4.8 - Recursos genéticos animais

De acordo com a FAO (2010), o termo “recurso genético animal” refere-se às espécies animais utilizadas, ou que podem ser utilizadas na agricultura e produção de alimentos, assim como às populações que as contém

4.8.1 - Sistemas de produção

O sistema de criação e produção a ser adotado na propriedade rural é decorrente do desempenho dos animais existentes e das práticas de criação e produção utilizadas. Esse desempenho pode ser estimado por ano, por lactação, por dia ou por animal, sendo que a maneira mais praticada no Brasil é a média da produção de leite por lactação por vaca.

Os rebanhos podem ser classificados pelo nível de criação, considerando os percentuais em cada categoria de produção (vacas em lactação, vacas secas, novilhas e bezerras), pela taxa de mortalidade (relação entre número de animais mortos e número total de animais no rebanho), pelo índice de descarte (relação entre número de matrizes descartadas e número total de matrizes no rebanho) e pelo nível de adoção de tecnologias na propriedade (inseminação artificial, ordenha mecânica, ou outras).
 

4.8.2 - Raças

As raças bovinas são agrupadas quanto à sua origem em taurinas (também conhecidas como europeias), zebuínas e sintéticas. As mesmas podem se destacar por sua especialização para a produção de leite, de carne ou por dupla aptidão (leite e carne).


Figura 1. Diagrama de cruzamento para obtenção da raça sintética Girolando.
Fonte: SILVA et al. (2011).

4.8.3 - Heterose ou vigor híbrido

O acasalamento entre animais de raças ou linhagens diferentes é chamado de cruzamento. A heterose, também chamada de vigor híbrido, é o fenômeno pelo qual os filhos provenientes de cruzamentos apresentam melhor desempenho (mais vigor ou maior produção) do que a média de seus pais. A heterose será tão mais pronunciada quanto mais divergentes, ou seja, quanto mais diferentes geneticamente forem as raças ou linhagens envolvidas no cruzamento. O conhecimento e o entendimento do conceito da heterose pode ajudar o produtor na escolha do tipo de cruzamento mais adequado conforme o sistema de produção adotado em sua propriedade.

4.8.4 - Estratégias de cruzamento

Em função das condições predominantemente tropicais, a utilização de animais mestiços prevalece nos sistemas de produção de leite cujos rebanhos se situam nas regiões do Cerrado e Mata Atlântica do Brasil. Na pecuária leiteira, é comum considerar como gado mestiço aqueles animais derivados do cruzamento de uma raça pura de origem europeia (E), especializada na produção de leite, com uma raça zebuína (Z) também com potencial para produção de leite, e mais adaptada aos trópicos.

Da mesma forma que o produtor rural dispõe de diversas opções de raças puras para produção de leite, ele também dispõe de diversas opções para o cruzamento entre raças europeias, ou destas com raças zebuínas, em variadas composições genéticas. Os cruzamentos que envolvem uma raça europeia e outra zebuína resultam em maiores níveis de heterose, quando comparados com os cruzamentos entre raças de mesma origem. No Brasil, a utilização das raças Holandês e Gir predomina na produção dos mestiços. Dentre as estratégias de cruzamento, as mais utilizadas são:
 

4.8.4.1 - Cruzamento simples, com produção de F1

Usando-se touros, ou sêmen, de raças europeias e vacas zebuínas, ou vice-versa, obtêm-se vacas 1/2 EZ (Figura 2), que nesse caso (pai e mãe puros de raças distintas) são chamadas de F1. Existem resultados de pesquisas científicas mostrando heterose para produção de leite variando de 17,3% até 28% nos cruzamentos entre animais da raça Holandês e animais das raças zebuínas. Para outras características, os níveis de heterose podem ser variados, pois a heterose afeta características particulares e não o indivíduo como um todo. O animal F1 reúne características das raças de ambos os progenitores (touro e vaca). No caso do cruzamento de vaca Gir com touro Holandês, espera-se que as fêmeas F1 apresentem características típicas do Holandês como bom porte, maior precocidade e maior aptidão leiteira do que a raça Gir, e também maior resistência a ectoparasitas, maior tolerância ao calor e maior rusticidade do que o Holandês, pois essas são características marcantes das raças zebuínas. O desempenho (produção) do animal F1 depende da qualidade genética dos progenitores envolvidos em cada cruzamento. Portanto, é importante utilizar sempre touros provados para leite, sejam eles taurinos ou zebuínos. Até início dos anos 90, a recomendação para se obter F1 era o cruzamento de vacas Gir com touros Holandês. Isto porque a população da raça Gir era grande, a vaca Gir era relativamente de baixo custo e dispunha-se de touros Holandês provados para leite, sendo as vacas Holandês de maior custo. A partir de 1993, começou a ser disponibilizado sêmen de touros Gir provados para produção de leite, além de ter ocorrido redução no preço de vacas Holandês. Assim, pode-se utilizar tanto o cruzamento de vacas Gir com touro Holandês, como o cruzamento recíproco, de vacas Holandês com touro Gir. O rebanho leiteiro seria formado apenas por vacas F1, fazendo-se a reposição anual de 20 a 25% do seu rebanho sempre por produtos do cruzamento entre animais puros das duas raças envolvidas, os quais podem ser obtidos por meio da manutenção de fêmeas e machos (ou sêmen) puros no próprio rebanho ou por meio da aquisição de fêmeas F1.


Figura 2. Diagrama de cruzamento simples envolvendo uma raça zebuína (Z) e uma raça europeia (E), com produção de F1.

4.8.4.1.1 - Vantagens

  • A expressão de heterose é máxima, dentro do possível, de acordo com as raças envolvidas;
  • As fêmeas F1 apresentam uniformidade aceitável entre si, o que permite facilidade no manejo dos animais de produção.

4.8.4.1.2 - Desvantagem

  • Há a necessidade de manutenção das fêmeas F1, e das fêmeas puras para produção das F1, simultaneamente no rebanho, ou de aquisição das fêmeas F1 para reposição.

4.8.4.1.3 - Alternativas para o acasalamento das fêmeas F1

As fêmeas F1 precisam ser acasaladas para que entrem em lactação. Porém, a escolha da raça mais adequada para esse acasalamento dependerá do nicho de mercado onde o produtor irá vender seus animais. Algumas opções são apresentadas abaixo:

4.8.4.1.3.1 - Cruzamento das fêmeas F1 com europeu, ou Zebu, dependendo do mercado, e venda de animais 3/4 EZ ou 1/4 EZ (3/4 Zebu), respectivamente

Se a raça europeia escolhida for Holandês, as fêmeas 3/4 EZ serão boas produtoras de leite, porém, mais exigentes em trato, mais sensíveis a carrapatos e ao calor do que as F1. As fêmeas 3/4 EZ são animais muito valorizados no mercado brasileiro. O produtor poderá vendê-las após o desmame, ou recriá-las, emprenhá-las e vendê-las no ano seguinte.

No caso de se utilizar Zebu na F1, uma opção seria touro Guzerá de dupla aptidão, possibilitando a venda das novilhas 1/4 EZ para produtores de leite, enquanto os bezerros podem ser vendidos para abate, apresentando melhor desempenho se comparados aos bezerros provenientes de cruzamentos entre raças especializadas para leite.
 

4.8.4.1.3.2 - Cruzamento terminal

As fêmeas F1 são cruzadas com touros de raças de corte, como Nelore, Canchim, Tabapuã, ou mesmo linhagens de corte da raça Guzerá, entre outras, destinando-se ao abate todas as crias, machos e fêmeas. Este é o esquema conhecido como ”vaca de leite, cria de corte”.

4.8.4.1.3.3 - Manutenção de rebanho com fêmeas F1 e 3/4 EZ

Neste caso, o produtor optará por manter no rebanho também as fêmeas 3/4 EZ, ao cruzar fêmeas F1 com touro europeu. As fêmeas 3/4 EZ são destinadas para produção de leite, enquanto os machos são descartados ou destinados para corte, fazendo a cria e recria dependendo da disponibilidade de pastagem, ou vendendo os bezerros no mercado local. As fêmeas 3/4 EZ poderão ser cruzadas com touros de raças de corte, repetindo o bordão “vaca de leite, cria de corte”. A reposição das fêmeas F1 deverá ser feita por aquisição no mercado. As fêmeas de reposição 3/4 EZ são selecionadas no próprio rebanho.
 

4.8.4.2 - Cruzamento absorvente

- escolhida uma raça especializada para produção de leite, utilizam-se touros provados dessa raça, geração após geração, para cruzar com as vacas disponíveis no rebanho, até que se obtenham animais com características semelhantes à raça pura. Os animais de composição genética 15/16 ou 31/32 (conforme a raça considerada) são chamados puros por cruza (PC). A cada geração adicional aumenta a proporção da raça especializada na composição genética dos animais obtidos, conforme diagrama da figura 3.


Figura 3. Diagrama de cruzamento absorvente envolvendo uma raça zebuína (Z) e uma raça europeia (E), com produção de animais puros por cruza (PC) em gerações futuras (geração n).

4.8.4.2.1 - Vantagens

  • Possibilita a obtenção de animais especializados, mais padronizados quando comparados aos animais mestiços, e mais adaptados quando comparados à raça pura, a partir de um rebanho comum, com baixo custo inicial;
  • O melhoramento genético do rebanho pode ser obtido pela seleção das fêmeas nascidas no próprio sistema, para a reposição.
     

4.8.4.2.2 - Desvantagens

  • À medida que os animais se tornam mais apurados, suas exigências em termos de ambiente, manejo e alimentação também aumentam;
  • Espera-se uma diminuição gradual da heterose ao longo das gerações.
     

4.8.4.3 - Cruzamento alternado simples, também chamado rotacional

São utilizados touros, ou sêmen, de duas raças, alternando-se a raça do touro a cada geração. A prática mais comum é acasalar fêmeas F1 com macho de raça europeia, obtendo-se animais de composição genética aproximada 3/4 EZ. As fêmeas 3/4 são acasaladas com machos zebuínos, obtendo-se animais 3/8 EZ. O mesmo procedimento de alternância da raça do touro continua nas gerações seguintes, de forma que a raça do touro utilizado será sempre diferente da raça do pai da vaca, e igual à raça do avô materno dessa vaca. A ideia é possibilitar a manutenção de heterose no rebanho. A figura 4 apresenta um esquema que exemplifica o cruzamento alternado simples envolvendo uma raça zebuína e uma raça europeia. A composição genética converge nas gerações futuras para 2/3 EZ ou 1/3 EZ, aproximadamente, de forma alternada a cada geração. Podem ser utilizadas quaisquer raças europeias e zebuínas puras, mas na prática as mais usadas são Holandês e Gir. É um esquema praticado por pequenos produtores que desejam produzir leite a pasto e recriar os machos para corte.


Figura 4. Diagrama de cruzamento alternado simples envolvendo uma raça zebuína (Z) e uma raça europeia (E), com produção de animais de composição genética aproximada ao 1/3 EZ ou 2/3 EZ, de forma alternada a cada geração (gerações n-1 e n).

4.8.4.3.1 - Vantagens

  • O melhoramento genético do rebanho pode ser obtido pela seleção das fêmeas nascidas no próprio sistema, para a reposição;
  • Manutenção de níveis satisfatórios de heterose, mesmo que inferiores à heterose obtida na geração F1.
     

4.8.4.3.2 - Desvantagens

  • Há a necessidade de se manter touros das duas raças na propriedade, o que pode encarecer o sistema. No entanto, isso pode ser facilitado caso a inseminação artificial seja adotada;
  • A falta de padronização dos animais no rebanho pode dificultar o manejo das fêmeas em produção
     

4.8.4.4 - Cruzamento alternado com repetição

São utilizados touros, ou sêmen, de duas raças, sendo uma europeia e outra zebuína. A raça europeia é repetida por duas ou três gerações seguidas do Zebu (E-E-Z ou E-E-E-Z, respectivamente). Em gerações futuras as composições genéticas variam entre os limites de 43 e 86% EZ para o esquema E-E-Z, ou entre os limites de 47 e 93% EZ para o esquema E-E-E-Z, aproximadamente. O diagrama da Figura 5 ilustra o esquema E-E-Z, com as proporções de composição genética europeia esperadas a cada geração. Pode ser uma boa estratégia se as condições de manejo e alimentação forem satisfatórias, pois quanto maior a composição de europeu, maior a exigência do animal. Neste esquema, os produtores de melhor nível tecnológico podem utilizar touro europeu por três gerações seguidas até obtenção de 15/16 EZ, para então utilizar touro zebuíno na geração seguinte, retornando a composição genética do gado para próximo do meio-sangue e recuperando um pouco da heterose no gado. Uma possibilidade dessa estratégia é a realização de ordenha sem bezerro ao pé. No entanto, ao se cruzar vacas 7/8 EZ ou 15/16 EZ com touro Zebu, podem ocorrer casos de vacas com lactação curta e/ou que dificultem a ordenha sem o bezerro ao pé.


Figura 5. Diagrama de cruzamento alternado com repetição (esquema E-E-Z), envolvendo uma raça zebuína (Z) e uma raça europeia (E), com produção de animais de composição genética variando entre 43 e 86% da raça europeia.

4.8.4.4.1 - Vantagens

  • O melhoramento genético do rebanho pode ser obtido pela seleção das fêmeas nascidas no próprio sistema, para a reposição;
  • Manutenção de níveis satisfatórios de heterose, mesmo que inferiores à heterose obtida na geração F1.
     

4.8.4.4.2 - Desvantagens

  • Há a necessidade de se manter touros das duas raças na propriedade, o que pode encarecer o sistema. No entanto, isso pode ser facilitado caso a inseminação artificial seja adotada;
  • A falta de padronização dos animais no rebanho pode dificultar o manejo das fêmeas em produção.

     

4.8.4.5 - Cruzamento triplo ou “tricross”

Usa-se nas fêmeas F1, touro ou sêmen de uma terceira raça pura, na premissa de se manter bom nível de heterose e introduzir características desejáveis da terceira raça (Figura 6). Geralmente, são utilizadas como segunda raça europeia: Pardo-Suíço, Jersey ou Simental. Um exemplo desse tipo de estratégia, que tem sido utilizado no Brasil, é o cruzamento de fêmeas F1 (Holandês x Zebu) com touro Jersey para obtenção do “tricross”, considerando, além da manutenção da heterose, as características importantes desta raça, tais como: precocidade, fertilidade e elevado teor de sólidos no leite. Se as fêmeas são F1, as crias serão 50% Jersey, 25% Zebu (Gir, Guzerá ou Sindi) e 25% Holandês. Assim, a propriedade terá fêmeas valorizadas porque a raça Jersey transmite precocidade, alta fertilidade, docilidade, longevidade, além do que as fêmeas são menores, possibilitando criar maior número de animais por hectare. Vale lembrar, porém, que os machos possuem baixo valor como animal de corte.


Figura 6. Diagrama de cruzamento triplo em que a F1 é obtida através do cruzamento entre duas raças (R1 e R2) e o produto final é obtido pelo cruzamento da F1 com touro de uma terceira raça (R3).

4.8.5 - Escolhendo o recurso genético adequado

A escolha do recurso genético a ser utilizado pelo produtor de leite dependerá de vários aspectos, principalmente relacionados a:

  • Aspectos de ambiente e infraestrutura (localização geográfica, topografia, clima, pluviosidade, recursos hídricos, eletrificação, área agricultável, pastagem, instalações, maquinários, implementos, acesso a insumos e alimentos);
  • Recursos humanos (mão de obra, capacitação, assistência técnica);
  • Comercialização dos produtos (volume de produção, acesso viário, entreposto, laticínio, indústria, mercado consumidor, agregação de valor);
  • Disponibilidade de recursos financeiros para investimento e preferência pessoal do produtor.

Não existe uma raça ou um cruzamento que se possa generalizar como o melhor ou o pior, ou seja, uma receita perfeita para qualquer sistema de produção de leite no Brasil. Busca-se sempre adequar esta escolha em função dos diversos aspectos acima citados e proceder aos ajustamentos em função dos resultados e desafios que se apresentem, minimizando os riscos de introdução de recurso genético inadequado e, por consequência, de prejuízos econômicos.

Sem dúvida alguma, o sistema de produção a ser utilizado ou adotado na propriedade é item importante a ser considerado na escolha da raça ou do cruzamento. No entanto, o retorno econômico esperado para o sistema de produção como um todo é que deve ser o principal fator determinante da melhor estratégia a ser adotada, em termos de nível de tecnificação e recursos genéticos aplicados.
 

4.8.6 - Desempenho de vacas mestiças

Pesquisa realizada durante mais de 15 anos pela Embrapa Gado de Leite, com parte dos resultados apresentados por Madalena et al. (1990), mostrou que o desempenho de cada cruzamento é variável de acordo com os níveis de manejo e tecnificação adotados nas fazendas, conforme se pode ver na Tabela 1.

Tabela 1. Características de primeira lactação (duração da lactação: DL, produção de leite: PL, produção de gordura: PG e produção de proteína: PP) em animais de quatro diferentes proporções da raça Holandês em sua composição genética, em fazendas de nível de manejo alto ou baixo.
Composição genética Nível de manejo              
  Alto       Baixo      
  DL (dias) PL (kg) PG (kg) PP (kg) DL (dias) PL (kg) PG (kg) PP (kg)
40940 305 2953 132 100 375 2636 114 83
41002 329 2981 121 94 367 2251 94 70
41128 295 2821 104 84 304 1672 66 51
H 365 3147 113 93 258 1226 49 38
Fonte: Adaptado de Madalena et al. (1990).

Nas fazendas com nível mais alto de manejo, a produção de leite (litros/vaca/dia) foi bastante semelhante entre vacas mestiças com proporções de Holandês em sua composição de 1/2, 3/4 ou 7/8. Já nas fazendas com nível baixo de manejo, as produções foram maiores nos grupos com proporções de Holandês de 1/2 e 3/4. Os grupos com maiores proporções da raça Holandês em sua composição genética tenderam a apresentar maiores diferenças produtivas na comparação entre os níveis alto e baixo de manejo, evidenciando a maior adaptação dos zebuínos a ambientes produtivos menos favoráveis.
Conforme resultados apresentados por Lemos et al. (1993), vacas mais azebuadas foram mais resistentes a ectoparasitas (Tabela 2).

Tabela 2. Infestações por ecto e endoparasitas em novilhas de diferentes proporções da raça Holandês em sua composição genética.
Composição genética Média de carrapatos Média de coopérias Média de Bernes
40940 71 4861 4,34
41002 223 26115 8,77
41128 282 26422 7,28
H 501 21938 8,43
Fonte: Adaptado de Lemos et al. (1993).

4.8.7 - Acasalando as vacas

Este é um processo muito relevante para os sistemas de produção, pois possibilitará à vaca entrar em lactação, além de viabilizar o nascimento de animais geneticamente superiores para a eficiente reposição e melhoria do desempenho produtivo do rebanho. É fundamental o equilíbrio vitalidade-fertilidade-produtividade-longevidade da fêmea que irá substituir uma vaca de descarte. O primeiro passo é evitar acasalamentos entre indivíduos aparentados (também denominados consanguíneos ou endogâmicos), que é indesejável por acarretar prejuízo à eficiência reprodutiva, produtiva e, subsequentemente, econômica. Depois, deve-se alcançar o equilíbrio através de acasalamento corretivo ou direcionado para melhoria de características morfológicas e funcionais, que concorrem para o melhor desempenho animal e finalmente consolidam o retorno econômico da atividade.

4.8.8 - Escolhendo o reprodutor

A escolha adequada de reprodutores para monta natural e/ou inseminação artificial (IA) de fêmeas no rebanho é essencial para o sucesso do sistema de produção de leite, pois no mínimo espera-se manter os níveis de produção/produtividade já alcançados na propriedade. Deve-se definir o sêmen ou reprodutor a ser introduzido com base no nível de produção do rebanho, nas linhagens existentes e na disponibilidade de recursos financeiros, evitando-se perdas produtivas e econômicas.

Àqueles que pretendem introduzir a IA na propriedade, recomenda-se avaliar previamente aspectos relacionados à infraestrutura (instalações, botijão, fornecimento de nitrogênio) e treinamentos (detecção de cio, protocolos de inseminação) necessários à adoção desta prática. É importante destacar que a adoção da IA requer investimentos maiores em um primeiro momento, mas minimiza custos com a manutenção de touros na propriedade e diminui a transmissão de doenças através da monta natural. Além disso, permite melhorias na qualidade genética do rebanho, por permitir o acesso a material genético superior. Porém, deve-se salientar que, apesar da adoção da inseminação artificial na propriedade, é necessário possuir touro para repasse de cobertura por monta natural, em quantidade suficiente para atender àquelas fêmeas que não responderem satisfatoriamente a IA.

Tanto nos rebanhos puros quanto nos mestiços, ao se adquirir um touro para monta natural deve-se avaliar a idoneidade do criatório, verificar a qualidade genética de seu rebanho e consultar os dados de produção registrados na propriedade, além de solicitar a avaliação andrológica dos reprodutores a serem adquiridos. Em se tratando de sêmen, o produtor deve procurar centrais registradas no Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento, e solicitar o catálogo de sêmen disponível para as raças pretendidas.

De posse do catálogo, a escolha do sêmen se dará com base na informação sobre o valor genético (VG ou BV) de cada reprodutor ou sobre o desempenho esperado da sua progênie (DEP ou PTA), principalmente para a produção de leite. Quanto maior a DEP maior o ganho genético esperado no rebanho. Além da produção de leite, devem ser consideradas também as características lineares de tipo, conformação e manejo, optando-se pelos animais com avaliação favorável para as características a serem melhoradas. Os constituintes do leite, como proteína ou gordura, são características produtivas que merecem atenção, principalmente se houver bonificação pela indústria a que se destina a produção.
 

4.8.9 - Realizando o descarte/reposição de vacas

Nos rebanhos bovinos, a ênfase de seleção é dada aos reprodutores, em função da proporção macho: fêmea, ou seja, os machos acasalam-se com maior número de fêmeas e por isso cada reprodutor deixa um número maior de descendentes. Porém, o descarte/reposição de fêmeas também merece atenção, independente do sistema de criação escolhido pelo produtor, sendo de aproximadamente 20% o índice de descarte recomendável. Dessa forma, são substituídas as vacas com problemas de aprumos e úbere, as muito velhas, as inférteis ou com problemas reprodutivos recorrentes.

Para auxiliar no descarte de fêmeas, os animais podem ser agrupados de acordo com sua produção de leite em: ótima; boa; média; regular; ou insatisfatória. A seguir, os grupos insatisfatório e regular devem ser totalmente eliminados. Dos demais grupos, os animais com problemas de qualquer ordem devem ser também eliminados. O que se espera é que os animais tenham longa vida útil nos rebanhos e que haja melhoria na média da produção. Diante dessa perspectiva, devem ser realizadas melhorias no manejo nutricional e sanitário com os recursos obtidos na venda do descarte, acompanhando as novas exigências do rebanho. Deve-se reter todas as bezerras da propriedade, filhas de vacas dos lotes de ótima e boa produção e, portanto, que tenham maior potencial produtivo para futuramente substituírem parte do rebanho, desde que observados os aspectos discutidos anteriormente. Ou, então, opta-se pela compra de novas vacas, desde que bem avaliadas e mais produtivas que a média do rebanho.

Esse esquema deve ser repetido a cada ano. Fica evidente que para adotar o esquema proposto, é essencial que o produtor conheça a produção de leite de cada uma das vacas. Isso só poderá ser feito de forma adequada se houver escrituração zootécnica na propriedade, com anotação de informações como data do parto, data e motivo da secagem, e controles leiteiros pelo menos uma vez por mês, até o encerramento da lactação de cada vaca.
 

4.8.10 - Referências

BREEDS of Livestock: North America dairy breeds. Oklahoma State University, Department of Animal Science, Stillwater, OK, 2009. Disponível em: <http://www.ansi.okstate.edu/ breeds/cattle/nadairy.htm>. Acesso em: 01 jul. 2011.

FAO. Conceptos básicos. In: FAO. La situación de los recursos zoogenéticos mundiales para la alimentación y la agricultura. Roma, Italia, 2010. p.369-377. Disponível em: <http://www.fao.org/ docrep/012/a1250s/a1250s15.pdf>. Acesso em: 28 jul. 2011.

LEMOS, A. M.; TEODORO, R. L. Utilização de raças, cruzamentos e seleção em bovinos leiteiros. Coronel Pacheco: Embrapa – CNPGL, 1993. 23 p. (Embrapa–CNPGL. Documentos, 52).

MADALENA, F. E.; LEMOS, A. M.; TEODORO, R. L. et al. Dairy production and reproduction in Holstein - Friesian and Guzera crosses. Journal of Dairy Science, Champaign, v. 73, n. 7, p. 1872-1886, 1990.

PEIXOTO, M. G. C. D.; VERNEQUE, R. S.; PANETTO, J. C. C. et al. Programa Nacional de Melhoramento do Guzerá para Leite: resultados do Teste de Progênie, do Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos da ABCZ e do Núcleo MOET. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2011. 61 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 144).

SILVA, M. V. G. B.; PAIVA, L. C.; CEMBRANELLI, M. A. R. et al. Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando: Sumário de Touros – Resultado do Teste de Progênie – Junho 2011. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2011, 46 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 148).

TEIXEIRA, N. M. Raças e tipos In: VALENTE, J.; DURÃES, M. C.; MARTINEZ, M. L.; TEIXEIRA, N. M. (Ed.) Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 71-78.

TEODORO, R. L.; MADALENA, F. E.; LEMOS, A. M.; et al. Cruzamento tríplice de raças leiteiras: avaliação de cruzamento de Jersey e Pardo-Suíço com vacas Girolando. Informe Agropecuário, Belo Horizonte, v. 22, n. 221, p. 7-10, 2001.

TEODORO, R. L.; MARTINEZ, M. L.; PIRES, M. F. A. et al. Cruzamentos. In: VALENTE, J.; DURÃES, M.C.; MARTINEZ, M. L.; TEIXEIRA, N. M. (Ed.) Melhoramento genético de bovinos de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2001. p. 89-104.

VERNEQUE, R. S.; PANETTO, J. C. C.; BRUNELI, F. A. T.; et al. Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro: Sumário Brasileiro de Touros – Resultado do Teste de Progênie – Maio 2011. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2011. 58 p. (Embrapa Gado de Leite. Documentos, 145).

VERNEQUE, R. S.; PEIXOTO, M. G. C. D.; MARTINEZ, M. L. et al.. Seleção para objetivos econômicos em gado de leite. Juiz de Fora: Embrapa Gado de Leite, 2006. 152 p.