4.3.2.2 - Amostragem de solo

A amostragem do solo, para fins de diagnóstico de sua fertilidade, constitui uma das práticas mais importantes do processo produtivo, principalmente, quando se pensa na utilização intensiva e racional dos solos. Pela amostragem do solo e posterior análise laboratorial para determinação dos conteúdos dos nutrientes e outros elementos minerais, é possível fazer uma recomendação racional e econômica de adubos e corretivos.

A importância de uma análise de solo depende da exatidão de cada uma das seguintes fases:
a) coleta de amostra;
b) extração e determinação dos nutrientes “disponíveis”;
c) interpretação dos resultados das análises; e
d) recomendação de adubos e corretivos.

Em cada uma destas fases poderão ocorrer erros, que afetarão o resultado da análise e, por conseguinte, a recomendação de adubos e corretivos para mais ou menos do que o necessário. O erro, devido a uma amostragem mal conduzida, é geralmente o mais significativo, porque não pode ser corrigido nas fases subsequentes. Uma amostragem mal feita pode facilmente causar erros de 50% ou mais na avaliação da fertilidade de um solo. Daí a importância da orientação técnica de um profissional habilitado.

A coleta de amostras representativas é essencial para a correta recomendação de adubos e corretivos e possibilita a obtenção de rendimentos econômicos.
A amostragem do solo é, pois, a fase mais crítica do programa de recomendações de adubação com base na análise do solo, pelos seguintes motivos:

  • O solo é um corpo heterogêneo em propriedades químicas;
  • A heterogeneidade química do solo é acentuada pelas práticas de adubação, calagem e de manejo cultural;
  • Insuficiência de conhecimento dos princípios de amostragem de solos por parte da pessoa que realiza amostragem; e
  • Insuficiência de informações complementares para a interpretação de análise como: adubação, calagem, rendimento de cultivos anteriores, topografia etc.
    É importante destacar que a amostra encaminhada ao laboratório para análise, deve ser representativa da área a ser cultivada, já que não é possível analisar a área inteira a ser adubada ou a receber calagem. Assim, a amostra deve ser coletada da melhor maneira possível, de forma a refletir com fidelidade as condições de fertilidade da área específica.
    Devem-se salientar sete aspectos importantes na amostragem do solo:

4.3.2.2.1 - Seleção da área para cada amostragem

Cada área a ser amostrada deve ser a mais uniforme possível, considerando os seguintes aspectos: cor do solo, posição na encosta, vegetação existente, textura do solo, drenagem, presença de pedras, pedregulhos e cascalho e histórico da área. Ao se amostrar uma determinada área de solo, não se devem misturar amostras de um solo de coloração acinzentada com amostra de solo de coloração avermelhada; amostra de solo de uma baixada com amostra de solo de área amorreada. Em cada uma destas situações, deverão ser feitas coletas individualizadas, permitindo assim, maior racionalidade nas recomendações de corretivos e adubos.

4.3.2.2.2 - Determinação da época de amostragem

A amostragem do solo deverá ser feita após o final da época chuvosa, sendo para a Região Sudeste os meses de abril/maio os mais indicados. Até pouco tempo recomendava-se duas amostragens anuais, sendo uma no final e outra no início da época chuvosa. Entretanto, como os resultados obtidos, quase sempre, apresentam valores semelhantes, um grupo de técnicos pertencentes a diversas instituições de ensino, pesquisa e extensão do Estado de Minas Gerais, que compõem a Comissão de Fertilidade de Solo do Estado de Minas Gerais (CFSEMG, 1999), optou por recomendar a realização de uma única amostragem. Assim, a amostragem feita no final da época chuvosa, além de permitir conhecer a fertilidade natural do solo, reduz o custo de implantação da pastagem, por reduzir o número de amostragens a serem feitas. Vale a pena ressaltar que a amostragem feita nesta época possibilita ao produtor adquirir corretivos e fertilizantes nos meses de entressafra (junho/julho) quando, geralmente, o preço destes insumos é menor.

4.3.2.2.3 - Número de amostra simples

Para se proceder à amostragem do solo, percorre-se em zigue-zague a área que se deseja avaliar, coletando-se de 20 a 30 amostras simples por gleba para formar uma amostra composta. Em áreas (glebas) homogêneas, pode ser considerada, para efeito de amostragem, uma área entre 10 e 20 hectares.

Conforme mencionado anteriormente é muito importante subdividir a área a ser amostrada, de modo que esta seja a mais homogênea possível. Nesta subdivisão, deve-se levar em conta a vegetação, a posição topográfica (topo de morro, meia-encosta, baixada etc.), as características perceptíveis do solo (cor, textura, condição de drenagem, produtividade da cultura anterior, uso de fertilizantes e corretivos etc.). Portanto, os limites de uma gleba de terra para amostragem não devem ser definidos exclusivamente pelo tamanho da área (hectares), mas, sim, pelas características mencionadas, que determinam sua homogeneidade. Para maior eficiência, não amostrar glebas superiores a dez hectares. Assim, áreas amorreadas não devem ser misturadas com áreas de baixadas, da mesma forma que numa área amorreada, por exemplo, não se devem misturar amostras que tenham cores muito diferentes. Estes cuidados são importantes, pois permitem obter resultados mais representativos da fertilidade natural do solo.

Mesmo que a área a ser amostrada seja a mais uniforme possível, recomenda-se trabalhar, para cada amostra composta, com área inferior a dez hectares. Assim, se existe uma área uniforme de 20 hectares a ser amostrada, recomenda-se dividi-la em duas glebas, obtendo-se assim duas amostras compostas.
 

4.3.2.2.4 - Profundidade de amostragem

Na maioria das culturas, a profundidade de amostragem é de 0 a 20 cm. Dependendo da situação, é possível que a amostragem deva ser feita em outras profundidades. Para pastagens já estabelecidas, por exemplo, recomenda-se a amostragem na camada de 0 a 5 cm, ou até 0 a 7 cm. Quando necessário, pode-se retirar outra amostra composta de 5 a 20 cm ou de 7 a 20 cm. Para áreas novas, principalmente quando se pretende a implantação de culturas perenes, como é o caso das pastagens, recomenda-se coletar as amostras simples nas profundidades de 0 a 20, 20 a 40 e 40 a 60 cm. As amostras simples das diferentes camadas devem ser coletadas no mesmo ponto e em igual número, obtendo-se amostras compostas para cada camada. A determinação da profundidade de amostragem deverá ser baseada nas sugestões de um técnico.

4.3.2.2.5 - Coleta, homogeneização e remessa da amostra ao laboratório

Estas amostras retiradas são colocadas em um balde seco e limpo, colocadas para secar, destorroando em seguida a massa de solo proveniente destas amostras. Depois de destorroada e homogeneizada esta massa de solo, retira-se uma quantidade de 300 a 500 gramas, que são colocados em saco plástico limpo, identificando-a (Figuras 2 e 3), para envio ao laboratório. É importante ressaltar que além da análise química do solo, também deve ser solicitada a análise textural, uma vez que a recomendação da necessidade de calagem e de fósforo depende da mesma.

                
Figura 2. Ficha de identificação da amostra de material de solo.


Figura 3. Formulário de informações complementares a ser enviado ao laboratório.

Observações:

  • Existem outros tipos de formulários que também poderão ser utilizados quando do envio das amostras aos laboratórios;
  • Não usar, em hipótese alguma, sacos de adubos, mesmo que bem lavados, para o acondicionamento das amostras;
  • Tanto a etiqueta de identificação da amostra composta, quanto o formulário de informações complementares, deverão acompanhar a amostra de solo enviada ao laboratório;
  • As amostras deverão ser encaminhadas a laboratórios de comprovada idoneidade

Cuidados especiais na amostragem

  • Não retirar amostras simples próximas a casas, brejos, voçorocas, árvores, sulcos de erosão, formigueiros, caminho de pedestre etc.;
  • Nunca colocar as amostras compostas em embalagens usadas ou sujas, como latas de soda, saquinhos de leite, sacos de adubos, de calcário, de cimento, embalagens de defensivos etc.;
  • Após a remessa da amostra a um laboratório credenciado, este irá processá-la visando à sua determinação, conforme se segue.

 

4.3.2.2.6 - Análise do solo

Esta operação é desenvolvida em laboratórios credenciados, pelo uso de extratores químicos, e posterior determinação quantitativa do elemento, na solução do solo. O extrator a ser usado deverá apresentar uma boa correlação com a capacidade de extração (absorção) de nutrientes pelas plantas. Assim, um bom extrator deve simular o que a planta é capaz de absorver dos elementos essenciais (nutrientes).
 
Observação:

  • É de suma importância que o laboratório ao encaminhar o resultado de análise de solo ao produtor rural, informe qual extrator foi utilizado. Esta informação é importante, pois para cada extrator, existem tabelas apropriadas para determinação dos níveis críticos dos principais nutrientes.

4.3.2.2.7 - Interpretação do resultado da análise do solo

Esta é uma das fases mais difíceis e onerosas de um programa de análises de solo e recomendação de corretivos e fertilizantes. Esta etapa deve ser desenvolvida por um técnico, baseada nos padrões de interpretação de análise de solo disponíveis no País. Preparo do solo.

Antes de iniciar o preparo do solo, deve-se fazer uma amostragem para determinar a fertilidade e permitir uma recomendação racional de corretivos e fertilizantes.

O preparo do solo é uma operação importante quando se pretende estabelecer uma pastagem. O bom preparo do solo, a correção da acidez e a adubação racional garantem um ambiente adequado para a germinação das sementes ou para a brotação de gemas de forrageiras que se propagam por mudas. O preparo do solo deve ser feito com o objetivo de deixá-lo suficientemente destorroado, solto e uniforme. Desta forma, uma aração, seguida de uma ou duas gradagens e da sulcagem (para forrageiras que se multiplicam por mudas) constituem operações importantes para a garantia do estabelecimento da forrageira.

Quanto mais rápido for a germinação e o estabelecimento da forrageira, mais cedo o produtor poderá utilizar a pastagem para a alimentação animal.

Em situações em que há necessidade de se fazer duas arações, recomenda-se que a primeira deva ser rasa, para destruir os restos culturais, enquanto a segunda deverá ser feita numa profundidade de 15 a 30 cm (RODRIGUES & REIS, 1993).

Havendo necessidade de calagem, esta deverá ser feita com antecedência mínima de 60 dias do plantio (com o solo úmido), utilizando-se calcário dolomítico. Ela deverá ser feita a lanço, sobre toda a área, antes da aração.

Outro ponto importante é o estabelecimento de pastagens de capim-elefante, ou cultivares dos gêneros Panicum e Cynodon, em áreas anteriormente cultivadas com braquiárias.

Segundo observações feitas em fazendas particulares, o custo de manutenção dessas pastagens é bastante aumentado, em decorrência das constantes capinas e/ou aplicações de herbicidas para controle de braquiárias. Assim, recomenda-se trabalhar a área pelo menos por dois anos, utilizando-se culturas anuais, visando reduzir a população de sementes de braquiária e, com isto, reduzir o custo de manutenção dessas pastagens.

Também merece destaque o estabelecimento de pastagens de capim-elefante em áreas sujeitas à erosão. Neste caso, o preparo do solo deverá ser precedido de práticas conservacionistas. Segundo Castilhos (1987), em solos com declive de até 3%, o plantio deverá ser feito com os sulcos abertos em curva de nível; em declividade entre 6 e 12%, deve-se proceder à abertura de terraços; e em solo com declividade de 12 a 15%, recomendam-se terraços com faixa de retenção.

O manejo de solo em áreas de relevo acidentado constitui prática importante durante o estabelecimento de forrageiras, uma vez que o manejo mal conduzido acarretará perdas apreciáveis de solo, aumentando ainda mais sua degradação. Dependendo da espécie forrageira a ser implantada, há necessidade do estabelecimento de práticas conservacionistas, tais como: terraços e cordões de contorno.

Para exemplificar, na Figura 4 são apresentados resultados de perda de solo por erosão, numa pastagem degradada de capim-gordura, com aproximadamente 40% de declive em função dos tratamentos de manejo de solo que consistiram de diferentes proporções de área preparada.

Esta é uma das fases mais difíceis e onerosas de um programa de análises de solo e recomendação de corretivos e fertilizantes. Esta etapa deve ser desenvolvida por um técnico, baseada nos padrões de interpretação de análise de solo disponíveis no País.


Figura 4. Perdas relativas de solo por erosão, comparando-se sistemas de preparo do solo para a recuperação de pastagens.
Fonte: Saraiva (1981).

Verifica-se que no preparo A, onde o solo permaneceu durante todo o período de avaliação descoberto, a perda relativa de solo foi de 100%, ao passo que nos outros dois tratamentos as perdas de solo sofreram redução bastante expressiva.

No preparo B, onde o solo foi totalmente preparado (aração e gradagem, seguido de adubação e plantio a lanço de capim-gordura), a perda de solo ao final do período experimental reduziu em 58%, em relação ao tratamento A. Quando o solo foi preparado em faixas e em nível, adubado e seguido de semeadura da forrageira (preparo C), cujas áreas preparadas corresponderam a um terço da área total, as perdas de solo reduziram em média 93%. Esses resultados confirmam a importância da cobertura vegetal do solo, no controle da erosão e, principalmente, a manutenção de faixas de retenção, durante as operações de preparo do solo para a formação de pastagens em áreas declivosas.

A redução ocorrida no preparo de solo C é de extrema importância não só para a pastagem, pois evita que haja perdas de nutrientes e água durante o processo erosivo, mas, principalmente, por manter-se quase que inalterado, do ponto de vista de fertilidade natural, o solo, um recurso natural não-renovável.

Do ponto de vista prático, vale a pena destacar que as faixas devem ter largura média de dois metros. Caso a declividade do solo seja menor, pode-se aumentar a largura da faixa a ser preparada. Essa largura facilita a operação de gradagem do solo, uma vez que as grades de tração animal têm, em média, dois metros de largura.

Além disso, convém ressaltar que, dependendo dos resultados da análise do solo, há necessidade de se fazer recomendações de calagem e adubação nas faixas a serem preparadas.

Na Embrapa Gado de Leite, observou-se que, ao se utilizar no processo de recuperação uma forrageira com grande capacidade de produzir sementes, como é o caso das braquiárias, as faixas não-preparadas tiveram sua cobertura vegetal (em geral capim-gordura), totalmente substituída pela braquiária.

A Figura 5 apresenta com detalhes o processo de estabelecimento em faixas, em áreas declivosas.


Figura 5. Plantio de forrageiras em áreas montanhosas, por meio de faixas (a) cultivadas em nível e intercaladas por faixas de retenção (b), não-cultivadas.
Fonte: Cóser & Cruz Filho, (1989).

Dependendo da espécie forrageira a ser implantada, especialmente se for uma forrageira “agressiva”, como é o caso das braquiárias, as faixas poderão ser substituídas por sulcos em nível, alternados com áreas não-preparadas. A escolha de faixas ou sulcos dependerá da declividade do terreno. Sugerem-se sulcos em terrenos muito íngremes, onde o preparo das faixas é dificultado. O preparo de solo em áreas declivosas utilizando sulcos em nível é também bastante usado para o estabelecimento de leguminosas forrageiras.

Observação:
Em hipótese alguma se deve utilizar grade aradora acoplada a trator de esteira, no sentido morro abaixo, morro acima. Utilizando esta estratégia o solo fica ainda mais exposto aos processos erosivos.