4.7.3.1.2 - Ordenha manual e mecânica

Existem dois tipos de ordenha: manual e mecânica. Quando se trata da qualidade do leite, não há diferença do leite ordenhado manualmente se comparado ao leite ordenhado mecanicamente. Os dois tipos de ordenha não interferem na qualidade em termos de higiene do leite, garantindo contagens baixas de CTB. A escolha pela ordenha manual ou mecânica deverá ser baseada em informações como, por exemplo: infraestrutura da propriedade, número de animais, produtividade animal (kg/dia de leite) e número de funcionários.

Na ordenha manual, o leite é tirado pelas mãos do ordenhador num balde. Os utensílios principais que são utilizados para a ordenha manual são: o balde, o coador/filtro para transferir o leite do balde para o tanque de refrigeração ou latão, a peia para conter as pernas da vaca e o banquinho para o ordenhador sentar e proceder a ordenha. Geralmente, a escolha pela ordenha manual se dá em propriedades cujo número de vacas em lactação é pequeno e/ou a produção de leite diária é menor.

Na ordenha mecânica o leite é tirado através de um equipamento mecânico que simula a mamada do bezerro. Existem informações importantes sobre tipos e dimensionamento do equipamento que o produtor deve conhecer antes de optar pela ordenha mecânica.
Existem quatro tipos de ordenha mecânica: Balde ao pé; Canalizada Linha Alta; Canalizada Linha Intermediária; Canalizada Linha Baixa. Todo equipamento de ordenha mecânica é composto por três sistemas fundamentais:
Sistema de Vácuo: Bomba de Vácuo, Regulador, Reservatório, Frasco Sanitário, Vacuômetro e Tubulação de Vácuo.

A bomba de vácuo é considerada a parte principal do equipamento de ordenha. As mais utilizadas no Brasil e, em sua maioria, no mundo, são as bombas rotativas de palhetas com rotor excêntrico. A sua função é extrair o ar do sistema de ordenha comprimindo-o e eliminando para a atmosfera pelo escapamento. As bombas variam em capacidade, que deve ser proporcional à quantidade de unidades de ordenha e acessórios que tenha o equipamento. Esta capacidade se mede em litros/minuto de ar livre que a bomba é capaz de extrair a 50 kPa (quilo Pascal) de pressão de vácuo. A força motora requerida para acionar estas bombas é normalmente de 1 HP para cada 300 litros de ar extraído por minuto, isto para caso de motores elétricos, e de 2 HP para cada 300 litros de ar, para motores à explosão. Existem normas nacionais que estabelecem a capacidade de bomba necessária para cada instalação.

Os reguladores de vácuo cumprem a função de manter estável o nível de vácuo de toda a instalação. Permitem entradas de ar exterior ao equipamento e interrompem esta entrada de acordo com as variações no nível de vácuo, que são provocadas por ingressos de ar em outros pontos como unidades de ordenha, pulsadores, descarregadores, etc. Existem vários tipos de reguladores com diferentes mecanismos: regulador à mola; contrapeso invertido; e o(s) servo assistido(s), que representam a geração mais moderna de reguladores, pois respondem rapidamente e são de alta capacidade. Os níveis de vácuo recomendados são, respectivamente: Balde ao pé: 50 kPa; Canalizada Linha Alta: 48 a 50 kPa; Canalizada Linha Intermediária: 45 a 47 kPa; Canalizada Linha Baixa: 42 a 44 kPa.

O reservatório de vácuo tem como função evitar que cheguem líquidos (detergentes, água ou leite) à bomba de vácuo. Este funciona como um sistema de segurança. Deve ser instalado o mais próximo possível da bomba. Deve possuir um sistema de drenagem dos líquidos, dispositivo este que permita esgotar rapidamente o líquido acumulado.
O frasco sanitário só é encontrado em sistemas de ordenha canalizada. Suas funções são de impedir a passagem de leite desde a unidade final até o sistema de vácuo, e, por sua vez, evitar a contaminação do leite na unidade final.

A função do vacuômetro ou "relógio" do equipamento é indicar o nível de vácuo com que está trabalhando. Deve estar localizado à vista do ordenhador. As normas atuais determinam que ele seja instalado próximo ao sensor do regulador de vácuo antes das unidades de ordenha. A sequência ideal de instalação é: Bomba de vácuo - Reservatório de vácuo - Regulador - Vacuômetro - Unidades de Ordenha.
A tubulação de vácuo tem como função conduzir o ar até a bomba, de onde será expulso. Atualmente trabalha-se exclusivamente com tubulação de PVC. O ponto mais importante é o dimensionamento correto conforme Tabela 1.

Tabela 1. Diâmetro da tubulação (polegadas) de acordo com a capacidade da bomba de vácuo:
Balde ao Pé Diâmetro da tubulação (pol.)
Bombas até 260 litros 37987
Bombas de 260 a 590 litros 37257
Bombas acima de 600 litros 2
Canalizada- linha média central 2
Canalizada- linha baixa 3

Sistema de Leite: Linha de Leite e Unidade de Ordenha
Tem como função transportar o leite desde o teto até o recipiente de armazenamento, que pode ser um latão ou um tanque. Abaixo estão descritas suas partes:
A linha de leite é utilizada para fornecer vácuo para ordenha e transporte do leite extraído até o latão ou tanque recebedor. As normas estabelecem o diâmetro adequado para cada instalação em função da distância da tubulação, desnível e o fluxo de leite. Respeitar estas normas permite manter estável o nível de vácuo em todos os conjuntos de ordenha e conduzir o leite de forma suave e sem turbulência, separado do ar. Um transporte turbulento pode produzir rupturas dos glóbulos de gordura do leite, deixando-o com menor teor de gordura. As linhas de leite, de acordo com a localização em relação ao piso das vacas, classificam-se: Linha alta; Linha intermediária; Linha baixa.

A unidade de ordenha tem como função aplicar vácuo ao orifício do teto e extrair o leite do úbere. Esta é composta de quatro copos inoxidáveis, unidos mediante um tubo curto de vácuo, teteira e um coletor. Dentro destes copos localizam-se as teteiras, que são o ponto de união entre o teto e a máquina. A teteira é a parte do equipamento que tem maior contato com o animal.

Sistema de Pulsação: Pulsadores
Entre o copo de inox e a teteira fica um espaço denominado câmara externa de pulsação, que está conectada com o pulsador mediante os tubos curtos do sistema de vácuo e as mangueiras de pulsação. A função do pulsador é alternar vácuo e entrada de ar no interior da câmara de pulsação dos copos, determinando assim as fases de ordenha e massagem. A fase de massagem é essencial para que se mantenha a irrigação sanguínea na ponta do teto durante a ordenha, para que a vaca não se sinta incomodada ou sofra danos nos tetos. O pulsador cumpre este objetivo ao alternar a fase de ordenha com a fase de massagem. Estas fases devem ser bem ajustadas, ou seja, a entrada e saída de ar da câmara devem acontecer de forma rápida, e isto dependerá do bom funcionamento do pulsador.

O funcionamento dos pulsadores pode ser dividido em duas fases:
Fase de ordenha (A e B) e fase de massagem (C e D), que determinam um ciclo de pulsação:
A e B - Fase de ordenha: quando a teteira está se abrindo (fase A) e quando está totalmente aberta (fase B)- retirando o leite da glândula mamária.

C e D - Fase de massagem: quando a teteira está fechando (fase C) e quando está fechada (fase D)- massageando os tetos.

A relação de pulsação é o tempo relativo que dura a fase de ordenha e de massagem durante um ciclo de pulsação. Assim, uma relação de pulsação 60:40 significa que 60% do tempo que dura uma pulsação é de ordenha e 40% é de massagem. As maiores velocidades de ordenha se dão com fases de ordenha relativamente altas. A fase de massagem é a que evita que o teto sofra danos; por isso, o risco de ordenhar mais rápido (aumentar a fase de ordenha) e diminuir a fase de massagem pode prejudicar o teto. As relações de pulsação que se utilizam atualmente se encontram entre 60:40 e 70:30. A frequência de pulsação é o número de pulsações por minuto (normalmente é de 60 pulsações/minuto) e deve variar entre 58 e 62 pulsações/min. Na pulsação simultânea, ordenha-se os quatro tetos ao mesmo tempo. As fases de massagem e de ordenha ocorrem simultaneamente nos quatro tetos. Na pulsação alternada, dois copos de teteiras estão ordenhando enquanto dois estão massageando.

Os cuidados no funcionamento e manutenção também precisam ser de conhecimento do ordenhador, pois, um equipamento mal regulado pode ser fator de risco para a ocorrência de mastite. Sendo a máquina de ordenha o equipamento que funcionará diariamente nas propriedades, e no mínimo duas vezes ao dia, é preciso conhecer os principais fatores que influenciam na ocorrência de infecções intramamárias no rebanho correlacionados ao equipamento de ordenha. São eles:

Teteiras: As teteiras, ou insufladores, em condições precárias, com cortes, podem funcionar como veículos de transferência dos microrganismos, de um teto para os outros. Isto ocorre principalmente, em rebanhos em que não se separam as vacas infectadas (com mastite subclínica) das vacas sadias, por meio de adoção de uma linha de ordenha. Esta prática pode ser implantada com o auxílio do teste "California Mastitis Test" (CMT), ou por meio da contagem eletrônica de células somáticas realizada mensalmente nas vacas. A troca das teteiras deve ser feita a cada 2.500 ordenhas se for de material sintético e a cada 5.000 a 7.500 ordenhas se for de silicone, ou a cada seis meses. A pressão exercida pelos insufladores sobre o teto visa provocar a massagem, para garantir uma circulação adequada de sangue. Quando as borrachas dos insufladores ultrapassam o período de troca, elas apresentam rachaduras, e tendem a absorver a gordura do leite, retendo bactérias e prejudicando a massagem.

Leite ou ar na linha de ordenha: Quando uma teteira fura ou rasga, ou quando o ordenhador deixa encher muito o latão em ordenhas tipo "balde ao pé", pode ocorrer entrada de ar ou leite na linha de ordenha. Estas situações representam risco de novos casos de mastite, pela contaminação por bactérias de uma vaca para outra.

Teoria do impacto: O impacto de leite para o interior da glândula mamária, conhecido como gradiente de pressão reversa, ocorre quando existe uma flutuação no nível de vácuo dentro da teteira. Esta flutuação é causada principalmente pela entrada de ar em uma das teteiras, que, em consequência, reverte o fluxo normal de leite, permitindo que algumas gotículas retornem em alta velocidade para o interior da glândula mamária, podendo causar futura infecção.
Deslizamento de teteiras: A queda das teteiras, com consequente contaminação bacteriana, ocorre quando os tetos estão molhados ou quando o vácuo está abaixo do nível recomendado. Com o nível de vácuo baixo, não existe força suficiente para manter as teteiras conectadas.

Diâmetro do canal do teto: O diâmetro do canal do teto de determinadas vacas exerce certa influência sobre a ordenha mecânica. Este diâmetro, quando reduzido, provoca uma ordenha lenta, que pode levar à mastite, pela permanência do leite residual. Ao contrário, quando o diâmetro é maior que o normal, a ordenha ocorre mais rapidamente, constituindo um alto fator de risco para a mastite.

Lesões na pele e canal dos tetos: O manejo inadequado com a ordenha mecânica pode levar à ocorrência de ferimentos nos tetos, tais como: rachaduras, ressecamento da pele, lesões provenientes de irritações causadas por desinfetantes cáusticos, congestão e edemas. Estas lesões podem ser causadas principalmente por falhas no sistema de pulsação e nível de vácuo muito alto, e na maioria das vezes, são colonizadas por microrganismos, principalmente Staphylococcus aureus. O risco de mastite ocorre também quando, após a higienização dos tetos pré ordenha, utilizam-se toalhas de pano para a secagem. Pode-se, ainda, promover a disseminação de agentes de infecções em rebanhos que fazem uso de pano para limpeza de tetos.

Integridade da queratina: A queratina é a primeira barreira física que impede a multiplicação de microrganismos na glândula mamária. Esta camada de queratina pode ser modificada principalmente quando a pulsação não é a adequada, isto é, em torno de 60 batidas duplas por minuto.