.4 - Escore da condição corporal

O escore da condição corporal (ECC) é uma avaliação das reservas corporais do animal e reflete o quanto ele está magro ou gordo, numa escala de 1 a 5. A avaliação do ECC baseia-se na inspeção (observação visual) e palpação de algumas regiões do corpo do animal, para verificação do conteúdo de massa muscular e gordura subcutânea. Essas regiões são as costelas, o lombo, a garupa e a inserção da cauda. Nas costelas, quanto mais magra a vaca, mais fácil é visualizar cada costela individualmente e o espaço entre as costelas, a partir da última costela, em sentido à cabeça do animal. Em animais de melhor condição corporal, é mais difícil visualizar as costelas e os espaços intercostais, pois a cobertura muscular e de gordura recobre as costela de maneira uniforme. Na região do lombo, deve-se observar a cobertura dos processos transversos das vértebras lombares. Em animais em bom estado corporal, os processos não são individualizados. À medida que o animal perde condição corporal, diminui a cobertura muscular do lombo e os processos transversos das vértebras lombares passam a ser individualizados, até o ponto em que cerca de 2/3 do processo transverso podem ser facilmente visualizados, em animais muito magros. Na garupa observam-se principalmente as extremidades ósseas dos ílios e dos ísquios. O ílio é o osso da parte mais alta e externa da garupa, no final do lombo e os ísquios são os ossos da extremidade caudal da garupa, localizados lateralmente à cauda. Em animais magros, esses ossos são salientes e não se observa gordura subcutânea. Em animais de melhor condição corporal, o acúmulo de gordura subcutânea torna as extremidades ósseas menos salientes e mais arredondadas e, no processo de palpação, sente-se a gordura e não os ossos diretamente. Finalmente, na inserção da cauda observa-se a deposição de gordura. Em vacas gordas, a inserção da cauda está preenchida por gordura, enquanto que em vacas magras, a inserção da cauda é bem marcada e saliente.


Figura 1. Vaca magra (ECC 2,0). Detalhe: visualização das costelas (1), processos transversos das vértebras lombares (2) e extremidades do ílio (3) e ísquio (4). No detalhe, observa-se a inserção da cauda (5). Em todos os pontos, observa-se ausência de gordura subcutânea e, inclusive, de musculatura, recobrindo as extremidades ósseas.

 


Figura 2. Vaca boa (ECC 3,5). Detalhe: Costelas de difícil individualização. Existe musculatura recobrindo os espaços intercostais, mas ainda é possível visualizar as costelas em seu comprimento. Processos transversos das vértebras lombares com cobertura muscular da região lombar, com visualização apenas de suas extremidades (menos de 1/3 de seu comprimento). Maior deposição de massa muscular na região da garupa, com ílios e ísquios menos salientes.

 


Figura 3. Vaca gorda (ECC 4,5). Detalhe: Ampla cobertura muscular e gordura sobre as costelas e os processos transversos das vértebras lombares, que não podem ser individualizados, de forma que a região das costelas e do lombo parecem estar unidas, como uma só região. Ílios e ísquios recobertos por gordura, não apresentando saliência. Deposição de gordura evidente na inserção da cauda.

4.9.5 - Manejo reprodutivo de novilhas

A recria de novilhas é muito importante no sistema de produção. Por se tratar de categoria animal improdutiva, seus custos são relativamente altos. Assim, é necessário eficiência, para conciliar um baixo custo de produção de novilhas com uma menor idade à primeira cobrição e ao primeiro parto, que resulta em redução do número de fêmeas em recria. De acordo com a taxa de reposição do rebanho, o produtor pode selecionar recriar apenas as fêmeas de melhor potencial genético, filhas das melhores vacas e touros e vender os outros animais à desmama.

4.9.5.1 - Peso à cobrição

Tradicionalmente, a idade era usada como critério para entrada em reprodução. Contudo, atualmente, o peso é o critério mais importante, pois está mais relacionado com o tamanho da vaca adulta. Em vacas da raça Holandês, as novilhas atingem a puberdade (primeiro cio) quando seu peso corporal é cerca de 50-55% do peso adulto. Assim, preconiza-se que a primeira cobrição ocorra entre 60-65% do peso adulto e que, ao primeiro parto, a novilha tenha 85-90% do peso adulto. Na prática, significa que o produtor deve conhecer o peso adulto de seu rebanho, o que pode ser feito com a pesagem de uma amostra de vacas em lactação e secas. Dessa forma, suponha que o peso médio observado nas fêmeas adultas tenha sido de 550 kg. Esse seria o peso adulto que as novilhas alcançarão. Assim, a puberdade seria atingida quando os animais tivessem entre 275 e 303 kg. A primeira cobrição seria recomendada quando elas pesassem entre 330 e 358 kg, devendo pesar ao parto 468 a 495 kg. Ou seja, as novilhas devem ser recriadas separadas dos reprodutores e só colocadas para acasalar quanto atingirem o peso mínimo para a cobrição, que elas alcançam algum tempo depois de começarem a dar cio.

Dessa forma, o peso à cobrição deve ser estabelecido de acordo com o manejo nutricional durante a gestação, de forma a garantir um adequado peso ao parto. No exemplo acima, significa que a alimentação deve permitir que o animal tenha um ganho de peso médio diário durante a gestação de cerca de 483 gramas/cabeça/dia. Em propriedades que o manejo nutricional não permitir tal ganho de peso, seja pela disponibilidade de alimentos, seja pelo custo da dieta, deve-se ajustar o peso à cobrição. Ou seja, quanto menor for o ganho de peso estimado para a gestação, tanto maior deve ser o peso à cobrição. Essa medida visa não prejudicar o desempenho produtivo e reprodutivo das novilhas durante a primeira lactação.
 

4.9.5.2 - Manejo durante a gestação

Durante a gestação, novilhas e vacas secas devem ser mantidas bem alimentadas, em pastagens de boa qualidade ou recebendo suplementação volumosa e/ou concentrada. O objetivo é que as novilhas tenham um ganho de peso adequado e as vacas recuperem escore da condição corporal.

4.9.6 - Manejo pré-parto

O pré-parto ou período de transição é compreendido pelos últimos 30 dias de gestação, quando há o desenvolvimento final do feto (bezerro) e da glândula mamária. O manejo pré-parto visa preparar a vaca para uma nova lactação e deve se iniciar pela adaptação do animal à dieta das vacas em lactação, ou seja, recebendo o mesmo volumoso das vacas em lactação e iniciando-se o fornecimento de concentrado, em menores quantidades (0,5 a 1% do peso vivo).

A saúde da vaca no início da lactação depende em grande parte do que acontece durante o pré-parto, por isso muita atenção deve ser dada ao escore da condição corporal. Vacas devem parir com condição corporal boa, não devendo estar muito gordas. No último mês de gestação, os nutrientes são direcionados para a glândula mamária e, principalmente, para o útero, para atender a demanda de crescimento final do bezerro. Mudanças no escore da condição corporal, durante esse período são, portanto, pequenas e devem-se às vacas gordas para que não sejam super-condicionadas. Vacas gordas (ECC> 4,0) podem apresentar grande queda de consumo de alimentos nos últimos dias antes do parto e no início de lactação e são mais susceptíveis a doenças metabólicas como cetose, esteatose hepática (fígado gorduroso) e retenção de placenta.
 

4.9.7 - Manejo reprodutivo de vacas em lactação

A eficiência reprodutiva de vacas em lactação depende do manejo pré-parto, da condição corporal ao parto e da intensidade e duração da mobilização de reservas corporais após o parto. No início da lactação, a vaca consome uma menor quantidade de alimentos, em um momento em que tem elevada produção de leite. Essa diferença entre os nutrientes requeridos e ingeridos é denominada balanço energético negativo. Durante essa fase, o metabolismo animal desvia todos os nutrientes para a produção de leite pela glândula mamária e a reprodução não é uma prioridade. Quando o balanço energético volta a ser positivo, a atividade reprodutiva é retomada. Entretanto, quando o balanço energético negativo tem grande intensidade e longa duração, a vaca demora mais tempo para retomar a atividade reprodutiva. Assim, para uma boa eficiência reprodutiva deve-se ter um bom manejo nutricional que minimize o período de balanço energético negativo e a mobilização de reservas corporais.

4.9.7.1 - Escore da condição corporal ao parto

O escore da condição corporal (ECC) é o melhor indicador das reservas corporais do animal, sendo de rápida e fácil mensuração. O ideal é que vacas de raças especializadas tenham um ECC ao parto entre 3,0 e 3,5 e vacas mestiças entre 3,5 e 4,0. Essa diferença deve-se a um padrão diferente de deposição de gordura corporal entre os tipos de animais. Vacas que parem magras, com ECC abaixo do recomendado, demoram mais tempo para retornar ao cio no pós-parto.

Tabela 2. Percentagem de vacas em cio aos 40, 50 e 60 dias após o parto, de acordo com o estado corporal ao parto.
Escore da condição corporal ao parto Percentagem de vacas em cio
  40 dias 50 dias 60 dias
Magra (< 3,0) 19 34 46
Moderada (3,0) 21 45 61
Boa (3,5 a 4,0) 31 42 91
Fonte: Adaptado de Wiltbank (1994).

Após o parto, há uma redução do ECC nos primeiros 60 a 90 dias de lactação. O ideal é que a redução de escore não ultrapasse 0,5 ponto. Uma vaca com ECC 3,5 ao parto deveria chegar a um ECC mínimo de 3,0 e uma vaca com um ECC de 4,0 ao parto deveria reduzir o ECC para 3,5.

Vacas que perdem 1,0 ponto ou mais de ECC no início da lactação demoram mais tempo para retornar ao cio e podem apresentar uma menor fertilidade após a primeira inseminação. Isso significa que a avaliação do ECC é importante, mas deve ser realizada no momento certo. Ou seja, um adequado escore da condição corporal ao parto é tão importante quanto sua reduzida variação nos primeiros 90 dias de lactação.
 

 

4.9.7.2 - Restabelecimento da função reprodutiva

Ao decorrer da lactação, as vacas reiniciam a função reprodutiva. Esse restabelecimento inicia-se com a involução uterina, que é o retorno do útero ao tamanho e função normais após o parto. O período de involução uterina pode durar até 45 dias e, por isso, estabelece-se esse tempo como o período voluntário de espera, quando a fertilidade da vaca é limitada.

A ocorrência do primeiro cio pós-parto varia com o tipo de animal e o sistema de produção. Em vacas mestiças a pasto, o primeiro cio ocorre em média aos 50 dias pós-parto, enquanto que em vacas da raça Holandês em sistema de confinamento total, esse período é tão curto quanto 25 dias. Geralmente, a vaca leiteira apresenta uma primeira ovulação pós-parto não acompanhada pela manifestação de cio, ou seja, um cio silencioso. Essa primeira ovulação é seguida da formação de um corpo lúteo de curta duração, de 9 a 12 dias. O primeiro cio ocorre normalmente após esse ciclo curto, com manifestação e duração normais.

É importante acompanhar o retorno das vacas ao cio. Vacas que voltam ao cio e emprenham nos primeiros 90 dias pós-parto alcançarão um intervalo de parto muito próximo ou até menor que 12 meses. O problema para o manejo do rebanho reside nas vacas consideradas atrasadas, ou seja, que não deram cio até 90 ou 120 dias pós-parto. Essas vacas devem ser avaliadas por médico veterinário e seu histórico avaliado quanto a escore da condição corporal ao parto e aos 45, 60 dias e 90 dias de lactação, ocorrência de doenças como retenção de placenta e infecções uterinas. Essas vacas devem ser diagnosticadas e tratadas ou, submetidas a mudança de manejo para melhoria de sua condição corporal.
 

4.9.8 - Sistemas de acasalamento

Os mais comumente aplicados em rebanhos leiteiros comerciais são a monta natural, a monta natural controlada ou dirigida e a inseminação artificial, em ordem crescente de exigências e cuidados. Algumas fazendas usam apenas um tipo de técnica de acasalamento, outras fazem a inseminação artificial (IA) das fêmeas nos 2 ou 3 primeiros cios e, caso não ocorra a prenhez, são cobertas em monta natural ou monta controlada.

Os acasalamentos podem ser realizados de forma contínua, ou seja, durante o ano todo ou apenas durante período(s) do ano (estação de monta). É comum o uso de estação de monta para cobrir as fêmeas em gado de leite, concentrando a época de parto no início da seca, quando há suplementação alimentar e são maiores os preços pagos ao produtor. Quando se opta por fazer estação de monta, deve-se utilizar um touro para cada 20 a 40 vacas.

Além das técnicas citadas, dos anos 1980 em diante, algumas biotecnologias reprodutivas têm sido disponibilizadas comercialmente e são utilizadas em animais de genética superior, devido aos seus altos custos. Depois do advento da inseminação artificial veio a transferência de embriões (TE), seguida da produção in vitro de embriões (PIVE) e clonagem animal.
 

4.9.8.1 - Monta natural

É a forma mais simplificada de reprodução do rebanho, pois consiste na permanência de touros junto às fêmeas, sem interferência humana.

4.9.8.1.1 - Vantagens da monta natural

  • menor risco de perda de cios;
  • requer menos mão de obra e instalações
     

4.9.8.1.2 - Desvantagens da monta natural

  • torna difícil saber qual foi o dia de cobertura;
  • dificulta a identificação da paternidade, quando mais de um touro está no lote;
  • diminui a vida útil do touro pelo desgaste das sucessivas montas;
  • aumenta a possibilidade de acidente com o touro;
  • favorece a transmissão de agentes de doenças da reprodução, como: viroses, tricomonose e campilobacteriose;
  • requer aquisição regular de touros, os quais servem aproximadamente 20 a 30 vacas por ano cada um.
     

4.9.8.2 - Monta natural controlada ou dirigida

Nesse sistema o touro é mantido afastado, separado das fêmeas até que elas manifestem cio. Quando então essas são levadas para junto do macho para acompanhamento da cobrição.

4.9.8.2.1 - Vantagens da monta natural controlada

  • facilita a anotação do dia de cobertura;
  • aumenta a vida útil do touro, pois as coberturas são dirigidas;
  • diminui a possibilidade de acidente com o touro;
  • possibilita o controle de reprodução, com a programação das coberturas e parições, e maior identificação de problemas reprodutivos;
  • possibilita melhor aproveitamento do touro que serve aproximadamente 100 vacas por ano.

4.9.8.2.2 - Desvantagens da monta natural controlada

  • aumenta custos com mão de obra;
  • maior risco de perdas de cios;
  • requer maiores gastos com instalações.
     

4.9.8.3 - Inseminação artificial (IA)

É a técnica em que o sêmen do touro é introduzido, pelo homem, no útero da vaca ou novilha em cio sem o contato direto com o touro. Ou seja, uma dose de sêmen descongelada é depositada no aparelho reprodutivo da fêmea para que ocorra a fecundação do óvulo. Para isso, são utilizados instrumentos e procedimentos apropriados.

Vacas em cio pela manhã deverão ser inseminadas na tarde do mesmo dia; vacas observadas em cio à tarde devem ser inseminadas no início da manhã do dia seguinte.

A utilização da inseminação artificial é altamente indicada para vacas com produção superior a 2.000 litros de leite por lactação. O uso de touros não provados para características de leite, nesses tipos de rebanhos, pode ser arriscado, pois as filhas podem não obter a produção de leite das mães e chegar a índices bem menores, inclusive. É importante observar que a IA deve ser adotada em fazendas que já possuam bom nível tecnológico, com boa escrituração zootécnica e adequados manejos sanitário e nutricional, sem as quais não se obterá sucesso com a técnica.

A aplicação deste conjunto de condutas, assim como atentar para a fertilidade e qualidade do sêmen, a atenção e responsabilidade do inseminador, a qualidade da assistência técnica especializada e, principalmente, o constante acompanhamento e empenho do proprietário são um forte indicativo de alcance do sucesso. Alguns outros cuidados relacionados à IA serão abordados logo adiante.
 

4.9.8.3.1 - Vantagens da utilização da IA

  • possibilita o uso de sêmen de touros provados (com teste de progênie);
  • evita gastos de investimento com a compra de touros;
  • evita a transmissão de enfermidades pelo touro;
  • permite cruzamentos alternados entre raças diferentes;
  • possibilita a melhoria de certas características desejáveis;
  • viabiliza a padronização do rebanho, com a utilização de poucos reprodutores em muitas vacas;
  • facilita o registro de dados e informações a respeito do manejo e dos animais;
  • aumento do número de descendentes de um reprodutor;
  • permite o uso do sêmen de touros após sua morte.
     

4.9.8.3.2 - Limitações da inseminação artificial

  • necessita de inseminador qualificado;
  • necessita de assistência técnica periódica por técnico especializado;
  • acarreta maior perda de cios;
  • aumenta gastos com mão de obra e equipamentos (botijão, pipeta, luvas etc.).

 

4.9.8.3.3 - Qualificação da mão de obra

As propriedades que optarem por adotar a IA, necessariamente precisarão treinar, pelo menos, um funcionário (que será o inseminador) para que ele aprenda e esteja apto a adotar as medidas de higiene e a praticar devidamente os procedimentos que envolvem essa técnica. A inseminação artificial é uma técnica simples, mas requer cuidados, pois envolve diferentes passos, desde a observação e a detecção do cio, o momento da inseminação e sua higiene, o correto manuseio do botijão de sêmen, o adequado descongelamento e manipulação do sêmen e uma boa prática no ato da inseminação em si. Por isso, o inseminador terá que ser bem preparado e participar de cursos de reciclagem, pois comumente, com o passar do tempo, ele vai negligenciando certos cuidados e etapas do processo, de modo que possa ocorrer comprometimento dos resultados.

Os cursos de capacitação de inseminadores são geralmente realizados nas centrais de congelamento de sêmen, escolas agrotécnicas, entidades do governo (Senar, Embrapa), universidades e também podem acontecer nas próprias fazendas, conforme haja interesse dos pecuaristas e seja combinado com a instituição que aplica o curso.
 

4.9.8.3.3.1 - Identificação do cio

Assim como na monta natural controlada, a correta identificação do cio é extremamente importante para o sucesso da inseminação artificial. Isso porque falhas na detecção do cio afetam a taxa de gestação, prolongam o intervalo entre parto e, consequentemente, reduzem a produção de leite e de bezerros durante a vida útil dos animais. Dados da literatura apontam que, em média, há perda de 50% dos cios das vacas.

Em geral recomenda-se duas ou mais observações diárias. Uma no início da manhã (6:00h – 7:00h) e outra no final da tarde (18:00h – 19:00h), durante no mínimo 60 minutos cada. As vacas que estiverem no cio devem ter sua identificação anotada e/ou serem apartadas para posterior inseminação.

Alguns sinais são exibidos durante o cio, como cauda erguida, inquietação, perda de apetite, miccção frequente, vulva inchada, muco transparente, entre outros. Mas somente a aceitação da monta garante que a fêmea está no cio, ou seja, a fêmea fica parada enquanto outro animal salta sobre ela.

O cio da vaca tem uma duração de 10 a 18 horas e um intervalo médio de 21 dias.
O pré-cio dura de 4 a 10 horas. Neste período a vaca apresenta todos os sintomas mencionados anteriormente, com a diferença que não aceita a monta.

Existem várias formas que podem auxiliar e/ou confirmar a detecção do cio (rufião com buçal marcador, pedômetro, Kamar, Heat Watch, etc.), tratamentos hormonais e até mesmo de manejo (separação de animais por lote – vacas cheias apartadas de vacas vazias) que podem otimizar essa identificação. Esses recursos devem sempre ser monitorados por uma assistência técnica.

Uma das melhores opções para a detecção do cio é associar a observação visual com a utilização de rufiões com ou sem buçal marcador. O buçal é um tipo de coleira, que é colocado no pescoço do rufião e que marca com tinta o lombo das fêmeas que estiverem aceitando a monta.

Pode-se utilizar dois tipos de rufiões: os machos e as fêmeas androgenizadas.

Nos rufiões machos é feita uma cirurgia para evitar a penetração durante a monta. Os principais tipos de cirurgias são a deferectomia, a de desvio do pênis ou a aderência do pênis. Para esses procedimentos é recomendável a orientação e consulta de um médico veterinário.

As vacas androgenizadas precisam passar por um tratamento com hormônio masculino (testosterona). Geralmente são escolhidas novilhas mais masculinizadas e de preferência do mesmo lote das vacas. Com a aplicação desse hormônio, as fêmeas terão um comportamento semelhante ao do macho.

A proporção de rufiões utilizados é de, em média, um animal para cada 30 a 40 vacas.
A taxa de detecção de cio (TDC) é um parâmetro que poderá ser usado quando houver prolongado período de serviço no rebanho, pois indicará problemas na manifestação de cios. A TDC (%) = (21/C) x 100, em que C é a média do intervalo entre cios obtidos na propriedade. Dessa forma, intervalo entre cio e taxa de detecção de cio são inversamente proporcionais.

Outro parâmetro útil que pode ser usado em propriedades que não realizam exames ginecológicos regularmente é a taxa de não retorno ao cio (TNR) até 60 dias pós inseminação ou monta.

4.9.8.3.3.2 - Cuidados relacionados à inseminação

  • Antes de iniciar um programa de IA buscar a assistência de um médico veterinário para que ele verifique a situação do rebanho e demais requisitos para que a técnica seja implementada na propriedade. Além disso, ele deverá realizar a avaliação ginecológica das novilhas e vacas, selecionando assim as que estiverem aptas;
  • Realizar controle do estoque de sêmen e identificar devidamente as raques;
  • Manter organizada escrituração zootécnica para que, entre outras coisas, apenas sejam inseminadas fêmeas paridas há mais de 45 dias, as que apresentarem intervalos normais de cios (18 a 24 dias) e as que não foram inseminadas mais de três vezes. Além disso, alterações bruscas na rotina (mudanças de temperatura, alimentação, etc.) e na saúde (lesões, doenças, muco vaginal com pus ou sangue, etc.) das fêmeas devem ser registradas, pois podem comprometer os resultados;
  • A IA deve ser realizada em brete coberto e limpo;
  • Higiene é fundamental em todas as etapas do processo de inseminação. A assepsia de aparelhos, a higienização do animal e a conduta do inseminador fazem a diferença nos resultados;
  • Antes e depois da inseminação, lavar, desinfetar, manter os aplicadores de sêmen e demais materiais em local apropriado;
  • Proceder o descongelamento das doses de sêmen em recipiente limpo com água, sempre respeitando a temperatura de 35 °C a 37 °C e tempo de 20 a 30 segundos;
  • Procurar manusear as palhetas de sêmen com cuidado, mantê-las abaixo do gargalo (boca) do botijão e evitar que fiquem expostas à temperatura ambiente (máximo de 10 segundos);
  • Manter o botijão em local protegido de raios solares e evitar que sofra pancadas. Verificar regularmente o nível de nitrogênio líquido no botijão, que nunca poderá ficar abaixo de 15 cm (utilizar régua apropriada para essa medição);
  • Obedecer rigorosamente os horários de observação de cios e inseminação. A ovulação das vacas ocorre, em média, 12 horas após o término dos sinais do cio. É recomendável seguir a regra: vacas em cio no início da manhã devem ser inseminadas no fim da tarde. Enquanto que vacas em cio no fim da tarde devem ser inseminadas no início da manhã do dia seguinte.
  • Não inseminar as fêmeas que tenham sido ordenhadas há menos de uma hora.
     

4.9.8.4 - Inseminação artificial em tempo fixo (IATF)

A utilização aprimorada da IA é a chamada Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), que não exige a observação de cios, pois utiliza protocolos hormonais com o intuito de sincronizar os cios e, consequentemente, as ovulações.

Tem se observado um rápido crescimento na utilização da IATF, pois ela possibilita a diminuição do intervalo entre os partos, tornando o rebanho mais produtivo. Além de dispensar gastos e contratempos com manejo, mão de obra, assistência técnica (fatores considerados empecilhos para o emprego da IA). Contudo, vale lembrar que para se obter sucesso, o rebanho deve estar ciclando, ganhando peso e com adequado manejo sanitário.

De fato, esse mercado vem crescendo a cada ano e, atualmente, as IATFs representam 51% do mercado total de inseminação artificial. Um ponto em que a IATF pode vir a contribuir refere-se ao aumento do emprego da inseminação, já que apenas 12% das fêmeas bovinas no Brasil são inseminadas.

Vale ressaltar que a implementação e acompanhamento de programas de IATF requerem a assessoria de um médico veterinário.
 

4.9.8.5 - A técnica de transferência de embriões (TE)

A transferência de embriões (TE) é uma biotecnologia que otimiza a obtenção de descendentes de animais de elevado mérito genético. Isso porque após eleger uma fêmea bovina superior, a qual é chamada de doadora, ela é submetida a tratamento hormonal específico para produzir vários oócitos (óvulos), ao invés de apenas um, como seria no processo natural. Depois dessa superovulação, a vaca é inseminada (recomendável usar touros provados) e após 6 a 7 dias é feita a lavagem uterina para tentar recuperar os embriões. Estes, por sua vez, são classificados e selecionados para poderem ser congelados (banco de embriões) ou transferidos para mães de aluguel (receptoras) com idade uterina sincronizada com os embriões. Dessa forma, uma vaca que geraria no máximo um bezerro por ano, no caso da monta natural ou inseminação artificial, tem a possibilidade de produzir anualmente, em média de 10 a 20 bezerros, sem que para isso tenha que passar por gestação e parto.

Pode ser realizada uma coleta a cada 60 dias, com obtenção de, em média, 6 embriões viáveis por coleta. A taxa de concepção dos embriões transferidos é em torno de 50 a 60%. Trata-se de uma técnica relativamente cara e usada apenas em animais de elite.

Como é possível observar, TE não é uma terminologia correta, pois implica em apenas uma das etapas. O mais apropriado seria referir-se a essa técnica como Produção in vivo de embriões.
 

4.9.8.6 - Aspiração folicular (OPU) e produção in vitro de embriões (PIVE)

A aspiração folicular guiada por ultrassom é a técnica utilizada para a coleta de oócitos diretamente dos ovários. Para isso, uma agulha é acoplada na ponta da sonda (transdutor) e ela fica ligada a uma bomba de vácuo. Com o uso de uma lupa, os oócitos são recuperados e encaminhados para o laboratório.

A técnica de PIVE consiste basicamente em realizar as etapas de maturação e fecundação do oócito (óvulo) e o cultivo inicial do embrião em um ambiente de laboratório, totalmente controlado e com o objetivo de aproveitar melhor os gametas (óvulos e espermatozóides) de animais com genética superior. De modo que os embriões produzidos possam ser transferidos para barrigas de aluguel (receptoras) e seja gerado maior número de descendentes. Assim sendo, a utilização da PIVE de animais de grande mérito genético permite a produção de, em média, 80 bezerros por ano.

A TE e a PIVE são empregadas com sucesso como importantes ferramentas para o melhoramento genético, pois permitem a multiplicação de fêmeas de alto valor, de forma rápida, além de facilitar o transporte e a comercialização de material genético por meio de embriões congelados.
 

4.9.8.7 - Uso do sêmen sexado

É sabido que o sexo dos bovinos é determinado pelo espermatozóide. Diante disso, a técnica mais utilizada para separar espermatozóides machos (Y) de fêmeas (X) tem sido pelo aparelho de citometria de fluxo, que apresenta acurácia em torno de 90%.

Desde 2006, foi disponibilizado no mercado brasileiro o sêmen sexado. E tem havido uma crescente utilização dele na inseminação artificial e na PIVE. Ou seja, o sêmen sexado tem conquistado cada vez mais espaço e está se tornando uma grande opção para a pecuária leiteira e, atualmente, já ocupa 15% do mercado. Contudo, as taxas de prenhez obtidas com o sêmen sexado ainda são menores do que as observadas com o sêmen convencional. Diante disso, as empresas fornecedoras de sêmen têm feito recomendações específicas para o sêmen sexado, como seu uso em novilhas e um maior cuidado no seu manuseio.
 

4.9.8.8 - Clonagem e transgenia animal

A transferência nuclear de células somáticas (TNCS) é a biotécnica de eleição para a produção de clones bovinos, atualmente. E para realizá-la são necessários dois tipos celulares (um que doa e outro que receba o núcleo). De um lado, a célula doadora de núcleo (retirada do indivíduo que se deseja clonar) que pode ser, teoricamente, qualquer um dos 212 tipos celulares somáticos que compõem o organismo. Enquanto que o receptor só pode ser o citoplasma sem núcleo de um oócito (óvulo) maduro.

A clonagem bovina já se encontra disponível comercialmente e mais de uma centena de animais foram produzidos no Brasil. Via de regra, são indivíduos de excepcional valor genético.

Contudo, a maior contribuição da clonagem está na sua associação com a transgenia; que beneficiará desde a ciência básica até a produção de animais doadores de órgãos para humanos, produção de proteínas de uso farmacológico, modelos animais para doenças humanas, maternalização do leite de animais. Além de propiciar que leite, carne e lã sejam mais nutritivos ou com características de interesse industrial. Na área de produção animal a associação da TNCS com a transgenia pode propiciar a geração de animais resistentes a doenças (por exemplo, a Doença da Vaca Louca).
 

4.9.9 - Referências

CAMARGO, L. S. A.; SÁ, W. F.; IGUMA, L. T.; VIANA, J. H. M.; FERREIRA, A. M. Producción in vitro de embriones bovinos. In: MARTINS, P. C.; DINIZ, F. H.; MOREIRA, M. S. P.; NOGUEIRA NETO, V.; ARCURI, P. B. (Org.). Conocimientos y Estrategias para la Producción de Leche en Regiones Tropicales. Juiz de Fora, MG: Embrapa. 2007, p. 332-343.

CARVALHO, B. C. Parâmetros reprodutivos, metabólitos e produção de leite de vacas mestiças Holandês x Zebu submetidas a dois manejos pré-parto. 2009. 193 fl. Tese (Doutorado em Ciência Animal) – Escola de Veterinária da UFMG, Belo Horizonte, MG.

CARVALHO, B. C.; OLIVEIRA, V. M.; PIRES, M. F. A. et al. Manejo Reprodutivo. In: AUAD, A. M.; BRIGHENTI, A. M.; CARNEIRO, A. V.; RIBEIRO, A. C. de C. L.; CARVALHO, A. da C.; FREITAS, A. F. de; CARVALHO, B. C. de; ALENCAR, C. A. B. de; GOMIDE, C. A. de M.; MARTINS, C. E.; CASTRO, C. R. T. de; PACIULLO, D. S. C.; NASCIMENTO JUNIOR, E. R. do; SOUZA SOBRINHO, F. de; DERESZ, F.; LOPES, F. C. F.; SOUZA, G. N. de; WERNERSBACH FILHO, H. L.; OLIVEIRA, J. S. e; CARNEIRO, J. da C.; VIANA, J. H. M.; FURLONG, J.; MENDONCA, L. C.; STOCK, L. A.; CAMARGO, L. S. de A.; MULLER, M. D.; OTENIO, M. H.; PEREIRA, M. C.; MACHADO, M. A.; GAMA, M. A. S. da; JUNQUEIRA, M. M.; SILVA, M. V. G. B.; PIRES, M. de F. A.; PEIXOTO, M. G. C. D.; GUIMARAES, M. F. M.; TORRES, R. de A.; TEIXEIRA, S. R.; VEIGA, V. M. de O.; ROCHA, W. S. D. da. Manual de bovinocultura de leite. Brasília: LK Editora; Belo Horizonte: SENAR-AR/MG; Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2010. p. 85-121.

CARVALHO, B. C.; RUAS, J. R. M.; BORGES, A. M. et al. Manejo reprodutivo de vacas mestiças F1 Holandês x Zebu. Informe Agropecuário, v. 31, n. 258, p. 90-100, 2010.

FERREIRA, A. M. Manejo reprodutivo e eficiência da atividade leiteira. Coronel Pacheco: Embrapa-CNPGL, 1991. 47 p. (Embrapa-CNPGL. Documentos, 46).

FERREIRA, A. M. Reprodução da fêmea bovina: fisiologia aplicada e problemas mais comuns (causas e tratamentos). Juiz de Fora: edição do autor, 2010. 420 p.

GONÇALVES, P. B. D.; FIGUEIREDO, J. R.; FREITAS, V. J. F. Biotécnicas Aplicadas à Reprodução Animal. 2. ed. São Paulo: Editora Roca, 2008. 408 p.

IGUMA, L. T.; FERREIRA, A. M.; SÁ, W. F.; VIANA, J. H. M.; CAMARGO, L. S. A. Manejo reproductivo de rebaños lecheros. In: MARTINS, P. C.; DINIZ, F. H.; MOREIRA, M. S. P.; NOGUEIRA NETO, V.; ARCURI, P. B. (Org.). Conocimientos y Estrategias para la Producción de Leche en Regiones Tropicales. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2007. p. 289-307.

IGUMA, L. T.; SÁ, W. F.; VIANA, J. H. M.; CAMARGO, L. S. A. Avances Tecnológicos en la reproducción Animal: Inseminación Artificial. In: MARTINS, P. C.; DINIZ, F. H.; MOREIRA, M. S. P.; NOGUEIRA NETO, V.; ARCURI, P. B. (Org.). Conocimientos y Estrategias para la Producción de Leche en Regiones Tropicales. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2007. p. 309-319.

VIANA, J.H.M.; IGUMA, L.T.; CAMARGO, L.S.A.; SÁ, W.F. Avances Tecnológicos en la Reproducción Animal: Superovulación y Transferencia de Embriones. In: MARTINS, P. C.; DINIZ, F. H.; MOREIRA, M. S. P.; NOGUEIRA NETO, V.; ARCURI, P. B. (Org.). Conocimientos y Estrategias para la Producción de Leche en Regiones Tropicales. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2007. p. 321-331.
 

4.10 - Manejo sanitário do rebanho leiteiro

4.10.1 - Introdução

O Brasil é o país que possui a melhor combinação de fatores de produção para expandir a oferta agropecuária de forma sustentável. O país produziu no ano de 2009 cerca de 30 bilhões de litros de leite com um rebanho de aproximadamente 22 milhões de vacas. Dessa produção 36% teve origem na Região Sudeste do país e o Estado de Minas Gerais foi responsável por aproximadamente 76% da produção na região (IBGE, 2011). O sistema agro-industrial do leite no país tem importância econômica e social, sendo uma atividade que gera mais de três milhões de empregos, em mais de um milhão de propriedades rurais e agrega mais de seis bilhões ao valor da produção agropecuária nacional.

Ao se observar as mudanças nos sistemas de produção de leite, nota-se que o sistema intensivo de produção demanda pastagens de maior produtividade, maior capacidade de suporte, e animais de alto potencial genético de produção. Todavia, o desenvolvimento tecnológico do setor pecuário, que resulta na melhoria da produtividade, reflete também no aumento de problemas sanitários.


Figura 1. Piquete Maternidade.

Dessa forma o manejo se torna a principal arma para a sustentabilidade da pecuária no Brasil, uma vez que, quando o problema sanitário se instala, são gerados custos maiores e consequentemente maior prejuízo financeiro.

4.10.2 - Manejo sanitário

Uma ferramenta importante para um manejo sanitário correto são as anotações. Ao iniciar um controle sanitário é importante atentar para os registros das ocorrências no rebanho. Somente com os dados registrados é que se pode analisar, priorizar e tomar iniciativas para suprimir ou implementar medidas que possam auxiliar o manejo sanitário do rebanho. Sem estas informações, não é possível melhorar os índices zootécnicos dos animais.
A coleta de dados é importante para que o produtor tenha o conhecimento da situação de sua propriedade. O conhecimento e a interpretação da situação produtiva, reprodutiva e sanitária do rebanho, auxiliam a definição de metas para curto, médio e longo prazos.
 

4.10.2.1 - Vacas gestantes

Como ponto de partida, encerrar a lactação de uma vaca gestante nos dois últimos meses de gestação, de modo que ao interromper a produção de leite a glândula mamária possa descansar, se preparar para a próxima lactação e produzir um colostro de boa qualidade. Se for uma novilha esta preparação vem naturalmente já que ela nunca pariu.

Em torno de vinte a trinta dias antes do parto este animal deve ser levado para a maternidade, que preferencialmente deverá ser um piquete próximo ao curral, facilitando a observação diária. No caso de confinamento total, o animal deverá ser encaminhado para uma baia maternidade. A existência de um piquete ou baia maternidade facilita a interferência que se fizer necessária no decorrer do parto. Em rebanhos nos quais se faz esta observação, os problemas no parto são resolvidos de forma mais rápida e com maior sucesso e menor índice de natimortos.

Neste período a dieta fornecida devera ser a mesma que a vaca irá receber após o parto. A utilização de uma dieta aniônica pode ser recomendada para prevenir problemas de hipocalcemia subclínica. É muito importante que neste período isto ocorra, pois permite que os micro-organismos do rúmen se adaptem à dieta que vai ser ingerida durante a lactação.
É bom lembrar que no período final de gestação o animal sofre as maiores transformações. Geralmente ficam mais pesados, o que dificulta a locomoção e reduz a capacidade de competição, exigindo portanto, maiores cuidados.
 

4.10.2.2 - O parto

No parto o animal perde em média 80 quilos de peso referentes ao peso do feto, líquidos fetais e às membranas que envolvem o próprio feto. Isto provoca uma mudança muito brusca em poucas horas levando desconforto ao animal. É um momento de muito estresse e é neste momento que podem aparecer inúmeros problemas para os quais se deve ficar atentos.

A interferência humana no parto deve ser mínima. Os partos distócicos ocorrem com pouca frequência e neste caso a interferência deve ser de maneira a causar o mínimo de danos, tanto à vaca quanto ao bezerro. Uma ajuda leve para evitar complicações não fará mal algum para ambos, porém, casos que se apresentam de forma mais grave devem ser acompanhados pelo médico veterinário ou sob sua supervisão. É comum neste período que as pessoas envolvidas muitas vezes não tenham treinamento adequado, intervindo de forma inadequada e causando maiores problemas. Nestes casos quando o veterinário é chamado a chance de resolvê-lo diminui drasticamente. A decisão de chamar o veterinário deve ser tomada o quanto antes.

Neste momento a decisão de intervenção por manobra ou cirúrgica dependerá da anamnese realizada.


Figura 2. Bezerro mamando o colostro diretamente na vaca, logo após seu nascimento.

4.10.2.2.1 - Febre do leite (Paresia Puerperal)

Disfunção metabólica causada por baixos níveis de cálcio (Ca) no sangue, que ocorre quando o uso deste mineral pelos tecidos excede a absorção intestinal e a reabsorção óssea. O quadro inicial é de hiperestesia, seguida por depressão nervosa que acomete principalmente vacas de alta produção leiteira no inicio da lactação, e pode levar o animal a óbito.

Toda vaca logo após o parto passa por uma hipocalcemia, daí a importância do balanceamento da dieta no período pré-parto. Essa dieta deve conter minerais como potássio (K), sódio (Na), cloro (Cl) e enxofre (S) que fazem um balanço dietético cátion-ânion, aumentando a absorção do cálcio (Ca).

A administração de Ca complementado com a administração de K e P pode ser realizada quando os sinais clínicos forem observados. O uso da Tiamina (vit. B1) pode ser feito para auxiliar em caso de suspeita de lesão dos nervos obturador e do ramo peroneal do ciático causado pelo longo período de compressão em decorrência da posição em decúbito. Atua no metabolismo energético da maioria das células, mas é especialmente importante no sistema nervoso.
 

4.10.2.3 - O colostro

Após o nascimento, o bezerro deve permanecer junto com a mãe por pelo menos por 24 horas. Sabe-se que os bezerros mamam entre 12 a 15 vezes ao dia, estas mamadas permitem que o colostro passe repetidas vezes pelo aparelho digestivo, aumentando o contato do colostro com a parede intestinal, favorecendo assim a absorção de imunoglobulinas. Uma outra opção seria a administração do colostro de forma artificial oferecendo dois litros duas vezes por dia com intervalo próximo de 12 horas. O importante é garantir a ingestão de uma quantidade de colostro referente a 10% do peso do bezerro nas primeiras 24 horas de vida. O bezerro nasce sem a proteção dos anticorpos contra os agentes causadores das doenças. A forma de adquirir estes anticorpos é ingerindo o colostro, que é o primeiro produto produzido pela glândula mamária no inicio da lactação e é uma rica fonte destes anticorpos que foram produzidos nos dois últimos meses de gestação. Após o nascimento, é imperativo que o bezerro ingira o colostro o quanto antes para ele adquirir imunidade contra as doenças que ocorrem nesta fase de vida do recém-nascido. A capacidade do aparelho digestivo do bezerro de absorver os anticorpos fornecidos pela mãe ocorre nas primeiras 24 horas de vida, porém o pico máximo de absorção ocorre entre seis e dez horas, quando passa a diminuir gradativamente.

Uma outra função do colostro é ajudar na primeira descarga intestinal, isto é, ajuda a expelir as primeiras fezes que é o chamado mecônio. O mecônio são fezes amarelas pegajosas de difícil eliminação, portanto sendo o colostro um leve laxante, ajuda nesta eliminação.

O excesso de colostro pode e deve ser dado para os outros bezerros. Neste caso ele não tem função como fornecedor de anticorpos, pois bezerros mais velhos perdem a capacidade de absorção dos anticorpos, mas como alimento é até mais rico que o próprio leite. É bom lembrar que como o colostro tem uma função laxativa, para fornecer aos outros bezerros o melhor é diluir em outra quantidade de leite para não causar diarréia nos bezerros mais velhos.

Figura 3. Cura do umbigo com uma solução de iodo a 10%.

4.10.2.4 - Corte e cura de umbigo

A cura de umbigo deve ser feita com um desinfetante e um desidratante em um frasco de boca larga, porém de tamanho reduzido como as tampas de spray. Uma solução usada com sucesso é álcool iodado cuja concentração pode variar de 6 a 10%. O curativo deve ser feito todos os dias por três a quatro dias. Se não houver complicação o coto umbilical cairá em torno do nono dia.

4.10.2.5 - Forma de ordenha

De acordo com o manejo adotado, com ou sem o bezerro ao pé, são necessárias condutas diferentes para cada modalidade: com o bezerro ao pé, este fica à disposição na hora da ordenha para vir e apojar. Depois do apojo, ao fim da ordenha, o bezerro é solto com a mãe para mamar o leite residual. Pode ser separado imediatamente após o esgotamento total do leite, ou permanecer junto com a vaca até a hora da apartação, à tarde. Este manejo não é o mais recomendado, pois neste caso o bezerro mama o leite que poderia ser aproveitado na ordenha da tarde. Este tipo de manejo apresenta algumas vantagens, porém as desvantagens estão em supremacia.

Por outro lado se os animais são alimentados de forma artificial, o contato da mãe com o bezerro não existe. Isto facilita a mão de obra e tem-se um maior controle do que o animal está ingerindo, contudo, traz todos os transtornos do aleitamento artificial. Esta prática permite a observação individualizada, dando a oportunidade de se tomar atitudes mais rápidas para sanar os problemas que possam aparecer.

Em um sistema de criação, com ou sem bezerro ao pé, se deve estar sempre atento aos problemas que podem surgir. É importante chamar a atenção para a escolha do local para o criatório de bezerros. Este local deve ser de fácil acesso e bem drenado. Deve ser um local que após chuva seque com poucos dias de sol, e ter alguma inclinação para o escoamento das águas e dejetos.
 

4.10.2.6 - Diarréias

Uma doença comum que acomete os bezerros nesta fase é a diarréia. O animal com diarréia se caracteriza por apresentar fezes líquidas que pode ter coloração variada: amarela viva; esverdeada, preta ou vermelha, podendo se apresentar até mesmo com sangue vivo. Pela coloração das fezes, não se pode dar um diagnóstico seguro do agente causador da diarréia, mas pode-se chegar a alguns componentes e com isso conduzir o tratamento com melhor eficiência. O principal efeito desta enfermidade é a desidratação que normalmente é a causa principal da morte. O animal que apresenta a doença fica triste, não se alimenta de forma adequada, muitas vezes apresenta respiração acelerada e vai aos poucos apresentando sinais de desidratação como pele seca e olhos fundos, e por fim as extremidades apresentam baixas temperaturas, seguido de morte, Quando observados os primeiros sinais de desidratação, deve-se socorrer o animal rapidamente, fornecendo líquido pela via oral ou até mesmo endovenosa. A diarréia pode ser de causa nutricional, quando os animais não estão habituados com certo tipo de alimentação, por exemplo, quando há troca de concentrado ou quando o alimento está contaminado por fungos ou outros micro-organismos. A diarréia provocada pelo alimento pode ser controlada somente com a mudança nutricional ou pela adaptação alimentar, porém em casos mais graves pose-se fazer uso de terapias orais.


Figura 4. Animal com diarréia, e desidratado.

4.10.2.6.1 - Reidratação oral

4.10.2.7 - Micoses

Outra enfermidade comum na fase de cria é o aparecimento de micoses. Existe um tipo de micose denominado “tinha”, que causa lesões em forma de placas arredondadas que aparecem comumente na região da cabeça e pescoço. São placas de tamanhos variados, e de modo geral de forma arredondada, muito comum em criatório coletivo. Normalmente não causa maiores danos e pode ser tratada com certa facilidade. A utilização de tintura de iodo tem efeito satisfatório desde que aplicada todos os dias, até o desaparecimento das lesões. Esta enfermidade é mais comum em ambientes de grande concentração de animais como em bezerreiros coletivos, onde os mesmos permanecem muito tempo juntos.

4.10.2.8 - Tristeza parasitária

O animal que recebe colostro de forma correta é protegido pelos anticorpos colostrais por um período de até noventa dias, o que contribui com uma melhor resistência às enfermidades. No início da vida aparecem os primeiros sinais de doença como é o caso da tristeza parasitária que acomete animais nesta primeira idade. Alguns bezerros passam por essa doença sem maiores problemas, contudo, outros apresentam sinais graves que podem levar à morte. Nesta fase de crescimento já é possível observar os primeiros efeitos do que vem sendo denominado como carrapatose. É o momento em que se observa uma das primeiras consequências da infestação por Rhipicephalus (Boophilus) microplus, ou seja, o aparecimento dos primeiros sintomas da tristeza parasitária. Esse complexo de doenças é transmitido pelos carrapatos e insetos hematófagos como moscas e pernilongos. Dois agentes parasitários fazem parte do complexo “Tristeza Parasitária”, são eles: o Anaplasma sp. e a Babesia sp. A anaplasmose é causada pelo Anaplasma marginale e a babesiose é causada pela Babesia spp. A Babesia spp. é transmitida pelos carrapatos e o Anaplasma sp., embora existam questionamentos, pelos insetos hematófagos. Muitas pesquisas já afirmam que o Anaplasma sp. pode ser transmitido pela forma transestadial e pela saliva, porém ainda existem questionamentos sobre a transmissão do Anaplasma sp. pelo R. microplus por este ser um carrapato monoxenico. Ambas as doenças causam anemia grave podendo com frequência levar os animais à morte. Diagnosticar com precisão essas doenças a campo é muito difícil devido à grande semelhança dos sintomas clínicos das mesmas. Assim, o tratamento para a tristeza parasitária deve ser realizado logo que os primeiros sintomas forem observados. Existem no mercado vários tipos de medicamentos que são utilizados para o tratamento desta doença. Como babesicidas encontramos: o diaminazeno, Imidocarb, carbasina, etc. Como o anaplasmicida utilizamos antibióticos como as tetracilinas. Quanto mais precoce o tratamento, melhor a recuperação do animal.

4.10.2.9 - Vacinações

Em um programa sanitário têm-se algumas vacinas de uso obrigatório, como por exemplo, a vacinação contra brucelose bovina e aftosa.

A vacinação contra a brucelose é feita com a vacina B19, é obrigatória somente para as fêmeas na idade entre três e oito meses. Esta vacinação só pode ser realizada, sob responsabilidade de médicos veterinários cadastrados nos serviço de defesa sanitária animal de seu Estado de atuação (ex: no Estado de Minas Gerais – IMA). Fêmeas com idade acima de oito meses não podem ser vacinadas com a B19, uma vez que a vacinação nesta idade pode causar interferência nos testes de diagnóstico da brucelose. Os animais vacinados contra brucelose deverão ser marcados no lado esquerdo da cara com um “V” e o dígito final do ano vigente.

Assim como a vacinação contra brucelose a vacina contra aftosa também é obrigatória e deve ser aplicada conforme indicado pelos órgãos de defesa sanitária do estado. No Estado de Minas Gerais essa vacinação é realizada em maio (em todo o rebanho) e em novembro (nos animais com idade até 24 meses).

A vacinação contra o carbúnculo sintomático (manqueira) deve ser realizada em todos os animais acima de três meses de idade e ser repetida a cada seis meses ou a critério do veterinário, dependendo da avaliação epidemiológica da região, até o animal completar dois anos de idade. É nesta idade que os animais estão mais susceptíveis ao desenvolvimento da enfermidade. É importante salientar que é uma característica da doença, afetar os animais com melhores condições corporais.

A vacinação contra a raiva também é importante e deve ser realizada anualmente, principalmente em regiões endêmicas, onde grande parte do rebanho pode ser afetada pela doença. A primeira vacinação deve ser realizada a partir dos três meses de idade. Os animais primo-vacinados devem receber um booster (reforço) trinta dias depois da primeira dose para reforçar a taxa de anticorpos desenvolvidos e daí em diante devem ser feitas anualmente.
Há no mercado um número grande de vacinas contra várias outras doenças como leptospirose, rinotraqueite infecciosa dos bovinos (IBR), diarreia bovina a vírus (BVD), mastite, campilobacteriose, colibacilose e outras tantas que devem ser utilizadas quando necessárias, a critério do médico veterinário.


Figura 5. Marcação no lado esquerdo da cara do animal vacinado contra brucelose. A bezerra é marcada com um “V” e o numero do ano da vacinação.


Figura 6. Animal com língua e mucosas lesionadas pelo vírus da aftosa.

4.10.2.9.1 - Um exemplo de calendário sanitário

4.10.2.10 - Controle de endoparasitas, as verminoses

A partir dos três meses de idade, deve-se estar atento às verminoses que acometem os bovinos jovens. Os bovinos com idade até dois anos são muito sensíveis às verminoses e por isto devem receber atenção especial nesta fase, uma vez que é nela em que os parasitas conseguem causar maiores prejuízos. Como as larvas de vermes estão disseminadas nas pastagens, os animais sob pastejo normalmente se infectam continuamente.

Para que esta convivência esteja sob controle, deve-se combater os vermes de forma estratégica. A partir do conhecimento do ciclo biológico desses parasitas, sabe-se que em um determinado momento de seu ciclo eles estarão em grande quantidade nas pastagens. Esse conhecimento deve ser utilizado para que o controle do parasita seja eficiente. De um modo geral na região do Brasil-Central a época de baixas temperaturas coincide com o período da seca, neste momento as pastagens não apresentam boas condições para o desenvolvimento dos parasitas, uma vez que estes precisam de umidade e temperatura mais elevadas. As larvas encontram condições climáticas desfavoráveis ao seu desenvolvimento e morrem.

No período da seca, aproximadamente 95% da população de parasitas está na fase parasitária do seu ciclo biológico, e com esse dado epidemiológico é que se determina o controle estratégico dos endoparasitas. Ao se tratar os animais no período seco do ano atingi-se a maior parte da população do parasita o que leva a uma redução significativa da infestação das pastagens no próximo período chuvoso. Ao realizar as vermifugações dos animais no inicio, meio e fim da época de seca, estaremos fazendo um controle destes parasitas, de forma econômica e eficiente. No Brasil, em grande parte de seu território, os meses indicados para este procedimento são: maio, julho e setembro e se houver necessidade, uma vermifugação tática deve ser realizada em dezembro.


Figura 7. Bezerro em um ambiente e em condições corporais propícias a infestações por endoparasitas.

Os animais adultos só receberão tratamento anti-parasitário em momentos específicos de imunossupressão ou quando houver sinais clínicos da doença. Isso porque o sistema imunológico do bovino é capaz de manter imunidade contra esses agentes, desde que sejam expostos aos mesmos de forma equilibrada, ou seja, sem uma super-infestação.


Figura 8. Animais em ambientes aglomerados e sujos. Problemas sanitários, como infecções de endoparasitas e diarreias em bezerros.

4.10.2.11 - Controle de carrapatos – Rhipicephalus (Boophilus) microplus

Com alta especificidade o Rhipicephalus (Boophilus) microplus é um parasita monoxenico, capaz de colocar até 3.000 ovos em uma única postura. Considerada por muitos como uma das doenças mais importantes que afetam nossos rebanhos, a carrapatose é causada pela infestação descontrolada de carrapatos dos bovinos, Rhipicephalus microplus. É uma doença que causa enormes prejuízos e grande desconforto para os animais prejudicando o seu desenvolvimento e produção. Além disto, os carrapatos transmitem agentes de doenças que afetam os animais. Dentre elas destacam-se as babesioses que fazem parte de um complexo de doenças chamado “plasmoses ou tristeza parasitária”, como descrita em outro tópico.

Um grande complicador no combate aos carrapatos é o fato de que não se pode eliminá-los totalmente do rebanho, uma vez que, por eles transmitirem os agentes da tristeza parasitária, mantêm os níveis de proteção contra estas doenças. Os carrapatos inoculam constantemente os agentes da tristeza parasitária (Babesia bovis, Babesia bigemina, Eperytrozoon spp.) nos bovinos que ficam permanentemente estimulados a produzir defesas contra os mesmos. Por outro lado, é imperativo que a vigilância sobre estas doenças seja permanente e intensa, pois por qualquer descuido, a população de carrapatos pode aumentar exponencialmente e com ela o aumento das plasmoses e das bicheiras.

É comum em propriedades com infestações descontroladas, que os animais fiquem tão afetados que emagreçam, reduzam o rendimento e possam vir a óbito. Para enfrentar este problema sugere-se uma proposta de controle estratégico. Na maior parte do país as condições médias de temperatura e umidade são favoráveis ao desenvolvimento e a sobrevivência do carrapato durante todo o ano, o que permite que este venha a apresentar até quatro gerações por ano. A partir da primavera (1ª geração) é possível observar o crescimento das populações em vida livre e parasitária, que continuam crescentes durante o verão (2ª geração) até atingir sua maior infestação no outono (3ª geração). No inverno (4ª geração) com a queda de umidade e temperatura há uma desaceleração do crescimento populacional que irá variar com a variação da temperatura. O programa estratégico de controle tem como alvo as 3ª e 4ª gerações, enquanto que as 1ª e 2ª gerações serão controladas pelo controle tático. O controle estratégico consiste em banhar os animais de forma a não deixar o desenvolvimento de teleóginas por um período de 120 dias durante o ano. Isto porque, considerando o ciclo de vida livre do carrapato que se inicia no momento em que uma fêmea ingurgitada cai no solo, faz a postura e gera larvas em um período de 30 dias. Estas larvas sobrevivem no pasto por mais 90 dias, o que totaliza 120 dias de ciclo. Quando se administram tratamentos efetivos neste período, impede-se que os carrapatos que chegam aos animais dêem origem a novas fêmeas com capacidade reprodutiva e os que permanecerem no campo, morrerão no período por falta de alimentação. Desta forma os tratamentos atingem simultaneamente os carrapatos nos animais e promovem uma limpeza das pastagens.

Recomenda-se que este controle seja feito na época da seca quando as chuvas são esporádicas evitando com isso a interferência das mesmas nos banhos. O importante é não deixar que a população de carrapatos se desenvolva e se torne adulta (teleóginas), impedindo assim a multiplicação do parasita, principal razão para a duração do programa por um período de 120 dias. Estes banhos devem ser realizados a cada 21 dias, totalizando cinco a seis se o carrapaticida utilizado tiver índices de eficácia superior a 95%. Entre estes banhos é importante a realização de banhos táticos, que são realizados nos animais que estejam infestados com carrapatos ingurgitados (fêmeas com mais de 3 milímetros). Os banhos carrapaticidas podem ser realizados por aspersão ou “pour on”. Se o carrapaticida utilizado tiver um maior tempo de efeito residual, estes banhos podem ser mais espaçados com intervalos de até 35 dias. O importante é combater os carrapatos de maneira a não permitir o desenvolvimento de teleóginas.


Figura 9. Animal com altíssima infestação por R. (B.) microplus.

Outro ponto que merece atenção é a forma da execução do banho carrapaticida. A quantidade do produto utilizado e a qualidade do banho são fundamentais para o sucesso do controle. As formas de banhar os animais podem variar com o produto. Geralmente o banho por aspersão requer em torno de quatro a cinco litros de solução por animal adulto. O animal tem que ser molhado totalmente, de baixo para cima e desde a cauda até a ponta do focinho, não esquecendo, da parte interna das orelhas. Um dos fatores de erro observado nos banhos carrapaticidas é a dificuldade em atingir as partes baixas, dentro das orelhas e nas reentrâncias da pele dos animais que, muitas vezes, não ficam bem molhados e os carrapatos aí localizados não sofrerão os efeitos do veneno. Estes carrapatos vão se desenvolver e contaminarão as pastagens prejudicando diretamente o controle destes parasitas.

Quando o rebanho é banhado, é importante que todo o contingente seja tratado no menor espaço de tempo possível. Por exemplo, não é recomendado que se banhe os animais solteiros em uma semana e os em lactação na semana seguinte. Além do controle trabalhoso, pode haver transferência de animais entre os lotes, levando a contaminação do pasto onde estão os animais já tratados. O ideal é que se banhe todo o rebanho no período máximo de três dias.

Um dos pontos críticos encontrados nas propriedades é a forma de se dar o banho. Os animais têm que ser contidos adequadamente para garantir um tratamento correto e eficaz. Recomenda-se a construção de um brete de contensão de arame liso ou cordoalha para que se possa alcançar todas as partes dos animais. No brete, os animais devem ser contidos com folga para que se tenha acesso principalmente às partes baixas dos mesmos. Quando se faz uso de aspersores, os costais são os mais problemáticos. Um homem e um pulverizador costal têm a capacidade de banhar adequadamente 20 cabeças ao dia. Com capacidade para 20 litros de calda, este tipo de aspersor permitiria que quatro a cinco animais fossem banhados de cada vez. Porém nas propriedades esta mesma quantidade de calda carrapaticida é utilizada pelos funcionários para banhar até 40 animais. É redundante afirmar que esta forma de banho é inadequada e ineficiente, visto que o peso da bomba costal dificulta o trabalho do operador, levando-o ao cansaço. Por este motivo os três primeiros animais recebem um melhor banho, mas logo o operador fica cansado e não consegue trabalhar adequadamente, o que impede a boa execução do controle estratégico em rebanhos maiores que 20 cabeças. Acima deste numero, o sistema terá que ser mecanizado.

É muito comum, nestes casos, que as pessoas reclamem do produto e muitas vezes troquem-no, sem se preocupar com o princípio ativo, que frequentemente é o mesmo que o anterior. Às vezes, no segundo banho com o novo ou com mesmo produto, o operador consegue um melhor resultado, que é consequência do maior capricho no banho e não necessariamente da mudança do produto.

Outra forma de agir das pessoas é a troca constante de base medicamentosa sem critério. Isto sempre ocorre quando não há resposta nos tratamentos, troca-se então a base, mas o vilão continua sendo o banho mal realizado. Todos estes cuidados devem ser observados na hora de planejar o controle estratégico, uma vez que qualquer erro em qualquer fase, pode comprometer seriamente seu sucesso.


Figura 10. Banho carrapaticida em uma correta contenção e com a utilização de EPI.

4.10.2.12 - Berne – Dermatobia hominis

Com o uso rotineiro de endoparasiticidas como avermectinas e moxidectina, observou-se uma redução das populações de D. hominis. Com vermifugação do rebanho nos meses de maio, julho e setembro associada a tratamentos intermediários com bernicida local durante cinco meses, a partir de abril, reduz-se significativamente a infestação do rebanho.

4.10.2.13 - Mosca dos chifres – Haematobia irritans irritans

Ao definir estratégias de controle para a mosca dos chifres busca-se a quebra dos picos de crescimento exponencial do parasita, que ocorrem na primavera, antes que a infestação atinja um nível prejudicial (200 moscas por animal em média). É neste período que os animais estão saindo do período da seca, as vacas estão recém paridas e magras, no pico de aleitamento, e é neste momento que o controle se faz extremamente necessário.

São realizados dois tratamentos nos meses de outubro e março. Pode ser sugerido que no início do período chuvoso os animais recebam uma formulação de “pour on” ou duas aplicações por aspersão intervaladas por 14 dias. E em março, depois de uma avaliação das condições climáticas e da carga parasitária, pode ser feito um novo tratamento em 20 ou 30% dos animais dos lotes, isso ajuda a reduzir o desenvolvimento de resistência na população do parasita e, com a entrada do período seco, a tendência natural é que haja redução do número de moscas devido à queda da temperatura e da umidade.

Como controle tático recomenda-se o tratamento no término do período de maior pluviosidade, a partir de outubro até a primavera seguinte utilizando produtos “pour on” ou formulações concentradas (emulsão) para reduzir gastos. As formulações em brincos devem ser guardadas para a próxima temporada de tratamentos. Somente os animais mais parasitados devem ser tratados.
 

4.10.2.14 - Mosca dos estábulos – Stomoxys calcitrans

Como controle desse parasita hematófago recomenda-se a continua remoção de restos alimentares, esterco, e qualquer outro tipo de matéria orgânica principalmente próximo dos estábulos, uma vez que as larvas e pupas de S. calcitrans se desenvolvem nesta matéria úmida em decomposição.

4.10.2.15 - Miíases – Cochliomyia hominivorax

A melhor forma de controlar as “bicheiras” por C. hominivorax é a proteção das feridas onde as fêmeas normalmente realizam as posturas. Vigilância constante. Nunca se deve fazer uso de inseticidas diretamente sobre as lesões, pois pode haver intoxicação dos animais, principalmente dos mais jovens.

4.10.2.16 - Controle de mastite

A mastite ou mamite é um processo inflamatório da glândula mamária causada pelos mais diversos agentes. Os mais comuns são as bactérias dos gêneros estreptococos e estafilococos além dos do gênero coliformes. A ocorrência da mastite envolve três fatores: a resistência da vaca, o agente patogênico e o ambiente. Esses três fatores terão influência direta na ocorrência e na forma de manifestação da doença.

Estima-se que no rebanho brasileiro a prevalência da doença seja de 20 a 38% o que representaria uma perda de 12 a 15% da produção.

A mastite pode ser classificada quanto à forma de manifestação em: mastite clínica, quando há sinais clínicos evidentes, como edema, endurecimento e dor na glândula mamária e/ou aparecimento de grumos ou pus no leite, e ainda sintomas sistêmicos como depressão, desidratação, diminuição da ingestão de alimento e queda na produção de leite; em mastite subclínica, quando há ausência de alterações visíveis, contudo, ocorre queda na produção e mudança na composição do leite (aumento de CCS, íon Cl- e Na+ e de proteína sérica, e diminuição de caseína, lactose e gordura). A mastite subclínica é a forma da doença que ocorre com certa frequência nos rebanhos, e também é a precursora da mastite clínica.


 Figura 11. Esquema representativo dos fatores que associados interferem na ocorrência de mastite.


 Figura 12. Animal com mamite clínica. Presença de grumos no leite.

A mastite subclínica, responsável por 90 a 95% dos casos de mastite no rebanho, apresenta uma prevalência 15 a 40 vezes maior que a forma clínica da doença. Embora a mastite subclínica seja responsável pelo maior prejuízo do produtor, a prevalência da doença é subestimada uma vez que para efeito de analise apenas os casos de mastite clínica são considerados.

Quanto à classificação baseada no agente causador, a mastite pode ser classificada como contagiosa ou ambiental.

Os casos de mastite contagiosa são caracterizados pela maior incidência da forma subclínica. São geralmente de longa duração, de alta CCS e são causados por micro-organismos que têm como habitat a própria glândula mamária e a pele dos tetos. A transmissão acontece principalmente no momento da ordenha, por meio de teteiras, e pelo manejo dos ordenhadores. As perdas econômicas, decorrente da mastite contagiosa, estão relacionadas principalmente à queda da produção de leite, que não é percebida pelos produtores, nos casos subclínicos da doença.

A mastite ambiental é causada por agentes cujo reservatório é o próprio ambiente onde há acúmulo de esterco, urina, barro, e camas orgânicas. Esse tipo de mastite é caracterizado pela maior incidência da forma clínica da doença, geralmente de curta duração e com manifestação aguda. A infecção, ou maior parte dela, ocorre no período entre ordenhas, embora possa ser transmitida em situações de problemas de funcionamento de equipamento. A mastite ambiental pode acometer todas as categorias animais, vacas lactantes, secas ou novilhas, já a forma contagiosa é mais comum nas vacas em lactação.
Os principais agentes e as características da mastite contagiosa e ambiental estão descritos na tabela que segue abaixo.

É preciso trabalhar na prevenção e no controle de mastite, pois é uma doença que pode surgir repentinamente, por se tratar de uma doença de manejo. Para se fazer uma prevenção adequada, é preciso considerar todo o manejo da propriedade. Quando os índices desta doença se elevam, significa que uma ou mais ações dentro do manejo estão sendo executadas de forma inadequada. Vale ressaltar que as mastites ambientais são esporádicas e podem acometer qualquer animal em lactação.

No manejo da propriedade devemos levar em consideração todo o processo realizado diariamente, iniciando com os animais no pasto, a ida para ordenha e o retorno ao pasto.
A forma de ordenha, seja ela mecânica ou manual, deve ser observada em todo o seu processo. A ordenha pode ser considerada um dos grandes causadores de mastite quando não é bem conduzida. No manejo utilizando ordenha mecânica, os equipamentos devem ser manipulados como recomendado pelos fabricantes. As peças e borrachas têm que ser trocadas dentro do prazo, assim como o nível de vácuo, tem que ser mantido segundo as normas do fabricante, uma vez que tanto o excesso como a falta deste vácuo são grandes fatores predisponentes para o aparecimento de mastite.

Existem vários testes que podem auxiliar no diagnóstico da mastite. O diagnóstico da mastite clínica é realizado pela observação de alterações no leite, pelo teste do caneco de fundo escuro, e pelos de sinais da inflamação como a presença de dor, edema no úbere e modificação das características da secreção do leite.

Para o diagnóstico da forma subclínica da mastite, dois testes são de grande importância. O California Mastitis Test (CMT) é um teste que pode ser realizado no campo, é muito prático embora deva ser executado por profissional treinado. Esse ultimo é um teste que estima o número de células somáticas no leite. A interpretação do CMT é baseada na observação visual da mistura do leite com o reagente. A reação ocorre entre o reagente e o material genético das células somáticas presentes no leite, formando um gel cuja concentração é proporcional ao número de células somáticas. O resultado do CMT é classificado como negativo (sem viscosidade), suspeito (levemente viscoso), fracamente positivo (viscosidade moderada) e fortemente positivo (viscosidade intensa).

Tabela 3. Relação entre o resultado do CMT e a estimativa da contagem de células somáticas e perdas na produção de leite.
Escore Viscosidade CCS Perdas de produção
0 Ausente 100000 0,05
Traços Média 300000 0,08
+ Leve/Moderada 900000 9 a 18%
++ Moderada 2700000 18 a 25%
+++ Intensa 8100000 > 25%
Fonte: Philpot e Nickerson (1991) in Santos e Fonseca, 2007.

A contagem de células somáticas (CCS) é outro exame realizado em laboratório, que é usado para o diagnóstico da mastite subclínica. Quando um agente patogênico invade a glândula mamária, o organismo animal tenta reverter o processo infeccioso enviando leucócitos para a região afetada. Os leucócitos somados às células de descamação do tecido do epitélio secretor dos alvéolos são as chamadas células somáticas do leite. Dessa forma quando há uma infecção da glândula mamária a contagem de células somáticas (CCS) aumenta, diagnosticando a mastite subclínica. A literatura determina um limite de 200.000 a 300.000 células/mL como resultado da CCS.

Uma observação importante é que a Instrução Normativa 51/2002, determina como limite aceitável 750.000 CCS/mL nas regiões do Sul, Sudeste e Centro-Oeste até dezembro de 2011, e reduzirá para 400.000 CCS/mL a partir daí. Nas regiões Norte e Nordeste esses limites serão alterados a partir de julho de 2012. A interpretação da contagem de CCS do rebanho também é muito importante. Na tabela abaixo está representada a relação CCS x redução de produção e estimativa de animais infectados.

Tabela 4. Interpretação da contagem de CCS do rebanho, de acordo com a redução da produção de leite e a porcentagem de animais infectados no rebanho.
CCS no leite do rebanho (x 1.000)(células/mL) Estimativa da gravidade da MASTITE Redução da produção de LEITE % dos animais infectados
< 250 Pouca ou nenhuma Irrelevante < 6
250 – 500 Média 4 6
500 – 750 Acima da média 7 26
750 – 1.000 Ruim 15 Aprox. 42
> 1.000 Muito ruim 18 Aprox. 54
Fonte: Carvalho, 2011.

Outro teste que pode ser auxiliar no diagnóstico da mastite é a cultura de bactérias. Uma porção de leite “suspeito” ou afetado é enviada ao laboratório para realização do exame bacteriológico. Esse exame identifica o agente infeccioso causador da doença, o que facilita o tratamento da mesma, principalmente se for realizado junto com o antibiograma.

Como citado anteriormente para o diagnóstico da mastite clínica, um teste prático, mas eficiente é o teste da caneca telada ou de fundo escuro. Este é o teste que deve ser feito em todas as ordenhas. Ele detecta a mastite clínica nos primeiros jatos de leite. Quando a mastite clínica aparece, há um depósito de leucócitos (células de defesa) no canal da teta e estes leucócitos formam os grumos que são visualizados logo nos primeiros jatos de leite. Estes primeiros jatos devem ser depositados na caneca de fundo escuro ou telada onde os grumos serão visualizados com mais facilidade, devido ao contraste do fundo da caneca com os grumos que ficam mais aparentes. Neste caso estamos frente à mastite clínica.

Uma vez identificada a mastite clínica, o animal deve ser retirado da sala de ordenha, voltando mais tarde para ser ordenhado. A utilização de uma linha de ordenha é um manejo recomendado para melhorar o controle das ocorrências de mastite. Neste manejo primeiramente são ordenhadas as vacas sadias, depois as que já tiveram mastite e foram curadas e no final da linha, aquelas que estão com mastite e em tratamento. Para ser mais rigoroso o procedimento, o final da linha de ordenha deve ser organizado de forma que primeiro sejam ordenhadas as vacas que estão com leite no descarte, mas já não apresentam sintomatologia clínica e, depois disto, os animais podem ser distribuídos conforme a gravidade do sintoma observado, de forma a deixar os animais mais graves por último.

Se a mastite se apresentar de forma muito intensa o animal deve ser ordenhado fora do local de ordenha para não contaminar o ambiente. Se a mastite for crônica é importante o descarte desse animal. O tratamento das vacas com mastite varia de acordo com o caso apresentado. Em geral, os tratamentos devem ser precedidos de ordenhas sucessivas em torno de quatro no período do dia, e havendo necessidade de medicamento, tratar somente após a última ordenha do dia.

As vacas secas devem ser tratadas com medicamentos próprios para esta fase. Existem no mercado vários medicamentos para tratamento preventivo de vacas neste período de descanso. É bom lembrar que estes medicamentos nunca devem ser utilizados para tratar mastites comuns, pois eles são próprios para a prevenção da mastite no período seco. Distribuição percentual do prejuízo causado pela mastite em um rebanho: Os três primeiros degraus da pirâmide representam os prejuízos causados pela mastite clinica e o último marcado em vermelho o prejuízo casado pela mastite subclínica.


Fonte: Santos e Fonseca, 2007.

Os custos com a mastite por caso clínico estão estimados em US$ 107 por animal e os componentes deste custo estão descritos no gráfico.


 Fonte: Santos e Fonseca, 2007.

4.10.2.17 - Reprodução

Para ter uma rentabilidade na atividade leiteira, uma alta eficiência reprodutiva deve ser a principal meta dos produtores para atingir produtividade e retorno econômico.

Para que estes parâmetros possam ser alcançados, é necessário que se faça uma criação adequada das bezerras, uma vez que estas serão as futuras reprodutoras do rebanho. Animais que tem pouco desenvolvimento, seja por alimentação inadequada ou problemas sanitários, não possuem condições de expressar todo o seu potencial ao longo de sua vida produtiva.


Figura 14. Novilhas recebendo suplementação no cocho: concentrado (até 180 dias 2 Kg) e volumoso à vontade.

Este objetivo primário, busca a idade adequada ao primeiro parto, que deve ser o mais jovem possível dentro do manejo daquele rebanho. Neste processo está incluída a meta econômica da criação. Uma análise do custo econômico desta criação tem que ser considerada, pois não adianta querer um desenvolvimento muito rápido do animal se este custo ficar tão elevado que não seja compensador para o futuro produtivo do animal. Normalmente, a idade ao primeiro parto deve ser entre os 24 e 30 meses.

Os animais gestantes também requerem cuidados especiais. No terço final de gestação é o momento que o feto tem seu maior desenvolvimento e isto exige mais da mãe. Este animal deve permanecer em um ambiente tranquilo com alimentos e água de boa qualidade.

A eficiência reprodutiva de um rebanho em regime de criação extensiva deve sempre almejar o máximo dos índices zootécnicos na propriedade:

Tabela 5. Índices zootécnicos em uma propriedade e a correlação com a eficiência reprodutiva do rebanho.
Parâmetros Eficiência reprodutiva  
  Alta (%) Mínima (%)
Concepção 92-96 85
Natalidade 85-90 83
Desmame 85 78
Aborto 40940 40940
Mortalidade pré-desmame ?5 ?5
Fonte: Revendutti e Vechiato, 2011.

São muitos os fatores que comprometem a reprodução animal, afetando desde a manifestação de cio até o parto, e podem ser de origem não-infecciosa ou infecciosa. As causas não-infecciosas estão relacionadas com o manejo reprodutivo e com problemas nutricionais, sendo este último resultante de carências ou excessos de macro e microelementos (minerais e vitaminas). As causas infecciosas podem ser primárias ou secundárias. As secundárias são aquelas que acometem o rebanho de forma esporádica, originárias de qualquer alteração sistêmica que cause uma manifestação clínica ou hipertermia. Ex: Mastite, TPB ou pododermatites. Autores relatam que em um rebanho onde havia 46,47% de animais com problemas de casco, havia 20,07% dos animais com mastite, 15,57% com metrite e 10,83% deles tinham mastite e metrite associados.

Propriedades com alta incidência de IBR, BVD e leptospirose, possuem baixos índices reprodutivos.


Figura 15. Animal com raquitismo por consequência da falta de fósforo (P).

4.10.2.18 - Os minerais: Uma rápida explanação

Raquitismo: Deficiência de fósforo (P). Retardamento do desenvolvimento e do crescimento. Diminui produção de leite e taxa concepção, e aumenta casos de anestro. Em uma dieta pobre em P há uma rápida redução na concentração sérica desse mineral.

A deficiência de cálcio (Ca) também pode impedir o desenvolvimento ósseo do animal levando à fraturas espontâneas, retardando o crescimento e desenvolvimento animal. Importante lembrar que a diminuição da concentração de Ca na corrente sanguínea leva à redução da produção de leite e não da sua concentração no mesmo.

Cobalto: reposição B12. Sua deficiência causa anemia, anorexia, crescimento retardado. Em bovinos 5 a 15 mg de Co por dia curam a deficiência.
 

4.10.2.19 - Plano nacional de controle e erradicação da brucelose e tuberculose (PNCEBT)

4.10.2.19.1 - Tuberculose bovina

A tuberculose é usualmente caracterizada por ser uma doença crônica causada por uma bactéria, o Mycobacterium bovis, e por uma zoonose de evolução lenta que acomete principalmente bovinos e bubalinos. As vias respiratórias e a digestiva são as principais portas de entrada para o M.bovis.

Na tuberculose bovina o próprio bovino é mantenedor e disseminador da doença que se mantêm latente, e como consequência da latência e da reativação tem-se a maior dificuldade de erradicação da doença dos rebanhos.
 

4.10.2.19.2 - Brucelose bovina

A brucelose é uma doença infecto contagiosa causada por bactérias do gênero Brucella. É uma zoonose de distribuição mundial, que gera importantes problemas sanitários e prejuízos econômicos e está disseminada por todo o território brasileiro. Os bovinos e bubalinos são os hospedeiros preferenciais da Brucella abortus.

O trato digestivo é a mais importante porta de entrada da B.abortus ao ingerir água e alimentos contaminados, porém o contato direto com as mucosas dos olhos e do nariz, pela inalação da bactéria a partir de fetos abortados ou resíduos placentários, também é uma importante forma de infecção.

No Brasil, o Ministério da Agricultura Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) elaborou um plano de controle e erradicação da Brucelose e da Tuberculose. De acordo com a Normativa 51, os animais devem ser livres dessas duas doenças.

A tuberculose e a brucelose são diagnosticadas exclusivamente por médicos veterinários habilitados pelo Mapa, e são doenças adquiridas principalmente por compra de animais e participação em eventos, como feiras e exposições agropecuárias.
 

4.10.2.20 - Doenças que afetam o sistema nervoso central

Existem doenças que acometem o sistema nervoso central (SNC) comumente relatadas no Brasil, sendo de grande importância pelos prejuízos e pela mortalidade em rebanhos.

O diagnóstico destas doenças no Brasil assumiu uma maior importância para se fazer cumprir as exigências sanitárias internacionais. O diagnóstico dessas doenças somente a partir da sintomatologia clínica resulta na indefinição da enfermidade uma vez que, de uma forma geral, os sintomas são comuns a varias doenças.

É responsabilidade do médico veterinário, orientar e efetuar a colheita do material encefálico de animais suspeitos de doenças neurológicas.


Figura 16. Fases da forma paralítica da raiva em bovinos.

 

4.10.2.20.1 - Raiva

Doença neurológica fatal, causada por um vírus que acomete várias espécies de mamíferos. Estima-se que a raiva seja responsável pela morte de aproximadamente 30.000 a 40.000 bovinos por ano e por uma perda direta estimada em 15 milhões de dólares. A raiva dos herbívoros tem como principal transmissor o morcego hematófago (Desmodus rotundus). A sintomatologia e o curso da doença vão depender do local de inoculação do vírus. A doença pode se apresentar de duas formas; em cães e gatos ela se manifesta, comumente como a raiva furiosa, enquanto nos herbívoros ela se apresenta na forma paralítica.

O diagnóstico é realizado a partir do material encefálico que deverá ser enviado congelado ao laboratório para que o vírus continue integro.

O Mapa instituiu o Programa Nacional de Controle da Raiva dos Herbívoros (PNCRH) com o objetivo de promover um controle efetivo dessa zoonose. O programa prevê ações como o controle de populações dos morcegos hematófagos e a vacinação estratégica das espécies susceptíveis.
 

4.10.2.21 - Carbúnculo sintomático

O carbúnculo sintomático também conhecido como Manqueira, é uma doença que acomete principalmente bovinos com idade até dois anos. É causado por uma bactéria do gênero Clostridium e é endêmica no Brasil. A prevenção dessa doença é realizada por meio de vacinação, que fica a critério do médico veterinário. A recomendação é que a primeira vacinação seja realizada a partir de três ou quatro meses de idade e que seja feito um “booster”, ou seja, um reforço em torno de trinta dias após a primeira vacinação.

A Manqueira tem como característica acometer animais de desenvolvimento rápido e com condição corporal elevada. Frequentemente leva o animal à morte e a tentativa de tratamento tem um prognóstico de reservado a ruim. A melhor forma de evitar o aparecimento desta doença no rebanho é a vacinação dos animais até completarem 24 meses.


Figura 17. Animal apresentando crepitação no tecido subcutâneo, sinal clínico da manqueira.

4.10.2.22 - Cascos

Outra grande preocupação dos criatórios de bovinos são os cascos. Os cascos são vitais para a locomoção dos animais. Qualquer problema que possa acometer os cascos compromete de forma drástica a produção.


Figura 18. Animais em terrenos irregulares e úmidos que favorecem os problemas nos cascos.

São muitas as causas que afetam os cascos. Dentre as várias que se pode citar, têm-se como muito importantes a alimentação e o desgaste que ocorre principalmente em animais confinados. Quando chega a estação chuvosa, época em que o barro é abundante há um amolecimento dos cascos dos animais criados de forma extensiva, o que favorece o seu desgaste. Estes fatores somados levam ao aparecimento de vários problemas que afetam diretamente os animais. A importância dos cascos na locomoção do animal é vital e qualquer problema que o animal venha apresentar comprometerá sua locomoção, e, consequentemente, gerar estresse ao animal o que o levará a diminuir a ingestão de alimentos, à perda de peso e diminuição da produção de leite e ainda ao comprometimento da capacidade reprodutiva.

Entre as principais a afecções dos cascos pode-se destacar.

 

4.10.2.22.1 - Laminite

A laminite é um processo inflamatório agudo que atinge as estruturas sensíveis da parede do casco e resulta em claudicação (manqueira) e deformidade permanente do casco. Ocorre principalmente devido à ingestão excessiva de grãos, mas fatores genéticos, idade, umidade e toxemia também podem estar associados à causa da doença.

A ingestão excessiva de grãos leva a um aumento na produção de ácido lático no trato digestivo, com destruição de grande número de bactérias e liberação de suas toxinas; a acidose ruminal provoca uma lesão na mucosa do rúmen e assim tem-se um aumento de sua permeabilidade o que leva a uma endotoxemia e acidoses sistêmicas. Como resultado tem-se uma vasoconstrição periférica, e consequentemente a redução do fluxo sanguíneo nas lâminas do casco.

São três as formas de classificação da doença: aguda, crônica e subclínica.

Na laminite aguda o animal apresenta muita dor e sensibilidade. Ele apresenta ainda uma expressão de grande ansiedade com tremor muscular, sudorese e aumento da frequência cardíaca e respiratória; os cascos estão quentes e com sinais visíveis de inflamação; o animal apresenta relutância em se mover, permanecendo deitado e quando forçado a andar tenta caminhar sobre os talões.

Na laminite crônica os cascos crescem em comprimento e a sola perde a sua elasticidade e a densidade normal, tornando-se mais quebradiça. A claudicação pode desaparecer embora o animal apresente desconforto ao se movimentar.

Na laminite subclínica o animal apresenta alterações no casco que irá levar a perdas econômicas expressivas devido a evolução para outros tipos de doença como: abscesso da sola/talão, úlcera de sola, lesão de linha branca entre outras.

Para tratar a doença deve-se diminuir a tensão sobre as lâminas, remoção do animal para um piquete com disponibilidade de forragem, água e sem concentrado. Faz-se uso de analgésicos e anti-inflamatórios.
 

4.10.2.22.2 - Úlcera de sola ou pododermatite circunscrita

A úlcera de sola é uma lesão que ocorre na junção da sola com o bulbo. As lesões na derme se associam a uma zona circunscrita de hemorragia e necrose localizada. É comum o aparecimento da doença em rebanhos de condições de higiene precárias. Sua incidência pode chegar a 50% do plantel em alguns rebanhos.

Autores relacionam que a principal causa da úlcera de sola são as laminites subclínicas que danificam o tecido córneo, resultando em um casco mais mole; enquanto que compostos químicos presentes no chorume irão destruir a integridade do casco. Um casqueamento deficiente ou inadequado também pode provocar uma úlcera de sola, pela transferência de pressão do casco que faz com que o animal pise de maneira incorreta.

O tratamento indicado é a remoção da pressão do dedo afetado através do casqueamento e uso de tamanco.
 

4.10.2.22.3 - Doença da linha branca

A doença da linha branca é caracterizada pela separação da sola e da parede da borda da sola dos bovinos. O cório é infectado a partir dessa fissura e há formação de abscessos na subsola e em casos mais graves nas articulações. As causas que levam à doença da linha branca são variadas sendo as mais comuns a exposição à umidade excessiva, impacto da locomoção em terrenos irregulares ou em pisos de concretos e ocorrências de laminites subclínicas, que levam ao amolecimento da linha branca que se rompe. Os animais com a doença da linha branca apresentam sinais de claudicação, membros girados para fora (diminuir a pressão dos dedos laterais), aumento do bulbo (devido a infecção da articulação).

4.10.2.22.4 - Podridão de casco

É uma infecção necrótica subaguda ou aguda, que tem origem em uma lesão na pele interdigital. A doença possui distribuição mundial sendo endêmica em criação de gado de leite. A lesão da pele proporciona uma porta de entrada à infecção; o Fusobacterium necrophorum é considerado o principal agente, mas os Staphylococcus aureus, Escherichia coli, e outros também podem estar relacionados à podridão. Para tratar indica-se antibioticoterapia intramuscular e o casqueamento para retirada da área mais afetada.

4.10.2.22.5 - Dermatite interdigital

A dermatite interdigital é uma infecção que ocorre entre os dígitos dos bovinos causando erosão cutânea lenta com desconforto, mas inicialmente sem claudicação. É uma doença que pode ocorrer em grande numero de animais que estejam em um sistema de criação intensiva onde as condições de higiene estejam comprometidas. A doença é causada por uma infecção bacteriana mista, mais frequente em ambientes úmidos e sujos. Inicialmente a doença aparece como uma dermatite exudativa que evolui e pode chegar a uma hiperplasia interdigital (calo ou fibroma). O tratamento consiste em uma terapia sistêmica a base de antibióticos e o controle é feito através da manutenção do ambiente limpo, os cascos secos, uso de pedilúvio e casqueamento periódico.

4.10.2.22.6. Dermatite digital

 A dermatite digital é uma infecção altamente contagiosa, invasiva e proliferativa da epiderme, que ocorre próximo a junção da pele e do tecido córneo, na região flexora do espaço interdigital dos bovinos.

Ela se apresenta sobre duas formas: a erosiva e a proliferativa. É causada por uma infecção bacteriana (espiroquetas) na forma erosiva e na forma proliferativa uma infecção por Dichelobacter nodosus. A infecção é mais frequente em ambientes úmidos e sujos. Os animais apresentam sensibilidade ao toque no local da lesão, mantêm seus pés fora do solo e caminham na ponta do dedo. O tratamento consiste em limpar completamente a pata, e fazer um curativo tópico com solução cáustica como formaldeído ou ácido muriático a 36%; o curativo pode ser protegido com uma atadura à prova d’água. Curativos com oxitetraciclina solúvel ou lincomicina também podem ser utilizados.

Como prevenção a alguns problemas de casco, recomenda-se também o uso de touros no rebanho com ângulo de casco alto, principalmente naqueles manejados em sistemas de pastejo rotacionado. Uma maneira simples de avaliar as vacas quanto ao ângulo de casco é por meio da observação da diagonal do casco (quanto mais plana em relação ao solo maior é a probabilidade de a vaca ter problemas de casco). Os sumários de touros das raças especializadas para produção de leite em geral trazem esta informação.


Figura 19. Diferentes formas de afecção dos cascos. Intervenções cirúrgicas e limpeza dos mesmos.

4.10.3 - Referência

AUAD, A. M.; BRIGHENTI, A. M.; CARNEIRO, A. V.; RIBEIRO, A. C. de C. L.; CARVALHO, A. da C.; FREITAS, A. F. de; CARVALHO, B. C. de; ALENCAR, C. A. B. de; GOMIDE, C. A. de M.; MARTINS, C. E.; CASTRO, C. R. T. de; PACIULLO, D. S. C.; NASCIMENTO JUNIOR, E. R. do; SOUZA SOBRINHO, F. de; DERESZ, F.; LOPES, F. C. F.; SOUZA, G. N. de; WERNERSBACH FILHO, H. L.; OLIVEIRA, J. S. e; CARNEIRO, J. da C.; VIANA, J. H. M.; FURLONG, J.; MENDONCA, L. C.; STOCK, L. A.; CAMARGO, L. S. de A.; MULLER, M. D.; OTENIO, M. H.; PEREIRA, M. C.; MACHADO, M. A.; GAMA, M. A. S. da; JUNQUEIRA, M. M.; SILVA, M. V. G. B.; PIRES, M. de F. A.; PEIXOTO, M. G. C. D.; GUIMARAES, M. F. M.; TORRES, R. de A.; TEIXEIRA, S. R.; VEIGA, V. M. de O.; ROCHA, W. S. D. da Manual de bovinocultura de leite. Brasília: LK Editora; Belo Horizonte: SENAR-AR/MG; Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2010. 608 p.

BRITO, J. R. F.; BRITO, M. A. V. P.; ARCURI, E. F. Como (re)conhecer e controlar a mastite em rebanhos bovinos. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2002. (Embrapa Gado de Leite. Circular Técnica, 70).

CARNEIRO, A. V.; BRITO, J. R. F.; FONSECA, A. H.; STOCK, L. A.; OLIVEIRA, V. M.; ZOCCAL, R.; YAMAGUCHI, L. C. T. Impacto econômico da mastite bovina em rebanhos leiteiros. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DO LEITE, 6., 2007, Resende. Anais... Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2007. 1 CD. CVARVALHO, A. C.; Informação pessoal, 2011.

EMBRAPA. Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Leite (Juiz de Fora). Trabalhador na bovinocultura de leite: manual técnico. Belo Horizonte: SENAR-AR/MG/EMBRAPA, 1997. 271p. il.
FAGLIARI, J. J.; LUCAS, A.; FERREIRA NETO, J. M. Mastite bovina: comparação entre os resultados obtidos no “Califórnia Mastitis Test” e o exame bacteriológico. Ciência Veterinária Jaboticabal, Jaboticabal, v. 4, n. 1, p. 4-5, 1990.

FRASER, C. M. Manual Merck de Veterinária: um manual de diagnóstico, tratamento, prevenção e controle de doenças para veterinário. 7. ed. São Paulo: Roca, 1996. 2169 p.

IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Produção da Pecuária Municipal: 2009. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. v. 37. 55 p. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/ home/estatistica/economia/ ppm/2009/ppm2009.pdf> Acesso em: 29 de maio de 2011.
 
JANNK, M. S.; RODRIGUES, L.; AMARAL, D. F. O agronegócio mundial no século 21. Disponível em: <http://www.milkpoint.com.br/? noticiaID=35837&actA=7&areaID=50&secaoID=118> Acesso em: 19 jun. 2008.

LANGONI, H.; DOMINGUES, P. F. Manejo Sanitário Animal. Rio de Janeiro: Publicações Biomédicas, 2001. p. 161-185.

OLIVEIRA, V. M.; ROCHA, B. R. Saúde animal – Principais enfermidades dos bovinos leiteiros do Estado de Goiás. In: ZOCCAL, R.; MARTINS, C. E.; MARTINS, M. C.; OLIVEIRA, L. S. X. de; NOVAES, E. A.; PINTO, A. da s. (Ed.). Novos caminhos para o leite em Goiás. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2009. p. 189-204.

ONOFRI, L.; GRAÇA, D. S. Estratégias para a prevenção da febre do leite em vacas leiteiras. Caderno Téc. Vet. Zootec., n. 48, p. 1-5, 2005.

REVEDUTTI, G. C.; VECHIATO, T. A. F. Importância da sanidade na reprodução de bovinos (The importance of health in the cattle breeding). Revista Veterinária e Zootecnia em Minas, n. 108, p. 23-25, 2011.

SANTOS, M. V.; FONSECA, L. F. L. Estratégias para controle de mastite e melhoria da qualidade do leite. Barueri: Manole; Pirassununga: ed. dos autores, 2007.

VILELA, D.; LEITE, J. L. B.; RESENDE, J. C. Políticas para o leite no Brasil: passado, presente e futuro. In: SUL-LEITE: SIMPÓSIO SOBRE SUSTENTABILIDADE DA PECUÁRIA LEITEIRA NA REGIÃO SUL DO BRASIL, 2., 2002, Maringá. Anais... Maringá: UEM/CCA Departamento de Zootecnia/NUPEL/Embrapa Gado de Leite, 2002.
 

4.11 - Boas práticas agropecuárias aplicadas à produção de leite

4.11.1 - Introdução

Sabe-se que o sucesso da indústria de lácteos depende dos hábitos alimentares da população. Esses hábitos são influenciados pela imagem favorável do leite e de seus derivados. O consumidor espera que os produtos tenham sabor agradável, estejam disponíveis em embalagens práticas e atrativas, e por um baixo preço, além de não causarem problemas para a saúde.

O leite e seus derivados são importantes fontes de proteína, cálcio, vitaminas, lactose e disponibilizam esses nutrientes de forma balanceada e a um preço razoável. Esses nutrientes não são prontamente disponíveis de outras fontes ou custam muito mais. Por outro lado, a riqueza nutritiva torna o leite propício ao desenvolvimento de microrganismos que podem alterar suas propriedades nutritivas, sensoriais e tecnológicas, além de potencialmente causarem problemas para a saúde do consumidor. O leite pode, ainda, ser contaminado no ambiente da fazenda com água, de forma intencional ou não, com drogas veterinárias como antibióticos e desinfetantes, com agrotóxicos e micotoxinas, entre outros.

Exigências de qualidade e segurança por parte dos consumidores de leite e derivados devem ser atendidas desde a propriedade rural. O produtor de leite tem um papel fundamental a desempenhar, pela importância que a matéria prima (o leite cru) exerce sobre o processamento industrial e a vida de prateleira dos produtos.

Uma forma de atender às exigências de qualidade e segurança é adotar as Boas Práticas Agropecuárias (BPA). As BPAs aqui apresentadas são um conjunto de atividades a serem realizadas na propriedade produtora de leite, incluindo atividades associadas à saúde, bem-estar e segurança dos trabalhadores rurais. Elas favorecem a produção de produtos saudáveis, em um ambiente sustentável, além de agregar valor ao leite produzido por pequenas, médias e grandes propriedades leiteiras. Foram elaborados tendo em vista a produção de leite predominantemente a pasto, com emprego de ordenha mecânica ou manual, e gado mestiço ou especializado.
 

4.11.2 - Escolha da área de produção

A adequada seleção da área é essencial para o sucesso da produção de leite. O planejamento é essencial e os erros nesta seleção podem trazer prejuízos econômicos, danos ambientais e afetar negativamente a qualidade do produto final.

Para a escolha da área de produção recomenda-se:

  • Observar a legislação vigente com relação às reservas florestais (Reserva Legal) e licenciamento ambiental.
  • Observar as distâncias mínimas dos cursos d’água, declividade, topos de morros e montanhas, e outras áreas e solos frágeis para realização de manejo e produção, especialmente quanto aos requisitos para manutenção das matas ciliares e vegetação próxima às nascentes (Áreas de Preservação Permanentes – APP).
  • Garantir a proteção da fauna e da flora locais.
  • Observar os mapas de zoneamento agrícola.
     

4.11.2.1 - Solos

  • Classificar as áreas da propriedade de acordo com sua aptidão agrícola.
  • Realizar levantamento das condições físicas, químicas e topográficas das diversas glebas que compõem a propriedade.
  • Manter ou melhorar a matéria orgânica do solo por meio da rotação de pastagens e uso de equipamentos apropriados e práticas de conservação com preferência para o uso de plantio direto, sempre que possível.
  • Manter a cobertura do solo para minimizar as perdas por erosão, enxurradas, e outras causas.
  • Aplicar agrotóxicos e fertilizantes orgânicos ou inorgânicos, quando necessário, em quantidade e no período recomendados pela Assistência Técnica local.
     

4.11.2.2 - Água

  • Realizar o levantamento dos recursos hídricos, considerando sua distribuição espacial na propriedade, e avaliar a possibilidade de seu uso na produção animal.
  • Garantir a proteção de nascentes e cursos d’água, com atenção para o lençol freático e aguadas naturais.
  • Monitorar a qualidade da água e tomar as medidas cabíveis.
  • Em caso de água para irrigação obter outorga junto a Agência Nacional de Águas (Ana) ou órgão e secretaria credenciados para tal na esfera estadual, evitando problemas de multas devido ao uso indevido.
     

4.11.3 - Animais

A seleção dos animais é fundamental para o sucesso do empreendimento pecuário. Aos animais de produção deve-se garantir: alimentos e água de qualidade, ambiente confortável e seguro, liberdade de movimentos, e proteção contra estresses, doenças, dores ou injúrias desnecessárias. A não obediência a esses princípios poderá resultar em perdas de produção e produtividade e aumento das doenças no rebanho.

Principais medidas no manejo animal:

  • Utilizar matrizes e reprodutores de bom padrão zootécnico, adaptados à região, ao sistema de produção e ao mercado comprador.
  • Utilizar animais procedentes de rebanhos submetidos a programas de melhoramento genético e a rigoroso controle sanitário. Adquirir novilhas preferencialmente, em caso de ampliação do plantel.
  • Manter registro das aquisições de animais, sêmen, programas de cruzamento, perdas e descartes, planos de arraçoamento, compra de alimentos, e vendas de animais.
     

4.11.4 - Instalações, equipamentos e ambiência

As construções e equipamentos necessários para a produção de leite devem ser planejados para evitar danos ao meio ambiente e para garantir o bem-estar animal e humano. Deve-se ter em conta o sistema de produção (extensivo, semi-extensivo ou intensivo), o tamanho do rebanho e produção esperada, a região, o clima e o tipo de instalações disponíveis ou a construir, a necessidade de alimento para o rebanho e a demanda da indústria compradora. A não observação desses requisitos pode inviabilizar economicamente o empreendimento e contribuir para a degradação dos recursos naturais.

4.11.4.1 - Planejamento das construções, escolha do local e aproveitamento dos recursos da propriedade

  • Considerar a necessidade de dispor das seguintes instalações: cocho coberto, sala de ordenha, sala de leite e sistema de limpeza/lavagem de equipamentos; uma ou mais áreas de alimentação, galpão para armazenamento e sistema de transporte entre os locais de armazenamento e de alimentação; sistema de tratamento e manejo de dejetos e outros efluentes; currais e piquetes para descanso dos animais; área para atendimento de animais doentes; local para inseminação artificial; maternidade; área para recria de animais.
  • Avaliar de forma global a infraestrutura da propriedade considerando a disponibilidade dos recursos naturais existentes e da bacia hidrográfica na qual ela está inserida.
  • Dispor de abastecimento de água de qualidade suficiente e equivalente a 100 a 200 litros/vaca/dia.
  • Avaliar a viabilidade econômica da produção, em relação ao mercado fornecedor de insumos e de absorção da produção.
  • Avaliar o sistema de produção considerando a capacidade de produção de alimentos e o conforto, a proteção e a saúde dos animais.
  • Planejar as instalações de acordo com o tamanho do rebanho e planos para expansão.
  • Considerar o nível de instrução e a capacidade do gestor ou gerente do empreendimento.
  • Considerar a disponibilidade e qualificação da mão de obra.
  • Obedecer aos regulamentos sanitários e exigências oficiais relacionadas à produção e construções.
  • Garantir espaço suficiente de cocho para minimizar a competição por alimentos entre os animais.
  • Construir cochos para suplementação de minerais posicionados na pastagem de modo que permitam pelo menos uma visita diária aos animais, e cobertos, para evitar o desperdício pela chuva.
  • Proporcionar ambiente que atenda às necessidades de conforto e produtividade dos trabalhadores e o desempenho e confiabilidade dos equipamentos.
  • Planejar o tráfego de alimentos, animais, máquinas, leite e dejetos, de modo que os trabalhadores alcancem alto nível de eficiência.
  • Evitar durante a construção corredores afunilados, degraus e pisos escorregadios, considerando a necessidade de locomoção dos animais e os riscos de traumatismos, principalmente dos membros e úbere.
  • Garantir área suficiente para os animais, com fácil acesso e boas condições de ventilação, de insolação e de drenagem.
  • Dispor de rede de energia elétrica adequada.
  • Construir reservatórios de água em pontos altos, para a distribuição por gravidade, após a outorga de uso expedida pela Ana ou órgão credenciado na esfera estadual.
  • Garantir que o gado disponha de bebedouros ou acessos à água, adequados, seguros e limpos, tendo ao redor uma camada de cascalho ou similar, compactada, para evitar a formação de lama e atoleiros.
  • Instalar bebedouros nas pastagens em locais onde possam ser utilizados por animais em mais de um piquete (divisão do pasto) reduzindo o custo de implantação.
  • Projetar e dimensionar estruturas adequadas para armazenamento e/ou processamento de alimentos volumosos e concentrados conforme manejo da alimentação (silagem, feno, concentrado).
  • Localizar o silo forrageiro ou bateria de silos o mais próximo possível do local de alimentação dos animais.
  • Planejar e dimensionar o sistema de tratamento e manejo de dejetos mais adequado ao sistema de produção de leite de acordo com a legislação ambiental em vigor.
  • Consultar especialista para escolha da forma mais adequada de manejo dos dejetos, e permitir sua reciclagem e aproveitamento como fertilizante orgânico ou na irrigação, considerando o menor risco ao ambiente.
  • Procurar manejar o esterco de modo a minimizar odores, controlar moscas e garantir a segurança de pessoas e animais.
  • Avaliar a capacidade de suporte do sistema para absorção dos dejetos produzidos e o destino de materiais e produtos (desinfetantes, resíduos de limpeza e outros) que não devem ser misturados à matéria orgânica.
  • Considerar os limites admissíveis de capacidade de suporte do solo com relação à absorção de nutrientes e à degradabilidade da matéria orgânica.
  • Garantir o máximo de conforto térmico no interior das instalações por meio de uma adequada orientação solar das construções, dando preferência ao sentido Leste-Oeste nas condições de clima tropical e subtropical.

4.11.4.2 - Bezerreiros

  • Definir o emprego de bezerreiros individuais ou coletivos com base na facilidade de manejo, limpeza, conforto térmico e problemas sanitários da região, para as primeiras seis a oito semanas de idade.
  • Garantir ambiente limpo, seco, livre de correntes de vento, para os recém-nascidos.
  • Prover cochos apropriados para alimentação e fornecimento de água limpa, à vontade.
  • Manter os bezerros em grupos, a partir de seis meses de idade, em piquetes com área mínima de 2,50 m2 por animal.
     

4.11.4.3 - Baias em piquetes para touros

  • Construir abrigo sólido, com divisórias, cercas e cochos reforçados, localizado em lugares onde seja fácil levar as vacas em cio.
  • Planejar a baia para que não haja necessidade de adentrá-la para alimentar e manejar o touro, para evitar riscos de acidente para o trabalhador.

4.11.4.4 - Currais

  • Localizar o curral ou currais em posição central da propriedade, em terreno firme e seco, preferencialmente plano e bem posicionado em relação à sede e pastagens.
  • Posicionar o curral com orientação Leste-Oeste em seu maior eixo.
  • Dimensionar os currais conforme o manejo, tamanho do rebanho e o sistema de produção.
  • Dispor de uma área média equivalente a 6 m2 , podendo variar de 2 a 10 m2 por vaca, em função do tamanho dos animais e do tempo que eles permanecerão presos.
  • Construir as divisórias dos currais com réguas e mourões de madeira roliça ou serrada, tratados quimicamente para maior durabilidade, cordoalha de aço e/ou tubos galvanizados.
  • Evitar pisos escorregadios que poderão provocar acidentes e lesões nos animais.
  • Evitar saliências de lascas de madeira, pontas de parafusos e demais ferragens que poderão ferir os animais.
  • Seccionar e aterrar adequadamente as cercas divisórias, com interrupções regulares a intervalos médios para reduzir os riscos de acidentes por descargas elétricas (raios) em pessoas e animais nas proximidades das cercas.
  • Manter o curral limpo e seco.
     

4.11.4.5 - Curral de espera

  • Dispor de uma superfície de 1,25 a 1,70 m2 por vaca, conforme a raça e o tamanho dos animais no local de espera para a ordenha.
  • Pavimentar o piso com material não escorregadio, com declive não inferior a 2%, com canaletas sem cantos vivos, com largura, profundidade e inclinação suficientes para facilitar a limpeza e o escoamento das águas e resíduos orgânicos.
  • Manter os animais no curral de espera por um máximo de 60 minutos antes da ordenha.
  • Garantir sombreamento e ventilação adequada no curral de espera.
     

4.11.4.6 - Sala de ordenha

  • Projetar a sala de ordenha de maneira a aumentar a eficiência da mão de obra e proporcionar conforto aos animais durante a ordenha.
  • Garantir que o ordenhador tenha fácil acesso ao úbere dos animais e aos equipamentos de ordenha, de modo a facilitar as operações de limpeza e higienização de tetos, e quando for o caso, de manuseio do equipamento de ordenha.
  • Avaliar com ajuda da assistência técnica o tipo e sistema de ordenha mais adaptado para as condições do rebanho, levando em consideração os custos iniciais e de manutenção, número de vacas a serem ordenhadas, a velocidade de ordenha desejada, a disponibilidade de assistência técnica, o manejo adotado, a preferência pessoal do proprietário quanto à atenção individual por vaca e a capacitação da mão de obra.
     

4.11.4.7 - Sala de leite

  • Observar as normas oficiais.
  • Dispor de área ampla, com iluminação e ventilação adequadas, com piso, paredes e forro em material impermeável e de fácil limpeza.
  • Prover janelas e basculantes com telas à prova de insetos.
  • Manter o ambiente limpo e seco.
  • Dispor de água quente e fria para higienização adequada dos equipamentos e utensílios de ordenha.
  • Localizar a sala de leite junto à sala de ordenha para facilitar o transporte do leite para o tanque de refrigeração e o acesso de operadores e ajudantes.
  • Garantir espaço suficiente para abrigar o tanque de refrigeração do leite, utensílios e equipamentos de ordenha, os quais não devem ter contato direto com o piso.
  • Dispor de pia com uma ou duas cubas para higienização dos utensílios e equipamentos de ordenha e se necessário, um tanque para lavagem de equipamentos maiores.
     

 

4.11.4.8 - Outras áreas

  • Destinar área para isolamento, tratamento ou outros cuidados especiais, com cocho para alimentação e bebedouros de fácil limpeza. Prever uma baia de 3,60 x 4,20 m, com capacidade para abrigar até três animais, para cada 100 vacas.
  • Destinar uma área para inseminação artificial, exames ginecológicos pós-parto e diagnóstico de gestação, localizada próximo à área de ordenha.
  • Reservar um piquete provido de sombra, bebedouro e saleiro próximo à área de ordenha, de fácil acesso, de boa topografia e boa visibilidade para a maternidade. O pasto maternidade deve ser de tamanho adequado ao número de vacas existentes no rebanho (num rebanho de 80 vacas, por exemplo, o pasto maternidade deve ter aproximadamente um hectare).
  • Quando construída garantir que o piso da área da maternidade não seja escorregadio. Prover cocho para fornecimento de alimentos volumosos e concentrados e bebedouro.
  • Destinar área para o conjunto de seringa, tronco (coletivo, individual ou ambos), balança e embarcadouro, definindo o tipo de tronco de acordo com o número, o tipo de gado e o manejo preconizado para o sistema de produção.
  • Prover para novilhas e vacas secas instalações similares às de vacas em lactação, seja em sistema confinado ou a pasto, garantindo área de repouso de 5 a 6 m2 por animal.
     

 

4.11.5 - Produção de forragem

As pastagens são a principal fonte de alimentos dos bovinos de leite. A adoção de procedimentos adequados desde sua formação, até a recuperação ou renovação, são fatores determinantes na preservação do ambiente.

4.11.5.1 - Formação e recuperação de pastagens

  • Preservar a vegetação nativa, o solo, as fontes e os cursos de água, de acordo com a legislação florestal, visando a proteção dos recursos naturais e de refúgios para pássaros e outros animais silvestres, além de, com isso, promover o embelezamento da propriedade.
  • Observar a legislação ambiental sempre que houver necessidade de eliminação da vegetação nativa.
  • Promover a arborização das pastagens, em densidade tal que não venha a prejudicar a produção do pasto, como forma de proporcionar sombra aos animais.
  • Controlar ervas daninhas, formigas (saúvas) e cupins.
  • Preparar adequadamente o solo, de acordo com suas características físicas e topográficas, sempre em nível, levando em consideração as técnicas conservacionistas.
  • Formar e/ou recuperar as pastagens degradadas com a introdução de gramíneas adaptadas às condições locais de solo (fertilidade, textura, umidade), resistência às principais pragas, relevo, clima e ao manejo preconizado. Usar corretivos e fertilizantes de acordo com a análise físico-química do solo, com as exigências das forrageiras escolhidas e o nível de produtividade desejado.
  • Adquirir sementes certificadas, na quantidade tecnicamente recomendada.
  • Fazer uso da consorciação de gramíneas e leguminosas.
  • Realizar o plantio levando em consideração as recomendações técnicas.
  • Usar o sistema de integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) sempre que possível, com o objetivo de potencializar o uso do solo.
  • Aplicar a adubação anual de manutenção de forma parcelada, durante a época das chuvas, após a saída dos animais da pastagem, definindo a dosagem a aplicar de acordo com a fertilidade do solo, da forrageira utilizada e do nível de intensificação adotado.
  • Monitorar a produção e produtividade obtidas: taxa de lotação das pastagens, rendimento das culturas forrageiras e produtividade da terra (leite/ha/ano).
     

4.11.5.2 - Manejo da pastagem

  • Fazer uso de pastejo rotacionado ou alternado, possibilitando períodos de descanso (intervalo de desfolha) para a rebrota (regeneração) da forrageira.
  • Adequar a taxa de lotação à capacidade de suporte das pastagens, evitando-se o super e o subpastejo e, dessa forma, a erosão do solo e a falta de forragem para os animais.
  • Assegurar reserva de forragem para o período seco.
  • Realizar, periodicamente, limpezas e reposições de nutrientes nas pastagens, de acordo com as análises do solo.
  • Evitar utilização de fogo como prática de manejo de pastagem.
  • Seguir as recomendações do fabricante quando realizar o controle químico de invasoras, utilizando equipamentos de proteção individual.
  • Assegurar que os agrotóxicos e suas embalagens, não contaminem o solo e os cursos d’água. Adotar as recomendações legais para a aplicação, o manuseio, e o descarte das sobras de produtos e das embalagens, incluindo-se a tríplice lavagem.
  • Assegurar que os agrotóxicos sejam aplicados somente por pessoas capacitadas, especialmente treinadas e com uso de equipamentos de proteção.
  • Assegurar que o equipamento usado para o manuseio e aplicação de agrotóxicos esteja em conformidade com as recomendações de segurança e de manutenção.
     

4.11.5.3 - Divisão das pastagens

  • Dividir as pastagens em função do número, da categoria animal do rebanho e do sistema de manejo.
  • Manter diferentes categorias animais em diferentes áreas de pastagem, de acordo com o sistema de manejo adotado.
  • Definir o número de piquetes em função do período de ocupação e de descanso (intervalo de desfolha), para cada categoria animal (numero de piquetes = (período de descanso/período de ocupação) + 1).
  • Para grandes propriedades recomenda-se o uso de GPS topográfico ou de navegação portátil para a execução da divisão das pastagens e gerenciamento da ocupação dos piquetes.
  • Construir as cercas das áreas acidentadas acompanhando o nível do terreno, de modo a evitar erosão do solo provocada pelo trânsito do gado.
  • Usar cercas eletrificadas de arame liso nas subdivisões de pastagens.
  • Usar as áreas mais férteis formadas com pastagens de elevado potencial para a produção de forragem, para as vacas em lactação e animais com altas exigências de nutrientes.
  • Ajustar a taxa de lotação à disponibilidade de pasto, de forma a garantir a boa cobertura do solo, a persistência da pastagem e ganhos de peso ou produção de leite satisfatórios para os animais.
  • Aplicar irrigação das pastagens em casos específicos, evitando a época de baixas temperatura e luminosidade.

4.11.6 - Alimentação do rebanho

O arraçoamento inadequado, em quantidade ou qualidade, comprometerá a produtividade do rebanho e poderá resultar em animais que não atendam aos padrões requeridos tanto em termos de desenvolvimento corporal quanto de produção de leite.

  • Disponibilizar a todos os animais, tanto na época das águas, como na da seca, pastagem e suplementos que atendam às suas necessidades de mantença e produção.
  • Manter registro atualizado do programa de alimentação de todo o rebanho.
  • Monitorar os animais regularmente, para garantir boas condições de conforto no pasto e nas instalações.
  • Disponibilizar a todos os animais, durante todo o ano, água limpa e à vontade.
  • Instalar cochos para o fornecimento de sal mineral, com proteção, próximos à sombra e aguadas.
  • Manter reservas de suplemento volumoso (cana, capineira, silagem ou feno) para atender os possíveis déficits na época crítica do ano.
  • Planejar a suplementação volumosa na estação chuvosa anterior.
  • Definir o tamanho da área destinada à produção de volumosos, de acordo com a quantidade de animais a ser suplementada, a duração do período de suplementação, do consumo previsto e da produtividade esperada.
  • Fornecer, de acordo com os objetivos e as metas do empreendimento, suplementos protéicos/energéticos, principalmente no período crítico, visando otimizar o desempenho produtivo do rebanho.
  • Disponibilizar mistura mineral de qualidade, à vontade, para todos os animais, durante todo o ano.
  • Utilizar na suplementação alimentar dos animais, somente produtos aprovados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
  • Utilizar ingredientes de qualidade na fabricação de suplementos alimentares, livres de fungos produtores de toxinas, micotoxinas e contaminantes.
  • Manter os suplementos estocados protegidos de umidade, de roedores e de eventuais contaminantes.
  • Não utilizar alimentos de origem animal na alimentação do rebanho.
  • Não utilizar antibióticos como aditivo alimentar, nem anabolizantes.
  • Restringir o uso de ionóforos e outros promotores de crescimento àqueles regulamentados e aprovados pelo órgão competente do Governo Federal. Obedecer às recomendações de uso.
  • Planejar com antecedência a suplementação protéica/energética para o período crítico do ano.
  • Manejar, durante o final da estação chuvosa, o pasto a ser vedado, de modo a possibilitar a disponibilidade de forragem para a época seca subsequente.
  • Escolher a forragem adequada, dando preferência àquelas com boa retenção de folhas.

4.11.7 - Manejo geral e sanitário

A saúde dos rebanhos é mantida pela atenção permanente ao manejo e condições de estabulação, identificação imediata e tratamento de doenças, vacinações e outros procedimentos de prevenção de doenças. O veterinário tem papel fundamental na definição de programas de saúde dos rebanhos. Todos esses fatores são condições imprescindíveis para assegurar o bem-estar dos animais e a maior produtividade e lucratividade dos rebanhos.

4.11.7.1 - Manejo geral do rebanho

  • Identificar individualmente todos os animais da propriedade.
  • Identificar e registrar a origem de todos os animais adquiridos de terceiros.
  • Acompanhar e manter registros dos desempenhos produtivo e reprodutivo dos animais.
  • Estabelecer e seguir rigorosamente um calendário anual de controle sanitário do rebanho, com orientação veterinária.
  • Realizar exame andrológico nos touros, anualmente.
  • Procurar reconhecer os sintomas das doenças comuns da região, para a tomada de medidas rápidas e eficientes, capazes de evitar maiores danos aos animais.
  • Observar os animais em conjunto para facilitar a identificação dos que apresentam conduta diferenciada e que podem estar doentes.
  • Procurar se familiarizar com o emprego de termômetro para avaliar a temperatura dos animais que deve ser entre 38,5 ºC a 39,5 ºC.
  • Manter vacinas e medicamentos nas condições recomendadas pelos fabricantes, especialmente quanto à temperatura, prazo de validade e vias de aplicação.
  • Seguir o calendário de vacinação, vermifugações e outros tratamentos estratégicos e exames obrigatórios, bem como aqueles recomendados pela assistência técnica local.
  • Examinar anualmente o rebanho para identificação da tuberculose, através do teste de tuberculinizarão e descartar para o abate os animais positivos.
  • Introduzir animais no rebanho somente após a confirmação de resultados negativos nos exames de brucelose e tuberculose.
  • Manter os animais adquiridos em quarentena, antes de entrar em contato com o rebanho.
  • Vermifugar os animais novos, até dois anos de idade.
  • Considerar as variações do clima na instituição dos programas preventivos de verminoses, de modo a reduzir a possibilidade do aumento da população de parasitas.
  • Concentrar as vermifugações no período de menor população de vermes na pastagem, que varia de acordo com a região e a época do ano.
  • Realizar no mínimo três aplicações de vermífugo nesse período, dando-se preferência ao início, meio e fim do período de menor população, repetindo-se uma aplicação em meados do período seguinte (maior população de parasitas).
  • Consultar o veterinário local para definir o produto, modo de usar e dosagem mais eficiente e econômico de antiparasitários, apropriados para a região.
  • Evitar que as sobras de produtos usados para o banho carrapaticida ou outros tratamentos entrem em contato com animais, lençóis dágua, fontes de água, rios e lagoas.
  • Seguir procedimentos adequados para aplicação dos carrapaticidas, de acordo com a recomendação veterinária.
  • Fazer o teste de sensibilidade dos carrapatos aos carrapaticidas para escolher o produto com maior percentual de mortalidade da população de carrapatos.
  • Combater os bernes usando produtos e vias de aplicação de acordo com a recomendação veterinária.
  • Atentar para os casos de aplicação conjunta de bernicidas e carrapaticidas, especialmente quando as bases químicas dos dois produtos forem do mesmo grupo químico, para evitar o risco de intoxicação dos animais.
  • Descartar sobras de antibióticos, anti-helmínticos, bernicidas e carrapaticidas, bem como suas embalagens, agulhas e seringas em recipiente e local apropriado, adotando medidas apropriadas para sua destruição ou recolhimento definitivo.
  • Evitar o acúmulo de fezes e urina na entrada dos estábulos, promovendo a limpeza periódica desses locais.
  • Vistoriar anualmente os cascos dos animais para diagnóstico de processos anormais de forma precoce, permitindo o tratamento imediato.
  • Fazer uso preventivo sistemático de pedilúvio, com uma solução de sulfato de cobre e formol, ambos a 5%. Podem ser utilizadas outras formulações desde que recomendadas pelo médico veterinário.
  • Tratar os cascos afetados fazendo uma limpeza cirúrgica da ferida e retirando o tecido necrosado, com curativos diários e permanência do animal em lugar seco até a cura.
     

4.11.7.2 - Manejo das bezerras

  • Manter as bezerras junto à mãe por pelo menos 24 horas após o nascimento.
  • Alimentar as bezerras dentro de no máximo 2 horas após o nascimento com 2 litros de colostro, oferecer a mesma quantidade após 12 horas.
  • Continuar a fornecer o colostro diariamente, em quantidade suficiente, em torno de 10% do seu peso vivo ao nascer, duas vezes ao dia com intervalo próximo de 12 horas.
  • Fornecer pequena quantidade de concentrado a partir do quarto dia de vida da bezerra. A partir da segunda semana, aumentar gradativamente esta quantidade.
  • Fornecer volumoso (feno ou capim verde picado) a partir da segunda semana de idade.
  • Fazer o curativo do umbigo dos recém-nascidos, até duas horas após o nascimento, aplicando um desinfetante apropriado, para evitar infecções. Repetir a desinfecção todos os dias por 3 a 4 dias.
  • Aplicar repelente de mosca na região umbilical quando a incidência de moscas for alta.
  • Efetuar a descorna, com pasta química, até os 30 dias de idade.
  • Criar as bezerras em bezerreiros individuais ou coletivos ou soltos em piquetes próprios, com acesso à água e abrigo, respeitando as condições e recomendações técnicas locais.
  • Manter o bezerreiro limpo e seco, com ventilação adequada e incidência de luz solar.
  • Desinfetar as instalações a cada semana com produtos específicos aprovados pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.
  • Evitar a competição por alimentos nos bezerreiros coletivos, garantindo espaço suficiente de cocho.
     

4.11.7.3 - Cria e recria

  • Formar grupos de animais de acordo com a idade, mantendo os mais jovens em piquetes próximos ao estábulo.
  • Reservar piquetes para cada grupo de animais, e realizar o rodízio entre eles, como medida profilática.
  • Garantir que os piquetes disponham de pasto de boa qualidade, com boa cobertura do solo e que o local seja bem drenado e sombreado.
  • Disponibilizar abrigos com cochos para fornecimento de concentrado e volumoso, construídos junto às cercas divisórias, para servir a dois piquetes.
  • Fornecer concentrado na proporção adequada, dependendo da qualidade do alimento volumoso disponível.
  • Inseminar as novilhas com sêmen de boa procedência, de acordo com a recomendação técnica.
  • Após a confirmação da prenhez, transferi-las para o lote de vacas secas e novilhas gestantes.
     

4.11.7.3 - Cria e recria

  • Formar grupos de animais de acordo com a idade, mantendo os mais jovens em piquetes próximos ao estábulo.
  • Reservar piquetes para cada grupo de animais, e realizar o rodízio entre eles, como medida profilática.
  • Garantir que os piquetes disponham de pasto de boa qualidade, com boa cobertura do solo e que o local seja bem drenado e sombreado.
  • Disponibilizar abrigos com cochos para fornecimento de concentrado e volumoso, construídos junto às cercas divisórias, para servir a dois piquetes.
  • Fornecer concentrado na proporção adequada, dependendo da qualidade do alimento volumoso disponível.
  • Inseminar as novilhas com sêmen de boa procedência, de acordo com a recomendação técnica.
  • Após a confirmação da prenhez, transferi-las para o lote de vacas secas e novilhas gestantes.
     

4.11.7.4 - Vacas secas e novilhas gestantes

  • Manter as vacas secas e novilhas gestantes a pasto.
  • Fornecer suplementação volumosa, em cochos instalados nas próprias pastagens, na época seca, dependendo da condição do pasto e do escore corporal dos animais.
  • Transferir as gestantes, um mês antes da data do parto, ao pasto maternidade, situado próximo ao curral, para facilitar a assistência ao parto.
  • Manter o pasto maternidade limpo e seco.
     

4.11.7.5 - Vacas em lactação

  • Fornecer concentrado na proporção adequada, dependendo da qualidade do alimento volumoso disponível.
  • Fornecer dieta quando as vacas retornam da ordenha, para que permaneçam o máximo de tempo em pé.
     

4.11.7.6 - Manejo da vaca gestante antes do parto

  • Providenciar um ambiente seguro e confortável e alimentação adequada à fêmea antes do parto.
  • Dispor de pasto maternidade próximo ao estábulo, para facilitar a observação diária destes animais.
  • Garantir pastagem de boa qualidade, água farta e limpa e de fácil acesso.
  • Garantir que a área maternidade seja sombreada, cercada, situada em local plano e seco.
  • Evitar a presença de outros animais junto às fêmeas gestantes próximo ao parto.
  • Conduzir as fêmeas gestantes ao pasto maternidade um mês antes da data do parto.
  • Fornecer alimentação suplementar para garantir a produção adequada de colostro e leite após o parto.
  • Observar o úbere das vacas para detectar anormalidades como aparecimento de edema.
  • Observar as vacas no pasto maternidade, pelo menos duas vezes por dia, pela manhã e à tarde, para que seja possível prestar os devidos socorros em caso de anormalidade.
  • Lavar as mãos com água e sabão, desinfetá-las e usar luvas sempre que houver necessidade de interferência no trabalho de parto.
  • Utilizar somente instrumentos limpos e desinfetados no caso de necessidade de intervenção.
  • Garantir que o local esteja limpo e seco no momento do parto.
  • Limpar e desinfetar o local após o parto.
     

4.11.8 - Manejo da ordenha e da pós-ordenha

4.11.8.1 - Limpeza e desinfecção da sala de ordenha

  • Dispor de sala de ordenha adequadamente construída e em bom estado de conservação.
  • Dispor de abastecimento de água em quantidade suficiente.
  • Dar preferência a paredes (quando existirem) lisas, caiadas ou azulejadas, sem saliências ou reentrâncias.
  • Fazer a limpeza do local ao final de cada ordenha, removendo-se a matéria orgânica (fezes, urina, leite) e outros materiais como restos de ração.
  • Lavar o piso e as paredes com jatos de água (mangueira sob pressão) e ajuda de vassoura ou esfregão.
  • Efetuar mensalmente a desinfecção da sala de ordenha, a não ser que haja recomendação especial, como por exemplo, em caso de um surto de doença. Antes da aplicação do desinfetante, limpar e lavar a sala, e retirar o excesso de água.
  • Realizar a limpeza da sala de ordenha ao final de cada ordenha, possibilitando que o local esteja limpo e seco ao ser iniciada a próxima ordenha.
     

4.11.8.2 - Ordenha

  • Conduzir as vacas a serem ordenhadas de forma organizada, com calma e sem mudanças bruscas de rotina.
  • Organizar linha de ordenha de modo que sejam ordenhadas sempre em primeiro lugar as novilhas e vacas saudáveis e por último as vacas mais velhas ou que tenham apresentado mastite ou outra doença.
  • Garantir que os tetos das vacas estejam limpos e secos no momento da ordenha.
  • Retirar os três primeiros jatos de leite em uma caneca de fundo escuro e observar o seu aspecto. Se estiver alterado, com presença de grumos, pus, amarelado ou aquoso, é sinal de mastite clínica.
  • Separar e descartar o leite alterado.
  • Separar o animal que apresentar alterações indicativas de mastite clínica e tratá-la de acordo com a recomendação do veterinário local.
  • Garantir que os ordenhadores tenham hábitos apropriados de higiene e recebam treinamento para desempenhar suas atividades.
  • Lavar somente os tetos sujos, limpando especialmente as extremidades, usando mangueira de baixa pressão. Evitar molhar o úbere.
  • Desinfetar os tetos antes da ordenha (opcional). Para ser efetivo o desinfetante deve cobrir totalmente a superfície do teto e atuar por, no mínimo, 30 segundos.
  • Secar completamente os tetos, usando papel toalha descartável.
  • Iniciar a ordenha dentro de um minuto após a preparação do úbere.
  • Ordenhar cada animal com calma, de forma ininterrupta e completa.
  • Colocar as teteiras com os cuidados necessários para minimizar a entrada de ar no sistema e ajustá-las (em caso de ordenha mecânica).
  • Adotar cuidados especiais com a higienização das mãos do ordenhador e evitar que sujeiras caiam no balde enquanto o leite está sendo retirado (na ordenha manual).
  • Fazer a imersão completa dos tetos em desinfetante apropriado, imediatamente após a ordenha. Cobrir completamente os tetos com o desinfetante.
  • Descartar as sobras de desinfetante usado no final do dia.
  • Usar desinfetantes apropriados, formulados especialmente para a higienização dos tetos.
  • Garantir que as vacas se mantenham de pé após a ordenha, fornecendo-lhes alimento no cocho após a ordenha.
  • Fazer a limpeza completa dos utensílios ou equipamentos, seguindo as recomendações do fabricante, ao final de cada ordenha.
  • Limpar o local ao final de cada ordenha.

4.11.8.2.1 - Ordenha mecânica

  • Efetuar a manutenção do equipamento, seguindo as recomendações do fabricante.
  • Capacitar o ordenhador quanto ao uso da ordenhadeira e práticas/hábitos higiênicos.
  • Circular água morna de boa qualidade à temperatura de 40 °C a 45 ºC, imediatamente após a ordenha da última vaca. A quantidade de água deve ser tal que não se observe leite no final desta etapa.
  • Circular detergente alcalino em água quente (70 ºC a 80 ºC). Enxaguar o equipamento com água fria.
  • Circular, pelo menos uma vez por semana, ou diariamente (como enxágue ácido), solução ácida e enxaguar com água fria, seguindo drenagem completa do sistema.
  • Usar produtos químicos específicos e apropriados para a higienização de equipamentos, seguindo o esquema de limpeza proposto pelo fabricante ou assistência técnica.
  • Efetuar inspeção visual, observando se há algum resíduo ou depósito nas superfícies.
  • Verificar se a válvula de saída está limpa e se toda a água foi drenada.
  • Circular solução sanitizante apropriada 30 minutos antes da ordenha, drenando bem o sanitizante antes do início da ordenha.
     

4.11.8.2.2 - Ordenha manual

  • Adotar procedimentos semelhantes aos recomendados para a ordenha mecânica em relação ao local de ordenha, cuidados higiênicos e manejo dos animais.
  • Utilizar baldes de aço inoxidável, semi-abertos, em bom estado de conservação e limpeza.
  • Utilizar latões em bom estado de conservação e adequadamente limpos.
  • Efetuar a filtragem do leite utilizando filtros de aço inoxidável ou de plástico.
  • Enxaguar baldes e latões com água potável, à temperatura morna, ao final da ordenha.
  • Lavar baldes e latões com detergente alcalino, esfregando toda a superfície, usando escova apropriada.
  • Enxaguar em seguida com água fria e drenar bem ao final.
  • Lavar todos os utensílios com solução ácida uma vez por semana.
  • Guardar os baldes com a boca virada para baixo em local limpo e seco.
  • Manter os latões limpos e bem fechados quando não estiverem em uso.
  • Higienizar latões e baldes com solução química como o hipoclorito de sódio a 200 ppm, drenando bem a solução antes do uso.
     

4.11.8.3 - Pós-ordenha: resfriamento e estocagem do leite

  • Manter o tanque de refrigeração de forma apropriada, seguindo as recomendações do fabricante.
  • Usar produtos de limpeza apropriados e proceder a higienização do equipamento de acordo com as recomendações do fabricante.
  • Resfriar o leite à temperatura inferior a 4 ºC em até 2 horas após a ordenha.
  • Enviar o leite para o tanque comunitário, observando a legislação em vigor, quanto ao prazo e procedimentos, quando não se dispuser de tanque de refrigeração próprio.
  • Efetuar a limpeza do tanque de refrigeração imediatamente após a retirada do leite, adotando-se os seguintes passos, que podem ser modificados de acordo com as recomendações do fabricante:
  • Circular água morna de boa qualidade à temperatura de 40-45 ºC até que a água saia limpa;
  • Usar detergente alcalino a ser diluído em quantidade de água adequada para o tamanho do tanque. Esfregar toda a superfície, o agitador, a tampa e demais componentes com escova específica para esta finalidade.
  • Enxaguar com água fria.
  • Verificar se a válvula de saída está limpa e se toda a água foi drenada.
  • Usar solução desinfetante ácida ao menos uma vez por semana.
  • Enxaguar o tanque com solução sanitizante 30 minutos antes da ordenha, realizando a drenagem cuidadosa em seguida.
  • Efetuar manutenção do tanque de refrigeração, adotando os procedimentos recomendados pelo fabricante ou assistência técnica.
     

4.11.9 - Prevenção da presença de resíduos de antimicrobianos e outros químicos no leite

  • Usar somente medicamentos recomendados por médico-veterinário.
  • Ler atentamente a bula do medicamento antes da aplicação, especialmente quando se tratar de antibióticos.
  • Seguir as orientações da bula e não usar medicamentos para finalidades diferentes das recomendadas.
  • Respeitar o período de carência do antibiótico aplicado.
  • Tratar vacas em lactação somente quando apresentarem sintomas clínicos de doenças.
  • Aplicar a dosagem correta para cada animal, evitando aumentar ou diminuir a dosagem recomendada.
  • Não administrar preparações de antibióticos recomendados para início do período co nas vacas em lactação.
  • Identificar claramente, com fitas, pulseiras ou colares, os animais tratados e ordenhá-los separadamente.
  • Descartar sempre o leite dos quatro quartos mamários, pelo período total em que o leite possa conter resíduos, mesmo que o medicamento tenha sido aplicado em apenas um dos quartos.
  • Estabelecer um plano de uso de medicamentos para vacas em lactação.
  • Evitar o uso de mais de um antibiótico diferente no mesmo tratamento, a não ser que especificamente recomendado pelo veterinário.
  • Evitar a realização de tratamento da mastite subclínica durante a lactação, a não ser em casos especiais e com supervisão veterinária, sendo obrigatório o descarte do leite.
  • Estabelecer um programa de controle da mastite com a adoção de medidas preventivas e de higiene.
  • Anotar todos os tratamentos realizados, registrando o dia do início do tratamento, o medicamento administrado e o período de descarte do leite.
  • Observar cuidados rigorosos de higiene na aplicação intramamária de antibióticos, adotando os seguintes passos.
  • Limpar, secar e desinfetar as extremidades dos tetos antes da introdução do medicamento.
  • Utilizar cânulas curtas.
  • Descartar as cânulas usadas em lugar seguro, evitando sua reutilização.
     

4.11.10 - Higiene, segurança e bem-estar dos trabalhadores

A satisfação de todo o pessoal envolvido na gestão da propriedade, seu bem-estar e das suas famílias são fundamentais para a manutenção da competitividade do sistema de produção. Todos os princípios, leis e regulamentos sobre higiene e segurança durante qualquer operação relacionada com a produção de leite devem ser seguidos, a fim de evitar qualquer perigo para a saúde dos trabalhadores ou dos consumidores.

  • Tratar os empregados com respeito e dignidade.
  • Prover aos empregados condições dignas de moradia.
  • Respeitar a legislação trabalhista.
  • Respeitar as obrigações sociais incluindo o acesso à educação de todas as crianças.
  • Possibilitar a capacitação e treinamentos periódicos aos empregados.
  • Construir as instalações de modo que o trabalho seja conduzido com segurança.
  • Fornecer aos empregados equipamentos de segurança e orientação sobre seu uso e riscos.
  • Pagar salários que possibilitem satisfação e bem-estar ao empregado e sua família.
  • Empregar somente mão de obra adulta.
  • Certificar-se de que todas as regras de segurança são observadas durante o trabalho.
  • Realizar exames periódicos em todos os trabalhadores.
  • Manter os registros relacionados à saúde e segurança devidamente arquivados.
  • Proporcionar transporte seguro e instalações adequadas para alimentação e para a higiene pessoal para os trabalhadores.
     

4.11.11 - Gestão ambiental

A legislação ambiental deve ser observada em todas as etapas da produção leiteira.

  • Respeitar a legislação em relação à proteção de nascentes, cursos d’água, rios, riachos, lagos e outros.
  • Realizar o licenciamento ambiental, com adequação no uso da água (outorga) e conservação da Reserva Legal.
  • Desenvolver atividades agropecuárias de acordo com os parâmetros ecológicos regionais.
  • As atividades de produção devem sempre promover o desenvolvimento sustentável.
     

4.11.12 - Referências

AUAD, A. M. et al. Manual de bovinocultura de leite. Brasília: LK Editora; Belo Horizonte: SENAR-AR/MG; Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2010. 608p.

RITO, J. R. F.; BRITO, M. A. V. P.; COSTA, J. L.; NOVAES, L. P.; CAMPOS, A. T.; FURLONG, J.; ARCURI, E. F.;RIBEIRO, A. C. C. L.; TORRES, R. A.; CASTRO, C. R. T. Milk Production. In: ASSAD, L. L. (Coord.); SPEEDY, A.; HAIGHT, B.; KUENEMAN; CAMPOS, F. A. A.; MACEDO, J.;PORTO, M. C. M.; BARBOSA, S. (Org.). Guidelines for good agricultural practices. Brasília: FAO/MAPA/Embrapa, 2002. 298p.
 

4.12 - Marcadores moleculares aplicados ao melhoramento de gado de leite

4.12.1 - Introdução

O melhoramento genético dos rebanhos leiteiros tem sido praticado com sucesso há muitos anos, por meio do uso das informações de fenótipo dos indivíduos e de seus parentes, identificando na população os animais com potencial superior em algumas características que estejam sendo estudadas, tais como a produção de leite ou resistência a alguma doença. A avaliação genética dos indivíduos é baseada nas informações de fenótipo, que é fortemente influenciada por fatores de meio ambiente como, por exemplo, o manejo alimentar, o reprodutivo e o sanitário. As condições de clima, de solo e o conforto térmico propiciado ao animal podem interferir no cálculo do mérito genético de cada indivíduo, mascarando o seu real valor. Aliado às metodologias tradicionais, o uso das novas técnicas de biotecnologia pode aumentar o progresso genético ainda mais.
O uso de marcadores moleculares, por exemplo, permite que o potencial genético de um animal seja determinado com maior precisão, antes mesmo da expressão do seu fenótipo. O grande atrativo da genética molecular é a utilização direta das informações contidas no DNA para a seleção de animais superiores, de forma a permitir alta eficiência, grande rapidez na obtenção de ganhos genéticos e redução dos custos de seleção, em comparação com a seleção tradicional. A inclusão de marcadores moleculares ao processo de seleção pode duplicar os ganhos genéticos e diminuir os custos de testes de progênie tradicionais em até 92%, pois touros jovens podem ser pré-selecionados logo após o nascimento, aumentando o grau de acerto na avaliação e reduzindo o intervalo de gerações e os custos da prova.
Esforços têm sido concentrados na busca de marcadores moleculares para resistência às doenças como a mastite, as helmintoses e aos carrapatos, que são características de baixa a moderada herdabilidade e de difícil mensuração. Para as características ligadas à produção e à composição do leite, as pesquisas concentraram-se principalmente em genes ligados às proteínas lácteas.
 

4.12.2 - Genes candidatos

Informações sobre genes candidatos relacionados à produção de leite já estão disponibilizadas em alguns Sumários de Touros, como os das raças Girolando, Gir e Guzerá. São encontradas as informações sobre a genotipagem da β-lactoglobulina, Kappa-Caseína, OPN, DGAT1 e prolactina para os touros testados e em teste.

A β-lactoglobulina representa cerca de 50 a 55% das proteínas do soro de leite de ruminantes e de alguns outros mamíferos. Já foram identificadas 12 formas diferentes (A a J, W e Dr) em bovinos, sendo A e B as mais encontradas. Apesar de sua função biológica ainda não estar completamente esclarecida, acredita-se que esta proteína esteja envolvida no metabolismo e no transporte de retinol e de ácidos graxos. Pesquisas demonstram que animais com genótipo AA apresentam maior produção de proteína no leite e animais com genótipo BB produzem mais gordura.

A Kappa-Caseína pertence ao grupo das caseínas, que são proteínas do leite secretadas pela glândula mamária. Elas constituem aproximadamente 78-82% das proteínas do leite e são subdivididas em quatro grupos; caseína-αS1, caseína-αS2, β-caseína e K-caseína. Estas proteínas e suas variantes vêm sendo estudadas extensivamente, e estão relacionadas com a lactação, composição do leite e eficiência de fabricação do queijo. Até agora, nove formas foram descritas: A, B, C, E, F, G, H, I, e A1, sendo A e B as mais encontradas. O alelo B, uma das formas do gene em questão, está relacionado com maior produção de proteínas no leite, quando comparado ao alelo A. O uso de leite de vacas com genótipo BB para Kappa-Caseína pode resultar em menor tempo de coagulação para preparo do queijo e formação de coágulo com maior densidade, assim como maior produção de queijo em relação ao leite de vacas com genótipo AA para Kappa-Caseína. O queijo produzido com leite de vacas com genótipo BB é 10% maior, apresentando rendimento 12% maior em queijos tipo mussarela e 8% em queijo tipo cheddar em relação ao leite de vacas com genótipo AA.

O gene da OPN (osteopontina), conhecido como SSP1 (do inglês, Secreted Phospho-protein 1) está localizado no cromossomo 6 de bovinos, em uma região próxima a um QTL (Quantitative Trait Loci) para produção de leite. Foram identificados dois alelos para este gene: o alelo C, associado com o aumento na porcentagem de proteína e gordura no leite e o alelo T, associado a um aumento na produção de leite. A associação deste gene com características de produção de leite foi alvo de estudo de diversos trabalhos com bovinos.
Trabalhos realizados com animais da raça Holandês demonstraram que este gene está associado à produção de leite e gordura e porcentagem de gordura e de proteína, além de estar associado às características de crescimento.
 
O gene DGAT1 (diacilglicerol-aciltransferase 1) foi o primeiro com efeito comprovado para produção de leite em bovinos, o qual codifica a enzima acil-CoA: diacilglicerol-aciltransferase que desenvolve um papel fundamental no metabolismo celular do diaciglicerol em processos fisiológicos, na absorção de gorduras no intestino, formação de tecido adiposo e na lactação. Este gene está fortemente associado à porcentagem de gordura no leite. O alelo A, fixado na maioria das raças zebuínas, está associado com o aumento na produção de leite e proteínas e um decréscimo na produção de gordura. O alelo K, com alta frequência em raças europeias, está associado à diminuição da produção de proteína e associado à composição e alto teor de gordura no leite.
 
A prolactina é um hormônio que é responsável pela regulação do desenvolvimento da glândula mamária, o início e a manutenção da lactação e produção de leite. Três genótipos foram identificados e associados às características de produção. O genótipo AA está associado a um maior teor de gordura no leite, já o genótipo GG está relacionado a uma menor quantidade de gordura no leite, em vacas da raça Holandês. Indivíduos heterozigotos AG apresentam uma maior produção de leite.
 

4.12.3 - Identificação de animais portadores de alelos para doenças genéticas recessivas

Outro emprego de técnicas de genética molecular é a identificações de animais portadores de alelos para doenças genéticas recessivas. Dentre essas, destacam-se DUMPS (Síndrome da Deficiência de Síntese de Uridina Monofosfatase, do inglês - Deficiency of Uridine Monophosphate Synthase), CVM (Malformação do Complexo Vertebral, do inglês Complex Vertebral Malformation) e BLAD (Deficiência de Adesão Leucocitária Bovina, do inglês Bovine Leukocyte Adhesion Deficiency).

A Deficiência da Uridina Monofosfato Sintase (DUMPS do inglês - Deficiency of Uridine Monophosphate Synthase) é caracterizada por uma mutação no gene da enzima uridina monofosfato sintetase (UMPS), resultando em uma total deficiência desta. Esta enzima é responsável pela conversão do ácido orótico para uridina monofosfato. A UMPS faz parte da via metabólica de síntese das pirimidinas, que são imprescindíveis para a síntese de DNA e RNA. Como no desenvolvimento embrionário são sintetizadas grandes quantidades de DNA e RNA, embriões homozigotos para o alelo mutante morrem por volta do 40º dia de vida. Animais heterozigotos são aparentemente normais, entretanto apresentam apenas metade da atividade normal da enzima UMPS, além de, durante a lactação, excretarem altos níveis de ácido orótico no leite e urina. Vacas portadoras inseminadas com touros portadores apresentam uma alta taxa de retorno.

A doença do Complexo de Má Formação Vertebral é uma doença genética recessiva, conhecida como CVM (do inglês Complex Vertebral Malformation). Esta doença provoca altas taxas de aborto devido à má formação do feto, sendo que vacas portadoras podem ter suas características reprodutivas afetadas quando acasaladas com touros portadores. Embriões e fetos homozigotos para CVM raramente nascem, sendo sempre prematuros (uma a duas semanas), apresentando baixo peso ao nascimento, encurtamento da coluna cervical e torácica e má formação cardíaca em alguns casos. Uma análise genealógica permitiu traçar a origem do alelo causador da doença, chegando a dois ancestrais comuns: os touros Carlin-M Ivanhoe Bell e Penstate Ivanhoe Star que foram muito utilizados nos programas de inseminação artificial no mundo nas décadas de 1980 e 1990. Esses dois touros também são portadores do alelo BLAD e, dessa forma, ambos os alelos foram disseminados nos rebanhos.

A Deficiência de Adesão Leucocitária Bovina, conhecida como BLAD (do inglês - Bovine Leucocyte Adhesion Deficiency) é causada por uma mutação recessiva letal no gene CD18. O touro Osborndale Ivanhoe da raça Holandês foi identificado como o principal disseminador do alelo BLAD para vários rebanhos, já que seu sêmen foi amplamente utilizado em programas de inseminação artificial em todo o mundo, devido ao seu elevado mérito genético para produção de leite.

Animais homozigotos para BLAD apresentam crescimento retardado, perda de dentes, comprometimento do sistema imune e morrem ainda jovens, geralmente de pneumonia. Esses efeitos resultam de uma disfunção dos glóbulos brancos, que são células de defesa do sistema imunológico. Animais heterozigotos (portadores do alelo recessivo) apresentam desenvolvimento normal e podem transmitir o alelo BLAD para a progênie. Orienta-se que animais portadores do alelo BLAD, com alto mérito genético, devam ser acasalados com animais que não sejam portadores.

A identificação dos animais portadores de alelos de doenças é importante para que o criador tome decisões de descarte e de manejo dos acasalamentos. Com isso, poderá optar pelo uso ou não de determinados touros com alto mérito genético para produção, porém que sejam portadores de alelos recessivos deletérios.
 

4.12.4 - A seleção genômica

Outra abordagem para a utilização de ferramentas da genética molecular é a seleção genômica. Esse tipo de seleção fundamenta-se nos marcadores genéticos moleculares do tipo SNP, o qual se baseia na detecção de polimorfismo resultante da alteração de um único par de nucleotídeo na sequência de DNA em uma determinada posição. E, para que uma variação seja considerada SNP, essa deve ocorrer em pelo menos 1% da população. Os SNP’s são as formas mais abundantes de variações do DNA em genomas e são preferidos em relação a outros marcadores genéticos devido à sua baixa taxa de mutação e facilidade de genotipagem. Além disto, permitem a automatização do processo e, com isso, há uma diminuição do custo de genotipagem por animal. Milhares de SNP’s podem ser usados para cobrir o genoma de um organismo com marcadores a menos que 0,05 cM um do outro no genoma inteiro.

A seleção genômica usa associações de grande número de marcadores SNP’s em todo o genoma com os fenótipos. A partir dessas associações é possível estimar o desempenho da progênie de um animal com base na informação contida no seu DNA. Embora possa parecer complicada, a seleção genômica é, na verdade, muito simples. Por exemplo, no passado, para escolher entre dois touros jovens irmãos completos, filhos de uma mesma vaca e de um mesmo touro, para entrar em teste de progênie, a única informação disponível era a média dos valores genéticos de seus pais. Então não havia ferramentas que auxiliassem na escolha de qual dos dois seria o melhor candidato para o teste de progênie. Também não era possível determinar se o desempenho de um dos animais seria melhor ou pior do que a média dos seus pais a não ser que se submetessem ao teste de progênie, o que demora cerca de sete anos para que, com base nos desempenhos de seus descendentes, esses animais fossem avaliados. Atualmente, em virtude da relação existente entre os marcadores moleculares e os genes relacionados às características de importância econômica, é possível estimar com segurança o provável desempenho de um animal logo após o seu nascimento. A avaliação genética genômica inclui a informação obtida a partir dos marcadores de DNA testados para um determinado indivíduo e considera também as informações de pedigree, podendo também incluir informações da progênie. Ou seja, as provas genômicas são baseadas nos mesmos princípios que as provas tradicionais, mas adicionam as informações contidas no DNA para incrementar a confiabilidade.

Pesquisas desenvolvidas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (do inglês – United States Department of Agriculture – USDA) revelaram que, combinando-se as informações moleculares com as provenientes da média dos pais, é possível se obter o valor genômico para um animal com confiabilidades de 60 a 70%. Esse valor é duas vezes superior àquele obtido ao se considerar somente a informação da média dos pais, na qual a confiabilidade é, geralmente, ao redor de 30 a 40%. Para uma novilha, a confiabilidade de seu valor genômico é equivalente a medir várias de suas lactações e de suas filhas. Para um touro jovem, o aumento na confiabilidade seria comparado à inclusão das análises de lactações de 12 filhas. Ressalta-se que, para touros com mais de 80 filhas avaliadas, o ganho em confiabilidade seria muito pequeno.

É importante destacar que com a utilização das técnicas moleculares e convencionais pode-se obter melhores resultados em menor tempo na pecuária leiteira. Com base nas informações genéticas obtidas com a genotipagem dos touros, os produtores poderão selecionar os reprodutores doadores de sêmen e planejar os acasalamentos dos seus animais de acordo com seus interesses, com maior agilidade e confiança.
 

4.12.5 - Referências

PEREIRA, J. C. C. Melhoramento genético aplicado à produção animal. Belo Horizonte: FEP MVZ Editora, 2008. 618 p.

REGITANO, L. C. A.; COUTINHO, L. L. (Ed.) Biologia molecular aplicada à produção animal. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2001. 215 p.

VALENTE, J.; DURÃES, M. C.; MARTINEZ, M. L.; TEIXEIRA, N. M. (Ed.) Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 87-92.
 

4.13 - Autores

Carlos Eugênio Martins
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Solos e Nutrição de Plantas. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: caeuma@cnpgl.embrapa.br 
 
Alexandre Magno Brighenti
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Fitotecnia. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: brighent@cnpgl.embrapa.br 
 
Aloísio Torres Campos
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Energia na Agricultura. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de Leite.
E-mail: camposat@oi.com.br
 
Antônio Cândido de Cerqueira Leite Ribeiro
Médico Veterinário, D.Sc. em Ciência Animal. Analista da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: candido@cnpgl.embrapa.br
 
Antônio Carlos Cóser
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Forragicultura e Pastagens. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de Leite.
E-mail: acoser1@yahoo.com.br
 
Armando da Costa Carvalho
Técnico Agrícola. Assistente de Pesquisa da Embrapa Gado de Leite, Rodovia MG 133, Km 42, 36155-000 – Coronel Pacheco, MG.
E-mail: armando@cnpgl.embrapa.br
 
Bruno Campos de Carvalho
Médico Veterinário, D.Sc. em Reprodução Animal. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite. Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: bruno@cnpgl.embrapa.br
 
Carlos Renato Tavares de Castro
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Zootecnia. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: castro@cnpgl.embrapa.br
 
Deise Ferreira Xavier
Engenheira Agrônoma, D.Sc. em Ciência do Solo. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: dfxavier@cnpgl.embrapa.br
 
Edna Froeder Arcuri
Engenheira de Alimentos, Ph.D. em Ciência de Alimentos. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: edna@cnpgl.embrapa.br
 
Fausto Souza Sobrinho
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Genética e Melhoramento de Plantas. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: fausto@cnpgl.embrapa.br
 
Fermino Deresz
Zootecnista, Ph.D. em Nutrição Animal. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: deresz@cnpgl.embrapa.br
 
Frank Angelo Tomita Bruneli
Médico Veterinário, D.Sc. em Zootecnia. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: frank@cnpgl.embrapa.br
 
Glaucyana Gouvêa dos Santos
Médica Veterinária, D.Sc. em Genética e Melhoramento Animal. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: galgsantos@cnpgl.embrapa.br
 
João Cesar de Resende
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Produção Animal. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG
E-mail: joaocsar@cnpgl.embrapa.br
 
João Cláudio do Carmo Panetto
Zootecnista, D.Sc. em Ciências Biológicas. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: jcpanetto@cnpgl.embrapa.br
 
José Ladeira da Costa
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Forragicultura. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de leite.
E-mail: ladeirajose@yahoo.com.br
 
José Renaldi Feitosa Brito
Médico Veterinário, Ph.D. em Microbiologia e Imunologia. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de leite.
E-mail: renaldi.brito57@yahoo.com.br
 
Leonardo Henrique Ferreira Calsavara
Extensionista Agropecuário, Emater-MG, Rua Major Mendonça, n 106, sala102, 36330-000 - Coronel Xavier Chaves, MG.
E-mail: leonardo.calsavara@emater.mg.gov.br
 
Letícia Caldas Mendonça
Médica Veterinária, M.Sc. em Ciência Animal. Analista da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: leticia@cnpgl.embrapa.br
 
Lilian Tamy Iguma
Médica Veterinária, D.Sc. em Biologia Molecular. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite. Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: lilian@cnpgl.embrapa.br
 
Limirio de Almeida Carvalho
Engenheiro Agrônomo, Ph.D. em Produção Animal. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de Leite.
E-mail: limirio.carvalho@gmail.com
 
Lucas de Cássio Nicodemos
Estudante de Ciências Biológicas, Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CESJF). Av. Luz Interior, 100 - Estrela Sul – Juiz de Fora, MG.
E-mail: lucasnicodemos@yahoo.com.br
 
Luciano Patto Novaes
Engenheiro Agrônomo, Ph.D. em Produção Animal. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de Leite.
E-mail: lpn@ufrnet.br
 
Marcelo Dias Muller
Engenheiro Florestal, D.Sc. em Ciências Florestais. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: muller@cnpgl.embrapa.br
 
Marco Antonio Machado
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Genética e Melhoramento. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: machado@cnpgl.embrapa.br
 
Marcos Cicarini Hott
Engenheiro Florestal, M.Sc. em Ciência Florestal. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG
E-mail: hott@cnpgl.embrapa.br
 
Marcos Vinicius Gualberto Barbosa da Silva
Zootecnista, D.Sc. em Genética e Melhoramento. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: marcos@cnpgl.embrapa.br
 
Maria Aparecida Vasconcelos Paiva Brito
Farmacêutica Bioquímica, Ph.D. em Microbiologia e Imunologia. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: mavpaiva@cnpgl.embrapa.br
 
Maria de Fátima Ávila Pires
Médica Veterinária, D.Sc. em Ciência Animal. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: fatinha@cnpgl.embrapa.br
 
Maria Gabriela Campolina Diniz Peixoto
Médica Veterinária, D.Sc. em Ciência Animal. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora/MG.
E-mail: gaby@cnpgl.embrapa.br
 
Marta Fonseca Martins
Bióloga. D.Sc. em Genética e Melhoramento. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: mmartins@cnpgl.embrapa.br
 
Maurílio José Alvim
Biólogo, M.Sc. em Forragicultura e Pastagens. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de Leite.
E-mail: malvim@globo.com
 
Milton de Andrade Botrel
Engenheiro Agrônomo, M.Sc. em Fisiologia Vegetal. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de Leite.
E-mail: mabotrel@hotmail.com
 
Nívea Maria Vicentini
Engenheira Agrônoma, D.Sc. em Agronomia. Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: nivea@cnpgl.embrapa.br
 
Paulino José Melo Andrade
Engenheiro Agrônomo, M.Sc. em Fitopatologia. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: paulino@cnpgl.embrapa.br
 
Rebeca Passos Bispos Wanderley Müller
Médica Veterinária, M.Sc. em Ciência Animal. Doutoranda da UFMG.
E-mail: rebyvet@yahoo.com.br
 
Rodolpho Almeida Torres
Engenheiro Agrônomo, Ph.D. em Nutrição Animal. Pesquisador aposentado da Embrapa Gado de leite.
E-mail: rodolphotorres@yahoo.com
 
Wadson Sebastião Duarte da Rocha
Engenheiro Agrônomo, D.Sc. em Agronomia. Pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, 610, 33038-330 – Juiz de Fora, MG.
E-mail: wadson@cnpgl.embrapa.br